Category Archives: Cartazes

A “Mosca” ressuscitada

Para coincidir com a exposição sobre a Afrodite na Biblioteca Nacional, produzi dois desdobráveis/posters em papel de jornal (60 x 50 cm abertos, 30 x 25 cm fechados) onde, além de um texto genérico sobre a mesma e uma bibliografia da Afrodite, são reproduzidas as páginas centrais do suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa de 6 de Dezembro de 1969 (com uma reportagem sobre o lançamento da Antologia do Humor Português na galeria Quadrante) e a primeira página do mesmo vespertino da edição de 16 de Dezembro de 1971, com a célebre foto do “editor na banheira”. É, ao mesmo tempo, um memento de duas performances históricas do “Dalí de Lisboa” e uma homenagem a um jornal desaparecido onde o editor e os seus livros tiveram sempre um eco especial até à Revolução de 1974, tanto na “Mosca” como no “Suplemento Literário”. Adquirem-se em conjunto e, para quem não tem possibilidade de ir à BN, podem ser comprados aqui.

Afrodite-BN-12

Afrodite-BN-13

expoBN_desdobravel5

Afrodite-BN-14

Afrodite-BN-15

Afrodite-BN-17

Afrodite-BN-18

Afrodite-BN-19

Leave a comment

Filed under Cartazes, Da casa, Eventos

“Neste momento o que realmente interessa é esta alegria”: quando os partidos não tinham vergonha dos seus símbolos

Camara-Leme-DL-230475_1

Num momento em que a confiança popular nos partidos políticos é tão baixa que, nos (poucos) cartazes que começam a aparecer nos espaços públicos anunciando as eleições autárquicas, os logos e outra identificação gráfica desses partidos (em especial os do chamado “arco governativo”: PSD, PS e CDS-PP) são quase imperceptíveis ou completamente omitidos, é curioso olhar para trás, para o ponto simetricamente oposto neste ciclo eleitoral. Dois dias antes das primeiras eleições legislativas após a Revolução de 1974, que decorreram precisamente a 25 de Abril de 1975, o Diário de Lisboa publicava os depoimentos de “dois artistas gráficos e um pintor professor das Belas-Artes: Sebastião Rodrigues, João Câmara Leme e Luís Filipe Abreu” sobre esse então novíssimo fenómeno visual nas cidades portuguesas: o cartaz político ou, mais precisamente, o cartaz partidário.

Camara-Leme-DL-230475_2

A imagem que ilustra o texto (intitulado “Murais em vez de paredes”) é perfeitamente clara, por contraste, quanto ao estado actual de quase “invisibilidade” identitária nos cartazes de campanha: as fotografias dos três deponentes sobrepõem-se a uma amálgama literal de cartazes colados numa parede de uma cidade nessa campanha de 1975, da qual ressaltam apenas os símbolos visuais dos partidos (o punho erguido do PS, a foice e o martelo do PCP e dos partidos na sua órbita, a seta ascendente “à direita” do PSD, etc).

A conversa (por constantes referências dos deponentes a respostas dos outros, mais parece terem estado os três reunidos do que terem gravado os seus depoimentos em separado) girou, essencialmente, em torno da então absoluta novidade que era o efeito visual da massa de cartazes colados caoticamente no ambiente urbano e a sua conjugação com o outro meio de propaganda política mais recorrente então, o mural (ou até o “grafitti”), não se analisando a campanha partido a partido, talvez por algum pudor em horas de reflexão nas vésperas do plebiscito (ainda que Sebastião Rodrigues refira que, dessa amálgama quase indistinta, sobressaiam “símbolos mais constantes e uma ou outra palavra”, e que “a foice e o martelo têm uma leitura clara e imediata”), e num contexto em que eram vistos como claramente mais importantes a “acumulação” e a “repetição” do que a qualidade individual de cada cartaz (Luís Filipe Abreu). Ainda assim, em jeito de remate, Câmara Leme não se coibiu de apontar o “baixo nível gráficos dos cartazes” e a “falta de critério de afixação”; o importante, contudo, era uma mobilização colectiva e uma comunicação política que, segundo ele e Luís Filipe Abreu, se concretizaram. Sebastião Rodrigues termina com uma nota de nítido optimismo: essa “falta de critério” apontada por Câmara Leme significava apenas que a elaboração e a fixação dos cartazes tinham fugido a “todos os esquemas tradicionais”, fuga que os tornou, no seu conjunto aparentemente caótico, numa “coisa viva e participante”.

