Fernando Guedes: discreto lamento pelo fim de uma era

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Uma nova e louvável colecção de livros-entrevista apresenta-se com este volume dedicado a Fernando Guedes. Apesar de uma incompreensível pobreza do aparato visual e alguma tibieza na condução da entrevista, há motivos para esperar mais e melhor.*

A desoladora e empoeirada estante dos livros sobre a história da edição portuguesa do século XX parece assistir a algum movimento que não seja o do espanador. Nestes dois últimos anos, foram lançados outros tantos volumes que, ainda que de forma desigual, cobrem a história de sete décadas de labor no mercado editorial nacional. A colecção de pequenos livros-entrevista dedicados a “protagonistas da edição” que a Booktailors agora anuncia, através da publicação deste volume dedicado a Fernando Guedes, poderá ser mais um passo no preenchimento dessa estante.

Das figuras da época “heróica” da edição nacional, Fernando Guedes é, para além de um indiscutível “decano” pela sua longevidade, uma figura incontornável: a Verbo, de que foi co-fundador em 1958, foi durante mais de duas décadas uma marca de excelência na publicação de grandes projectos, como as sucessivas enciclopédias, e uma astuta e presciente exploração das potencialidade do então novo meio televisivo fê-lo acertar no jackpot com os livros de culinária de Maria de Lurdes Modesto e, em especial, a colecção de “Livros RTP”, fazendo com que, em 1970, uma novela oitocentista (Maria Moisés de Camilo) se transformasse num bestseller histórico. Começar esta colecção com este editor é, pois, plenamente acertado.

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Exemplar do primeiro número da colecção “Livros RTP” da Verbo, Maria Moisés de Camilo Castelo Branco, lançado em Novembro de 1970 e um sucesso de vendas imediato. Ao lado, anúncio de imprensa da colecção. Em baixo: as guardas dos livros (o design da colecção foi de Sebastião Rodrigues).

Infelizmente o pequeníssimo volume parece não conseguir conter o potencial de riqueza do seu objecto de estudo, tão mais rico quanto é sabido que Fernando Guedes é também um autor prolífico, com obra na investigação sobre a história do comércio livreiro e na escrita autobiográfica (o seu O Livro como Tema, de 2001, é, no que toca à Verbo, matéria de consulta obrigatória; em vez, ou para além de uma “Cronologia”, teria sido bem mais útil uma Bibliografia completa dos livros e artigos publicados pelo autor). Uma das mais notórias lacunas desta edição é o aparato visual: um editor que foi amigo e colaborador de gente como Fernando Lanhas ou Sebastião Rodrigues não merece aqui mais do que uma interminável galeria de fotos com presidentes (de Américo Thomaz a Cavaco Silva), ministros e reitores. Nem uma capa, ou a amostra de uma campanha de imprensa, ou um frame de um dos históricos anúncios da Verbo na RTP. Na página 23, o entrevistado descreve com detalhe o primeiro logo da sua editora, que ele mesmo desenhou, sem que uma única amostra se possa ver. O crédito do editor nesta frente era, aliás, tão elevado que em 1970 fez parte do “conselho consultivo” do número de arranque da revista Gráfica 70, junto a nomes como os de (para além do já citado Sebastião Rodrigues) João Abel Manta, Daciano Costa e Luís Filipe de Abreu, revista essa que ainda hoje é considerada como uma da mais distintas referências na curta história da imprensa especializada em design no nosso país (cf. texto de José Bártolo no último número da PLI). Nada disto, contudo, se reflecte nestas páginas.

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Conselho consultivo da revista Gráfica 70 (número 1, 1970), onde Fernando Guedes aparece ao lado de Daciano Costa, João Abel Manta, Luís Filipe de Abreu e Sebastião Rodrigues.

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Iniciada em 1963, a colecção de livros dedicada à arte popular em Portugal foi uma das colaborações mais marcantes de Fernando Lanhas (que dirigiu graficamente a colecção) com a Verbo.

Quanto ao texto, e sendo este, em essência e estilo, não mais do que uma longa entrevista de revista dominical, é inevitável alguma “maciez” da entrevistadora e um tom geral de bonomia, o que se torna algo incómodo quando o assunto é, por exemplo, a revista Tempo Presente, órgão de um núcleo de intelectuais de extrema-direita que procuravam uma revitalização teórica da ideologia fascista, e que Guedes dirigiu já depois de fundar a Verbo. Este ponto complexo – essencial para definir de que forma o editor e o seu projecto se posicionavam face à “situação” – não merece aqui mais do que uma pergunta e uma resposta ligeira (“à direita não havia só burros e até se podia fazer oposição ao regime”, p. 55), mas tem exemplar e aprofundado tratamento no já imprescindível Edição e Editores de Nuno Medeiros, para o qual se remetem os leitores mais ávidos, sobretudo na questão das afinidades e ligações entre o corpo redactorial da revista (que, segundo Medeiros, “terá consubstanciado o esteio de um certo revigoramento intelectual da direita radical portuguesa, fundamentando um sentido político neofascista”) e o núcleo de colaboradores da Verbo (cf. Edição e Editores, pp. 210-223).

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Catálogo da Verbo para o biénio 1969/70, que incluía o anúncio da edição dos discursos de Marcello Caetano “proferidos durante o primeiro ano de governo” (fonte: Loja da Esquina).

A questão da censura e da perseguição aos livros “heterodoxos” em Portugal durante os anos 60 e 70 – pesado fardo que caía sobre a grande maioria das suas concorrentes e do qual a Verbo esteve livre – é praticamente omitida. O tema aflora apenas, e de uma forma mais genérica, quando Fernando Guedes se refere às suas dificuldades, como dirigente da União Internacional de Editores, na discussão com as autoridades chinesas sobre… a censura (p. 39, uma “deixa” prenhe de ironia que escapa, contudo, à entrevistadora, perdendo-se essa oportunidade de abordar o delicado assunto da perseguição à edição sob Salazar e Caetano). Até quando Guedes se refere a Figueiredo de Magalhães, o fundador da Ulisseia (comprada pela Verbo em 1972) como um “mau gestor” (p. 74), se perde a chance de o confrontar com o facto de que, para além da possibilidade de má gestão, a Ulisseia tinha sido dizimada pela perseguição da PIDE na década precedente, com inúmeros títulos proibidos.

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À parte umas bem curiosas anedotas (como a da ida à Bélgica para comprar os direitos dos livros da série Anita, ou a da inclusão das obras de Ferreira de Castro na “Colecção RTP”), o livro brilha, sobretudo, por dois temas de absoluta actualidade: o Brasil e os “grupos editoriais”. Com observações pertinentes e sábios avisos à navegação, baseados numa longa experiência in loco, sobre a dificuldade de uma aventura editorial brasileira (e sem uma única pergunta, ali pelo meio, sobre o Acordo Ortográfico e a sua articulação com a edição de livros, perdendo-se antes tempo com a insonsa questão do “livro digital”), é a franqueza de Guedes quanto à sua desilusão pelo que a Babel tem feito (ou não tem feito) com a Verbo que dá a este livro uma pungente qualidade elegíaca, de elegante e discreto lamento pelo fim de uma era. Demasiado brando e superficial para acrescentar algo de muito substancial ao que já foi publicado sobre e por Fernando Guedes, este livrinho tem pelo menos o condão de conter um honestíssimo e directo desabafo de um dos grandes editores portugueses no rescaldo das aquisições destes últimos quatro anos. “Acho que a Verbo merecia ter uma vida mais brilhante”, afirma ele na página 89. E quem poderá discordar?

*versão mais longa de um texto proposto à revista LER em Dezembro de 2012

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