Mãos e pés: ilustração e capas do Neo-Realismo

Título
Ilustração e Literatura Neo-Realista

Design
Júlio Miguel Rodrigues, Mauro Lopes Bexiga / GGIRP

Edição
Câmara Municipal de Vila Franca de Xira / Museu do Neorealismo, 2008
Coordenação: David Santos
240 x 170 mm, 200 páginas

Num provocador ensaio que servia de introdução ao álbum The Art of Revolution – 96 Posters from Cuba de Dugald Stermer (editado pela Pall Mall em 1970),  Susan Sontag argumentava que, chegados finalmente ao conhecimento do público americano apreciador, os cartazes cubanos – frutos de uma praxis política intensa e quotidiana e destinados a uma função largamente utilitária como veículos de educação, sensibilização e alerta –  estavam em vias de se tornarem commodities (o título do texto era sintético e programático: “Posters: Advertisement, Art, Political Artifact, Commodity”; foi reeditado no volume Looking Closer 3 em1999), ou seja, estavam prontos a serem “reificados” (usando o célebre conceito de Fredric Jameson) pelo mercado capitalista, valorizados como “objectos” para compra e venda e, consequentemente, despojados do seu valor político e estético original. Coleccioná-los, apreciá-los em álbuns, reproduzí-los num contexto externo ao da sua origem era, pois, ser cúmplice de uma traição e de uma pilhagem. 

Olhando para os esboços, as séries de ilustrações e as capas que se reproduzem neste catálogo da exposição homónima que o então recém-aberto Museu do Neo-realismo montou em 2008, e descontando o radicalismo da visão de Sontag, atrevo-me a perguntar se museologizar (logo, fazer entrar no mercado cultural) este imenso acervo pictórico não será, de certa forma, participar também de uma pequena “traição”. Expressão em segundo grau do sofrimento e miséria das camadas mais pobres e desprotegidas da sociedade portuguesa durante o Estado Novo que os textos literários documentavam mais ou menos directamente, estas ilustrações eram, claro, já parte de um “mercado” editorial (como o eram os textos), fruto de encomendas e produtos de um momento cultural em cujas batalhas estéticas e políticas (e “estética” era, muitas vezes, “política” nestes anos) eles foram peões aguerridos. Afastados que estamos historicamente desses anos, e culturalmente dessas “batalhas pelo conteúdo” (precisamente o nome da exposição inaugural do museu), assumindo ou não a possibilidade de uma “traição” na degustação estética destas obras, o certo é que qualquer português ou portuguesa nascido/a antes de 1980 se cruzou mais do que uma vez com um destes livros, com uma destas capas, com algumas destas ilustrações, na biblioteca familiar ou na da escola. Se a sua força política se diluiu, se o seu contexto estético foi sendo desarticulado pelo devir cultural, o seu poder como referencial de memória colectiva permanece intacto (e não tenho dúvida de que crescerá com o agudizar da crise económica: apesar do cinismo, os atavismos da pobreza e da sobrevivência estão apenas cobertos por finas camadas de verniz).

O catálogo que justificou este introito algo palavroso é um pequeno volume profusamente ilustrado que fui encontrar numa visita ao museu. Para além da série de capas expostas (na secção “Monografia”), o livro compõe-se de pequenos portfolios de ilustradores e capistas de relevo dentro do movimento, nos quais se destaca obviamente Manuel Ribeiro de Pavia, o ilustrador a quem o Neo-realismo mais trabalho deu (é dele a ilustração da capa do catálogo) e que, apesar disso, numa cruel mas lógica ironia, morreu na miséria em 1957 (leia-se o excelente texto sobre ele no Almanaque Silva). Apesar de falhas mais ou menos evidentes e graves (as capas na secção das Monografias não estão numeradas, pelo que encontrar as respectivas legendas no final do livro torna-se um suplício, e os portfolios individuais poderiam ganhar muito com separadores que dessem mais impacto a cada um dos capistas, bem como com pequenos textos biográficos), este é precisamente o tipo de monografia especializada que cruza história, literatura, edição, ilustração e design que vai faltando por cá (continuo a insistir na falta de pequenas monografias centradas em algumas das editoras-chave deste período e desta corrente estética, como a Ática, a Sociedade de Expansão Editorial ou a Portugália). Dos textos introdutórios, gostei particularmente dos de Luísa Duarte Santos e João Paulo Cotrim.

Numa recente conversa no âmbito do Festival Silêncio em Lisboa, o designer e director de arte (e agora também historiador da ilustração portuguesa) Jorge Silva afirmou que uma capa, mais do que não trair o texto que introduz, não deve, sobretudo, trair o “seu” tempo, o contexto cultural e político que precede e justifica a produção do texto que, por seu lado, justifica a sua própria existência como capa. As páginas deste modesto e barato catálogo, para além de provocarem pequenas faíscas de nostalgia pelo reconhecimento de uma ou outra capa que nos olhou, sisuda, da estante dos nossos pais (quando não mesmo de um livro que nos foi oferecido, como, por exemplo, A Flor Vai Ver o Mar de Alves Redol, cuja capa, com o desenho de belas linhas quebradas de Leonor Praça, me trouxe a recordação imediata de Caminha em 1978…), recolhem os ecos precisos dessas lutas e desse tempo cujas sombras, apesar de tudo, teimam em não se desfazer.

3 Comments

Filed under Capas, Ilustração, Livros

3 responses to “Mãos e pés: ilustração e capas do Neo-Realismo

  1. Anonymous

    Então, Pedro, foste visitar o Museu do Neo-Realismo (quando?), que fica perto de onde moro, onde já fui várias vezes (ainda na semana passada lá estive, para ver a exposição do centenário de Manuel da Fonseca), e não me avisaste?! ;-))

  2. Então, Pedro, foste visitar o Museu do Neo-Realismo (quando?), que fica perto de onde moro, onde já fui várias vezes (ainda na semana passada lá estive, para ver a exposição do centenário de Manuel da Fonseca), e não me avisaste?! ;-))

    (Sim, esqueci-me de colocar os meus dados previamente… sabes que anonimato não é comigo!)

    • Olá, Octávio.
      Sim, fomos a VF Xira ver o museu mas esquecemo-nos de que era Segunda-feira e o museu estava fechado. Ainda assim deu para comprar na recepção este livro, que, para mim, valeu bem a viagem.

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