“Neste momento o que realmente interessa é esta alegria”, resumira já ele umas linhas antes. Que ano esse, o de 1974/75, em que a palavra “alegria” se usava sem uma sombra de ironia num depoimento sobre uma campanha eleitoral…

(A transcrição do texto completo do artigo pode ser descarregada aqui).

(Addendum: excerto do filme Revolução de Ana Hatherly (1975), que funciona como perfeita ilustração desta conversa a três.)


Leave a comment

Filed under Cartazes

Amesterdão, 1971

Se se metessem numa máquina do tempo e apontassem a um período de “ouro” da Europa do pós-II Guerra Mundial, poderiam dar por vocês ao fundo destas escadas, no Stedelijk de Amesterdão, a olhar para cima, onde veriam (como se vê na foto deste volume) um painel de Raúl Martinez. Isto significaria que teriam ido parar a 1971, quando, de 7 de Maio a 6 de Junho, o museu exibiu a primeira grande mostra mundial de cartazes cubanos (no verso da capa pode ver-se uma foto que mostra o impacto dos enormes cartazes tipográficos de Olivio Martinez Viera numa das salas do museu durante essa exposição). Com design quase “invisível” de Wim Crouwel, prova de impermeável racionalismo suíço (espartano mesmo), este pequeno livro (publicado por ocasião da Europalia ’71) é o registo de uma década brilhante do Stedelijk, em que o museu holandês se tornou referência nos meios da arte contemporânea pelo seu rigor e, ao mesmo tempo, pela sua abrangência, albergando uma colecção imponente de cartazes, sendo a exposição dos cubanos um inesperado e triunfante coelho tirado da cartola (aproveitando a mais que certa renitência do muito “oficial” MOMA de Nova Iorque, na grande exposição de cartazes de 1968, em mostrar coisas saídas de Cuba por aqueles anos). O catálogo desta exposição dos “cubaanse afiches” foi outro dos muitos que Crouwel concebeu para o museu a partir de 1962, quando herdou a “pasta” de Willem Sandberg, que fora o director e designer gráfico residente desde 1945.

Como exemplo desse trabalho para o museu, o catálogo da exposição de William Klein no Stedelijk em 1967 é uma prova do eclectismo da programação e da qualidade gráfica que Crouwel garantiu. Num formato ligeiramente inferior ao A4, com 24 páginas agrafadas, a obra polimorfa de Klein (fotografia, sobretudo, mas também ilustração, design gráfico e cinema: em 1966, saíra a sua primeira longa metragem, Who Are You, Polly Magoo?) é apresentada em generosas amostras num volume essencialmente visual e monocromático, com duas cores na capa (mesmo a biografia é tratada como uma sequência de ilustrações de Jean-Michel Folon). A capa é brilhante pela escolha de uma imagem que remete para as suas célebres capas tipográficas da série de livros sobre cidades e as capas que fez para a Domus, mas que se revela, ligando capa e contra-capa no mesmo olhar, uma simples foto no estúdio do artista.

Leave a comment

Filed under Cartazes, Livros

Palavra e imagem, do MOMA à Gulbenkian

Outra pescaria nos alfarrabistas trouxe-me este curioso catálogo de uma exposição na Gulbenkian em 1972, mais uma prova (se preciso fosse) do papel crucial da fundação nesses anos na “actualização” do meio cultural de Lisboa. Trata-se, nada mais, nada menos, do que a vinda à capital portuguesa da famosa exposição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MOMA) “Word and Image” que em 1968 tinha tornado “oficial” a entrada do cartaz no “templo” da arte contemporânea mundial. O catálogo original tinha sido concebido por Massimo Vignelli e Pieter van Delft.

Em rigor, o catálogo da Gulbenkian (de designer anónimo) trata-se de uma caixa de formato rectangular (245 x 95 mm aproximadamente) dentro da qual estão as “fichas” de cada cartaz, devidamente numeradas e remetendo para um pequeno caderno de 20 páginas que contém um texto de apresentação de Mildred Constantine, a comissária da exposição. (No seu obituário no New York Times de 13 de Dezembro de 2008, Steven Heller escreveu: “Her groundbreaking 1968 exhibition, ‘Word and Image’, was the first at the museum to consider seriously the major 20th-century posters in the Modern’s collection. The exhibition catalog, which she edited, is still an important document of poster history.”) O menor orçamento à disposição da exposição em Portugal ditou a impressão a preto, com a excepção da reprodução do cartaz Confection Kehl de Ludwig Hohlwein (e de uma segunda cor na capa) e uma solução engenhosa de “cortar” ao meio o plano quadrado do catálogo americano, criando assim estas “fichas” rectangulares.

