O espectro de uma década

Esta é a capa que Gertrude Huston fez para a edição de 1951 da editora nova-iorquina New Directions do romance de Julien Gracq A Dark Stranger (no original Un Beau Ténébreux). Huston era a mulher de James Laughlin, o fundador e director da New Directions, mas era, pelos vistos, também uma grafista e capista com excelente olho para poderosas associações de imagens e soluções visuais que deviam bastante ao Surrealismo (que no final dos anos de 1930, e durante a década seguinte, chegara em força a Nova Iorque). Tal como muitas das pepitas gráficas do imenso catálogo da New Directions, esta apenas se encontra reproduzida na internet, e foi aí, no inevitável A Journey Around My Skull de Will Schoffield (agora 50Watts) que a encontrei por acaso há um par de anos.

Quando me caiu em mãos a encomenda para o design do livro de Lavie Tidhar Osama (à venda dentro de dias), Osama Bin Laden estava ainda vivo (onde ainda não se sabia) e o seu lastro icónico sobre a década que se seguiu aos ataques de 11 de Setembro de 2001 (iniciados, diga-se, por uma personagem mais inquietante mas menos icónica, o egípcio Mohamed Atta, que conduzia o primeiro avião a embater numa das torres do World Trade Center) parmanecia intacto. Em Osama Tidhar propõe a hipótese de um mundo que não conheceu os ataques às torres gémeas de Nova Iorque, e no qual Osama Bin Laden é uma personagem ficcional de uma série de romances pulp, nos quais se podem ler as descrições exactas dos atentados de Dar es Salaam e Nairobi que, pelas referências históricas do nosso universo, foram orquestrados pelo nosso Osama Bin Laden em 1998. A estética pulp talvez fosse a escolha mais óbvia para a capa deste livro complexo, mas eu não resisti a tentar uma súmula icónica que envolvesse o nome do título. Foi aí que me lembrei da silhueta desse “estranho soturno” que Gertrude Huston tinha colocado na capa do romance de Gracq. A silhueta clássica de estatuária grega perfeitamente reconhecível era agora substituída pela silhueta menos distinta formada pelo turbante, barba e vestes largas (pouquíssimas fotos já restavam em circulação de Bin Laden, substituídas pelos frames dos seus famosos comunicados em vídeo), o que me obrigou a colocar os seus olhos por cima da textura de detritos e escombros de uma das explosões de 1998 que preenche essa silhueta. Além dos escombros, chamei outras duas referências visuais na composição deste ícone “soturno”: as linhas da fachada de um arranha-céus e uma coluna de fumo. E eis o espectro que presidiu aos destinos da primeira década do novo século e milénio.

A capa estava já fechada e aprovada quando surgiu a notícia da morte de Osama Bin Laden no Paquistão. O ícone maligno tinha, afinal, desgastado-se, implodindo numa patética figura de homem de meia-idade doente e recluso, a viver num subúrbio de alta burguesia numa cidade da província paquistanesa. Mas, tal como a personagem ficcional dentro da ficção de Tidhar, Bin Laden viveu, sobretudo a partir de 2001, da, na e para a imagem que a propaganda (a dele e a dos que o combatiam) criou dele. Como um espectro soturno sobre os nossos anos sombrios.

THE SPECTER OF A DECADE
In doing the cover for Lavie Tidhar‘s wonderfully complex novel Osama (very soon available through PS Publishing), I drew inspiration from a magnetic image created in 1951 by Gertrude Huston (the wife of New Direction’s publisher James Laughlin) for Julien Gracq’s A Dark Stranger, which I found on Will Schoffield’s blog. I replaced the greco-roman classical silhouette with the more complex turban clad, bearded one of Osama Bin Laden, deciding later to add his eyes over the texture made up of debris (from a photo of one of the 1998 bombing sites in Africa) that fill this silhouette.
In Tidhar’s novel, Bin Laden is nothing but a fictional character in a pulp paperback series, and the world hasn’t lived through 9/11, but what one reads in those pulp novels is pretty much what happened in our own dimension in the 1998 Dar es Salaam and Nairobi bombings. Maybe a pulp cover would have been more suitable, but I could not resist trying to assemble an iconic summary of the figure hiding behind the name: Osama. As in Tidhar’s pulp-novel-within-the-novel, Bin Laden ended up living for (and actually being) an image made up by his and his opponents’ propagandas.
So here’s what I believe to be the “dark” specter of our very sombre first decade of the new century and millenium, the very dark essence of our present days: not the late Bin Laden (a pathetic middle-aged sick man living in a well-to-do neighbourhood in a quiet town of Pakistan), nor even what may be known as Al Qaeda, but the fear, the willingness to accept brutality as a way of going forward in history, and, ultimately, the loss of hope in the future.

5 Comments

Filed under Capas, Da casa

5 responses to “O espectro de uma década

  1. Pingback: Pedro Marques on designing the OSAMA cover « Lavie Tidhar

  2. Pingback: Esta semana « Rascunhos

  3. Pingback: Osama contra-ataca « Montag : by their covers : resgate do fogo

  4. riVta

    Parabéns. Bela Capa

  5. Pingback: Osama, Lavie Tidhar: Reflejos de guerra, terror y muerte | Fabulantes

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