Do “cieslevício”

Desde que tomei a minha primeira dose, no já distante ano de 1993, que a coisa não me passa: sou um viciado em Roman Cieslewicz e não tenho outro remédio a não ser assumir e viver com o meu “cieslevício”. A entrevista de Margo Rouard ao designer polaco-francês no número 9 da Eye abriu-me os olhos e pôs-me a salivar seriamente. Já andava algo condicionado pelas colagens de Andrzej Klimowski para as capas da Faber que ia descobrindo na Livraria Britânica do Porto, mas isto era como ir à fonte, ou, pelo menos, a um ponto bem superior rio acima e muito perto da fonte.

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Se aceitarmos que essa “fonte” está nas colagens que Max Ernst foi fazendo a partir do início dos anos 20 do século passado, não será preciso muito esforço para aceitar também que o que o pintor surrealista inglês Paul Nash escreveu em 1937 sobre Ernst e a junção que neste existia entre uma “inquietante capacidade de horrorizar” e uma “intensa imaginação poética” (citado por John Lewis em The 20th Century Book) se aplica completamente a muito do que Cieslewicz fez. Para mim, continua a ser a melhor súmula do século em que nasci, um teatro secreto de figuras híbridas (vindas do mundo do publicidade e da moda, da pornografia, da iconografia política, da fotografia jornalística ou do baú anódino das gravuras oitocentistas) compostas a partir de elementos opostos ou conflituosos, envoltas numa névoa permanente de pontos de trama offset: se, daqui a quinhentos anos, alguém quiser ter uma rápida sensação visual do que foi o século XX, terá de recorrer a uma destas imagens.

Estas duas recentes adições à minha cieslewicziana privada estão quase nos extremos cronológicos da vida e carreira do artista gráfico e designer: uma pequena monografia publicada na Polónia em 1966, três anos depois do “salto” de Cieslewicz para este lado da Cortina de Ferro, e o catálogo exaustivo do leilão do recheio do seu atelier em Paris em 2006, dez anos após a sua morte.

Aleksander Wojciechowski, no texto de introdução ao volume monográfico publicado pela Wydawnictwo Artystyczno-Graficzne em 1966 (da série “Współczesna grafika polska” dedicada a vários artistas gráficos polacos), põe de lado essa óbvia herança surrealista e concentra-se em contextualizar Cieslewicz no movimento então ascendente e já quase dominante: a Arte Pop. Wojciechowski apresenta mesmo o grafista polaco como um explorador pioneiro das possibilidades estéticas dos detritos gráficos e comerciais da cultura de massas:

“Cieslewicz atira-se inconscientemente – nesse ano de 1958 – à resolução de problemas que serão discutidos só muitos anos mais tarde em Nova Iorque ou em Paris. Fá-lo sozinho, quase clandestinamente, contando apenas com as suas próprias forças e com a sua intuição. A arte Pop não foi, portanto, uma surpresa para ele.” (traduzido da versão francesa do texto)

Mas para quem conheça já algo do trabalho de Cieslewicz dos anos 60, a importância deste pequeno mas muito bem escolhido portfolio reside não nas amostras do seu trabalho Pop – avant la lettre ou contemporâneo já do movimento – mas nas reproduções de uma série de colagens que ele produziu como ilustrações para o conto de Bruno Schulz “Traktat o manekinach” (“Tratado dos manequins”) incluído na colectãnea Sklepy cynamonowe (As lojas da canela). Se a edição com essas ilustrações chegou alguma vez a ser publicada, nunca descobri qualquer prova disso. Margo Rouard incluíra algumas no catálogo da exposição dedicada a Cieslewicz em 1993 no Centro Pompidou de Paris, mas apenas em versão monocromática (e, mais uma vez, sem qualquer indicação de ter sido feita uma edição do texto de Schulz com estas ilustrações). É a tradição “ernstiana” no seu fulgor, fundida com a obsessão de Cieslewicz com as composições simétricas a partir da duplicação e inversão de um detalhe fotográfico (que ele desenvolveria no final dessa década e na década de 70 com a designação genérica de “colagens centradas”).

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O catálogo da leiloeira parisiense Calmels Cohen com os lotes de vários itens provenientes do atelier de Roman Cieslewicz (e que foram a leilão a 19 de Março de 2006) foi uma verdadeira surpresa pela espantosa quantidade de reproduções (e  qualidade das mesmas) e pela minúcia da informação disponível. Nesse sentido, creio mesmo que, juntamente com o catálogo do Centro Pompidou de 1993, este deverá ser o guia obrigatório de consulta para quem se aventura na cieslewicziana. Para além das inúmeras fotografias do arquivo pessoal de Cieslewicz, o volume conta ainda com notas introdutórias de Agnès B., Christian Boltanski, Raymond Depardon, Milton Glaser e um excerto de um texto do editor François Maspero (“Et comment faire revivre le rire à la fois clair et grinçant de Roman Cieslewicz, qui me fit, dans les dernières années, presque gratuitement, les plus belles couvertures de livres?”, p. 11).

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O que se torna particularmente valioso nas reproduções deste catálogo é o facto de terem sido feitas, na sua maioria, a partir das maquetas, ou seja, temos acesso directo aos “bastidores” da criação destes cartazes e colagens. São visíveis aqui os retoques a guache, os limites dos recortes, os pedaços de fita-cola, etc; em suma, torna-se-nos transparente todo o processo de composição “analógica” destas imagens. Sob a capa de um serviço de leiloeiro que nos traz o objecto a leilão até bem junto dos olhos, esta é uma excitante e rara ocasião de imersão nos vestígios da minuciosa e intransigente factura manual de Cieslewicz (“le futur des nouvelles images, leur épanouissement est lié pour moi aux accidents que la main provoquera”, disse ele a Margo Rouard em 1993).

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Filed under Capas, Ilustração, Livros

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