“Omertá” ao estilo japonês?

Acabo de descobrir que um livro que estava anunciado desde 2008, Mouth of Reddish Water, a autobiografia do designer gráfico americano de ascendência japonesa Sadamitsu “S. Neil” Fujita (falecido em 2010), nunca chegou a ser publicado. Isto foi-me confirmado pela responsável da pequena editora americana Ruder Finn Press: o manuscrito existe, mas a família, após a morte do designer, terá optado por guardá-lo e esperar (“unfortunately, this book was never published […] The family has the manuscript and may one day decide to publish it”). E, para piorar as coisas, o seu único livro, Aim For a Job in Graphic Design (1968), tão elogiado por Michael Bierut, está absolutamente esgotado e os seus poucos exemplares restantes vendem-se a preços inalcançáveis.

Pus-me a fantasiar: que segredos teria para contar este homem, e que importância teriam que fizessem travar uma edição já anunciada, até numa entrevista ao site do AIGA e a Steven Heller? Um homem que, apesar de ser um cidadão americano de nascença (ocorrida em Waimea, no Hawai, em 1921), e de ter lutado pelos EUA na II Guerra Mundial contra os compatriotas dos seus pais, esteve, com estes, internado uns meses num campo de concentração no seu próprio país; que, contra todas dificuldades inerentes ao facto de trabalhar com e para gente que tinha más memórias e ressentimentos dos japoneses desde a guerra no Pacífico, conseguiu impor-se como director de arte da Columbia Records e depois como designer gráfico no mercado editorial americano.

Além das excelentes capas de discos na Columbia, Fujita foi, a partir de meados dos anos de 1960, um dos praticantes mais destacados do “big book look” nas edições hardback (a referência máxima desta vaga é, claro, o ubíquo Paul Bacon), dando ênfase crescente e peso tipográfico ao nome do autor até chegar a capas em que apenas se lia esse nome e o título da obra. Não tão feérico nos efeitos de composição tipográfica como Herb Lubalin, Fujita conseguia ainda assim criar uma sólida simbiose entre a tipografia e pequenas adições gráficas que se uniam e encaixavam naquela, permitindo uma profundidade de leitura das capas considerável sem nunca as retirar da área de “segurança”: eram capas completamente comerciais, mas eram-no com refinamento e uma qualidade visual que não comprometia a legibilidade.

É óbvio que a fama dos livros que envergavam estas capas não era despicienda na boa recepção das mesmas (por exemplo, nunca achei a capa que Paul Bacon fez para Catch-22 de Steven Heller tão boa quanto isso, sendo muito inferior até a outras suas, mas a fama do livro nos anos 60 guindou também o designer a mais e melhores encomendas), mas há detalhes que Fujita coloca que elevam uma capa e são claramente efeito de uma reflexão e de uma pesquisa, como aquele alfinete da capa de In Cold Blood (que “aponta” para a palavra “cold”), um simples alfinete para prender o cabelo de uma rapariga (tal como Nancy Clutter, a adolescente que foi assassinada junto com os pais e o irmão na noite de 15 de Novembro de 1959), mas que pode ser também uma gota de sangue estilizada.

Foi graças a um período de confusão e falta de confiança em Hollywood, no final dos anos 60 e inícios de 70, em que os estúdios procuravam o sucesso de filmes associando-os, em adaptações, aos best-sellers de ficção do momento, que uma capa de Fujita se tornou, com ligeiras adaptações posteriores, numa das imagens mais reproduzidas, glosadas e parodiadas graficamente nos últimos 40 anos. A mão que, sobre um fundo negro, segura os fios de uma marioneta, fios que se ligam e alinham com as letras brancas, barrocas, túrgidas e de terminações caprichosas na capa de The Godfather de Mario Puzo (1969) tornou-se, tal como as marcas visuais da Nike ou da Apple, uma daquelas imagens que toda a gente conhece e reconhece mas das quais poucos conhecem o ou os autores. A sombra de Saul Bass não anda longe (a ironia de ir buscar uma referência ao universo gráfico do cinema para uma capa de um livro que acabaria adaptado num dos filmes mais famosos de sempre), mas a contenção estóica do todo é toda de Fujita. E eis como, muitos anos antes da silhueta de T-Rex que Chipp Kid desenhou para a capa de Jurassic Park ter ido parar aos cartazes do filme homónimo de Spielberg, uma capa de livro se tornou num ícone geracional e internacional graças a um filme.

Não creio que sejam segredos sobre a feitura destas e de outras capas de livros e discos os que Fujita contou no seu livro e que os seus herdeiros não querem ver publicados. A sua experiência num campo de concentração em plenos EUA em 1942, e algumas agruras que terá experimentado como americano de origem japonesa numa sociedade pouco dada ao multiculturalismo e à aceitação da diferença, como era a sociedade americana dos anos do pós-guerra, encerrarão, certamente, alguns desses segredos, memórias dolorosas ou simples recordações, que, para já, continuaremos sem conhecer. O certo é que o autor da capa d’O Padrinho, ou seus herdeiros por ele, optaram por uma espécie de omertá.

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