Riscas verticais: sobre A Man Lies Dreaming

Esta é a minha capa para a edição especial do romance de Lavie Tidhar A Man Lies Dreaming, publicado pela PS Publishing no Reino Unido no final do ano passado. No campo de concentração de Auschwitz, um prisioneiro de nome Shomer, autor de novelas pulp (ou, no termo ídiche, shund), sonha(?) uma realidade alternativa em que a revolução comunista triunfou na Alemanha no início dos anos de 1930, obrigando as chefias do partido Nazi a fugir do país: Adolf Hitler vive agora em Londres sob o nome de Woolf e é um modesto investigador privado.

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O recurso às riscas verticais dos uniformes dos prisioneiros dos campos de concentração e extermínio nazis impôs-se mais por uma decisão consciente de “referência” histórica a um determinado livro do que pela sua facilidade de aplicação ou particular ductilidade gráfica. Era importante obter a textura do tecido em grande detalhe, por um lado para fugir ao jogo abstracto com a mesma solução que a capa da edição comercial evidenciara, e por outro para aproximar o resultado o mais possível da capa da primeira edição de Nós Estivemos em Auschwitz (Byliśmy w Oświęcimiu) de Janusz Nel Siedlecki, Krystyn Olszewski e Tadeusz Borowski, concebida e publicada em Munique por Anatol Girs em 1945, quando este trabalhava para a Cruz Vermelha. Girs estivera também em Auschwitz e antes da guerra fora um destacado designer e editor na Polónia, fundando em 1938 a “Oficyna Warzawska” com Boleslaw Barcz, morto na revolta do gueto de Varsóvia em 1944. O que tornou essa antologia de relatos sobre a vida no campo memorável foi, precisamente, a solução gráfica encontrada por Girs: a capa de cartolina não ostentava qualquer título ou nomes de autores, sendo coberta pelas riscas azuis verticais sobre fundo cinzento claro e exibindo apenas um número junto a um triângulo vermelho ou laranja invertido.

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Na folha de rosto, os nomes dos autores continuavam ausentes, sendo substituídos pelos seus números de prisioneiros: 6643 (o número de Siedlecki, o prisioneiro mais antigo), 7587 (de Olszewski) e 119198, o do poeta Borowski. A decisão mais radical – mas lógica – de Girs foi reservada para alguns exemplares de uma tiragem especial: estavam cobertos por pedaços dos uniformes dos autores, ainda com a identificação cosida ao tecido. Para si mesmo, Girs concebeu o mais tétrico exemplar desta edição: um volume coberto com o cabedal do casaco de um oficial das SS adornado por um pedaço de arame farpado.

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Borowski juntaria a este seu relato outros e publicá-los-ia  pouco depois num volume com o título Pożegnanie z Marią (Adeus a Maria), que, traduzido em inglês em 1959 com o título This Way to the Gas, Ladies and Gentlemen, se tornaria numa referência cimeira do género. Com 28 anos apenas, suicidou-se em 1951. (No genérico do filme de Andrzej Wajda de 1970 Krajobraz po bitwiePaisagem Após a Batalha – baseado em alguns dos relatos do livro de Borowski, o nome deste aparece associado ao seu uniforme e número de prisioneiro, ecoando essa capa de 1945). Girs emigraria para os Estados Unidos onde se estabeleceria como tipógrafo em Detroit.

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Conheço apenas outro exemplo próximo desta capa de Girs, um exemplo que podemos considerar no polo oposto daquela: trata-se do caderno de memórias do campo de Mauthausen de Germano Facetti, que nele fora prisioneiro quando ainda adolescente. Esse contraste entre os dois objectos radica, em primeiro lugar, no facto da capa de Girs ter sido concebida para uma edição normal, enquanto o caderno de Facetti foi concebido quase como um “livro de artista”, objecto único e, durante muitas décadas, um segredo bem guardado, nunca revelado nem a familiares próximos. Além disso, depois da guerra, Girs não passou de um modesto e quase desconhecido tipógrafo, sem jamais voltar a ter a fama que conquistara no seu país na década de 1930, enquanto Facetti foi um dos mais conhecidos designers editoriais europeus dos anos 50 e 60, sobretudo quando assumiu a direcção artística da Penguin. Mas junta-os essa mesma obsessão táctil, quase “fetichista”, por encerrar num pequeno volume as marcas físicas e visuais da sua experiência nos campos da morte.

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Filed under Capas, Da casa, Livros

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