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“Insólita ofensiva de corrupção”: exposição na Biblioteca Nacional

Exposição na Biblioteca Nacional até 20 de Maio de 2017, comissariada por Pedro Piedade Marques. Com agradecimentos a Isabel Maria Mendes Ferreira, Paulo da Costa Domingos e Rui Seybert Ferreira. Os livros, materiais de imprensa e documentos de arquivo expostos que não pertencem aos fundos da Biblioteca Nacional foram cedidos pelo comissário ou são cópias de documentos amavelmente cedidos por Antonina Ribeiro, Francisco Alves e Vitor Silva Tavares para a produção do livro Editor Contra (que pode ser comprado aqui).

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Capas do cesto dos proibidos (I)

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Capa do pintor Benjamim Marques para a edição da Ruedo Ibérico em 1969 da peça musical Canto do Papão Lusitano (Der Gesang von Lusitanischen Popanz, estreada em 1967) de Peter Weiss, com tradução de Mário Gamboa.

A Ruedo Ibérico era uma editora fundada em Paris por exilados espanhóis e cujos livros circulavam clandestinamente na Espanha de Franco até 1975. É um raríssimo exemplo de uma edição em português proibida pela censura portuguesa e que não foi publicada em Portugal (ou territórios ultramarinos) ou no Brasil. Depois do que acontecera com Luís Sttau Monteiro no final de 1966, preso para interrogatórios durante seis meses pela autoria de “A Guerra Santa”, uma das duas Peças em Um Acto publicadas pela Minotauro nesse ano (editora que seria encerrada pelo atrevimento), publicar em Portugal este libelo directamente acusatório do colonialismo português teria sido um suicídio, mesmo já em pleno “marcelismo”: Carlos Porto escreveu em 10 An­os de Teatro e Cinema em Portugal, que se tratou da peça “mais detestada e mais proibida” na última década do regime.

A poderosa capa de Benjamim Marques é outro dos elementos que enriquece esta edição plena de “cruzamentos” significantes: ex-frequentador do Café Gelo e dos surrealistas de Lisboa (é dele um desenho que representava o grupo em 1965) e a viver em Paris desde meados da década, ele empresta à violenta sátira de Weiss o espírito de rebeldia anárquica que se tinha respirado naquele canto do Rossio.

Eis um exemplo (ainda que raro) de como se podia combater o Estado Novo e a sua Censura de fora de Portugal e com livros (a Ruedo imprimiu 3 mil exemplares desta edição, que se vendia livremente em Paris).

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“Fernando de Bentley”, Guy Debord e a edição portuguesa de “A Sociedade do Espectáculo”

O texto deste post é um excerto de Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, a monografia “in progress” que tenho vindo a compor e que – figas – espero poder publicar este ano. Para o caso em questão – a publicação na Afrodite da primeira edição portuguesa de A Sociedade do Espectáculo de Guy Debord, em 1972 – são devidos todos os agradecimentos e mais um a Francisco Alves, amigo de Debord e autor da tradução, e Maria de Magalhães Ramalho, que teve acesso ao arquivo pessoal daquele e me disponibilizou a reprodução de algumas cartas.

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Caminhando para o sétimo ano de actividade, celebrado com a sua mais mediática sessão de promoção, que catálogo era, em 1972, o da Afrodite, cuja validade e relevância cultural Ribeiro de Mello tão veementemente defendera no meio de uma “banheira” gigantesca em Dezembro do ano anterior? Se o editor da “revolução sexual” tivera de tirar estrategicamente o sexo desse catálogo (ainda que o explorador sexual, o “caça-saias”, continue activo, como o deixa claro o Diário que Luiz Pacheco escreve desde o início da década), a chancela (que corresponde ainda a um projecto “semi-clandestino”, larvar, sem uma “sede”, em que o trabalho de preparação dos livros se faz em casa do editor ou dos colaboradores e onde nunca uma morada de contacto se indica nas fichas técnicas) conseguira prosperar com a edição de títulos infantis de novos autores e ilustradores portugueses, com antologias inéditas e, em geral, de grande prestígio crítico e com a reedição de clássicos da literatura nacional, tudo embalado em livros cuidadosamente produzidos e que, pelo seu formato e grafismo, apelavam a um imediato reconhecimento visual num contexto em que a vida de uma edição podia ser brutalmente encurtada por intervenção censória ou policial. A tradução de obras estrangeiras de ficção ou ensaio, depois do arranque de 1965-66, é mínima, e – ponto importante – o peso dos títulos abertamente “políticos” nesse catálogo é igualmente reduzido. Tal como no seu arranque, continua a beneficiar de um “mercado paralelo” em que os “livros proibidos eram verdadeiros best-sellers”, com tiragens de “3 mil, 4 mil exemplares”, livros que as livrarias “recebiam e nem expunham, ficavam debaixo do balcão e havia os clientes certos que iam lá e compravam” (1): “a proibição aguçava o apetite”. (2) Quantitativamente, entre 1968 e 1972, o número de obras em 1.ª edição registadas na BN mantém-se sempre acima dos cinco milhares por ano, ultrapassando mesmo a marca dos seis mil a partir de 1972 e até ao final da década. (3)

As atribulações, talvez poéticas, talvez pessoais, da Luísa [sic], têm-lhe feito protelar dia a dia as notícias que sobre o assunto ela queria dar. Como sou muito intranquilo, ansioso e apressado, pedi-lhe que permitisse ser eu a escrever-lhe.”

