Uma questão de timing

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Há perto de um ano, instado a pronunciar-se sobre as memórias do célebre editor argentino e octogenário Jorge Alvarez (publicadas pouco antes), o agente Guillermo Schavelzon foi implacável: tratava-se de um livro “caótico” e “limitado”, e era a prova do que ele sempre tinha recomendado aos autores agenciados por si: nunca escrever as “memórias” depois dos 80 anos, quando a memória fraqueja.

Ainda que este Não Se Distorce a Cara de Um Homem (Guerra & Paz, 2014) não seja um volume autobiográfico (trata-se simplesmente da transcrição de uma conversa entre José Jorge Letria e João Abel Manta em 2010), a questão da “memória” é também honesta e brutalmente abordada quando, a páginas tantas, o entrevistado se queixa do “Alzheimer” (se literal ou figurado, fica por saber) num momento em que perde o fio condutor da resposta. Apesar da possibilidade de controlo e orientação das perguntas pelo entrevistador, somos de pronto confrontados com o facto incontornável: João Abel Manta tem 86 anos (82 à data da entrevista) e a memória é um bem perecível.

Se a isso juntarmos o facto de o entrevistado ser sobretudo e justamente conhecido por uma actividade (o cartoon político na imprensa) da qual não quer falar, acabamos com um estranho livro: linhas e linhas sobre a sua actividade de pintor (à qual se tem dedicado em quase exclusividade desde há 20 anos) e sobre a pintura em geral, ilustradas por exemplos desses notáveis cartoons e ilustrações dispersas (incluindo algumas publicadas no Almanaque da Ulisseia) aos quais Abel Manta não dedica grande atenção, confessando mesmo detestar ser associado a eles, em particular aos cartoons. Na verdade, já não se trata aqui de uma questão de qualidade da memória (fora umas desculpáveis gralhas ou gaffes, que terão escapado ao crivo da revisão, como “arte pólvora” em vez de arte povera e “Barrett Newmann” em vez de Barnett Newmann, e uma questionável localização temporal do Dadaísmo nos anos 60 do século passado), mas de uma opção tomada pelo artista há um bom par de décadas: um corte deliberado com a sua biografia de ilustrador, cartazista e cartoonista para se “reinventar” como pintor (fruto, talvez, de um certo preconceito comum à sua geração, segundo o qual o trabalho “nobre” para um pintor – ou, no caso, um arquitecto filho de insignes pintores – não está nas páginas dos jornais e dos livros ou no papel dos cartazes).

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No fundo, uma questão de timing: aos que, como eu, queriam saber como foi colaborar com esse Almanaque no início da década de 60, como foi colaborar com o Diário de Lisboa nessa fase “dourada” entre finais dessa década e meados da seguinte (onde fez tudo e sempre a um nível superior: cartoon, ilustração editorial, polémica estética, intervenção “subversiva”, com a respectiva atenção da Censura e dos tribunais), como via ele a ilustração editorial, à qual deixou exemplos brilhantes, como era a colaboração com as editoras ou com José Cardoso Pires, o autor com quem mais colaborou, enfim, aos que procuravam saber detalhes daquilo que fez de João Abel Manta o artista gráfico mais importante nesses anos-charneira é oferecida outra coisa, porventura fiel ao que o artista é agora mas que, pela junção da falibilidade da memória com uma vontade deliberada, passa ao lado desse núcleo de trabalho crucial. Tivesse esta entrevista sido publicada, digamos, em 1975, na edição dos Cartoons 1969-1975, conduzida pelo mesmo Cardoso Pires que aí publicou o seu panegírico ao artista e que com Abel Manta colaborara em proximidade desde o Almanaque, e talvez tivéssemos hoje o livro definitivo sobre o JAM desses anos, o mesmo JAM que, no seu primeiro cartoon para o Diário de Lisboa, em 1969, se retratava junto a uma enorme caneta, sob um “requerimento” em que afirmava a sua identidade dentro do “importante sector das Artes Plásticas que se chama ‘a Caricatura'” e onde se listavam as suas influências (Daumier, Forain, os dadaístas Heartfield e Grosz, Osborn, Topolski, Steinberg, François, Levine, etc – destes nomes, a julgar por este volume da Guerra & Paz, Manta parece agora apenas lembrar-se ou manter como importantes os de Steinberg e o de Daumier).

