Category Archives: Tipografia

Um catálogo de tipos

Regresso a este Catálogo de Tipos, publicado pela empresa gráfica Trama de Lisboa em 1991. O título é enganador, porque este volume não se limita à função de mostruário de tipografia. Escrito e composto pelo tipógrafo Manuel Silva (com capa de Vasco Ricardo Nobre/Caixa Alta), trata-se, na verdade, de um ensaio sobra a história da tipografia sob a forma de catálogo de tipos. Como tal, será, certamente, um objecto único, no mínimo raro, e desafiador de classificações. Foi-me oferecido pessoalmente pelo autor, um homem extremamente curioso e rigoroso, que conheci ainda que superficialmente em 1999, na Alquimia da Cor no Porto. Eis a transcrição na íntegra da sua “Introdução”, onde a justificação para a forma híbrida do volume é claramente argumentada:

“Para que serve um catálogo? Mais rigorosamente, a que se destina um catálogo de tipos? Obviamente, para servir de mostruário dos artefactos produzidos; neste caso, servirá para exemplificar tipos, filetes, vinhetas e outros elementos gráficos que podem ser utilizados por uma secção de fotocomposição como a da Trama.  ¶  Folheando catálogos ou espécimes de desenho de letras, vê-se que, de modo geral, os estalões das famílias, das variantes, dos corpos utilizam basicamente abecedários ou frases diversas, ou ainda um determinado texto que se repete da primeira à última folha. De um ponto de vista estritamente tipográfico, não serão processos a recusar a priori – não é por acaso que eles se empregam –, pois acabam por resultar. Algumas vezes, até a história da tipografia conheceu espécimes de letras que, por si sós, a marcaram: as folhas com caracteres gravadas por Cláudio Garamond e por João Baskerville, os catálogos de Simão-Pedro Fournier o Jovem e de João-Batista Bodoni (aqui, mais do que um catálogo trata-se de uma verdadeira obra-maestra tipográfica, pela introdução, pela paginação, pelos caracteres) são exemplos que os tipólogos e os bibliófilos não esquecem. ¶ Assim como uma andorinha não faz a primavera, também não são estes casos, excepcionais a todos os títulos, que definem a bondade do sistema. A chateza do processo, a monotonia da mancha, o incaracterístico do conjunto, põem o mais ‘pintado’ dos tipógrafos ou dos projectistas a bocejar de tédio ao cabo do folhear de algumas paginas de um vulgar catálogo. Numa tentativa de fugir a semelhante coisa, procurou-se que os elementos presentes neste mostruário de tipos de Trama – Artes Gráficas, para além de se representarem como aquilo que são – formas gráficas das polícias alfanuméricas que um sistema informatizado e complexo como o nosso é capaz de fornecer –, que fossem também significantes, que fornecessem uma informação rica, variada, tanto quanto possível rigorosa, sobre algumas datas, homens e instrumentos que fizeram a história da composição e da impressão tipográfica. O nosso catálogo descreve a existência de 46 tipógrafos, editores, calígrafos, fundidores, livreiros, inventores, citam-se algumas dezenas de outros nomes com relevo na tipografia, exibe-se um número relativamente significativo de emblemas, marcas e efígies, além de ‘cabeçalhos’,  maquinas, etc.  ¶  O catálogo Trama está dividido em duas grandes partes – a dos Grotescos e a dos Romanos –, isto é, a dos tipos sem patilhas, originados nas letras grego-etruscas, e a dos tipos com patilhas, inspirados nos caracteres romanos, para conveniência dos consulentes e porque os caracteres tipográficos podem e devem ser assim classificados. Uma terceira parte contém folhas-espécime inteiramente em caixa alta de cada uma das treze famílias de que dispomos, destinadas a controlo da altura das maiúsculas, mais duas folhas exemplificadoras dos pseudo-inclinados à direita e à esquerda, outra folha exibindo uma variante condensada, outra ainda mostrando um alongado (em determinado grau, de entre os praticamente ilimitados disponíveis) ; finalmente, esta terceira parte é completada com alguns sinais especiais, filetes e caixas (ao longo de todo o catálogo são representados muitos outros elementos, impossíveis de serem mostrados na totalidade, pois nem um volume com a espessura da ‘légua-da-póvoa’ poderia conter todas as variantes de corpo, amplidão, desenho e inclinação que podemos fornecer).  ¶  A tentativa que fizemos para os estilos de tipos se representarem com textos que sejam um pouco mais do que um mero ABC, acarretou, em certos casos, consequências um pouco incómodas, a nível da qualidade da composição, pois nem sempre as palavras do texto coincidiam favoravelmente com as áreas disponíveis. Daí resultou um ou outro atropelo ao estilo, tornaram-se aparentes alguns ‘dentes-de-cavalo’, a pontuação nem sempre é razoável, os hífens super-abundam. Como esta publicação não é uma obra literária nem um manual de tipografia, esperamos que a memória de Gutenberg e Senefelder não se sinta ofendida. (MS)”