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Os acontecimentos de Maio de 1968 em Paris e, depois, a “primavera” marcelista tinham sido os catalisadores de um “forte incremento” da actividade editorial em Portugal, em particular “de livros de carácter político, com destaque para obras vinculadas ao pensamento de esquerda” (4), resultando não apenas no aparecimento de algumas novas editoras (até no Porto de Ribeiro de Mello, onde José da Cruz Santos funda em 1968 a bem sucedida Inova e, em 1971, a Afrontamento começa a despontar como uma referência) como na “politização” dos catálogos de algumas editoras já existentes.
Neste contexto de uma certa radicalização dos catálogos e de uma maior consciência política dos novos editores, como era vista a Afrodite, cujo editor, apesar de ter apenas 30 anos, tinha já quase dez anos de actividade, três dos quais ainda sob o governo de Salazar? João Carlos Alvim, o amigo de Fernando Ribeiro de Mello que, com José Antunes Ribeiro, fundará a Assírio & Alvim em Novembro de 1972 (que no ano seguinte publicará de uma autora de referência da Afrodite na década anterior, Maria Alberta Menéres, um dos seus livros mais populares, O Poeta Faz-se Aos 10 Anos) dá uma resposta:

“Para o que nós queríamos fazer, a Afrodite não era uma referência importante. A Assírio & Alvim nasceu sobretudo como um projecto de editora política de intervenção, só aos poucos foi adquirindo um cariz mais literário. As nossas referências seriam, na época, a Afrontamento – que estava igualmente a nascer por essa altura – a Centelha, a Prelo, a Seara Nova (bem como a equipa da revista Análise Social). E do lado espanhol os Cuadernos para el Diálogo e a Seix Barral. Ou em França a Maspero”. (5)

François Maspero (que, além da editora em seu nome, geria a famosa livraria “La Joie de Lire”, no Quartier Latin de Paris), pelo seu catálogo mais combativo politicamente ao longo dos anos 60, era agora o modelo para um aspirante a editor no início da nova década, o mesmo tipo modelo que Pauvert fora dez anos antes: este estava próximo da falência (um prémio Goncourt para um dos seus autores em 1972 apenas adiou a fusão da sua editora na Hachette) e os outros grandes modelos da edição “marginal” desde os anos 50, Girodias e Losfeld, saíam lentamente de cena. Não sendo propriamente o exemplo de uma editora “política” ou politizada, a Afrodite prepara-se contudo para acrescentar ao seu catálogo em 1972, na colecção de Ensaios/Documentos, o título que informara grande parte dos protestos de Maio de 1968 em Paris e os anos de ressaca depois dos mesmos. Nascida de um interesse manifestado pelo próprio editor ainda em 1970, a primeira edição portuguesa de A Sociedade do Espectáculo de Guy Debord (a quarta mundial, depois das edições italiana, norte-americana e dinamarquesa) desenrola-se, ao longo de 1971, no ritmo lento de uma correspondência entre Lisboa e Paris que envolve o editor, o tradutor Francisco Alves e o autor, complementada com a vinda a Lisboa de Gianfranco Sanguinetti, companheiro de Debord na Internacional Situacionista, que traz (num Bentley azul e branco, modelo Mark VI de 1951) (6) o manuscrito da tradução e Afonso Monteiro, que fizera a revisão da mesma. Numa carta de Alves ao editor, datada de 9 de Fevereiro de 1971, aquele confessava já alguma ansiedade por saber se, “nove meses depois da manifestação do seu interesse”, Ribeiro de Mello ainda pretendia avançar com a edição, indicando ainda que “as mais vantajosas condições” lhe tinham sido concedidas para a mesma. (7)

“Quanto à capa, somos adeptos de um certo luxo clássico, de que a própria revista [a Internationale Situationiste, publicada de 1958 a 1969] ou a recente edição de Van Gennep são excelentes exemplos. Cor única, letras a preto. O branco, o metálico-prata ou ouro, parecem excelentes.”


Seguir a correspondência entres os dois agentes principais desta “missão” é aqui de particular relevância para entender o modus operandi de Ribeiro de Mello e compreender como se via ele no papel de um pequeno editor semi-marginal. A 7 de Maio, em carta do editor a Francisco Alves, aquele indica claramente “a nossa amiga Luísa [sic] Neto Jorge” (poucos antes regressada de quase uma década em Paris) como a intermediária nos primeiros contactos, e que lhe teria perguntado se estaria interessado em publicar uma edição do título de Debord com a tradução do seu correspondente:

“Disse-lhe que sim. Que isso seria para mim do maior interesse, não só editorial mas também pessoal – aspecto da minha actividade sempre muito relevante.
As atribulações, talvez poéticas, talvez pessoais, da Luísa [sic], têm-lhe feito protelar dia a dia as notícias que sobre o assunto ela queria dar. Como sou muito intranquilo, ansioso e apressado, pedi-lhe que permitisse ser eu a escrever-lhe.”

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Capa da edição americana da Black & Red (1970)

Pela poetisa, Ribeiro de Mello teria ficado a saber que, sem qualquer inconveniente para Debord, “estaria dispensado do pagamento de direitos de autor” e que “poderia fazer a edição (tal como a americana) clandestina”. De facto, em 1970 aparecera uma edição da obra traduzida pelo anarquista Fredy Perlman e publicada “clandestinamente” (sem o pagamento de quaisquer direitos de autor) pela Black & Red de Detroit. A resposta do editor da Afrodite a ambas sugestões permite-nos ter uma rara e bem definida imagem não só do astuto negociante que ele era como do tipo de editor que ele sabia ou queria ou julgava ser:

“Quanto ao primeiro aspecto (direitos-dinheiro), óptimo, pois que sou um editor só não falido de prestígio e desprestígio, de simpatia e ódio, naqueles sectores brindados com o privilégio de usufruírem em Portugal a condição de intelectuais ou políticos – razão (dinheiros) porque sempre tenho fugido aos autores não caídos no domínio público; quanto ao segundo (clandestinidade da edição) não me serve, não só porque vivo muito do gozo público das edições que faço (e assim deixaria de ter gozo pelo desconhecimento da minha responsabilidade e participação nela), mas também porque penso que isso poderia constituir qualquer coisa de incoerente relativamente ao texto e até (em Portugal) desprestigiante”.

