Em busca do “livro integrado”

Em extrema simplificação, o título do post poderia ter sido o da excelente conferência de Mário Moura (mais uma pequena aula) no dia 17 na Culturgest de Lisboa, que teve como eixo uma certa tradição tipográfica “heterodoxa” (que o Modernismo incorporou como sua) que defendia a união dos elementos heteróclitos do plano/página num todo coerente (ecos do ideal de “gesamtkunstwerk” que obcecou os vanguardistas de finais do século XIX e de que William Morris foi uma das mais famosas personificações) e que desembocou, nos anos 50 do século passado, no conceito de “livro integrado” (ao qual o desenvolvimento e adopção generalizada da tecnologia da impressão offset e da fotocomposição deu o empurrão decisivo). O pretexto foi o livro de Herbert Spencer Pioneers of Modern Typography de 1969, uma antologia precisamente do melhor dessa tradição modernista dos anos 20, 30 e 40 (Zwart, Werkman, Moholy-Nagy, Tschichold, etc). Na imagem, e entre os vários exemplos de “livros integrados” exibidos, está um spread da edição inglesa do volume dedicado a Portugal na colecção originariamente criada e dirigida por Chris Marker em meados dos anos 50 na Seuil, a “Petite Planète” (colecção que terá sido uma das inspirações para o desenvolvimento do design “integrado” que Germano Facetti procurou implementar na Penguin anos depois). O Robert Massin da Cantatrice Chauve ou o Quentin Fiore dos livros com Marshall McLuhan poderiam ter sido chamados à pista de dança, mas o baile foi exemplarmente conduzido mesmo sem eles.

Devo acrescentar que não posso estar mais de acordo com o conferencista quando (partindo do exemplo de como adquiriu a primeira edição do livro de Spencer) ele afirma que, graças à internet e a meios de pagamento online acessíveis, todo um mundo de produção de livros no passado se abriu aos curiosos, e que ter nas mãos, a um preço baixo, livros dos quais apenas conhecíamos referências ou reproduções de detalhes é algo que considero ser uma pequena revolução cultural (sem maiúsculas iniciais para não chocar ninguém…) e a possibilidade de salvação e prolongamento para a próxima geração do conceito de “livro” no meio da histeria digital, movida pela imperiosa necessidade da venda de gadgets de leitura em ciclos cada vez mais curtos. Estas conferências não serão estritamente para um tipo específico de público (pelo contrário: a acessibilidade é aqui a palavra chave), mas para “retronautas” do livro e outros crentes na força de contágio e osmose que os livros têm (um bom livro sendo, na essência, apenas uma porta de entrada e saída para outros) elas são um banquete irresistível. Pena é que numa suposta “capital europeia”, onde há um suposto “museu de design”, estas coisas (leia-se sem rodeios: conversas sobre design de livros) não aconteçam mais vezes e num ritmo menos “sazonal”…

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