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Recorte e costura

Amostra da recensão de José Mário Silva à edição Montag  A Técnica do Golpe Literário, publicada no suplemento “A(c)tual” do semanário EXPRESSO no passado dia 5 de Julho.

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Os livros dos mil dias

Andam, quase literalmente, aos pontapés. Encontram-se por essas feiras de velharias, no chão, ou em cantos esquecidos das lojas de alfarrabistas, entre antigos almanaques e revistas, nalguns casos ao preço da chuva, o preço de quem faz um favor ao vendedor por livrá-lo de papel velho. Essa circunstância reflecte, creio, a sua quase invisibilidade e o seu pouco valor na (ainda incipiente, é certo) historiografia da edição e do design editorial destes últimos quarenta anos: desprovidos, na sua maioria, de uma marca autoral forte (ou de um designer de “nome” da ficha técnica), foram projectos montados “a quente” nos meses que se seguiram à Revolução de Abril de 1974, ou durante os três anos seguintes, em que a normalização democrática arrefeceu as paixões do PREC.

Tipologicamente, são difíceis de definir: nem livros de fotografia (ou “fotolivros”, categoria nobilitada historicamente na última década a partir da pesquisa bibliográfica de Martin Parr e Gerry Badger no projecto monumental The Photobook – a History), nem livros de registo (foto-)jornalístico, nem livros de reflexão política, sociológica ou historiográfica, nem meros repositórios de documentos, são um misto de tudo isso, caracterizados por uma certa embriaguez da urgência e do momento (sobretudo naqueles produzidos em 1974) e um nítido fascínio por uma nova iconografia nacional que eles, fixando-a e publicando-a, ajudaram também a impor.  (Uma excepção possível seria, por exemplo, Deus Pátria Autoridade, edição da Contraeditora de 1976, a que o design gráfico de José Brandão – um nome incontornável e referencial da prática profissional nesses anos – confere qualidades potencialmente “redentoras”, mas que, sendo não mais do que a publicação do guião do filme homónimo de Rui Simões de 1975, decidi manter fora desta selecção).

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Publicado em Junho de 1974, este Portugal Livre será, certamente, um dos melhores exemplos deste tipo de livros, tão mais extraordinário pela enorme quantidade de material fotográfico reproduzido e pelo contexto de escaldante pressão e euforia em que foi produzido. A qualidade das fotos estende-se ao design da capa (com a omnipresente combinação preto-e-vermelho em cor directa) e à folha de rosto, com um uso dramático da grotesca condensada do título e uma ficha técnica tipograficamente cuidada: sendo esta uma edição d‘O Século, é seguro presumir que Luís Filipe da Conceição e Vitorino Martins, os responsáveis pela maquete, a capa e a orientação gráfica, fossem colaboradores do jornal. A ficha técnica é, aliás, uma autêntica lista da nata do jornalismo escrito e da fotografia de imprensa portuguesa dos anos 70: aos textos de Adelino Gomes e Fernando Assis Pacheco juntam-se as fotos de Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha, Carlos Gil, Inácio Ludgero e outros. A paginação é clara e ritmada, evitando a acumulação de fotos por página e jogando com o contraste de escala, com spreads de enorme impacto. É uma espécie de “número especial” de revista, paginado como tal e dando primazia à narrativa e à legendagem informativa e sucinta, mas que a soberba qualidade das fotografias e a prosa requintada transportam a um nível superior, concedendo-lhe quase a intemporalidade de um “clássico”.

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Não é preciso olhar muito tempo para a capa de O Último Dia da Pide (1974) para pensarmos em Armando Alves e na Inova (o “Porto” do subtítulo ajudará também). Ainda que não seja uma edição da Inova (esta distribuiu-a, tendo a edição sido do Movimento Democrático do Porto) e que o nome de Armando Alves não apareça sequer indicado, tudo aqui – a tipografia da capa e sua composição, as badanas largas, as guardas em papel vermelho e a mesma cor no tratamento cuidado da folha de rosto, a ilustração na contra-capa – remete para a elegância de muitos dos livros da Inova e (a partir de 1978) da Oiro do Dia cujo design foi da sua responsabilidade. É, aliás, um livrinho tão elegante que quase nem parece ter sido produzido nesses meses de fornalha revolucionária. As fotos de António Amorim não são particularmente notáveis, limitando-se ao seu papel de documento visual da tomada da delegação da PIDE no Porto a 26 de Abril desse ano.

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Num momento delicado e crítico da sua carreira, vendo-se subitamente rodeado de múltipla e tenaz concorrência no seu nicho, dado o fim da censura, o editor Fernando Ribeiro de Mello arriscou também a sorte nesta onda de livros em torno dos dias da Revolução de Abril com este Último relatório sobre a situação geral do país do ex-Ministério do Interior para a ex-PIDE-DGS (1974), uma reprodução facsimilada do dito relatório acompanhada de algumas fotografias. É a montagem destas que dá personalidade a esta pequena edição, sobretudo o contraste entre algumas soluções visuais pouco elegantes e nitidamente influenciadas pelo calor do momento e a sofisticação de outras (como o excelente spread que coloca, lado a lado, a fotografia de uns óculos de aros grossos e severos e outra de duas mãos agrilhoadas). O recurso à suástica como símbolo identificador das figuras do regime deposto em 1974 é incomodamente profético: dois anos depois, a mal preparada edição do Mein Kampf pela Afrodite ditaria o esgotamento do capital de prestígio acumulado pelo editor  durante a última década da ditadura.