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Aproveitando a oferta de isenção de pagamento de direitos (uma raridade no negócio da edição), e conhecedor da mentalidade do mundo editorial português, avesso ao ferrete de “clandestinidade”, Ribeiro de Mello joga uma cartada arrojada, pedindo ao autor uma autorização escrita para uma edição “não-clandestina” mas que usufruísse dos mesmos “benefícios” financeiros de uma feita ilegalmente. Pedindo urgência da entrega da tradução (“paga a 20$00 à página dactilografada a 28 linhas”), ele limita-se aguardar, “intranquilo, ansioso e apressado”, por uma resposta. (8)
Como pedido, será o próprio Debord a dá-la, numa carta de 15 de Maio do mesmo ano:

“Je vous donne mon accord pour l’édition portugaise de mon livre La Société du Spectacle, à la seule condition que le texte publié soit exactement celui de la traduction que vous remettra mon ami Alves, sans aucune modification. J’ai moi-même collaboré à la vérification de cette traduction.
Je vous confirme que vous n’aurez pas à payer de droits de propriété littéraire. Je vous abandonne mes droits d’auteur.” (9)


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Esse gesto teria menos a ver com uma súbita generosidade de Debord do que com a consciência e o receio de que a apertada vigilância censória e policial em Portugal (acrescendo-se à história judicial do próprio editor) poderia impedir a publicação da edição (o facto de se ter desentendido, por essa altura, com a sua anterior editora francesa, a Buchet/Chastel, e de estar prestes a ser publicado pela Champ Libre de Gérard Lebovici não teria sido também despiciendo na sua decisão). Isso mesmo ele revelara numa carta 13 de Abril a Sanguinetti: “Tous les amis au Portugal sont en prison. Comme tu penses, l’éditeur portugais de mon livre n’est plus en état de l’éditer.” (10)

“A colecção tem as suas características, forçosamente constantes (como todas as colecções), mas que, por sinal, julgo absolutamente de acordo com os desejos e gosto de Guy Debord”


Pedindo ao correspondente português para, em virtude do seu mau francês, agradecer por ele ao autor a generosa “oferta”, Ribeiro de Mello responde, comprometendo-se a publicar “rigorosa e fielmente” a tradução que lhe for enviada. (11)A resposta de Alves é particularmente curiosa quantos aos detalhes financeiros (recusando, também ele, um pagamento em dinheiro, preferindo-o antes no “equivalente número de exemplares”) e gráficos da produção da edição:

“Quanto à capa, somos adeptos de um certo luxo clássico, de que a própria revista [a Internationale Situationiste, publicada de 1958 a 1969] ou a recente edição de Van Gennep são excelentes exemplos. Cor única, letras a preto. O branco, o metálico-prata ou ouro, parecem excelentes.” (12)

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Capa do segundo número do boletim da IS Internationale Situationniste (Dezembro de 1958)

Quando Ribeiro de Mello responde, já em Novembro, é para comunicar o iminente envio das provas da edição para revisão e o facto de que A Sociedade do Espectáculo será o segundo título da nova colecção de ensaios, logo após o Anti-Duhring, que ele apresentaria, dali a uns dias, na célebre “banheira” (ainda que, nesta carta, e por razões óbvias, tenha mantido o secretismo quanto ao plano desse arrojado lançamento). Quanto às sugestões gráficas para a capa, o editor mistura o realismo com a habitual pitada de orgulhoso optimismo:

“A colecção tem as suas características, forçosamente constantes (como todas as colecções), mas que, por sinal, julgo absolutamente de acordo com os desejos e gosto de Guy Debord. De resto, e particularmente no que diz respeito a ‘um certo luxo clássico’, defendo que esta minha nova colecção se afirmará por uma eficiência de bom gosto e funcionalidade pouco comum e verdadeiramente exemplar – e isto, com o maior à-vontade, refere-se não só a estes lavabos turísticos da Europa. Seja como for, resta-me a certeza de que como retribuição à simpatia do autor Guy Debord, vou fazer melhor do que seja quem for (que se conheça) faria aqui.” (13)


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A única “nódoa” na satisfação de Debord com esta edição terá sido ver a imagem do seu rosto em alto contraste multiplicada na folha de rosto – solução gráfica que Marques de Abreu aplicara já no primeiro livro da colecção ao rosto de Engels – algo que, segundo Francisco Alves, lhe provocou um acesso de ira que quase o fez enviar uma carta de reclamação ao editor.