Este acervo visual incluía as últimas “novidades” de 1968, “nobilitando” cartazes com grande saída no mercado de então, como os de Peter Max, e dando a descobrir a um público mais vasto a escola de cartazes psicadélicos de São Francisco (e o seu nome mais sonante, Victor Moscoso) ou a Pop exótica de Tadanori Yokoo. Os cartazes cubanos pós-revolucionários estão, contudo, ainda ausentes desta amostra. Apenas em Dezembro desse ano a Ramparts publicaria um artigo do seu director de arte, Dugald Stermer, sobre as artes gráficas cubanas desde 1959, até então desconhecidas do público americano. Stermer iria publicar uma monografia sobre os cartazes cubanos em 1970 (com uma memorável introdução de Susan Sontag) e nesse mesmo ano o Stedelijk de Amsterdão montaria a primeira grande exposição dedicada aos cartazes da ilha. (Em 1972, a ausência de cartazes cubanos de uma exposição em Lisboa teria, contudo, outras justificações, dado o contexto da Guerra Colonial e o apoio cubano aos movimentos de libertação na África portuguesa, em especial ao MPLA de Angola.)

2 Comments

Filed under Cartazes, Livros

Arquivo cubano

Descoberto ao acaso, o arquivo online de Anna Veltfort (com o nome de El Archivo de Connie) é um pequeno mas valioso manancial de exemplos da “gráfica” cubana, com especial incidência nos anos 60 e 70. Neste arquivo, a descoberta mais valiosa terá sido uma série de scans da revista Diseño, de 1970, com artigos detalhados sobre a produção de cartazes em Cuba, por essa altura já um fenónomo gráfico a nível mundial, com exposições internacionais (nesse ano, no Stedelijk de Amesterdão) e monografias (nesse ano também, a que foi editada por Dougald Stermer nos EUA, com uma introdução de Susan Sontag). Particularmente interessante é o número 3, que conta com um texto de Edmundo Desnoes (autor do clássico Memórias del Subdesarollo, cuja adaptação ao cinema em 1968 por Tomás Gutierrez Alea foi um dos filmes-chave do novo cinema latino-americano dos anos 60) comparando as escolas polaca e cubana de cartazes, e com pequenos depoimentos de cartazista polacos como Wiktor Gorka, Waldemar Swierzy ou Bronislaw Zelek. Nos outros dois números disponíveis (1 e 2), encontram-se textos de cartazistas cubanos, como Ñiko ou Faustino Perez, e mesmo um depoimento dos três cartazistas polacos (que se tinham deslocado à ilha) sobre o estado da produção de cartazes em cuba. Um tesouro.

São também de assinalar as capas (e alguns scans do interior) da revista Casa, publicada pela “Casa de las Américas” de Havana. Para além dos cartazes, na altura o verdadeiro eixo da produção pictórica na ilha e uma ponte de ligação ao mundo exterior (no início dos anos 70, o cartaz cubano é já incluído nas histórias dessa forma de expressão gráfica que vão sendo publicadas no Ocidente, como, por exemplo, a Concise History de John Barnicoat para a Thames & Hudson), para além deles, dizia, é notória uma grande qualidade gráfica na área editorial (o caso da Casa de las Américas é significativo, pois publicava revistas e livros) e, em geral, um contínuo aggiornamento e, sobretudo, uma cultura de diversidade estilística muito próxima do universo norte-americano, apesar da conjuntura política. Era interessante poder saber se os cartazistas (e quais) produziam também as capas destes livros ou revistas, ou se as áreas seriam mais estanques. Estas duas capas (e contra-capas) da Casa, de 1968 e 1970, são de Umberto Peña.