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Projecto inicial de uma editora de livros “interventivos” que o fotógrafo e publicitário Sérgio Guimarães lançou em 1978, a Mil Dias, Da Resistência à Libertação foi um álbum que funcionou como uma espécie de catálogo post-factum: na sua origem esteve uma exposição fotográfica patente no Mercado do Povo, em Lisboa, em comemoração do terceiro aniversário (daí o nome da editora?) da Revolução em 1977. Sérgio Guimarães é um caso tão curioso como fugaz na história da edição depois do 25 de Abril: aproveitando o fim da censura, tentou a publicação de banda desenhada erótica, à imagem de Eric Losfeld (cujo catálogo lhe serviu de guia), em edições cuidadas, chegando a publicar em 1976 a História de O adaptada por Guido Crepax (edição acompanhada da primeira publicação nacional do romance de Pauline Réage, ligando ambas edições através do design tipográfico das capas), o Fornicon de Tomi Ungerer e Lolly Strip de Pichard. O seu plano de se tornar o “Losfeld português” (publicando como “Edições Sérgio Guimarães”) gorou-se, e a Mil Dias, que poderia ter sido um recomeço, acabou por marcar o seu fim como editor: as dívidas arcadas com a montagem da exposição de 1977 e, certamente, com a produção deste álbum, terão sido o golpe de misericórdia. O seu nome está tão esquecido que nem na abrangente tese de Flammarion Maués Silva sobre a edição política em Portugal na década de 70 (Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80, São Paulo, 2013) se consegue encontrar mais do que uma listagem dos títulos da Mil Dias.
A sua marca mais duradoura parece ainda continuar a ser a foto da criança de cabelo encaracolado a enfiar um cravo no cano de uma G3, que correu mundo reproduzida em milhares de cartazes, e não é por acaso que é um tratamento gráfico dessa mesma imagem que aparece na capa deste álbum. Mais ambicioso do que o Portugal Livre no seu âmbito (uma crónica em imagens da história portuguesa da revolução republicana de 1910 ao 1.º de Maio de 1974), o resultado final é um volume visualmente menos homogéneo, em que a acumulação de imagens fotográficas e de outras fontes (documentos oficiais, páginas de jornais, cartoons, etc) e a ausência de imagens reproduzidas ao corte nos spreads (algo que abunda naquele álbum), por óbvia economia de meios, retiram algum impacto visual e concedem pouco espaço de respiração. Ainda assim, é um feito editorial notável tendo em conta a precária situação financeira do editor.

Apesar dessa falência anunciada, Sérgio Guimarães publicou pela Mil Dias ainda mais três livros profusamente ilustrados em torno da iconografia do PREC: Diário de uma revolução, O 25 de Abril visto pelas crianças e As paredes na Revolução (em baixo), todos em 1978. Este último é particularmente interessante (tendo até em conta o actual contexto de revitalização do muralismo político), servindo de registo visual dos murais que adornaram as paredes de algumas zonas da capital e, de resto, um pouco por todo o país, durante mais de uma década.

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Trata-se de um volume sem qualquer pretensão de análise estética ou sócio-politica dos murais (não há sequer legendas indicando a sua localização), limitando-se a reproduzir fotos dos mesmos em maior ou menor grau de detalhe (particularmente apelativas são as fotos que permitem ver o contexto mais alargado dos murais, quando articulados com janelas, portas, etc).

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Publicado dez anos depois da Revolução de Abril, como catálogo de um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, o que torna pertinente a inclusão deste volume nesta lista é a inevitável reflexão que, tanto os textos como o projecto gráfico de João Botelho e Luís Miguel Castro, acabam por fazer sobre a iconografia do PREC e a imagem fotográfica, mesmo que grande parte das imagens reproduzidas sejam fotogramas dos filmes exibidos ou mencionados. A referência à fotografia de imprensa, contudo, é ainda incontornável, até pelo recurso ao extremo aumento de alguns detalhes dessas imagens, impondo a trama de pontos do offset como elemento estético. Essa reflexão é articulada na “mesa redonda”, em que vários intervenientes (entre os quais o fotógrafo Jorge Molder e o cineasta Rui Simões) analisam a relação das imagens (fotográficas, cinematográficas, televisivas) da Revolução com o seu tempo. É precisamente Molder que dá um exemplo desse “arrefecimento” analítico que o recuo de dez anos permitia:

“De todas as imagens, aquela de que me recordo melhor é a de um poster com uma criança a pôr um cravo na espingarda de um militar. E era uma imagem de estúdio. Na altura isso fez-me confusão. Num momento em que tudo se passava na rua, enquanto as imagens tentavam captar a espontaneidade das pessoas e uma certa euforia, a imagem que para mim prevaleceu era cheia de tiques e, acho que isso é importante, era uma imagem de estúdio”. (25 Abril Imagens, Cinemateca Portuguesa, 1984, p. 10)

 

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Mil dias. Teria sido essa a distância precisa entre as ilusões revolucionárias e a definitiva desilusão, amparada pela “normalização democrática”? Numa cena perto do final de Ecce Bombo de Nanni Moretti (1978), Michelle (o jovem interpretado pelo próprio Moretti) vasculha os seus recortes de imprensa dos últimos anos, os restos dessas ilusões revolucionárias. Um desses recortes é precisamente sobre a revolução portuguesa. “Já não me dizem nada”, conclui. Quantos Michelles portugueses, por essa mesma altura, não terão dito o mesmo e lançado esses recortes, essas revistas, esses cartazes, esses livros para os cantos escuros dos alfarrabistas ou os caixotes das feiras de velharias onde ainda hoje repousam?