“Fernando de Bentley” (nome secreto pelo qual o editor português era referido na correspondência de Debord, numa referência ao Bentley que Sanguinetti conduzira até Portugal) acabaria por conseguir publicar a sua edição do livro, certamente durante o primeiro trimestre de 1972 (pouco tempo antes, portanto, do anúncio público da “cisão” da Internacional Situacionista, ocorrida em Maio): numa carta a Sanguinetti de Abril desse ano, o autor admite ter visto provas corrigidas da mesma. (14) O que começara como um projecto de “tesão” (15) para o jovem estudante universitário Francisco Alves acabara no que Debord consideraria uma das melhores edições estrangeiras e na melhor tradução do seu texto, a par da dinamarquesa (16) (a única “nódoa” nessa satisfação terá sido ver a imagem do seu rosto em alto contraste multiplicada na folha de rosto – solução gráfica que Marques de Abreu aplicara já no primeiro livro da colecção ao rosto de Engels – algo que, segundo Francisco Alves, lhe provocou um acesso de ira que quase o fez enviar uma carta de reclamação ao editor). De apresentação gráfica discreta (apesar do fundo prateado da capa, eco das sugestões de Debord via Alves), sem os arrojos de composição de texto do primeiro volume da colecção mas também, é certo, sem conseguir um equilíbrio harmónico entre o esquema gráfico dessa colecção e o que o autor pretenderia, A Sociedade do Espectáculo não mereceu a proibição que caíra sobre a edição de Engels: apesar de identificar o autor como “um marxista francês” e de admitir que “em princípio seria um livro para proibir” pela sua “crítica do capitalismo” e pelo “elogio da revolução”, o censor Lima de Carvalho, na sua ficha de leitura de 6 de Junho, considerava que, pela sua “abordagem difícil”, se tratava de um livro acessível apenas a uma elite intelectual, propondo apenas restrições à sua divulgação em vez da apreensão. (17) Esta recepção “morna” da censura parece ter-se reflectido nas vendas, que terão sido lentas até à Revolução de Abril de 1974, após o que a edição se esgota em poucos dias. (18)

NOTAS:
1. António Abreu, cit. in SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. (Tese de Doutoramento) São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013, p. 75.
2. José Reis, cit. in SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Idem, ibidem.
3. SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Op. cit., p. 44.
4. SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Op. cit., p. 36.
5. Entrevista por email, 12.08.2014.
6. RAMALHO, Maria. Realizar a Poesia – Guy Debord e a Revolução de Abril. Punkto (revista online).
7. Carta de Francisco Alves a Fernando Ribeiro de Mello, 09.02.1971. Arquivo da PIDE/DGS (Serviços Centrais), Torre do Tombo: CI (2) 550/74 NT – 7881, fl. 19 (processo 2215/58-SR).
8. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 07.05.1971. Arquivo de Francisco Alves.
9. Carta de Guy Debord a Fernando Ribeiro de Mello, 15.05.1971 (cópia). Arquivo de Francisco Alves. (Cf. DEBORD, Guy. Corréspondance. Vol. IV. Paris: Arthème Fayard, 2004 – também disponível aqui).
10. DEBORD, Guy. Op. Cit.
11. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 07.06.1971. Arquivo de Francisco Alves.
12. Carta de Francisco Alves a Fernando Ribeiro de Mello, 28.06.1971. Arquivo de Francisco Alves.
13. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 20.11.1971. Arquivo de Francisco Alves.
14. Carta de Guy Debord a Gianfranco Sanguinetti, 18.04.1972, in DEBORD, Guy. Op. Cit.
15. Conversa telefónica com Francisco Alves, 27.11.2014.
16. DEBORD, Guy. Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo. Prefácio à quinta edição italiana de A Sociedade do Espectáculo. Lisboa: mobilis in mobile, 1995, p. 111.
17. Relatório 793/72 de 08.06.1972. Arquivo do Secretariado Nacional de Informação – Direcção dos Serviços de Censura, Torre do Tombo (PT-TT-SNI-DSC-13-8_m0352).
18. Carta de Guy Debord a Afonso Monteiro, 12.06.1974 (in RAMALHO, Maria. Op. cit.).

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Verão gélido

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A 1 Abril de 1964 um golpe de Estado destituiu o governo democraticamente eleito de João Goulart, o presidente do Brasil. Poderia ser uma “partida” do dia das mentiras: afinal de contas, um dos principais golpistas chamava-se Kruel (o fiel ministro de guerra, general Amaury Kruel, que, como faria Pinochet dez anos depois, traiu o estadista que o promovera e que caninamente servia). Mas, apesar dos nomes de opereta, o golpe deu início à mais longa ditadura militar da América do Sul e uma das mais repressivas, pondo fim a um período de prosperidade e optimismo desde meados da década de 1950, os “anos dourados” brasileiros (identificados, sobretudo, com a presidência de Juscelino Kubitchek). Perante uma viragem “à esquerda” do governo de Goulart – que sucedera a Jânio Quadros em 1961 – os Estados Unidos, receosos dos contágios revolucionários depois de Cuba em 1959, financiaram o golpe, marcando o início de uma política de intervenções mais ou menos directas em sucessivos golpes militares na região nas duas décadas que se seguiram.

Membro do Partido Comunista brasileiro, o editor Ênio Silveira, director da Civilização Brasileira, tornou-se imediatamente num dos alvos mais frequentes da repressão das novas autoridades. Apesar dessa filiação política, o editor conseguira manter o seu catálogo longe da linha mais dogmática do partido, tanto no ensaio (publicando obras de marxistas heterodoxos junto com a edição integral d’O Capital) como na ficção (publicando os “perigosos” Amante de Lady Chatterley e, sobretudo, Lolita). Esta lufada de ar fresco e arrojo teve uma apropriada alavanca gráfica na aportação de Eugenio Hirsch, um austríaco que, com 16 anos, fugira da Europa para a Argentina em 1939, e que em 1955 voltara a ter de fugir de agitações políticas – o golpe de Estado que depôs Juan Peron – dessa feita para o Brasil. As capas que compôs nesses dez anos de colaboração (colocadas “sempre a serviço do impacto visual” e viabilizadas “pela liberdade sem precedentes garantida pelo editor Ênio Silveira”, como escreveu Chico Homem de Melo em O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60) são justamente consideradas como catalizadoras de uma revolução no grafismo editorial brasileiro, tão decisiva para a história do mesmo como essa outra revolução em 1964 seria para a história do Brasil.