A CUBAN ARCHIVE
Found by chance, this online archive by Anna Veltfort (El Archivo de Connie) is a surprising and valuable source of graphic material from Cuba in the 1960s and 70s. Not just the ubiquitous Cuban posters, but also books, record covers and magazines, such as Diseño (a magazine on graphic arts, and quite specifically on poster design), in which scans (provided in PDF) we can read about the production of posters in Cuba and the opinion of three of the best Polish poster designers (Gorka, Swierzy and Zelek) – who had been invited to the island – on Cuban and their own personal and national poster production. Even more valuable are rare statements from Ñiko and Faustino Perez, two Cuban gráficos. Included are also interesting texts by Edmundo Desnoes, whose novel Memories of Underdevelopment was filmed in 1968 by Tomás Gutierrez Alea, one of the seminal films of the “New Latin-American Cinema” of the 1960s.
Also included in this marvellous little archive are scans of Casa magazine, published by Casa de las Americas. These covers, from 1968 and 1970, are by Umberto Peña.

Leave a comment

Filed under Cartazes, Revistas

“Rien a changé depuis son départ”: mais Cieslewicz

Sou um coleccionador, entre o moderado e o compulsivo, de quase tudo o que foi feito por Roman Cieslewicz e a que a minha modesta bolsa me permita chegar. Estes são 6 exemplares da sua extensa bibliografia que adquiri no último ano e meio.

Desde que folheei o artigo/entrevista sobre ele na longínqua Eye n.º 9 em 1993, na livraria Leitura do Porto, que não me sai da cabeça. O nicho que Cieslewicz criou está ali entre as duas grandes explosões culturais do século XX, as vanguardas pictóricas do(s) modernismo(s) dos anos 20 e 30 e a chegada das lições desse modernismo à cultura de massas nos anos 50 e 60, ao qual ele juntou o “aroma” gráfico da vanguarda polaca. Acima de tudo, mesmo nos trabalhos mais “difíceis” ou menos acessíveis, o que ele conseguia operar era uma poderosa alquimia visual à qual não tenho conseguido resistir: podia chamar-lhe o “império da trama”, dada a assunção quase sensualista da textura de pontos quer nas suas séries serigráficas, quer nas suas imagens produzidas em offset, trama/rede que as ligava, no fundo, ao universo de imagens “comuns” retiradas dos jornais e revistas, esse vasto repositório de detritos da cultura impressa massificada e do qual as imagens de Cieslewicz eram ecos com um timbre muito próprio, ou, nas palavras de Pierre Restany no catálogo da Bienal de Cartazes de Varsóvia de 1974, uma “linguagem dos nossos tempos” estruturada a partir desses elementos díspares. Esses “nossos tempos” não se limitaram, no trabalho de Cieslewicz, e felizmente, a esses anos pós-1968 dominados pelo pós-estruturalismo e pela incandescência da teoria e da praxis políticas: a sua beleza estranha, quase altiva, liberta-o das amarras do contexto histórico e continua a fazer dele uma fonte de deleite e desafio.

De um vendedor na Polónia de “artefactos dos anos Pop” do outro lado do Muro, consegui três números da Ti y Ja (“Tu e Eu”), revista cultural para “jovens” urbanos (uma espécie de Twen polaca) aparecida na “Primavera” de Gomulka, no início da década de 60, da qual Cieslewicz foi o director de arte entre 1960 e 1963. Com o fim dessa Primavera política, regressou a censura mais agressiva à Polónia e saiu Cieslewicz para França, mas isso não o impediu de compor algumas capas até ao final da década. Estas duas, de 1967 e 1969, são exemplo disso. Gosto do cabeçalho da revista com a Cooper Black (sinal dos tempos) devidamente aparada e “encaixilhada” numa grelha rígida: um excelente contraste de escala e tom.

Já em França, e para este Guide de la France Mysterieuse (1964) das recentemente criadas edições Tchou do sino-francês Claude Tchou, Cieslewicz compõe um alfabeto (em rigor: as capitulares que marcam os separadores de cada área alfabética do livro) com base na sua técnica favorita de então: a colagem a partir de ilustrações de revistas do século XIX (tinha feito algo no género ao ilustrar o Tratado dos Manequins de Bruno Schulz pouco antes de sair da Polónia). Além desses separadores alfabéticos, compôs ainda pequenas colagens que aparecem dispersas pelo livro e que se conjugam com as muitas dezenas de imagens de “almanaque” que o pontuam. (Este alfabeto tornou-se um dos primeiros grandes sucessos gráficos de Cieslewicz, largamente reproduzido e adaptado, até em Portugal, como demonstra este exemplo de uma capa composta, nem mais, pelo editor Vítor Silva Tavares em 1970). Trata-se de um enorme (um tijolo de mais de 1000 páginas) e muito curioso guia histórico, lendário e algo “esotérico” de pontos de visita por toda a França, com um aspecto rétro (moda do momento) perfeitamente conseguido e um charme antiquado no qual Cieslewicz se consegue encaixar perfeitamente. É também um livro muito barato.