 

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Serviço

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A propósito do raríssimo acontecimento que foi a sétima exibição em mais de trinta anos do mixed media de Ernesto de Sousa Almada, um nome de guerra  (concebido entre 1969 e 1972, foi exibido pela primeira vez em 1979), no passado dia 13 na Cinemateca Portuguesa, lembrei-me de resgatar uma notável entrevista/reportagem de Vitor Silva Tavares para o Diário de Lisboa, publicada no “Suplemento Literário” de 24 de Abril de 1969 e que encontrei nas “escavações” que fiz tanto na Hemeroteca como no arquivo online do Diário de Lisboa para o meu projecto de monografia sobre Fernando Ribeiro de Mello. Feita durante a rodagem de algumas sequências no atelier de Almada Negreiros que aparecem no filme final (tal como a de Almada a folhear um jornal), é um pedaço notável de prosa e acaba por ser exactamente o que o subtítulo indica: a reportagem “entrou” de tal forma “na fita” que muitos excertos da conversa entre Silva Tavares, Ernesto de Sousa e Almada, registada pelo primeiro num gravador Sony (quem sabe, um destes), acabaram na trilha sonora do mixed media, pelo que estas duas páginas (e mais um pequeno resto na página 7 do Suplemento) têm o acrescido valor de serem quase como um guião aproximado de um projecto que, diga-se, parece ter sido feito para acolher e absorver estes cruzamentos e coincidências (o texto inclui mesmo “colagens” de excertos de um diário de rodagem mantido pelo “assistente” Carlos Gentil-Homem).

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O que se viu/ouviu na sala da Cinemateca foi um filme a preto-e-branco projectado sobre o centro do écrã da sala, com o som autónomo da imagem (obviamente captados em dessincronia, ainda que a sequência de Jorge Peixinho a dirigir uma “orquestra” de instrumentos improvisados durante a performance Exercício de Comunicação Poética – apresentada no Clube de Teatro 1° Acto de Algés em 1969 – se faça acompanhar da música então registada), sendo que lateralmente eram projectados slides ora monocromáticos, ora bicromáticos (preto e ocre) que interceptavam os limites do plano fílmico e o penetravam, criando assim um efeito de “sobreimpressão” com um particular impacto visual.

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Concebidos por Carlos Gentil-Homem (com o colectivo do Estúdio Quid) ao estilo, por exemplo, da “tipografia expressiva” de um Massin ou das experiências de William Klein, estes slides são, estilisticamente, um perfeito complemento e uma extensão dos cartazes serigráficos que ele criou para o acompanhamento das exibições e uma adição visual à projecção absolutamente crucial.

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Quando me encontrei pela primeira vez com Vitor Silva Tavares para falar sobre Fernando Ribeiro de Mello, Almada entrou logo na conversa: o agora editor da &etc levara o Mestre a ver ao vivo o “golpe literário” (como lhe chamou a Seara Nova) que fora a sessão de declamação poética O Teste, organizada por Ribeiro de Mello em 1964 (dois anos depois, A Engomadeira seria reeditado na Afrodite na Antologia de Vanguarda), e citou-o, a propósito desta coisa de dar entrevistas ou prestar testemunho sobre isto ou aquilo: era “serviço”. Tal como o próprio Almada “servira”, ao sentar-se, nessa tarde de 17 de Abril de 1969, com Silva Tavares e Ernesto de Sousa para conversar. Pois bem: toca-me agora retribuir com algum serviço, nestes 120 anos de Almada e 40 de Vitor Silva Tavares como editor de livros. Eis, pois, aqui a transcrição integral desta reportagem, em versão PDF e como documento de texto.

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“…dentro da esfera armilar, uma boca aberta…”

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Há precisamente quarenta anos, a 4 de Agosto de 1973, o Expresso, na sua coluna “Gente”, informava que  João Abel Manta, arquitecto mas conhecido, sobretudo, como cartoonista e ilustrador, e António Ruella Ramos, director do Diário de Lisboa, tinham sido absolvidos das acusações que os tinham levado a julgamento: “abuso da liberdade de imprensa” e “ofensas à bandeira nacional”.

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O início do julgamento fora também noticiado no próprio Diário de Lisboa na edição de 28 de Junho, com chamada de primeira página e continuação com destaque na última.

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O suposto “crime”: a publicação, a 11 de Novembro de 1972, no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, de um cartoon de Abel Manta intitulado “Festival”. Procurando ridicularizar as presenças de cançonetistas nacionais no Festival da Eurovisão, a composição, num misto de desenho e colagem, centrava-se numa apropriação da bandeira nacional, na qual a esfera armilar representava o rosto da figura e o escudo delimitava a boca (onde se podia ver um conjunto de dentes de resplandecente brancura e uma língua túrgida), tudo encimado por uma poupa devidamente “lacada”. Rematando o atrevimento, o cartoon fora publicado nas duas páginas centrais do suplemento, logo podia ser usado como um poster (e tê-lo-á sido certamente).

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Como noticiara já o Expresso a 30 de Junho, e depois de vários adiamentos, o início do julgamento teve lugar a 26 desse mês. Defendendo os arguidos, estavam os advogados Abranches Ferrão, Galvão Telles e José Carlos de Vasconcelos, que reuniram um rol de testemunhas onde se contavam José Cardoso Pires e Artur Portela Filho. Surpreendentemente, a censura, para além de ter deixado publicar a notícia, não viu obstáculos à citação do ferrão encoberto que Abel Manta lançou como tentativa de explicação do processo, o qual, segundo ele, só podia  acontecer dada a “falta de treino visual no nosso país”.

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O testemunho de José Cardoso Pires, a “principal testemunha abonatória”, e cujo Dinossauro Excelentíssimo acabara de ser publicado com ilustrações de Abel Manta, foi, já em Julho, novo pretexto para curta nota sobre o processo, voltando a denotar alguma lassidão da censura.