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Não é, pois, difícil ler nesta sombria capa para o romance Antes o Verão de Carlos Heitor Cony (um dos novos romancistas brasileiros de então), publicado em Junho de 1964, mais do que apenas a neutra tradução visual da corrosão de um casamento da média-alta burguesia, acelerada pela força dos elementos sobre uma idílica casa de praia recém-construída (o vento inclemente, a areia e o sal que invadem todos os cantos) e (lembrando Muerte de Un Ciclista, o filme de Juan Antonio Bardem de 1955) pelo trágico atropelamento de um habitante local. O preto que impera na capa (cortado apenas por um pequeno detalhe vermelho que faz a vez do til na palavra “verão”), o título composto sobre tiras de papel branco cortadas/rasgadas e até o olhar inquietante da figura feminina nua, tratada em alto contraste (com um rosto que lembra o de uma personagem do teatro kabuki), são óbvios sinais de uma malaise que extravasava a situação conjugal dos protagonistas: o Brasil solar e optimista dos dez anos anteriores estava agora envolto em negrume. Até o erotismo elegante e algo estilizado, uma das marcas de Hirsch e que ele impusera em algumas capas de importantes edições da Civilização Brasileira (como, em 1959, esse célebre “bumbum” de Lady Chatterley, correndo nua pela floresta e vista pelos olhos do amante que a persegue – “o primeiro bumbum feminino em capa de livro brasileiro”, como comentou com orgulho muitos anos mais tarde, em 1991, à revista Design & Interiores – ou a ainda mais estilizada adolescente da capa de Lolita) parece aqui deixado de parte em benefício de um impacto mais duro, mais agressivo. Se tomarmos pelo seu valor facial a frase de Hirsch (que, em 1967, abria um artigo na revista Realidade sobre o grafismo editorial brasileiro) segundo a qual “uma capa é feita para agredir, não para agradar”, então esta capa de Antes o Verão é a sua perfeita ilustração.

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Se a chegada dos militares da linha dura foi o pretexto para mais uma emigração de Hirsch, o erotismo foi precisamente a via de saída: em Dezembro de 1965 publica na Playboy um bizarro portefólio fotográfico, The Lass Menagerie. Segue-se mais de uma década em Espanha, antes de regressar ao Brasil no início dos anos de 1980 (onde a sua figura de “excêntrico” carioca adoptivo desde a década de 1950 – “os próprios excêntricos o achavam excêntrico” – seria fixada em Ela é Carioca, a “enciclopédia de Ipanema” de Ruy Castro de 1999, dois anos antes da sua morte). Para Ênio Silveira, porém, a contestação desde a primeira hora ao novo regime militar (cf. crónica “O Manifesto dos Intelectuais” do mesmo Heitor Cony, publicada no Correio da Manhã do Rio de Janeiro e, depois, reunida com as restantes crónicas desses dias de brasa em O Ato e o Fato, uma edição da inevitável Civilização Brasileira do mesmo mês em que lançaria Antes o Verão), valer-lhe-ia a contínua perseguição pelas novas autoridades: preso sete vezes, verá a editora começar a vergar financeiramente em 1966, fruto da censura e das apreensões de livros, e a livraria da Civilização Brasileira do Rio de Janeiro ser alvo de um atentado bombista em 1968.

“Ao chegar ao local, Ênio assustou-se com um amontoado de cabeças decepadas, cerca de cinquenta, que encontrou à porta. Só olhando de perto pôde notar que eram perucas de uma loja que ficava em frente à livraria e que também fora atingida pela explosão.” (Maria Celeste Mira, “A Coragem de Ênio Silveira” in Momentos do Livro no Brasil, p. 126).

Esse Verão gélido, hostil e surreal de 1964 viera para ficar.

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“À coups de ciseaux magiques”

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Em 2002, no seu livro autobiográfico Les Abeilles et la Guêpe (Seuil), o outrora editor François Maspero recordou uma efémera colaboração com Roman Cieslewicz:

“Et comment faire revivre le rire à la fois clair et grinçant de Roman Cieslewicz qui me fit, dans les dernières années, presque gratuitement, les plus belles couvertures de livres? Roman avait le don de saisir d’emblée l’atmosphère d’un texte et, à coups de ciseaux magiques, il faisait naître l’illustration qui la traduisait.
Ainsi pour La Pologne: une société en dissidence, où, dans la clarté d’un croissant de lune, le visage d’un Staline jeune et souriant, droit sorti du Maître et Marguerite de Boulgakov ou du Chat noir de Boulat Okoudjava, planait au-dessus d’une famille éplorée, gravure de la fin du XVIIIe siècle qui évoquait un départ pour les cachots de la Terreur. Ou pour Le rétablissement de l’ordre de Milan Simecka, ou l’immensité rouge s’abattait sur un mouton esseulé.
Roman me disait: ‘François, un jour que j’aurai le temps je te referai toute la typographie de tes éditions. Ça vaudrait la peine de remettre de l’ordre dans ce capharnaüm’. C’est vrai, ça aurait valu la peine. Ça vaudrait surtout la peine d’être encore avec lui autour de la grande table de sa maison de Malakoff et d’entendre encore pour de bon son rire, se moquant de tout, des Polonais et des Français, de moi, de lui, de nous tous. Rire énorme, a la fois grinçant et affectueux, rire héroïquement attaché a la vie qui reste dans ma mémoire comme l’écho infiniment répété de ce que j’appelle ‘les charges de la cavalerie polonaise’, pour lesquelles je garderai toujours une infinie tendresse.” (citado a partir de Roman Cieslewicz, Calmels Cohen, 2006, p. 11).

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Num curto filme emitido na televisão francesa em 1978, é possível ver-se Cieslewicz a compor a colagem que serviu de capa ao livro La Pologne: une société en dissidence. As capas dos livros de Simecka e Gunther Wallraff são, respectivamente, de 1979 e 1978.