A TYPE SPECIMEN CATALOG
A curious and definitely unique or at least very rare item: a hybrid volume which is at the same time a type catalog and an essay on the history of typography. Written and typeset by Manuel Silva (with a cover by Vasco Ricardo Nobre) and published by the Lisbon printers Trama in 1991. Manuel Silva, whom I met briefly in Porto in 1999, was an extremely curious and rigorous man, with a great sense of humor. I was smart enough to ask him for a copy, and lucky enough to get one. In his “Introduction” to this catalog, Manuel Silva states that he tried to avoid the usual boring structure of this type of volumes, injecting it with something valuable and informative. He certainly did so, and in more ways than one.

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Metamorfoses

Publicado em 1915, o texto de A Metamorfose (Die Verwandlung) de Franz Kafka é uma das pedras de toque do Modernismo literário e um dos textos saídos dessa vaga que melhor resistiu ao tempo. A Portugal chegou em 1962, com a chancela da Livros do Brasil e uma tradução de Breno Silveira, ostentando esta bela capa e quatro ilustrações de Álvaro(?) Infante do Carmo (1929-1982). Descobri esta edição recentemente, esquivando-se nas montras de alguns (poucos) alfarrabistas mas com um preço curiosamente acessível. Trata-se, sem dúvida, da graficamente mais sólida edição deste texto essencial no nosso país, onde não teve, aliás, um percurso gráfico digno da sua importância (veja-se esta lista cronológica ilustrada).

Quem foi adolescente nos anos 80 do século passado, não pôde evitar a ubíqua edição da Europa-América, com uma capa embaraçosa pela tipografia apoplética e uma imagem vulgar, a procurar o efeito de choque (ver aqui). Foi essa a edição que li, suportando a capa talvez pela remota associação ao grande filme de David Cronenberg The Fly (A Mosca), que por essa altura vi e que fazia furor. Mas era esta edição da Livros do Brasil que deveria ter tido nas mãos, apesar de não ter a certeza de que o adolescente que era então teria gostado deste visual “antiquado”. Na verdade, a Livros do Brasil reeditou em 1971 e 1986 o livro com o mesmo design da edição de ’62 (como se lê aqui), pelo que até teria sido possível que ela me tivesse chegado às mãos. Chegou agora, e da edição da Europa-América não guardo memória nem prova.

Este exemplar que possuo apresenta-se sem data, mas as suas condições físicas levam-me a remetê-lo sem problemas para a primeira edição, no mínimo para a de 1971. As ilustrações (onde se inclui uma representação do Gregor Samsa antes e depois da metamorfose) são extremamente elegantes, com um uso dextro das linhas cruzadas na criação dos volumes e chiaroscuro. São, por isso, muito distantes de um possível pastiche do estilo dominante na vanguarda gráfica contemporânea da novela, o Expressionismo, sobretudo o praticado nas xilogravuras dos artistas alemães do grupo Die Brucke, em especial Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein ou Ernst Heckel, e distantes também do estilo de um George Grosz, que fundiu o ímpeto expressionista com gosto do grotesto e o pendor crítico da caricatura de imprensa nos anos posteriores ao fim da I Guerra Mundial.