guide_tchou11

Já consagrado internacionalmente, Cieslewicz partilha com Shigeo Fukuda e André François este catálogo de 1974 da Bienal de Cartazes de Varsóvia. Edição bilingue em formato quadrado, impressão a preto com 3 extra-textos a cores, papel couché, é uma ocasião para ver muitas das suas fotomontagens simétricas de meados da década de 70 (escolhidas para este catálogo pelo seu monocromatismo), um portfolio mais experimental e agressivo, e que anuncia o seu trabalho interventivo dos anos seguintes. Vendido a um preço bem aceitável no ebay alemão, fonte de muitas descobertas “cieslewicianas”.

Um bom complemento ao já incontornável catálogo publicado pelo Centro George Pompidou em 1993 e editado por Margo Rouard é este catálogo em edição trilingue de uma exposição no Kunsthalle de Darmstadt em 1984. Cobrindo a produção de cartazes na Polónia e em França e todo o restante portfolio de Cieslewicz até meados dos anos 80 (e acertando em cheio na capa, ao escolher para ela uma das suas colagens mais brilhantes), este é, sobretudo, um excelente guia visual, pela qualidade das reproduções a cores e pelo formato A4. Notáveis também as fotografias de arquivo do próprio Cieslewicz, em vários momentos da sua carreira. A procurar no ebay ou na Amazon alemães.

“Rien a changé depuis son départ”. A entrevista de Margo Rouard a Cieslewicz na Eye de 1993 (adaptada do volume publicado pelo Centro Pompidou) era ilustrada por uma amostra da colagem com este título, provinda de um “cahier special” de 36 páginas publicado em 1987 pelas Editions Magik aquando de uma exposição de Cieslewicz na galeria Jean Briance em Paris. Essa imagem (que aparece na página 8 do livro) foi, portanto, uma das minhas portas de entrada no universo do grafista e um motivo forte para a procura, ao longo dos anos, deste volume, que acabei por encontrar a um excelente preço num site francês. A escala da reprodução das colagens face ao plano da página é menor do que eu imaginava, mas a tensão criada pelo espaço branco não deixa de acrescentar à leitura daquelas. É uma sequência ininterrupta de imagens implacáveis, mesmo chocantes, com pequenos rectângulos vermelhos a pontuar o negrume geral, e com pequenos títulos de uma ironia amarga (“Mémoire Kurt”, sobre a descoberta do passado nazi do então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim), e alguns alvos recorrentes, como o casal Reagan (“Je fais tout ce que dit mon Ronnie”, confia-nos Nancy Reagan junto à carcaça de uma criança africana). Muito do seu tempo, mas também, como quase tudo o que Cieslewicz fazia, suficientemente intemporal para aceitarmos este portfolio como do “nosso” tempo ainda.

Leave a comment

Filed under Cartazes, Livros, Revistas

“What we want”

Algumas imagens da excelente exposição “All Power to the People” dedicada ao trabalho gráfico de Emory Douglas para o Black Panther Party nos anos 60 e 70 do século passado. Sendo mais uma tentativa de contextualização estética e política do movimento radical afro-americano do que uma mostra centrada em Douglas, é um muito bom mergulho nesse caldo de imagens que procuravam o impossível: a fusão da serenidade icónica com a urgência do apelo às armas e à resistência. Pecará, talvez, pela falta de um catálogo ou pela legendagem com identificação de cada uma das imagens expostas, mas compensa essa falta com uma soberba aplicação das imagens do artista gráfico ao longo do espaço expositivo de dois andares. O mais perfeito seguimento a esta exposição seria uma dos cartazes cubanos pós-revolução: afinal, Douglas teve o apoio da OSPAAAL cubana e acabou por fazer alguns cartazes para eles, além de que a influência do grafismo cubano no seu trabalho é óbvia (e reconhecida pelo próprio). Agora sei que só a Zé dos Bois poderia (finalmente) trazer a Lisboa essa exposição.

“WHAT WE WANT”
Images from an exciting exhibition of Emory Douglas‘ graphic work for the Black Panther Party in the 1960s and 70s. It’s being shown in Lisbon, at the Zé dos Bois gallery, until the 4th of June. Do drop by to see it if you happen to drop by in Lisbon in the meantime.

Leave a comment

Filed under Cartazes, Eventos