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No catálogo da exposição da obra gráfica de Abel Manta no Museu Bordallo Pinheiro em 1992 (publicado pela Câmara Municipal de Lisboa e, de longe, o melhor livro até hoje sobre a obra de JAM), José Carlos de Vasconcelos escreveu sobre o julgamento:

“Segundo a acusação, ‘o simbolismo dos cinco Castelos das quinas são voluntariamente substituídos pela leviandade de um flash de cançoneta; o símbolo da pátria é posto a latere de um background de opereta’. Sic!
Nas alegações, após meia dúzia de sessões de julgamento com depoimentos escritos, depois de salientar que o sentido do desenho era exactamente o contrário do que lhe queriam dar ‘e uma defesa da Pátria e do seu símbolo contra aqueles que o usurpam, dele se servindo em manifestações artísticas medíocres, ou pior ainda’, tive oportunidade de dizer:
‘Este não foi o processo de João Abel Manta, mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo, de quem pretende impedir toda a forma livre de expressão, nesse caso através da linguagem específica do cortoonismo (…) Um processo que felizmente chegou até este tribunal e que permitira à justiça a absolvição do artista (…) sendo a única sentença condenatória, na consciência de todos os homens livres, a do regime tirânico que trouxe para o Banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta’.
O Tribunal era um tribunal comum, e não de excepção como o Plenário, e João Abel foi de facto absolvido, absolvição que a Relação de Lisboa confirmou. O processo serviu para lhe dar ainda mais notoriedade, näo obstante as notícias do julgamento serem quase integralmente proibidas, e para atiçar contra ele, com ímpeto redobrado, a maquina censória.” (José Carlos de Vasconcelos, “A Grande Arte de João Abel Manta”,  in João Abel Manta – Obra Gráfica, CML, Lisboa, 1992, p. 49).

Era o regime a implodir em ridículo, permitindo brechas no bloqueio à cobertura pela imprensa do processo que revelavam os sinais dessa implosão e as provas desse ridículo, e tentando ocultar uma impiedosa perseguição censória numa aparente leveza de processos (não julgando o cartoonista no Tribunal Plenário – que condenara duramente os arguidos em processos semelhantes na década anterior – mas num tribunal comum). Menos de um ano depois, o Estado Novo desabava finalmente, para dar lugar a um “novo” regime que, à imagem do anterior, parece manter uma relação confusa com a bandeira nacional.

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Um O’Neill inesperado

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Ao ler a “biografia literária” de Alexandre O’Neill, da autoria de Maria Antónia Oliveira (Dom Quixote, 2006), descobri esta revista ELE, que merece à autora umas truculentas e irresistíveis três páginas no livro. Trata-se de um projecto criado em 1972 e em que se associaram dois veteranos do Almanaque publicado pela Ulisseia entre 1959 e 1962: o poeta e Rui de Lemos, que foi aqui o editor e o “patrão” de facto daquele. Fruto da ligeira liberalização de “costumes” da dita “Primavera Marcelista” desde 1968, a revista tentou emular a Lui francesa e a Playboy americana (com as obrigatórias fotos das “meninas” fornecidas pelo arquivo de uma revista homónina sediada em Munique, a ER [“Ele” em alemão]). Fornecendo a “orientação literária” e grande parte dos textos estaria O’Neill. Creio ser uma revista particularmente difícil de encontrar (nenhum alfarrabista que consultei a conhecia, apenas um se lembrava vagamente de ter vendido uns exemplares há anos, e uma pesquisa na internet trouxe-me só os três primeiros números, que adquiri).

O aspecto “truculento” da biografia da revista começa logo na capa do primeiro número, na qual se pode ver uma insinuante loira nua sentada sobre felpudas peles brancas. Tratava-se, porém, de um travesti, mas o segredo manteve-se inviolado pois ninguém descobriu. Ninguém, não: a excepção foi o olho de lince de Luiz Pacheco, que topou logo a coisa (“por causa do braço”, afirma Rui de Lemos). Este gosto pelo travestismo como “partida” parecia ser moda em Lisboa por esse tempo, a julgar pela proximidade desta capa à célebre “sessão na banheira” de Fernando Ribeiro de Mello, em Dezembro de 1971, em que “duas beldades do conhecido editor, Palola e Eugénia” (palavras de Fernando Assis Pacheco), presentes na cerimónia, eram, na verdade, dois travestis.

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A ELE não tem o brilhantismo gráfico do Almanaque da década anterior (cujo design tinha sido de Sebastião Rodrigues), mas ainda assim há bons momentos, tanto pela qualidade e interesse dos artigos como pelo layout, que fazem justamente lembrar essa revista. Dois exemplos, ambos do número duplo 3/4 de Agosto/Setembro de 1972, são a muito boa entrevista que O’Neill faz ao fotógrafo Augusto Cabrita (que inclui um pequeno e excelente portfolio nova-iorquino deste) e um artigo sobre o bilhar, cuja epígrafe é uma quase assinatura de O’Neill: um poema de Nicolau Tolentino sobre… o bilhar (“gira no lizo, verde taboleiro, /de indiano marfim lascada bola”). Quase podemos imaginar João Abel Manta, no ano seguinte, com este artigo aberto diante de si no momento de esboçar o cartoon dos “Diálogos Confidenciais” para o Diário de Lisboa em que pôs O’Neill e Tolentino muito concentrados sobre uma mesa de bilhar (e com aquele tentando um arriscado “truque alto” perante o olhar descrente e sardónico deste).

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Para os o’neillianos impenitentes há ainda mais alimento, como os “Seixos” de Rolando Seixas (pseudónimo), pequenas pérolas absurdas de aforismo, onde se incluem alguns “clássicos” (“passou a vida a encontrar a mesma mosca”).

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Há ainda (no número 1) um texto sobre o Botequim, bar que pertencia a Natália Correia e que, a partir deste início dos anos 70, serviria como uma extensão dos célebres “serões” em casa da poetisa ao longos da década anterior. Eis, pois, outra tangente desta ELE à biografia de Ribeiro de Mello (um dos “protegidos” de Natália Correia e seu editor).