É na capa que creio que Infante do Carmo tenta essa aproximação “historicista”, numa composição quase totalmente tipográfica (com a excepção de um motivo circular em fundo) e com recurso exclusivo às não-serifadas: uma “grotesca” condensada e de factura manual para o nome do autor (usando os ângulos do K e do A para produzir uma intersecção poderosa) e a Gill Sans para o resto. O jogo de inversão vertical do título, criando um puzzle tipográfico cuja leitura se facilita pela tintagem do “duplo” invertido, é particularmente notável. Poderia ser uma capa da Malik-Verlag de Berlim (dirigida pelo irmão de John Heartfield, Wieland Herzfelde, a partir de 1916) ou da Odeon de Praga nos anos de 1920.

A página de rosto reproduz esse belo jogo tipográfico com o título, mas quebra a uniformidade com o uso de uma cursiva no primeiro nome do autor. Na numeração dos capítulos e nas capitulares é usada ainda outra cursiva mais encorpada, numa segunda cor, o que faz com que a uniformidade de estilo prometida na capa se dilua de certa forma.

A capa parece-me tão mais extraordinária quanto a Infante do Carmo se associam sobretudo capas pictóricas, onde, para além da paleta rigorosa e contida, impera o desenho e a sua textura, cabendo à tipografia um papel mais discreto (em baixo, no sentido descendente: capa de O Livro da Selva de Rudyard Kipling, s/d; capa de Almas Danadas de Joaquim Lagoeiro, Minerva, 1970; capa de O Vestido Vermelho de Stig Dagerman, Estudios Cor, 1958; capa de A Aventura nos Campos Gerais de João Guimarães Rosa, Livros do Brasil, s/d).

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Cinco escolhas de Paulo da Costa Domingos

Poderão conhecê-lo como poeta. Poderão apenas conhecê-lo como o homem por trás do projecto editorial Frenesi. Os que viram o filme de Cláudia Clemente sobre a &etc e Vítor Silva Tavares lembrar-se-ão do seu depoimento apaixonado mas objectivo sobre os primeiros anos dessa editora. Outros conhecerão já a sua loja alfarrabista online (que não passou despercebida ao incontornável blogue Journey Around my Skull). No que me diz respeito, acho que Paulo da Costa Domingos é um verdadeiro divulgador de livros, no mais nobre e útil sentido: foi graças aos excertos que publicou no seu blogue que descobri o Shock Doctrine de Naomi Klein e, sobretudo, o Business of Books de André Schiffrin. Eis, pois, e em resposta a um repto meu, cinco escolhas suas. De notar, em especial, a capa de Grifo, que trai um olho atento do editor/grafista Vítor Silva Tavares ao que de melhor então vinha de França, no caso o alfabeto criado por Roman Cieslewicz para o Guide de la France Mysterieuse das edições Tchou, em 1964.

Um livro – e, mais exactamente, um documento tornado impresso – suscita a minha atenção apenas quando algo nele vem alterar o que está dado como senso comum ou por via de lei instituído. No resto, com melhor ou pior fortuna, melhor ou pior embalagem, melhor ou pior mercado, tenho para mim de que se trata de entretenimento. Alguns dos tais outros documentos impressos – que não estes últimos – até poderão ser livros de ensaio ou de estudo: os géneros, não os tenho por excluintes. Nem os movimentos culturais, nem as tendências. Claro que a primeira impressão que se colhe reside no isco gráfico exibido. Mas a minha decisão só vai para aquilo que consegue ultrapassar, pela riqueza interior, essa primeira leviandade de superfície.
Dito isto, e depois de depurar escolhas mais óbvias, reparo em cinco diversas publicações que, diversas ou no tempo, ou na intenção, ou no acabamento gráfico, ou noutro sinal de que foram portadoras, de algum modo marcaram a minha relação com o o Mundo e, por inerência, com o mundo editorial. São elas, pois:


