Modernidade alegre

Com mais um volume dedicado a um histórico do design gráfico português, o polivalente Paulo-Guilherme, a Colecção D da INCM afirma-se, neste momento de crise, como a única tábua de salvação e base de divulgação de um património visual que em Portugal tem sido esquecido.

Paulo-Guilherme (d’Eça Leal) morreu com 78 anos em 2010, no pico da “consagração” de Luiz Pacheco que se seguiu à morte deste. Pois nem um artigo de jornal lembrou então que fora a ele que Pacheco recorrera no arranque da sua Contraponto: era dele o logótipo da editora. Perdera-se a oportunidade de perguntar ao “grafista” sobre esse outro lado mais visual do Pacheco editor. Ainda que não cubra muito território dessa colaboração, este volume da Colecção D da INCM dedicado à obra gráfica de Paulo-Guilherme vem sem dúvida compensar esse silêncio e essa injustiça.

Filho “rebelde” de Olavo d’Eça Leal (1908-1976), que fora homem de vários ofícios (escritor, desenhador, cineasta, bailarino, publicitário) e biografia romanesca, colaborador da Presença e uma das vozes sonantes da Emissora Nacional, Paulo-Guilherme terá traduzido essa rebeldia numa independência prematura e na assunção do primeiro nome em vez do apelido paterno na sua assinatura profissional. De resto, toda a sua polivalência profissional ecoa a do pai, cuja narrativa Iratan e Iracema (publicada em 1939) ele chegou adaptar para cinema em 1987. Um certo espírito desafiador e lúdico, uma mundivivência aristocrática e boémia e um aprumo no “bem-fazer” técnico ter-lhe-ão ficado como marcas indeléveis e definidoras.

É esse carácter lúdico da produção gráfica de Paulo-Guilherme que Mário Moura aponta na curta introdução ao volume. A esta liberdade e facilidade no recurso à combinação de texturas, padrões e facturas gráficas juntava-se um conhecimento notório das “modas” contemporâneas, sem contudo haver nele uma tentação de mera reprodução e aplicação desses modelos internacionais ao mercado português. Apesar de ser possível ver em alguns dos trabalhos aqui reproduzidos ecos de um Saul Bass (com quem ele partilhava, aliás, uma estreita ligação ao cinema), de um Alvin Lustig e de outros designers americanos de meados do século XX, ou até, arriscando, de um Eugénio Hirsch, que por essa altura mudava a face do grafismo editorial no Brasil, há em todos eles uma “verve própria”, uma tradução pessoal e livre da modernidade gráfica do seu tempo. Capas como a de Toda a Verdade de Morris West ou de O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald são disso testemunho, e onde mais se terá expresso tão bem e de maneira tão económica a ameaça espectral, a brutal inumanidade dos professores do seminário de província de Manhã Submersa de Vergílio Ferreira do que na capa de Paulo-Guilherme? Mas além das capas, este livro oferece-nos provas dessa polivalência, que incluem projectos de design de interiores e arquitectura (foi dele, afinal, um dos espaços marcantes de certa Lisboa “cosmopolita” de há 40 anos, o Apolo 70), sendo as fotos da nova sede do Banco Pinto & Sotto Mayor em 1973 (“encomenda pessoal” de António Champalimaud) uma surpresa inesperada mas bem-vinda e, afinal, lógica num volume cuja atracção se deverá, em grande parte, a um irresistível impulso nostálgico e a um (bom) gosto “retro”.

Faltando, talvez, a este formato mais espaço para entrevistas ou depoimentos escritos que os designers possam ter deixado, ou até bibliografias (no volume dedicado a Victor Palla isso terá sido mais notório), essa falta é compensada com a qualidade da prosa introdutória, como é o caso. Compensadora é, sobretudo, a superior qualidade gráfica destes volumes e a riqueza das imagens seleccionadas. Fruto da teimosia e da paixão de Jorge Silva, um dos designers portugueses de referência internacional, esta colecção é, ao mesmo tempo, uma tábua de salvação e um farol na premente missão de resgate e divulgação de um património visual nacional à mercê das intempéries destes tempos de crise, em que a memória é vítima fácil.

(texto publicado na revista LER de Abril de 2012)

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