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Como curiosidade ainda, um dos anúncios publicados é o do estúdio de Sérgio Guimarães, a dois anos da fama “revolucionária” com o poster do menino-a-enfiar-o-cravo-no-cano-da-G3 e de uma louca aventura editorial a tentar ser o Eric Losfeld português, publicando banda desenhada erótica de qualidade (e ainda publicaria Tomi Ungerer, Crepax e Pichard).

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Outra curiosidade é a inclusão dos Exercícios de Estilo de Luiz Pacheco numa lista de recomendações de leitura. As curtíssimas recensões não estão assinadas, mas não seria difícil imaginar O’Neill a escrever isto sobre o antigo acólito do altar surrealista:

“Parta um termómetro, sacuda para o chão o mercúrio que ele contém. Depois, agachado, tente apanhar as gotículas do mercúrio. Aí tem um símile para o estilo em exercício de Pacheco.
V. julga que ele se vai ficar por ali, mas não: já está mais adiante e, assim, o seu dedo ficou para trás… Repita o exercício quantas vezes forem necessárias para… se divertir (e renovar!) com o mais truculento, irrequieto e… moralizante escritor português do momento.” (ELE, n.º 3/4, Agosto/Setembro de 1972)

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Ausente dos quatro primeiros números, infelizmente, está a misteriosa (e fictícia) personagem Max Rog, sobrevivente de um campo de concentração e escultor, através da qual O’Neill retomou algumas das suas experiências plásticas do tempo do Grupo Surrealista de Lisboa. (“Max Rog estreou-se no número 5 da revista com uma escultura intitulada Picnic que pode ser sumariamente descrita como uma chinela de salto alto de cor metalizada onde foi incorporada uma chave para abrir latas de sardinhas. Alexandre O’Neill era o autor desta obra e da respectiva reprodução fotográfica para a revista.” – Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária, p. 228).

A ELE (“revista que não é feita à custa das mulheres mas que as leva muito em conta”, rezava o slogan de O’Neill) não durou o tempo suficiente nem surgiu na altura certa para ser a K dos anos 70, mas a seiva que alimentaria esta corria já por aqui.

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O espírito e as letras

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Durante três dias em Março passou – discreto, despercebido – por uma Lisboa distraída o homem que mudou a face da edição francesa na segunda metade do século XX. Robert Massin, durante vinte anos o supremo director artístico da Gallimard, criador da colecção Folio, inventor de livros “impossíveis” para Queneau e Ionesco, “amador em tudo” e autodidacta, é ainda, perto dos noventa anos de idade, a personificação do melhor dos anos de ouro da cultura francesa do pós-II Guerra Mundial.*

Franzino mas de movimentos felinos e seguros. Um sorriso algo cansado mas generoso e com uma ponta de ironia, a ironia distanciadora e serena de quem viveu tudo e fez quase tudo e chegou perto dos noventa anos com energia e saúde para o contar. É um homem que sabe passar despercebido, que sabe ouvir para, no momento certo, dar a sua contribuição: conseguimos imaginá-lo num gabinete, ao fundo, a ouvir pacientemente Gaston Gallimard, ou o seu sucessor Claude, a conversar com um Sartre, uma Beauvoir ou uma Yourcenar, e a preparar a sugestão certeira, decisiva. Veio a Lisboa falar da sua obra mais conhecida, a edição de 1965 da Cantatrice Chauve de Ionesco, mas sente-se que estaria com o mesmo à-vontade e a mesma profundidade a falar de qualquer outra coisa.

A esta Lisboa distraída para tudo o que não seja fashion chegou Massin pela mão da Oporto em Lisboa e do colectivo Barbara Says, no contexto das Jornadas Cantianas, uma série de conferências em torno de Paulo de Cantos (1892-1979), um “auto-editor” e compositor de livros “invulgares, idiossincráticos, inclassificáveis”, praticamente desconhecido fora do meio do design gráfico nacional. António Gomes, da organização, referiu como ponto de contacto um “empenho enciclopedista dos dois autores”, para o qual o autodidactismo de ambos (apesar das abissais diferenças em termos de carreira, sucesso ou popularidade) concorre também: Massin foi, afinal, o homem que Roland Barthes (a propósito do primeiro livro daquele, La Lettre et l’Image) felicitou certo dia pela sua falta de estudos académicos, que lhe permitiria manter a frescura na observação e a abertura à transdiciplinaridade e evitar a rigidez intelectual e a “especialização”, e que acabou por admitir, nas suas memórias publicadas em 1995, ser um “amador em tudo”.

“Tudo!” Esta foi precisamente a resposta de Massin quando Gaston Gallimard lhe perguntou, durante um jantar em casa deste em 1958, o que iria ele fazer como novo director artístico. O velho editor teve um sobressalto. Mas foi assim mesmo. Sucedendo nesse cargo a André Malraux (que nos nos 30 tinha-se fugazmente ocupado da composição tipográfica de algumas capas), Massin foi, realmente, o primeiro director de arte em sentido moderno de uma grande editora francesa, e, nos vinte anos que se seguiram, fez tudo na Gallimard (talvez por causa desse sobressalto ao jantar, Massin foi contudo obrigado a assentar o seu trabalho em três linhas directrizes aparentemente paradoxais, senão contraditórias: “manter, restaurar, renovar”).