A LANTERNA – FOLHA POLÍTICA
Editada em Lisboa, de 1868 a 1873

Melhor do que eu, fala-nos da sua atribulada vida editorial Inocêncio Francisco da Silva no Dicionário Bibliográfico Português, e que nos conta como umas exíguas folhecas panfletárias deram origem a «violentas polémicas na imprensa política do tempo, e a um notável processo, em virtude do qual esteve preso o dono da tipografia, [Joaquim Germano de] Sousa Neves, por não querer denunciar quais eram os responsáveis pelos vigorosos e revolucionários escritos desta folha, considerados abusivos da liberdade de imprensa e ofensivos das autoridades constituídas […]. Em todo o caso, revelou no seu autor um escritor talentoso e enérgico argumentador. O primeiro redactor, que não oculta a paternidade da sua obra, foi o sr. António Augusto da Silva Lobo, desde alguns anos estabelecido no Rio de Janeiro com uma empresa literária, e empregado na redacção das sessões das câmaras legislativas brasileiras. Seguiu-se-lhe, ostensivamente, Francisco Luís Coutinho de Miranda, que era seu amigo íntimo e companheiro inseparável do primeiro.»
As capas – o folheto aqui reproduzido até constitui o exemplo menos significativo – eram sempre de grande iluminação…


MARQUÊS DA BACALHOA
António de Albuquerque

Livro editado no início de Janeiro de 1908, a escassas semanas do regicídio. A indicação da Imprimerie Liberté em Bruxelas era pura mistificação para iludir as perseguições policiais ao impressor. Documento de imediato proibido e perseguido, mas que nunca parou de circular clandestinamente. Foi num contexto histórico de revolta popular armada generalizada contra a ditadura do ministro monárquico João Franco que surgiu este romance panfletário; e, no dia 1 de Fevereiro, o inevitável regicídio, assumido por Manuel Buíça e Alfredo Costa. Fossem os deputados António José de Almeida, Egas Moniz, Afonso Costa, etc., ou o escritor Aquilino Ribeiro, as prisões enchiam-se então de presos políticos, enquanto esquadras e quartéis iam sendo assaltados ou meramente destruídos à bomba. Timor, Moçambique, Angola, por exemplo, eram então autênticos viveiros de deportados… Só para se fazer uma ideia da influência ravacholista (a «poesia da dinamite») entre a população comum: a Carbonária, segundo o historiador Borges Grainha – que nem é único a dar à posteridade um tal retrato –, contava com algo como quarenta mil aderentes. «O lisboeta medroso foi substituído pelo lisboeta que dá tiros nos cafés…» (nas palavras de Raul Brandão). Deste mesmo modo, certos escritos da época, por seu turno, saíam dos entrefolhos da Literatura, descuidados na confecção estilística, respondendo à urgência do momento: consolidar uma opinião pública, legitimando d’avance a acção directa dos revoltosos.
Nunca se terá visto unanimidade mais geral, como a que os raros dicionários que se lhe referem patenteiam quando põem a sua garra sobre este autor: «escritor medíocre». E quando é Júlio Dantas, com a sua Ceia dos Cardeais, quem recolhe o elogio de «correcção formal», está tudo dito! Todavia, viviam-se dias pródigos em jornais de caricatura agressiva, e, entre o traço grosso e a reportagem de costumes, são esses os mais óbvios inspiradores da pena do nosso Albuquerque.
A caricatura na capa, de autor mantido anónimo, representa a grosseria do poder.


GRIFO
1970, Lisboa

Com fecho tipográfico a 30 de Abril de 1970, é uma antologia de inéditos organizada e editada pelos autores: António Barahona da Fonseca, António José Forte, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Manuel de Castro, Maria Helena Barreiro, Pedro Oom, Ricarte-Dácio e Virgílio Martinho. O objecto, graficamente foi concebido pelo futuro editor da casa & etc: Vitor Silva Tavares. Volume colectivo que, para nem chegar a ser proibido, e apesar do corajoso distribuidor Quadrante, circulou clandestinamente de mão em mão. Até hoje. O poema com que António José Forte participa dá o tom, de uma época em que as vagas revolucionárias do Maio de 1968 talvez ainda pudessem levar tudo à frente. A Portugal, haviam chegado a Coimbra no ano anterior. A capa é um mimo surrealista.


RECTROMERDÁRIO
Anónimo, 1975

Publicação com proveniência anónima, difundida em Lisboa apenas por mão de ardinas anarquistas no chamado Verão Quente de 75. Aparentemente impressa com meios técnicos rudimentares, mas dando especial relevo à articulação selvagem das imagens com texto, trazendo portanto o modernismo para a rua.
A capa recupera, cinicamente, o significado do libertador príncipe Valente (banda desenhada que Harold Foster criou para um público consumidor lumpen), cujas chaves para soltar os prisioneiros da Segunda Guerra Mundial apareciam agora substituídas pelas toleradas mocas de Rio Maior, num contexto revolucionário português em que bastantes militantes da esquerda radical haviam sido presos pela junta militar. Aliás, o artigo de abertura é especialmente depreciativo para qualquer exército do mundo.