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Era uma vez uma pequena editora chamada Pantheon…

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Que seja apenas uma pequena livraria independente de Lisboa, a Letra Livre, a publicar por cá este texto essencial é a imagem precisa da patologia diagnosticada por Schiffrin. Num mercado editorial nacional mergulhado em crise profunda – crise não meramente financeira, ou em que esta reflecte outras carências a montante e a jusante – foi preciso alguém “à margem” para dar à estampa um texto onde se explicam as razões dessas mesmas crises do sector.

Apesar dos mais de dez anos que distam da primeira edição deste texto seminal (na versão francesa em 1999 – e com um título que se tornou num slogan de protesto: “a edição sem editores” – pelas edições La Fabrique, e na versão inglesa em 2000 pela Verso, a partir da qual a tradução de Octávio Lemos e Rui Lopo foi produzida, e em versão – respire-se fundo – não “Acordada”), este Negócio dos Livros de André Schiffrin aparece apenas cinco anos depois do boom das aquisições de editoras independentes portuguesas por parte de grupos financeiros e de media, resultando no panorama que hoje caracteriza a edição e a venda de livros em Portugal. Sendo esta, na sua parte mais dramática, uma história americana da década de 1980, soará, para um leitor português atento ao fenómeno, a coisa muito próxima, chegando até na precisa altura em que se vão conhecendo alguns lamentos vindos de editores que venderam as suas “casas” a esses grandes grupos. Por via da globalização fulminante destes últimos vinte anos, esta é já também uma história portuguesa.

O autor é filho de Jacques Schiffrin, que em 1923 fundou as Éditions de la Pléiade, e cuja “Bibliothèque” vendeu à Gallimard, passando a trabalhar para a grande editora francesa. A guerra e a vergonha da ocupação nazi (e um vergonhoso despedimento da Gallimard) fizeram-no fugir e engrossar o grupo de expatriados judeus europeus em Nova Iorque, cidade onde se estabeleceu e fundou a Pantheon.

Esta riquíssima história de duas gerações de editores é coberta com detalhe e, no caso do seu pai, com algum desejo de justiça a um editor esquecido (e Schiffrin não é meigo com a Gallimard). O episódio paterno – marcado pelo tema da confiança numa grande empresa e da “traição” final desta – dá o mote sombrio à narrativa a partir dos anos 80, quando o subtítulo (“como os grandes grupos económicos decidem o que lemos”) começa a fazer sentido. Vendida pelo seu pai à Random House em 1961, a Pantheon – que nesse ano contratou André Schiffrin como director editorial, vindo da New American Library, o braço americano da Penguin – viu-se de novo engolida na voracidade corporativa em 1980, quando o grupo Random (entretanto comprado pela multinacional RCA) foi adquirido pelo magnata S. I. Newhouse, que prometeu, contudo, manter a integridade editorial de cada uma das chancelas. Cedo se viu que estava a mentir. É a partir deste ponto que o livro faz um zoom vertiginoso da big picture para o detalhe íntimo e a tensão quotidiana de viver sob o jugo de “alguém com a pose de um rufia, que passasse logo à acção e que não tivesse medo de fazer o necessário para obter a maior quantidade de dinheiro possível” (p. 111). O “rufia” em questão foi Alberto Vitale, que Newhouse trouxe para dirigir o grupo Random e transformá-lo num produtor de best-sellers. A edição de livros passava a ser equiparada à edição de discos: o objectivo era produzir para os tops e em massa.

Vitale foi apresentado por Newhouse como um homem de cultura e de sensibilidade, uma caracterização que depressa ficaria comprometida pelo próprio, que dizia estar demasiado ocupado para ler um livro (embora tenha acabado por aceder a ler os livros de Judith Krantz, a autora de romances com mais vendas da Crown). Num arranha-céus onde quase todos os escritórios estavam forrados com livros, o de Vitale oferecia um forte contraste. Nem um único livro podia ser visto nas suas prateleiras e as fotografias em exibição não eram de autores, mas do seu iate.
Conheci Vitale na luxuosa moradia de Newhouse em East Side. Ele cumprimentou-me com as seguintes palavras: ‘Ah, a Pantheon,de onde vêm todos aqueles livros maravilhosos!’ O que eu na altura interpretei como elogio era, na verdade, uma acusação.
[…] Houve uma reunião decisiva em Janeiro, na qual se provou a distância que existia entre nós. Vitale consultava a lista dos livros que iriam sair na Primavera de 1990, catálogo de que estávamos particularmente orgulhosos. ‘Quem é este Claude Simon?’, perguntou com desprezo, nunca tendo, sem dúvida, ouvido falar do romancista premiado com o Nobel. ‘E este Carlo Ginzburg?’, provavelmente o mais renomado historiador italiano. Então reparei no seguinte: Vitale lia primeiro o lado direito de cada página, em que estavam referidas as tiragens, e só então passava ao outro lado, em que vinham listados os intrigantes títulos das obras. Para ele, era como se fôssemos sapateiros a produzir calçado demasiado pequeno para a maior parte dos clientes. ‘Que sentido tem editar livros com tiragens tão reduzidas?’, perguntou, gritando. Não tínhamos vergonha?” (pp.112-114)

