Ainda as “capas”: a propósito de um artigo publicado na revista “Estante”

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Como será óbvio a quem passar os olhos por aqui, já há muito tempo que deixei (com raras excepções) de me concentrar em análises de ou em torno de “capas” de livros, em benefício crescente daquilo que realmente me interessa bem mais para além do “design”: o cruzamento deste com a edição, ou melhor, a sua necessária definição pela relação do seu produto com a encomenda de um editor e a personalidade deste e da sua editora. Em suma, meros portefólios ou monografias de “capas” começam a deixar-me indiferente se não trouxerem de arrasto à colação o contexto pessoal, editorial, social, histórico ou económico da relação encomendador/designer que lhes deu origem.
Ainda assim, contactado em Fevereiro por um membro da equipa editorial responsável pela revista Estante da FNAC com uma série de perguntas sobre “capas”, decidi responder-lhes. O resultado aparece publicado no último número da revista, o quinto (Primavera 2015) como uma montagem de várias respostas de outros contactados, o que é compreensível (dando-me até, acho, espaço a mais, tendo em conta a importância no mercado actual dos outros capistas). Ficam aqui as perguntas que me foram colocadas e as respostas que dei.

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P: Concorda que o sucesso comercial de um livro depende em grande parte do design da capa? Porquê?
R: Não, de todo. Concordo que uma capa pode mobilizar alguma atenção que, por sua vez, se traduza em algumas vendas, mas entre a capa do livro e os olhos e a mão do potencial leitor/comprador opera uma máquina de distribuição e marketing, cada vez mais poderosa, que começa logo por determinar que livros esse leitor vai encontrar ao passar por uma montra ou entrar numa livraria, máquina onde o design não passa de uma peça secundária e, muitas vezes, dispensável. Há casos históricos em que editores reconheceram essa relação entre o design e o sucesso comercial (como, por exemplo, Alfred Knopf sobre as capas de W. A. Dwiggins ou James Laughlin sobre as de Alvin Lustig), e um bom design (não apenas da capa mas do conjunto do livro) pode “dignificar” ou dar alguma notoriedade a edições que careçam do apoio dessa máquina poderosa, mas, sem esta, o design pouco pode fazer: entregue à sua sorte, uma nova edição tem um tempo de vida em estante de livraria muito curto, pelo que a sua capa só será vista em reproduções na imprensa (no caso de uma rara recensão) ou, por acaso, na internet.

P: Uma boa capa (também) dá mais valor ao livro enquanto objecto de colecção?
R: No caso de livros “de luxo”, há muitos factores a ter em conta (no fundo, todo o aparato gráfico e técnico envolvido na sua produção: qualidade do papel, ilustrações, detalhes de acabamento, etc) e que pesam no sentido do desejo de compra de um “objecto de colecção”, mas em edições mais comerciais, como um livro de bolso ou os hoje mais vulgares “trade paperbacks”, a capa – que nestes livros mais modestos é a única prova de um investimento de design – pode ser decisiva na escolha, sobretudo se, no mercado, houver outras edições do mesmo título. Isso é notório no caso de livros mais antigos, alimentando até um certo “fetichismo” estético que considero perfeitamente salutar, desde que financeiramente controlado, bem entendido, e articulado com alguma pesquisa. O exemplo da capa de Germano Facetti para a edição da Penguin do “1984” de George Orwell, em 1962 (ver), é um que gosto de apresentar: se à simplicidade e à qualidade gráfica evidentes dessa capa juntarmos o conhecimento do contexto da mesma (no momento crucial em que a Penguin renovava a imagem dos seus livros de bolso sob a batuta do mesmo Facetti) e do facto de Facetti ter sido prisioneiro no campo de concentração de Mauthausen (testemunha em primeira mão, portanto, do que uma poderosa ditadura militar, como a que Orwell descreve, pode fazer a um indivíduo), teremos de concluir que dificilmente haverá outra edição melhor para ler aquele texto (ver). Não se trata de um objecto bibliográfico “de luxo”, pelo contrário, mas a sua capa reúne esses factores decisivos e acaba por ter uma força magnética irresistível.
Um exemplo nacional poderia ser a capa da Antologia do Humor Português, edição da Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello de 1969: um livro de características então inéditas e sui generis (mais de 1000 páginas, 1 quilo de peso), ao qual a capa de António Sena da Silva (a célebre “dentadura” sobre fundo laranja) emprestou a dose certa de engodo visual que elevou o livro de ser, possivelmente, apenas um objecto bizarro e do agrado de uma pequena “clique” a um objecto popular e icónico (e uma das mais bem sucedidas edições do final da década de 1960 – ver).

P: O que constitui uma boa capa?
R: Para além das necessárias ligações ao texto que essa capa anuncia – mais ou menos evidentes, mais ou menos sólidas, baseadas numa maior ou menor leitura desse texto – acaba-se sempre por regressar à famosa fórmula dos Pós-Impressionistas: no fundo, trata-se de uma conjugação harmónica de letras, imagens de variada proveniência e uma paleta de cores num plano estritamente delimitado. A essa fórmula essencial podemos juntar uns pós de “estilo” (uma palavra que o design modernista tentou transformar em anátema, por ir contra o seu programa de fria racionalidade), estilo não apenas do designer mas também da editora: acredito que um editor com bom “olho” não precisa de ter apenas um designer a trabalhar consigo (como nas parcerias, aliás notáveis, de Sebastião Rodrigues com a Ulisseia ou Câmara Leme com a Portugália); pode variar, sem que o seu catálogo perca em estilo ou “personalidade” visual (veja-se, por exemplo, o caso da Estampa o da Arcádia na década de 1970, ou o da já citada Afrodite nos seus primeiros 10 ano de existência).
Apesar da moda do regresso da ilustração às capas, também não acredito que uma boa capa dependa de alguém que saiba desenhar: Massin, por exemplo, não sabe e foi um dos designers mais revolucionários da história da edição. Assim, ao possível “estilo” do designer em questão, eu preferiria usar o termo “inteligência visual” e dar o exemplo da uma das capas favoritas do mesmo Massin, a da edição da Penguin de In Cold Blood de Truman Capote (concebida por David Pelham em 1970): sobre um fundo branco, o título e o nome do autor correm em cinco linhas, substituindo-se os quatro ós por quatro manchas de sangue que representam as quatro vítimas da história (um casal de meia idade e os seus dois filhos menores). É um exemplo de como uma conjugação muito simples e inteligente de elementos díspares (“arriscados” até, como as gotas de sangue, que se prestam a abusos e efeitos gratuitos) consegue criar uma ligação exacta, subtil, íntima mas dramática com o texto (ver).

P: Todos os livros merecem o mesmo esforço na elaboração do design da capa?
R: Se porventura acharmos que um certo livro não merece o esforço, o cliente, esse, merecê-lo-á sempre.

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Filed under Capas, Da casa

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