A bibliografia sobre João Abel Manta carece, precisamente, de um livro que possamos concordar como estando próximo de ser “definitivo” (por impossível que saibamos ser isso). A minha aposta seria no excelente catálogo da exposição da sua “Obra Gráfica” em 1992 (publicado pela Câmara Municipal de Lisboa), até hoje o melhor guia visual e cronológico para quem procura embrenhar-se no seu universo gráfico, ao qual (apesar da qualidade dos textos de arquivo reunidos, incluindo o de Cardoso Pires, e da enorme quantidade de reproduções) faltaria talvez um texto condutor, que é o que nos oferece a edição de Caprichos e Desastres (com texto de João Paulo Cotrim), publicada em 2008 aquando da última exposição da sua obra gráfica. Ainda assim, em quase 40 anos (a partir dessa antologia de cartoons de 1975), e descontando as Caricaturas Portuguesas de 1977, os dedos de uma mão sobram para contar as monografias dedicadas ao trabalho de João Abel Manta (e, mesmo sobre a sua pintura, há apenas o catálogo da exposição de 2009). Manifestamente pouco, mesmo no caso de um artista pouco dado a falar ou a escrever sobre si, que há duas décadas vive em quase “reclusão”, retirado e distante do burburinho social, e que, pelo que se pode comprovar nesta entrevista, perdeu de vez a vontade de recordar ou referir-se ao seu trabalho gráfico.

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Pelo meio, contudo, ainda se resgata algum orgulho de Manta com esse seu enorme portefólio, em particular com a edição das Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar em 1977 (“Esse livro foi feito muito a sério. Se me disserem que sou o maior cartoonista português por ter feito aquele livro, eu digo: ‘têm razão'”, p. 80-81) e, em 1981, com a direcção de arte dos primeiros números do Jornal de Letras (“os bonecos que eu fiz para esses números, para mim, já eram arte”, p. 63). Talvez Letria pudesse ter tentado ser mais específico, ter levado o seu interlocutor a iluminar algumas dessas áreas de sombra (sobre o mesmo assunto delicado e a propósito de outro livro-entrevista, escrevi aqui), mas compreende-se o pudor em fazê-lo, tanto mais que o que interessava a Manta, em 2010, era justificar os seus quase vinte anos ininterruptos dedicados à pintura, um trabalho que a exposição do ano anterior tornara público. Fica, pois, nestas 160 páginas, pouco mais do que umas curiosas anotações autobiográficas do convívio com os seus pais e o grupo de amigos destes, de uma educação quase esquizofrénica entre um liceu ultra-salazarista e um meio familiar e social “do contra”, e, sobretudo, uma série de considerações de ordem ética, política, técnica e estética em torno da arquitectura e da pintura (a mais curiosa das quais será o facto de, por via da “deformação” profissional de arquitecto e grafista/cartoonista, nunca ter deixado de ser um “pintor de prancheta”), a sua única actividade nestes últimos anos de vida e, em rigor, o pretexto para a entrevista. Fica também a sensação de que, se não tivesse havido essa exposição em 2009, muito dificilmente Manta teria acedido a pronunciar-se apenas sobre algo que considerava já ultrapassado na sua carreira e pouco digno de menção. Como o Rimbaud “negreiro”, que se recusava sequer a admitir ter sido poeta.

Tal como algumas das suas melhores composições mistas, entre o desenho e a colagem, esse “livro definitivo” sobre a obra gráfica de João Abel Manta que nunca se materializou nestes 40 anos terá, a partir de agora, de ir sendo composto mentalmente por nós com bocados das pouquíssimas edições disponíveis, com recortes de jornais, com vislumbres dos poucos mas notáveis cartazes (mesmo fora do “cânone” do PREC: lembro-me do espantoso cartaz para Benilde ou a Virgem Mãe de Oliveira, que vi exposto na Cinemateca há uns anos, ou da surpresa e emoção ao encontrar, perdido e dado como “papel velho” na feira de velharias de Algés, um exemplar do cartaz para o II Congresso dos Escritores Portugueses de 1982, com o seu alinhamento grotesco dos fantasmas da APE – uma imagem que seria impensável hoje, em que a “literatura” e o seu marketing andam intimamente ligados, produtos que são do complexo financeiro e corporativo), quem sabe até com um contacto mais regular com os originais dessa mesma obra, caso se chegue finalmente à conclusão que duas exposições em mais de vinte anos é quase nada. Dele, Manta, não é sensato ou sequer justo esperar mais: afinal de contas, já fez a sua parte.

2 Comments

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2 responses to “Uma questão de timing

  1. Pedro Carneiro

    Caro Pedro;

    Acabei de ler o livro, pois trata-se de um artista que muito admiro pela sua obra gráfica (que será a mais conhecida e divulgada) e como tal tive a curiosidade de ler já que poucas obras existem sobre ele. Concordo com a análise que faz. Inteiramente. Uma entrevista, como diz, que poderia ter abordado outros aspectos da sua obra e ter sido feita numa altura em que a memória fosse mais fresca. Abel Manta merece sem dúvida melhor atenção.
    Atentamente
    Pedro Carneiro

  2. Pingback: João Abel Manta: bibliografia | Montag : para retronautas

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