Palavra e imagem, do MOMA à Gulbenkian

Outra pescaria nos alfarrabistas trouxe-me este curioso catálogo de uma exposição na Gulbenkian em 1972, mais uma prova (se preciso fosse) do papel crucial da fundação nesses anos na “actualização” do meio cultural de Lisboa. Trata-se, nada mais, nada menos, do que a vinda à capital portuguesa da famosa exposição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MOMA) “Word and Image” que em 1968 tinha tornado “oficial” a entrada do cartaz no “templo” da arte contemporânea mundial. O catálogo original tinha sido concebido por Massimo Vignelli e Pieter van Delft.

Em rigor, o catálogo da Gulbenkian (de designer anónimo) trata-se de uma caixa de formato rectangular (245 x 95 mm aproximadamente) dentro da qual estão as “fichas” de cada cartaz, devidamente numeradas e remetendo para um pequeno caderno de 20 páginas que contém um texto de apresentação de Mildred Constantine, a comissária da exposição. (No seu obituário no New York Times de 13 de Dezembro de 2008, Steven Heller escreveu: “Her groundbreaking 1968 exhibition, ‘Word and Image’, was the first at the museum to consider seriously the major 20th-century posters in the Modern’s collection. The exhibition catalog, which she edited, is still an important document of poster history.”) O menor orçamento à disposição da exposição em Portugal ditou a impressão a preto, com a excepção da reprodução do cartaz Confection Kehl de Ludwig Hohlwein (e de uma segunda cor na capa) e uma solução engenhosa de “cortar” ao meio o plano quadrado do catálogo americano, criando assim estas “fichas” rectangulares.

Este acervo visual incluía as últimas “novidades” de 1968, “nobilitando” cartazes com grande saída no mercado de então, como os de Peter Max, e dando a descobrir a um público mais vasto a escola de cartazes psicadélicos de São Francisco (e o seu nome mais sonante, Victor Moscoso) ou a Pop exótica de Tadanori Yokoo. Os cartazes cubanos pós-revolucionários estão, contudo, ainda ausentes desta amostra. Apenas em Dezembro desse ano a Ramparts publicaria um artigo do seu director de arte, Dugald Stermer, sobre as artes gráficas cubanas desde 1959, até então desconhecidas do público americano. Stermer iria publicar uma monografia sobre os cartazes cubanos em 1970 (com uma memorável introdução de Susan Sontag) e nesse mesmo ano o Stedelijk de Amsterdão montaria a primeira grande exposição dedicada aos cartazes da ilha. (Em 1972, a ausência de cartazes cubanos de uma exposição em Lisboa teria, contudo, outras justificações, dado o contexto da Guerra Colonial e o apoio cubano aos movimentos de libertação na África portuguesa, em especial ao MPLA de Angola.)

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