EX.º SR. DR. ARNALDO DANTAS DA GAMA. CARTA INÉDITA A PROPÓSITO DE
“A CALDEIRA DE PERO BOTELHO”
Camilo Castelo Branco

E por último, não sendo por assim dizer uma publicação, mas um estojo para uma carta autógrafa de Camilo Castelo Branco e para o volume da sua edição em livro, criado pelo encadernador Vasco Antunes, é de referi-lo como modelo da compreensão gráfica de um artista perante a diversidade dos materiais postos ao seu dispor. Peça única, em pele gravada, papel de fantasia, cartão e mica, contendo a citada carta e o exemplar n.º 1 da tiragem de 250 exemplares mandada imprimir, em 2006, pela Frenesi. Não sendo exequível por meios tipográficos industriais, por isso mesmo a tenho como modelo daquilo que derradeiramente se perdeu no mundo editorial.
O texto em Exórdio dá a nota e confirma o desgosto: “Os leilões são uma torrente de conhecimento e aventura pela nossa humanidade passada. Ao invés do que, ciúme ou ganância, afirmam certos colegas editores, são, actualmente, os antiquários e os alfarrabistas os únicos negociantes de livros com interesse iniludível e feliz surpresa… Já que os mais, editores e livreiros de novidades estabelecidos, fraca mercadoria exibem nas suas quitandas. […]” Etc., etc., etc,…

Paulo da Costa Domingos

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Arte em tempos de crise

Eric Gill entrou no domínio público este ano, cumpridos os setenta anos sobre a sua morte. E que melhor ano para isso do que este 2010 em que a onda da crise de 2008-09 parece ganhar força e prometer mais devastação? A obra ensaística de Gill, dominada pelo estudo dos efeitos do capitalismo sobre a produção artesanal e artística (uma obsessão da geração que procurou manter os princípios do Arts and Crafts pelo século XX dentro) pode assim, em pleno cenário de crise capitalista, ter direito a um novo fôlego editorial.

Esta edição de Art, em particular, é, em rigor, uma reedição de 1946 da Bodley Head (fundada por Jonh Lane, o tio do fundador da Penguin) de um título seu publicado pela primeira vez em 1934 na mesma editora (Prova A), uma série de ensaios sobre a produção artística europeia desde a Idade Média, aos quais não falta um Art and Holiness, reflexão sobre a possibilidade do divino como fonte de inspiração, tema recorrente neste autor. Seis anos depois da morte do artista e ensaísta, e um ano apenas após o fim da Guerra Mundial, em plena era de racionamento e contenção, a capa desta segunda edição parece estar a séculos de distância da dos anos 30.

Prova A

A Gill Sans impera em ambas (como imperava já, por essa altura, nos livrinhos da Penguin), mas a segunda cor, a ilustração e a serenidade classicista deram lugar a um minimalismo radical e ao grau zero em valores de produção: apenas o título e nome do autor em caixa alta bold e um filete curto mas imponente, com impressão a preto sobre um papel de cor amarela. O mais espantoso nisto é que é o design desta capa, concebida depois da morte de Gill e composta, forçosamente, por outrém que não ele (ao contrário, certamente, da capa de 34), que consegue transportar a sua estética para o nosso tempo, que lhe dá plena garantia de imunidade à obsolescência dos estilos e das modas, mais do que qualquer outra capa feita por Gill ou sob sua orientação directa. O minimalismo do design, e em particular a importância do filete divisor e do recurso exclusivo à Gill Sans em caixa alta, poderão derivar da popularidade do esquema dos livros de bolso da Penguin, e a cor amarela em fundo sob a tipografia a negro remete um pouco para as capas da Gollancz desses anos, mas até essas soluções à epoca consideradas tão radicais parecem frívolas em comparação com esta capa da Bodley Head. Até a pequena estrela de cinco pontas que separa título e autor na lombada parece remeter para a iconografia militar, e quase parece pedir desculpa por ali estar. Vindo de anos dominados pela sinalética (e pela estética) militar, o rosto desta edição continua a servir, com precisão e eficácia, de sinal de atenção imediata. (Creio até ser para esta capa que a da edição de Design em tempos de crise de Mário Moura remete).