Chegado a Paris nos últimos dias da ocupação alemã e da guerra, o jovem provinciano (nascido em 1925 perto de Chartres) queria ser jornalista e, se possível, escritor. Desse tempo difícil, em que também foi figurante de cinema, guarda recordações ambíguas, entre o sombrio (“houve dias em que apenas comia um croissant com manteiga e um café com leite”) e o surpreendente, como quando, em 1947, em Copenhaga, um Céline já proscrito em França e vivendo no exílio lhe concedeu uma raridade absoluta: uma entrevista exclusiva na sua morada secreta, em que Massin ficou sentado a ouvir o escritor monologar durante longos minutos, “uma logorreia inesgotável”, enquanto um gato lhe roçava as pernas (Céline é ainda, para Massin, e com Proust, o melhor escritor francês do século XX). Em 1948 entra para o Club Français du Livre para editar o boletim do clube. Observou atentamente tudo o que fazia e recomendava o director artístico, Pierre Faucheux (cuja capa para as Histoires de Prévert o tinha fascinado), foi às gráficas aprender o resto e começou a propor capas e “maquettes”. Com uma série de outros grafistas, todos sob a batuta de Faucheux, Massin fez assim parte do arranque de uma revolução na edição do pós-guerra: os clubes do livro, que proliferavam como cogumelos, vieram dar uma nova imagem ao livro em França,  impondo o conceito de “livro-objecto” e novas práticas de marketing num meio deprimido pela guerra e subjugado ainda pelo racionamento de matérias-primas. Mas em breve Massin estava ao nível do seu mestre e, com a criação de um novo clube em 1952, o Club du Meilleur Livre, ele muda-se e torna-se director artístico deste. (A suposta rivalidade entre os dois tornou-se lendária. Bernard Pivot tentou explorá-la na primeira emissão do seu Ouvrez les Guillemets em 1972, mas sem resultado: Massin e Faucheux deram-se lindamente). Experimentando livremente com todo o tipo de materiais e colaborando intimamente com os autores na criação das edições, Massin torna-se um caso sério e a Gallimard começa a cobiçá-lo ao clube. Na verdade, este era mantido financeiramente pela Gallimard e a Hachette, a distribuidora de ambos, editora e clube, mas a qualidade crescente das edições do clube chegou a obrigar aquela a travar alguns projectos por receio de concorrência, como uma colecção de clássicos que iria rivalizar com a Pléiade. Esse profético jantar em casa do patriarca Gallimard em 1958 apenas oficializou o óbvio interesse da editora em renovar-se através do trabalho de um director artístico. Continuando a trabalhar para o clube e como freelancer até 1961 (chegando até a trabalhar para notórios “adversários” do grande Gaston, como Jean-Jacques Pauvert), Massin foi obrigado a escolher: ou a exclusividade para a Gallimard, ou sair. Ficou.

Tal como o seu amigo Germano Facetti começou a fazer precisamente nessa altura, em Londres, na Penguin, Massin empreendeu uma completa renovação gráfica da editora, criando de raiz a imagem de novas colecções como a Idées e, sobretudo, a Folio em 1972, a sua grande aposta: entrando no território dos paperbacks, dominado até então pela Livres de Poche, a Gallimard tornou-se ubíqua em todo o território francês, dizendo-se desde então que não há uma casa em França que não tenha um exemplar da Folio. Se os livros de capa branca da NRF tinham conseguido garantir a preferência da elite intelectual durante décadas, foram os livrinhos de bolso da Folio que levaram a Gallimard à grande massa de leitores. Outra colecção de que fala com orgulho é a L’Imaginaire. Pelo meio, Massin tinha ainda tempo para projectos especiais, como os Cent mille milliards de poèmes ou os Exercices de Style de Raymond Queneau ou a Cantatrice de Ionesco, edições pelas quais o grafista ficou mundialmente conhecido, manifestando um virtuosismo nas soluções tipográficas e de acabamento que desafiava a credulidade, movido por um constante desejo de experimentar e jogar com as palavras, aproximá-las das imagens e dos sons (a sua proximidade ao núcleo “duro” do grupo Oulipo não era inocente nesta pesquisa). Importante neste desejo de criar “livros-totais”, objectos que apelassem aos sentidos antes de serem lidos, foi também, nesses anos, a descoberta a fundo do Barroco a partir do ensaio de Eugénio d’Ors, bem como de toda a música barroca. Desde aí é defensor de que o livro é, na essência, uma extensão do universo barroco, um pequeno teatro em que todos os elementos constituintes são dispostos numa mise-en-scène: o grafista (ou, usando o anglicismo hoje em voga, o designer) é, pois, o encenador ao serviço do autor. “Graças às lições do barroco”, conclui, “consegui juntar, na minha obra, o sério e o cómico, o clássico e o extravagante, e, sobretudo, o rigor e a fantasia.”

Não tardou até que Massin quisesse e pudesse finalmente sê-lo também: autor. La Lettre et l’Image chega em 1970, fruto de uma longa pesquisa (ainda em curso) sobre as relações entre o mundo das letras e o mundo dos objectos, e da vida íntima e própria das letras no nosso universo funcional e simbólico. Um sucesso imediato, o livro lançou Massin numa carreira de autor que extravasou os limites da sua profissão de grafista, e seguiram-se, até hoje, mais de quarenta títulos publicados (dos quais um terço pela Gallimard), entre romances, crónicas e diários, livros infantis e ensaios (onde se inclui De la Variation, sobre o seu fascínio pelo Barroco). Les Cris de la Ville, de 1978, recolha literária e iconográfica das personagens castiças de uma Paris já então desaparecida, foi um best-seller, quase destronando o rei dos tops da Gallimard, André Malraux. Gaston Gallimard contara-lhe pessoalmente todas as suas recordações de Marcel Proust, de quem o editor fora amigo, e o contágio foi imediato e duradouro: “li a Recherche completa umas sete vezes em trinta ou quarenta anos, sinto-me muito próximo de Proust.” Até o seu gato se chama Charlus. (E gosta de provocar: “em muitas entrevistas, costumo dizer que conheci o Marcel Proust. Quando me olham com espanto, preciso: havia um pastor analfabeto na vila em que nasci que se chamava Marcel Proust.”)

