Os bancos, de novo

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Publicado no Funchal em Abril de 1975, um mês depois das nacionalizações das seguradoras e da banca, Os Bancos de António Aragão é um curioso híbrido de livro de poesia concreta ou visual (campo em que o nome do seu autor era reconhecido há mais de uma década), de ensaio visual com base em fotomontagens, de livro de intervenção política e – não fosse o seu acabamento, que o aproxima de uma edição comercial em capa mole, e a marca de uma chancela editorial, a Proculope – de “livro de artista”. Aragão tinha tido uma multifacetada carreira até então, mas fora a experimentação visual na sua poesia que o fizera notado: em 1964 organizara com Herberto Helder a publicação Poesia Experimental 1 (cujo segundo número sairia em 1966), e em 1965 é um dos poetas incluídos por Natália Correia na célebre e polémica Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, publicada pela Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello, e na antologia de poesia visual e experimental A Proposição 2.01, organizada por E. M. de Melo e Castro e publicada pela Ulisseia na colecção “Poesia e Ensaio”.

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Se as fotomontagens (sempre em torno do leitmotiv visual do tradicional “banco” de madeira) exibem um cuidado quase “profissional” nos detalhes (longe do deliberado “não-acabamento” das colagens de recortes de imprensa de Aragão, dez anos antes) e são até, em alguns casos, muito eficazes – quando não óbvias – no intento de ilustrar a fetichização da actividade bancária, são as composições exclusivamente tipográficas que conseguem tirar o máximo de sentido da exploração dos inúmeros jogos de palavras e associações verbais com os termos “técnicos” dessa actividade, em particular uma palavra que voltou a ganhar um peso desconfortável: “devedor”. Àquele extremo cuidado no acabamento visual corresponde aqui um cuidado de limpeza e clareza tipográfica, em certos casos parodiando até os documentos oficiais da banca.

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Produzido durante o ano de todas as permitidas irreverências e utopias e esquecido depois, com a fornada de livros de carga mais ou menos política publicados durante o PREC (e, apesar do carácter experimental, este não deixa de ser um livro do seu tempo, logo um livro claramente político), a recente crise financeira mundial e, no caso português, a crescente perda de prestígio da elite de banqueiros face às irregularidades e mesmo ilegalidades que se sabe agora terem sido a norma nas suas gestões, devolve a pertinência e a relevância a este Os Bancos. Com quarenta anos de diferença, volta a falar-nos directamente e a contar-nos que, no pico da euforia de esperança (na qual ele não deixa de participar) no que uma nova banca nacionalizada pudesse trazer (a nova banca que abria ao povo a “porta do futuro”, como se lia num dos cartazes de Dinamização Cultural de Abel Manta), algo continuava e continuaria a cheirar mal (a “bancu” mal lavado, digamos).

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