Maiakovski: quarenta anos depois dos “vinte anos de trabalho”

A história é curiosa. Estando em Moscovo em 1970, e a alguns dias apenas do seu regresso a Paris, uma amiga do comissário Pontus Hulten descobre que será reposta a lendária exposição Vinte Anos de Trabalho que o poeta Vladimir Maiakovski tinha montado em 1930, poucos meses antes do seu suicídio aos 37 anos de idade. Desejosa de a ver, ela contacta a viúva de Dziga Vertov, o grande cineasta, que lhe diz que tem um convite para a abertura da exposição e que a levará com ela. Chegadas à entrada, a Sra. Vertov mostra ao funcionário do museu o seu convite. Este, ao vê-lo, abre os olhos de espanto: trata-se de um convite para a exposição original, manuscrito e assinado pelo próprio Maiakovski. Foi esta história que despertou o interesse de Hulten em trazer a exposição para França, coisa que conseguiu, tendo ela inaugurado em Novembro de 1975, no Centro Nacional de Arte Contemporânea de Paris.

Encontrei este exemplar do catálogo dessa exposição de 1975 numa busca por livros sobre Maiakosvki. Figura paradoxal a muitos níveis: georgiano genuíno e cidadão soviético orgulhoso mas ao mesmo tempo um trota-mundos cosmopolita; poeta futurista e depois “revolucionário”, sem receio de usar linguagem directa e vernáculo, mas capaz, ao estilo dos mais intensos Românticos de Oitocentos, de “morrer por amor” (coisa que, ao que parece, o seu suícidio terá, em parte, sido), Maiakovski, sabia-o eu já há muito, tinha sido um grafista e cartoonista dotado que usou imagens e palavras de forma genial na batalha pelas mentes de milhões de russos analfabetos logo após a Revolução de 1917, num movimento, genericamente designado por “Agit Prop”, onde chegaram a trabalhar (do lado do Partido Bolchevique, claro) os melhores artistas visuais russos da altura (El Lissitsky, Dziga Vertov, Alexander Rodchenko, etc). As nuvens negras da censura e da repressão depois da imposição oficial da União Soviética e a chegada ao poder de Estaline provocaram a debandada de alguns destes artistas da URSS. Os que ficaram, sujeitaram-se aos ventos inconstantes das graças do regime, os mesmos que ditaram que Maiakovski fosse sendo cada vez mais posto em causa no seu valor pelos novos ocupantes dos círculos culturais soviéticos. Foi essa necessidade de afirmação que o fez montar, sem grandes ajudas e sem apoio financeiro oficial, essa exposição retrospectiva em 1930. Preso (há quem o diga) à URSS pela paixão louca pela actriz Lili Brik, logo incapaz de sair do país, foi lá que se matou. Como escreveu na altura Trotsky numa nota ao acontecimento, o seu suicídio apenas veio acrescentar mais confusão aos  representantes da cultura “burocrática”, para quem Maiakovski não fora nunca menos do que “incompreensível”.

Impresso em papel “pobre”, poroso, a duas cores (os obrigatórios preto e vermelho), este catálogo é um excelente guia de entrada na vida e no universo estético de Maiakovski. O design de Roman Cieslewicz, apesar do aroma “neo-construtivista” (grossos filetes horizontais e verticais, caracteres grotescos condensados a dar ritmo, cor tipográfica e alto contraste às páginas), sabe tornar-se quase invisível, deixando a ribalta para os verdadeiros protagonistas: o texto e as imagens do poeta (nas páginas 74 e 75, com o único exemplo de policromatismo em todo o livro, uma rara ocasião de ver uma das narrativas gráficas feitas para as “Janelas Rosta”, no início da década de 1920, placards propagandísticos que eram exibidos nas montras vazias dos armazéns das grandes cidades russas) e, sobretudo, as imagens dos que com ele trabalharam em grande proximidade, em especial Rodchencko (cujos intensos retratos de Maiakovski se tornaram nas imagens mais conhecidas do poeta). Para a capa do catálogo, Cieslewicz limita-se precisamente a “rodar” em 90 graus uma célebre colagem/retrato de Maiakovski feita por Rodchenko em 1926.

Sem a pesada retórica visual das edições soviéticas posteriores à morte do poeta (veja-se a capa de uma de 1956), e à sua “reabilitação” póstuma a partir do final dos anos de 1930 (devida, ao que parece, à intervenção da sua “musa” inalcançável, Lili), este é um raro livro em que o espírito complexo, irónico, algo sombrio e, em muitos aspectos, muito moderno da “obra total” de Maiakovski me parece ser traduzido de uma forma exemplar, em contexto com as colaborações vitais com artistas gráficos, e ao qual a própria sombra de Roman Cieslewicz e das suas opções estéticas e políticas não deixa de acrescentar uma aura especial, uma espécie de “caução” tácita. Quem melhor do que ele, aliás, para nos convidar em 1975 (e ainda agora) para uma exposição que remetia para outros e distantes anos de final amargo de utopias?

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