No final dos anos 70 sentiu necessidade de mudar. Propôs a Claude Gallimard (o herdeiro de Gaston) dirigir uma colecção, e, perante a renitência deste, fez constar que queria sair. Foi um choque na editora, e o director chegou a ter reuniões tensas à porta fechada com Massin, tentando dissuadi-lo e chegando mesmo a propô-lo como membro do sacrossanto “comité de leitura”. Em 1979, Massin sai da Gallimard (ainda que, como autor, continue a publicar na editora por mais alguns anos). Remorsos? A confissão é directa: “nunca deixei de ter sonhos com a Gallimard, em que regressava pela manhã para trabalhar. Foi lá que passei os melhores anos da minha vida, e, de certa forma, é o meu paraíso perdido.” Mas o Massin pós-Gallimard foi quase tão prolífico, e acrescentou ao seu vasto currículo a experiência como editor, ao criar a Typographies Expressives, uma associação que visa a promoção e edição de obras que explorem graficamente a relação entre a voz humana (e a música) e a tipografia, e através da qual tem publicado também alguns dos seus textos.

Este homem pequeno e enérgico que – envergando a sua já famosa camisa decorada com um detalhe da Cantatrice – sobe e desce as escadas íngremes do local da conferência, que anda pela baixa e depois em Belém, dos Jerónimos à Torre e de volta, sem se cansar e pedindo apenas uma paragem para tomar uma “bière” e fumar um pouco da cigarrilha que guarda religiosamente, que conheceu e conviveu com todos os actores da cultura literária e artística europeia do último meio século, qua ainda planeia escrever (La Curiosité, uma viagem em torno dos objectos que a sua primeira mulher, já falecida, coleccionou ao longo dos anos), ler (o filme de Raoul Ruiz despertou-lhe o interesse pelos Mistérios de Lisboa de Camilo) e viajar (talvez um regresso a Portugal para ver Mafra ou a arquitectura de Nicolau Nasoni), é um dos raros grafistas ou designers de renome mundial e importância histórica que ficou famoso apenas pelo seu trabalho com os livros. Sobre a possível “morte do livro” já anda a ouvir há muitos anos (“com o McLuhan foi a mesma coisa, toda a gente se pôs a enterrar o livro”), e confessa-se fascinado pelo fenómeno das tablets, que associa a um retorno, através da tecnologia de ponta, às tabuinhas de escrita dos Assírios de há seis mil anos: “sinto que a dupla página do livro e a página única do monitor (já imaginada por Mallarmé em Coup de Dés) acabarão por se unir e caminhar de mãos dadas.”

Agora, no fim da sua vida, reflecte sobre o que o ligou de forma tão íntima e profunda aos livros e às letras. E a explicação pode estar numa memória indelével do seu pai, um escultor e gravador. Certa manhã, tinha ele quatro anos, aquele mostrou-lhe uma placa de pedra na qual tinha traçado as letras do seu nome; depois deu-lhe um martelo e um cinzel para as mãos e disse-lhe: “faz como eu.” Assim, a imitar o pai, aprendeu a gravar o seu próprio nome mesmo antes de o saber escrever. “Ele gravava muitas inscrições lapidares nos cemitérios, aonde eu o acompanhava muitas vezes e onde ficava a vê-lo a escrever as letras antes de as gravar. E no seu ateliê, em casa, via-o a esculpir livros de mármore, abertos e decorados.”

* texto publicado na revista LER (Maio de 2012)

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Compondo o puzzle

O século XX permanece estranhamente arredio da historiografia portuguesa do livro e da edição, como se fosse um objecto complexo demais para ser abordado de outra forma que não seja por estudos de parcelas temporais. Uma tentativa de sumariar os últimos quarenta anos da edição nacional, recentemente publicada, deixa-nos com mais perguntas do que respostas, e obriga-nos a um complemento com outros livros.

Entrada já a segunda década do novo século, continua a faltar um tomo de referência sobre a edição de livros em Portugal no século XX. Falta-nos, por exemplo, o que os brasileiros têm em O Livro no Brasil de Laurence Hallewell ou, numa versão mais ligeira e ilustrada, em Momentos do Livro no Brasil, uma excelente edição de 1998 da paulista Ática. Apesar de estudos sólidos sobre o mercado editorial e livreiro até ao século XIX (por autores como Artur Anselmo ou Fernando Guedes) e de aportações internacionalmente reconhecidas na área mais genérica do estudo da leitura e do cruzamento do livro com as novas tecnologias (como é o caso dos escritos de José Afonso Furtado), as conturbadas décadas de novecentos, nas quais a edição portuguesa, apesar de uma estrutura atomizada e frágil e de uma difícil coabitação com os tempos (sobretudo, durante o Estado Novo), conseguiu produzir – graças ao trabalho de editores, tradutores, grafistas, ilustradores, etc – objectos bibliográficos de valor extraordinário, essas décadas de novecentos, dizia, continuam arredadas da análise historiográfica. A fraquíssima produção no campo das memórias ou das biografias de actores relevantes na edição concorre também para esta lacuna, e as monografias sobre determinadas casas editoriais, que poderiam servir de tijolos na lenta mas segura contrução de um edifício historiográfico – e deveriam ser da responsabilidade das próprias editoras, no caso das ainda sobreviventes – são objectos raros ou insatisfatórios (Babel sobre Babel de 2010, por exemplo, um volume que poderia ter sido uma história conjunta e bem documentada de uma mão cheia de editoras históricas, acabou por reservar apenas uma minúscula secção para esse fim, mostrando à evidência que os “grupos editoriais” têm uma relação problemática com a história e a memória de que são oficialmente portadores).


