“Os livros devem viajar”

[ Este é o primeiro de três artigos que publiquei na revista OS MEUS LIVROS em Outubro, Novembro e Dezembro de 2010 sob o tema genérico da “caça aos livros”. Apesar da distância temporal, creio que ainda têm validade, e assim, a pedido de algumas proverbiais “famílias”, aqui estão, com ligeira edição do texto. Ler também o SEGUNDO e o TERCEIRO textos. ]

Para quem as livrarias começam a saber a pouco (e mal), e o ebook parece ainda uma campanha de hype, a internet pode ser a fonte de um novo prazer nos livros, com descobertas notáveis por muito menos dinheiro do que se paga por um best-seller novo. Confiança nos meios de pagamento online, curiosidade e alguma destreza em mais do que uma língua são importantes.


Livros levam a livros: volumes sobre a história do livro e seu design, como o de Alan Bartram, ou memórias de editores, como a de Jean Jacques-Pauvert, são guias fascinantes para verdadeiras descobertas.

Escrevo as primeiras palavras deste artigo ainda com o eco em fundo da última e cataclísmica predição do guru do MIT, Nicolas Negroponte. Segundo ele, em 5 anos o livro impresso estará acabado. (Em rigor, ele refere-se à supremacia do livro digital sobre o impresso, mas todos sabemos para onde apontam estas profecias.) A ironia que continua por trás desta onda de maus presságios sobre a duração desse cadáver adiado que é “o livro” é que o meio pelo qual mais depressa se propagam esses presságios, o próprio meio pelo qual se começa a disseminar o que todos vêem como o sucessor do livro impresso, o ebook, é o mesmíssimo meio pelo qual, há pouco mais de uma década, se deu a maior explosão de acesso ao fundo bibliográfico mundial desde a revolução dos livros de bolso no pós-II Guerra Mundial: a internet. Tal como conta Jason Epstein no seu Book Business, foi a compra do Reader’s Catalog, uma lista completa dos fundos de algumas das principais livrarias americanas, em meados dos anos 90, por Jeff Bezos, o criador da então incipiente Amazon, que permitiu a esta o salto de empresa promissora na bolha das “dot.com” para pioneira e líder da revolução de acesso a um “produto” (peço desculpa, mas não dá para evitar as aspas nesta palavra quando associada ao livro) com quase cinco séculos de existência. Ou seja: é ao livro impresso que a internet deve um dos seus mais bem sucedidos negócios.

A era romântica da bibliofilia, uma era de viagens, de confiança interpessoal alimentada por anos de conversas, confidências, trocas e compras decisivas nos alfarrabistas e livreiros mais selectos (e tão bem descrita num livrinho delicioso chamado Tolkien’s Gown de Rick Gekoski), se bem que não propriamente acabada, foi sucedida por uma outra, em que ainda vivemos, e em que, parafraseando Garrett no início das suas Viagens, o “viajante” é-o sem sair do quarto. O novo bibliófilo não tem status profissional ou social e não faz o roteiro dos alfarrabistas europeus ou americanos; a internet é o único complemento da sua maior ou menor fortuna, cultura ou curiosidade.

Eu prefiro chamar-lhe uma quase perfeita “máquina do tempo”. Uma máquina que funciona como um enorme braço que alcança pontos definidos através de uma pesquisa que cruza informações financeiras, artísticas, históricas e geográficas, e que é movida pela cultura e agudez mental do “viajante”. Um exemplo: em 2003, frequentava uma pós graduação de edição, mas a nova vaga bibliófila não me tinha atingido ainda. Desconfiava dos pagamentos online (uma atitude para a qual hoje não tenho paciência), e preferia (como, infelizmente, a ainda esmagadora maioria de portugueses) ir ver as livrarias. Era ainda, pois, um acólito desses templos. Ao escolher fazer um trabalho sobre The Medium is the Massage de McLuhan, quis dar o destaque, de que era pleno conhecedor, à colaboração do autor com o designer Quentin Fiore. Mas os “templos” do livro apenas me ofereciam como disponível uma nova edição de bolso com uma capa do guru do design “grunge” dos anos 90, David Carson. Nunca gostei muito dessa edição da Gingko. Poucos anos mais tarde, em plena “nova vaga”, vi-me “livre” dela no ebay, livro comprado por uma canadiana que queria oferecê-lo (com embrulho) ao seu tio a viver em Barcelona, e a quem acabei por enviá-lo (uma regra no ebay: não fazer perguntas porque o cliente tem sempre razão…). Dias depois, finalmente, e quarenta anos depois, chegava-me a casa, comprada no mesmo ebay por um valor inferior ao que tinha arrecadado na minha venda, uma perfeita cópia da primeira edição da Bantam de 1967. Por menos de 5 dólares (e um valor justo mas regateado de portes: outra das regras de ouro no ebay), esse imenso braço da máquina do tempo ligara-me a esse ano distante e dele trouxera uma amostra preciosa, de papel velho, branco, mate e poroso. E que melhor forma para esse braço, pelo menos na sua volta, do que o de uma carteira simpática que grita no intercomunicador às 10 da manhã: “Volumoso! Pode vir cá abaixo?”.