Trata-se, como podemos intuir, de uma história que acaba mal para o editor da Pantheon (e das muitas outras “Pantheons” por esse mundo fora), mas que, pela qualidade da prosa em que nos é contada, tem o condão de abrir avenidas de compreensão meticulosa de algo de que a maioria dos leitores tem apenas um conhecimento superficial ou – será essa a esperança de quem move os cordelinhos deste complexo emaranhado de fusões – desconhece na sua totalidade. Poder-se-ia arriscar e afirmar que este livro tem, para o mundo da edição, a mesma importância que No Logo de Naomi Klein teve na discussão e análise da nossa cultura mercantil globalizada na última década, com uma vantagem óbvia: Schiffrin foi um dos agentes e actores desse mundo, é uma das personagens desta história, é sua a vida que estas páginas trazem. A sua capacidade de associação conceptual e reflexão é outro dos trunfos deste texto, em particular a ideia de que “o fim da Guerra Fria não teve um efeito intelectual benéfico sobre o mercado editorial” (p. 22), substituindo a curiosidade pelo “outro”, pelo “estranho”, e uma crença nos benefícios da democracia por uma nova divindade monolítica e “apolítica” e uma nova fé: o mercado globalizante e tudo-conquistador e o lucro máximo, pelos quais os grandes grupos editoriais parecem modelar o seu ethos. Secundado posteriormente em ensaios como o So Many Books de Gabriel Zaid (a edição original, Los demasiados libros, é de 1996, mas a tradução inglesa foi publicada em 2003), está também a proposição (devidamente documentada) de que o aumento da quantidade não veio aumentar, em razão directa, a qualidade e, sobretudo, a diversidade da oferta, antes pelo contrário, sendo as comparações com a situação do mercado editorial americano no século XIX ou de meados do século XX deveras esclarecedoras.

Na década de 40, a edição da New York Times Book Review tinha, em média, 64 páginas, o dobro do tamanho da actual edição de domingo. Centenas de editoras tinham os seus livros publicitados e recenseados nessas páginas. A infra-estrutura das pequenas editoras, livrarias e clubes do livro que existia nos anos 40 era capaz de alcançar um público efectivamente muito vasto. As alterações das décadas recentes não foram motivadas pela necessidade de uma maior eficiência ou eficácia. Elas ocorreram devido a uma alteração de propriedade e de objectivos.” (p. 24)

Uma das inúmeras discussões que este texto suscita também, e necessariamente, é a que deve ser feita em torno da agonia da publicação de não-ficção, de uma certa não-ficção que não aponte ao consumo imediato dos tops e não alimente ou derive dos géneros “populares”, como os livros de auto-ajuda ou as biografias “autorizadas” de vedetas dos media ou da alta finança (algumas das “pepitas” do catálogo da Pantheon eram autores como Foucault, Chomsky ou o historiador americano Studs Terkel, pelo que o autor escreve com absoluta propriedade no que a este campo diz respeito). Essa agonia estende-se, escusado será dizê-lo, à crítica de não-ficção na imprensa especializada ou nos suplementos, ou melhor – dado que já não há “suplementos” propriamente ditos – nas duas ou três páginas dedicadas aos livros dos diários e semanários, que se vêem ocupadas pela febre da recensão da nova ficção que vai sendo publicada em catadupa e onde se deposita o grosso do investimento em marketing das editoras ou grupos editoriais.

Que seja apenas uma pequena livraria independente de Lisboa, a Letra Livre, a publicar por cá este texto essencial é a imagem precisa da patologia diagnosticada por Schiffrin. Num mercado editorial nacional mergulhado em crise profunda – crise não meramente financeira, ou em que esta reflecte outras carências a montante e a jusante – foi preciso alguém “à margem” para dar à estampa um texto onde se explicam as razões dessas mesmas crises do sector. Passar a estar à margem (e mesmo estar “contra”) é precisamente uma das soluções radicais que o autor aponta (e cumpre, ao ter fundado a editora “non profit” New Press), e aqui o “intróito breve” de Vitor Silva Tavares tem encaixe perfeito (ainda assim, fica-se a pensar no que poderiam escrever sobre o assunto, por exemplo, um Nelson de Matos ou um Carlos da Veiga Ferreira). Ficar à margem deste texto é que será totalmente incompreensível.

Pedro Piedade Marques
Maio de 2013

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Fernando Guedes: discreto lamento pelo fim de uma era

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Uma nova e louvável colecção de livros-entrevista apresenta-se com este volume dedicado a Fernando Guedes. Apesar de uma incompreensível pobreza do aparato visual e alguma tibieza na condução da entrevista, há motivos para esperar mais e melhor.*

A desoladora e empoeirada estante dos livros sobre a história da edição portuguesa do século XX parece assistir a algum movimento que não seja o do espanador. Nestes dois últimos anos, foram lançados outros tantos volumes que, ainda que de forma desigual, cobrem a história de sete décadas de labor no mercado editorial nacional. A colecção de pequenos livros-entrevista dedicados a “protagonistas da edição” que a Booktailors agora anuncia, através da publicação deste volume dedicado a Fernando Guedes, poderá ser mais um passo no preenchimento dessa estante.

Das figuras da época “heróica” da edição nacional, Fernando Guedes é, para além de um indiscutível “decano” pela sua longevidade, uma figura incontornável: a Verbo, de que foi co-fundador em 1958, foi durante mais de duas décadas uma marca de excelência na publicação de grandes projectos, como as sucessivas enciclopédias, e uma astuta e presciente exploração das potencialidade do então novo meio televisivo fê-lo acertar no jackpot com os livros de culinária de Maria de Lurdes Modesto e, em especial, a colecção de “Livros RTP”, fazendo com que, em 1970, uma novela oitocentista (Maria Moisés de Camilo) se transformasse num bestseller histórico. Começar esta colecção com este editor é, pois, plenamente acertado.

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Exemplar do primeiro número da colecção “Livros RTP” da Verbo, Maria Moisés de Camilo Castelo Branco, lançado em Novembro de 1970 e um sucesso de vendas imediato. Ao lado, anúncio de imprensa da colecção. Em baixo: as guardas dos livros (o design da colecção foi de Sebastião Rodrigues).