Não será, infelizmente, o levíssimo volume (menos de 200 páginas) de Rui Beja recentemente publicado, A Edição em Portugal 1970-2010 (APEL, 2012), a compensar esta míngua de substância. É precisamente pela sua paradoxal leveza (dado o âmbito temporal que se propõe cobrir, e as dramáticas mudanças sociais, culturais e políticas ocorridas nesses anos) que nos surpreende à partida. Não sendo, formalmente, mais do que uma tese de mestrado apresentada na Universidade de Aveiro, as excessivas rigidez e compartimentação (típicas deste tipo de documentos académicos) são imediatamente expressas na capa (que ganha assim, pelo menos, em “transparência”). Rui Beja fez parte, durante décadas, da direcção do Círculo de Leitores, tendo sido recentemente presidente da APEL, pelo que se esperaria deste livro, para mais com a ambição que o título expressa, um fôlego maior e, sobretudo, uma maior atenção aos detalhes do que está no âmago do trabalho quotidiano com os livros: as relações conflituosas, apaixonadas, imperfeitas de homens e mulheres de várias extrações sociais, competindo ou colaborando entre si para a publicação e produção de livros. Vindo da área financeira, o autor será compreensivelmente menos sensível a esses ecos da “comédia humana” que compõe o húmus desta actividade, preferindo as esferas celestes dos números e das “ententes” das direcções associativas, afinal o núcleo da sua experiência: quanto a editores independentes nestes 40 anos, estamos limitados a uma listagem de editoras e algumas linhas para cada uma, onde aliás não faltam inclusões estranhas (a Contraponto de Luiz Pacheco é mencionada em sete linhas [p. 30], das quais duas para informar que é, hoje, “uma chancela” do grupo Bertrand!…) e indesculpáveis ausências (onde estão a Afrodite, a &etc, a Antígona, a Inova, por exemplo?). Como era abrir no Porto uma editora no final dos anos 60 (Inova)? Como era abrir uma editora durante o estertor do Marcelismo (Teorema ou Assírio & Alvim)? E como era abrir uma durante o PREC (Caminho) ou na ressaca do mesmo (Relógio d’Água)? Perguntas sem resposta. Onde o autor parece estar mais à vontade é nos capítulos centrais, em que passamos pela carreira do Círculo de Leitores, pelas iniciativas governamentais de apoio à edição e à leitura, pela concentração no mercado livreiro e, depois, editorial, e pela história da APEL. (Um capítulo final sobre a “revolução digital” é uma quase perda de tempo e páginas – trinta – em que, para além de citações do inevitável Furtado, pouco mais se retira do que as apostas da Porto Editora e da Leya no comércio online e as experiências da Babel com o livro digital nas Feiras). Um dos melhores momentos do livro, porém, em que o autor arrisca até umas subtis e raríssimas “estocadas”, é o relato do “impasse” da Feira do Livro de Lisboa de 2008. Mas mesmo aqui, no seu campo de especialização, ele peca por defeito de aprofundamento: por exemplo, porque foi “demitido” Lopo de Carvalho do Instituto Português do Livro em 1986 (p. 73)? E afirmar que “talvez que à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, em 1998, não tenha sido totalmente alheia a visibilidade internacional [da presença portuguesa em Frankfurt em 1997]” (p. 84), não carecerá de maior elaboração?

Resta, pois, como o próprio autor admite na Introdução, um “repositório factual” com alguma utilidade de consulta e um “contributo” para estudos com outros voos e ambições. Dei por mim a desejar ver aqui mais do Rui Beja do muito interessante À Janela dos Livros (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011), raro exemplo de misto de memórias com monografia editorial, onde, por exemplo, a sua entrada para o Círculo de Leitores em 1971 é descrita de forma tão dramática e pessoal, contextualizando perfeitamente as dificuldades de fazer uma carreira na edição em anos de Guerra Colonial. É este contributo pessoal, casuístico, microscópico que falta ao seu mais recente volume, o que faz da Janela o complemento obrigatório na leitura d’A Edição (ambas pecam, contudo, por uma total ausência de imagens, tornando graficamente árida uma história tão rica do ponto de vista do design).

Comecei por afirmar que da bibliografia sobre história da edição nacional no século XX estão ausentes títulos de referência. É altura de me corrigir. O âmbito temporal proposto na obra de Rui Beja remete-me para uma outra que só não arrisco a referir como “a” obra de referência no tema pelas mesmas limitações temporais que balizam o seu estudo. Edição e Editores – O mundo do livro em Portugal, 1940-1970, de Nuno Medeiros (ICS, 2010), ainda que partindo do mesmo cadinho académico, é uma detalhada e riquíssima história da edição no período “crítico” do Estado Novo, com notas utilíssimas que lançam pistas bibliográficas para campos de estudo que o livro não pode cobrir (como, por exemplo, o grafismo particular de certas casas editoriais) e um aparato muito completo, ao qual não faltam dois índices remissivos. Tivesse tido o seu autor possibilidade de recuar vinte anos o início e acrescentar uns trinta ao fim do período analisado, mantendo os mesmos rigor e qualidade nos testemunhos e documentos citados e na prosa final, e teríamos certamente aqui a primeira história da edição portuguesa do século XX capaz de assumir-se como incontornável. No cômputo geral desse puzzle complexo que parece continuar a ser este tema, contudo, o livro de Medeiros permanece como uma das maiores e mais indispensáveis peças, e, no caso de aportações menos substanciais como a de Rui Beja, a sua consulta complementar é, pura e simplesmente, obrigatória.

[texto publicado na revista LER, edição de Outubro de 2012]

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