Estes três textos que me pediram, caro leitor (já que recorri a Garrett, recorro-lhe também ao coloquialismo), de que este que está a ler é o primeiro, não serão, contudo, um guia para “primeiras edições”, para “negociações com alfarrabistas”, para “orçamentos”, enfim, para nada do que caracteriza um tipo de coleccionismo de livros que não é o meu. Eu procuro “cruzamentos”, confluências perfeitas dos meus interesses (com bom design, uma boa capa, um toque de “aroma” do seu tempo e um preço apetecível a um bolso mediano). Um exemplo perfeito, a que deitei as mãos de novo através do salvífico ebay: a edição de 1977 de Écrire l’éspace, um livro autobiográfico, raro, estranho, do designer Pierre Faucheux (que trabalhou com Breton, com todos os editores franceses do pós-Guerra e foi o mestre do mestre Massin), um dos meus melhores achados, que um belga lá acedeu a enviar para Portugal (apesar de ter listado o livro como destinado unicamente à Bélgica e a França). “Les livres doivent voyager”, escreveu ele num email. Preço final: 15 euros. Preço mais baixo que esse guia imprescindível das livrarias online de usados, o Addall, me indicava: 50 euros (o mais alto chegava quase aos 200). Eis o segredo do ebay: dado que os livros em leilões são colocados de forma irregular (e sem qualquer ligação a bases de dados a não ser a do próprio ebay), por vendedores particulares que muitas vezes não fazem ideia do que estão a vender, um encontro fortuito destes pode valer ouro (ou, pelo menos, umas dezenas de euros). Mas é o acaso que apimenta muitas destas descobertas.

Num livro que comprei no seguimento desses interesses acima referidos, Five hundred years of book design de Alan Bartam, um belo e barato volume da British Library, encontrei uma referência a um livro de 1932 que me fascinou pelo título, pelo tema e pelas ilustrações expostas. Julguei que, precisamente por causa dessa referência, seria um livro inatingível, um dos tais livros de “coleccionador” aos quais o meu bolso não chega. Surpresa. Uma perfeita cópia da primeira edição da Constable, segunda impressão, de The Adventures of the Black Girl in her Search for God de George Bernard Shaw, e ilustrado por John Farleigh, chegou às minhas mãos por pouco mais de 10 euros. Livros levam a livros, num folhear infinito em que a internet parece traduzir esse “livro de areia” de Borges, sem o lado “monstruoso” do seu conto e, pelo menos até há uns 3 anos, com o enorme estímulo de uma meia década de dólar muito acessível.

The Adventures of the Black Girl in Her Search for God de George Bernard Shaw (Constable) e The Medium is the Massage de McLuhan/Fiore (Bantam). Dois clássicos do século XX, dois marcos do design de livros, duas primeiras edições. Preço conjunto? Menos de 20 euros.

De todas as formas em que testei esta pesquisa e compra de livros, desde contactos com alfarrabistas polacos e checos, num contexto de moeda favorável para o euro e oferta de livros de altíssima qualidade (alguns sites de alfarrabistas checos valem nem que seja como amostras de capas soberbas e miolos reveladores), até compra directa a universidades que publiquem livros interessantes (como a Universidade de Alberta no Canadá, da qual comprei um belo catálogo sobre uma exposição da Hogarth Press a um preço muito, mas muito inferior ao que a Amazon indicava), passando, claro, pelos obrigatórios Amazon ou Abebooks, o ebay continua a ser a mais excitante, pela possibilidade de pesquisa fortuita e achado notável e barato comprado a gente que, se calhar, só vai vender livros ali e apenas durante aqueles dias de leilão. Garimpo, chamam a isso os brasileiros, eles que têm uma notável Estante Virtual, espantosamente bem organizada e servida, e que compensa a pouca oferta e altíssimos preços (preços de gringo, diria) que a versão latino-americana do ebay, o Mercado Livre, apresenta.
Mas sobre o ebay, e de como comprar (e vender para comprar), poderá ler no próximo texto.

3 Comments

Filed under Imprensa, Livros

3 responses to ““Os livros devem viajar”

  1. Pingback: Caçador e presa: vender para comprar, comprar para vender « Montag : by their covers : resgate do fogo

  2. Pingback: Olhando pelo retrovisor de McLuhan « Montag : by their covers : resgate do fogo

  3. romulo

    Muito bom ouvir estes relatos inter e intra-livros, obrigado por compartilhá-los.Abraços ¶

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