Infelizmente o pequeníssimo volume parece não conseguir conter o potencial de riqueza do seu objecto de estudo, tão mais rico quanto é sabido que Fernando Guedes é também um autor prolífico, com obra na investigação sobre a história do comércio livreiro e na escrita autobiográfica (o seu O Livro como Tema, de 2001, é, no que toca à Verbo, matéria de consulta obrigatória; em vez, ou para além de uma “Cronologia”, teria sido bem mais útil uma Bibliografia completa dos livros e artigos publicados pelo autor). Uma das mais notórias lacunas desta edição é o aparato visual: um editor que foi amigo e colaborador de gente como Fernando Lanhas ou Sebastião Rodrigues não merece aqui mais do que uma interminável galeria de fotos com presidentes (de Américo Thomaz a Cavaco Silva), ministros e reitores. Nem uma capa, ou a amostra de uma campanha de imprensa, ou um frame de um dos históricos anúncios da Verbo na RTP. Na página 23, o entrevistado descreve com detalhe o primeiro logo da sua editora, que ele mesmo desenhou, sem que uma única amostra se possa ver. O crédito do editor nesta frente era, aliás, tão elevado que em 1970 fez parte do “conselho consultivo” do número de arranque da revista Gráfica 70, junto a nomes como os de (para além do já citado Sebastião Rodrigues) João Abel Manta, Daciano Costa e Luís Filipe de Abreu, revista essa que ainda hoje é considerada como uma da mais distintas referências na curta história da imprensa especializada em design no nosso país (cf. texto de José Bártolo no último número da PLI). Nada disto, contudo, se reflecte nestas páginas.

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Conselho consultivo da revista Gráfica 70 (número 1, 1970), onde Fernando Guedes aparece ao lado de Daciano Costa, João Abel Manta, Luís Filipe de Abreu e Sebastião Rodrigues.

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Iniciada em 1963, a colecção de livros dedicada à arte popular em Portugal foi uma das colaborações mais marcantes de Fernando Lanhas (que dirigiu graficamente a colecção) com a Verbo.

Quanto ao texto, e sendo este, em essência e estilo, não mais do que uma longa entrevista de revista dominical, é inevitável alguma “maciez” da entrevistadora e um tom geral de bonomia, o que se torna algo incómodo quando o assunto é, por exemplo, a revista Tempo Presente, órgão de um núcleo de intelectuais de extrema-direita que procuravam uma revitalização teórica da ideologia fascista, e que Guedes dirigiu já depois de fundar a Verbo. Este ponto complexo – essencial para definir de que forma o editor e o seu projecto se posicionavam face à “situação” – não merece aqui mais do que uma pergunta e uma resposta ligeira (“à direita não havia só burros e até se podia fazer oposição ao regime”, p. 55), mas tem exemplar e aprofundado tratamento no já imprescindível Edição e Editores de Nuno Medeiros, para o qual se remetem os leitores mais ávidos, sobretudo na questão das afinidades e ligações entre o corpo redactorial da revista (que, segundo Medeiros, “terá consubstanciado o esteio de um certo revigoramento intelectual da direita radical portuguesa, fundamentando um sentido político neofascista”) e o núcleo de colaboradores da Verbo (cf. Edição e Editores, pp. 210-223).

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Catálogo da Verbo para o biénio 1969/70, que incluía o anúncio da edição dos discursos de Marcello Caetano “proferidos durante o primeiro ano de governo” (fonte: Loja da Esquina).

A questão da censura e da perseguição aos livros “heterodoxos” em Portugal durante os anos 60 e 70 – pesado fardo que caía sobre a grande maioria das suas concorrentes e do qual a Verbo esteve livre – é praticamente omitida. O tema aflora apenas, e de uma forma mais genérica, quando Fernando Guedes se refere às suas dificuldades, como dirigente da União Internacional de Editores, na discussão com as autoridades chinesas sobre… a censura (p. 39, uma “deixa” prenhe de ironia que escapa, contudo, à entrevistadora, perdendo-se essa oportunidade de abordar o delicado assunto da perseguição à edição sob Salazar e Caetano). Até quando Guedes se refere a Figueiredo de Magalhães, o fundador da Ulisseia (comprada pela Verbo em 1972) como um “mau gestor” (p. 74), se perde a chance de o confrontar com o facto de que, para além da possibilidade de má gestão, a Ulisseia tinha sido dizimada pela perseguição da PIDE na década precedente, com inúmeros títulos proibidos.

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À parte umas bem curiosas anedotas (como a da ida à Bélgica para comprar os direitos dos livros da série Anita, ou a da inclusão das obras de Ferreira de Castro na “Colecção RTP”), o livro brilha, sobretudo, por dois temas de absoluta actualidade: o Brasil e os “grupos editoriais”. Com observações pertinentes e sábios avisos à navegação, baseados numa longa experiência in loco, sobre a dificuldade de uma aventura editorial brasileira (e sem uma única pergunta, ali pelo meio, sobre o Acordo Ortográfico e a sua articulação com a edição de livros, perdendo-se antes tempo com a insonsa questão do “livro digital”), é a franqueza de Guedes quanto à sua desilusão pelo que a Babel tem feito (ou não tem feito) com a Verbo que dá a este livro uma pungente qualidade elegíaca, de elegante e discreto lamento pelo fim de uma era. Demasiado brando e superficial para acrescentar algo de muito substancial ao que já foi publicado sobre e por Fernando Guedes, este livrinho tem pelo menos o condão de conter um honestíssimo e directo desabafo de um dos grandes editores portugueses no rescaldo das aquisições destes últimos quatro anos. “Acho que a Verbo merecia ter uma vida mais brilhante”, afirma ele na página 89. E quem poderá discordar?

*versão mais longa de um texto proposto à revista LER em Dezembro de 2012

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