E se o design não chegasse para nos impor a ideia de urgência e contenção, teríamos apenas de retirar a sobrecapa e virá-la. Na face oposta, encontraríamos impressa a composição tipográfica de “outra” capa para “outro” livro, que é, no caso desta edição que possuo, The Works of William J Locke, Vol. XISimon the Jester (edição possivelmente dos anos 20 ou 30 – Prova B). Sendo o racionamento de papel em Inglaterra muito apertado, com as únicas excepções sendo livros produzidos no interesse da propaganda ou das forças armadas, a Bodley Head recorreu a velhas sobrecapas para a impressão desta edição de Gill. Não sei se o esteta exigente que ele era teria gostado, mas tenho a impressão de que um outro autor inglês por esses anos teria adorado o design e o aproveitamento de papel para a primeira edição de um dos seus livros: Nineteen-Eighty-Four de George Orwell teria tido, nesta forma espartana, a sua capa mais perfeita (mas em 1950 o aperto do racionamento já seria menor). Em consonância com esse contexto original e actual de crise, este livrinho (17 x 11 cm, 148 páginas) pode ainda ser encontrado por menos de 5 euros numa das livrarias da Amazon.

Prova B

In English soon.

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We do not need pretentious books for the wealthy

“I could be proud of the million Penguin books for whose typography I was responsible. Beside them, the two or three luxurious books I have designed are of no importance. We do not need pretentious books for the wealthy, we need more really well-made ordinary books.”
(Jan Tschichold, in Jan Tschichold, Designer: The Penguin Years de Richard Doubleday, p. 140)

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Trama: catálogo de tipos, de Manuel Silva

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Data
1991

Projecto gráfico, textos e iconografia
Manuel Silva

Edição
Trama, Artes Gráficas (Lisboa)
500 exemplares

Dimensões e Impressão
210 x 295 mm
Offset, 2 cores

Descrição
Este é um dos livros mais curiosos e estranhos que conheço. Tive a feliz ideia de o pedir ao seu autor, o tipógrafo Manuel Silva, meu formador em História e Técnica da Tipografia, num curso ministrado na Alquimia da Cor (Porto, 1999). Manuel Silva, já falecido, fora “descoberto” e trazido para a formação especializada pelo designer Antero Ferreira, responsável pedagógico pelos projectos de ensino da Alquimia (onde se ministra hoje um Curso de Tipografia de Chumbo, em sua homenagem). Tinha acompanhado as vanguardas tecnológicas do ofício desde os anos de 1950, e, reformado, dedicava-se a estudar e a aperfeiçoar o desenho de certos tipos com o Fontographer. Era um homem curioso, um autodidacta cultíssimo, e que contava histórias interessantíssimas.
O livro, muito simplesmente, é um híbrido de simples catálogo de tipos então disponíveis na gráfica Trama, de Lisboa, e de História da Tipografia. Como resolveu Manuel Silva essa dupla função? Numa grelha a duas colunas às esquerdas e uma coluna às direitas (com a permanente inserção de um ou um par de caracteres numéricos ou gráficos e uma ilustração no topo das páginas pares), o mostruário de tipos é escalonado pela hieraquia habitual (dos corpos menores em cima para os maiores em baixo), mas os caracteres não estão dispostos aleatoriamente: compõem um ensaio sobre a história da tipografia, escrito pelo próprio.
É este carácter híbrido que torna este livro inclassificável e, apesar de algo bizarro – ou precisamente por isso – fascinante. A sua própria encadernação, um misto de acabamento de paperback com hardback (cadernos colados a uma lombada de tecido e com uma capa e contra-capa em papel Kraft, colada por sua vez ao interior da sobrecapa, que reforça o seu fecho com duas molas metálicas) dá-lhe um ar ao mesmo tempo utilitário e delicado.
Na Prova A documentam-se alguns spreads. Prometo mais algumas fotos.

Prova A
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