Afrodite na Biblioteca Nacional

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As coisas entre Fernando Ribeiro de Mello (falecido há 25 anos) e o Estado português não acabaram bem. E já não tinham começado bem, quando a Afrodite começou a lançar livros em 1965. Se foi contra o Estado (quando era “Novo”) que o editor definiu a sua imagem no início, foi contra o Estado (já democrático) que teve de a defender no fim.
Esta exposição é, portanto, não apenas a primeira homenagem “oficial” à Afrodite (pelo menos desde a morte do editor), como um modesto sinal de aproximação e trégua entre estes dois antigos adversários.
Em breve terei disponíveis materiais gráficos que acompanharão a exposição (incluindo a reprodução de dois grandes momentos do editor na imprensa). Aos interessados, o livro Editor Contra servirá, como é óbvio, de catálogo. Está com desconto de 25% de desconto no site durante o período da exposição.

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Capas do cesto dos proibidos (IV)

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Capa de Miguel Flávio para a edição da Prelo de Histórias Dramáticas da Emigração de  Waldemar Monteiro. O livro foi proibido em relatório de Abril de 1970 (n.º 7.772), com a ressalva de que algumas das histórias contadas eram tão deprimentes que a sua divulgação poderia até servir de “travão” à emigração. O autor morreu num acidente de viação antes da publicação do livro, quando transportava consigo as provas se revisão deste.

É curioso comparar esta capa à de dois outros livros anteriores sobre o mesmo tema que, quase inexplicavelmente (servindo uma notória e propositada aleatorieadade de algumas decisões dos serviços de Censura como possível explicação), não foram também proibidos: França, Emigração Dolorosa de Nuno Franco (1965) e O Salto de Nita Clímaco (1967).

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Ainda que próxima da capa deste último (o uso da Helvetica, o recurso ao desenho a tinta sobre o fundo branco), aqui, ao contrário desses dois exemplos, o emigrante em primeiro plano está já a caminho, de costas viradas para nós e unido à frágil, apenas esboçada, fila de marchantes que se perde no horizonte. Apesar de feito do relato de casos individuais, parece lógica esta opção por uma certa frieza e “impessoalidade” na capa de um livro publicado numa editora conhecida, sobretudo, pela sua produção de ensaios de análise social e económica.

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Capas do cesto dos proibidos (III)

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Capa de Luísa Brandão para a edição da Portucalense de Os Muros do Asilo de Roger Gentis (Les Murs de l’Asile, publicado originalmente em 1970 por François Maspero).
Apesar de politicamente próxima do Estado Novo desde a sua fundação em 1928, a Portucalense tornou-se em 1971, por via da morte do seu fundador e da tomada do cargo pelo seu filho, uma editora com um catálogo vincadamente à esquerda e desafiador da norma: este foi apenas um dos seus treze títulos proibidos pela Censura nos dois anos em que José Oliveira orientou a casa até ao seu fecho, em 1972, para entrar na clandestinidade.

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Capas do cesto dos proibidos (II)

quando-lobos-uivam-1959Capa de Fernando Lemos para a edição brasileira da Anhambi de São Paulo de Quando os Lobos Uivam de Aquilino Ribeiro, em 1959.

Em rigor, não foi esta a edição mas a primeira da Bertrand, em 1958, a incorrer na ira da Censura, que a proibiu, proibição que seria o primeiro passo para um processo judicial a Aquilino. Graças a uma campanha internacional de apoio ao autor, e com receio de uma escalada na publicidade negativa numa altura já muito complicada diplomaticamente para o Estado Novo (depois do annus horribilis de Salazar em 1961), o regime desistiria dos seus intentos.

O Brasil liberal de Juscelino Kubitshcek foi uma dor de cabeça para o regime de Salazar: acolhendo todos os notáveis anti-salazaristas, de Delgado em 1958 a Henrique Galvão depois da tomada do Santa Maria, recebeu também inúmeros artistas e escritores portugueses forçados a abandonar o país temporária ou definitivamente. Foi o caso, por exemplo, de José Cardoso Pires, que chegou a colaborar durante uns meses (sob pseudónimo) com a revista carioca Senhor. E foi também o caso de Fernando Lemos, companheiro da primeira geração de surrealistas portugueses, que fixou estes em retratos fotográficos que são, talvez, as suas mais conhecidas obras.

Na aparente singeleza da capa, na sua quase literal tradução visual do título, esconde-se o primeiro sólido e concertado ataque ao muro censório do Estado Novo: depois de décadas em que a questão da censura à edição fora um assunto “interno”, o “caso Aquilino” tornou-a notória em quase todo o mundo, sendo o Brasil o epicentro do núcleo de resistentes que procuraram dar a conhecê-lo. Foi precisamente em São Paulo também que se publicou, ao mesmo tempo desta edição do romance, Quando os Lobos Julgam a Justiça Uiva, um pequeno volume onde se podia ler os textos integrais de acusação e defesa no caso, antecedidos de uma introdução de Adolfo Casais Monteiro, exilado no Brasil desde 1954 (e que assina também o prefácio ao romance), uma edição que seria impensável em Portugal então e que tem uma importância histórica no contexto da edição nacional durante o Estado Novo, ao aproximar-se dos modelos de edições sobre processos de censura, como o L’Affaire Sade de Pauvert ou L’Affaire Lolita de Girodias em França, ambos de 1957, ou The Trial of Lady Chatterley, a edição que a Penguin publicou sobre o processo ao livro em 1960.

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Capas do cesto dos proibidos (I)

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Capa do pintor Benjamim Marques para a edição da Ruedo Ibérico em 1969 da peça musical Canto do Papão Lusitano (Der Gesang von Lusitanischen Popanz, estreada em 1967) de Peter Weiss, com tradução de Mário Gamboa.

A Ruedo Ibérico era uma editora fundada em Paris por exilados espanhóis e cujos livros circulavam clandestinamente na Espanha de Franco até 1975. É um raríssimo exemplo de uma edição em português proibida pela censura portuguesa e que não foi publicada em Portugal (ou territórios ultramarinos) ou no Brasil. Depois do que acontecera com Luís Sttau Monteiro no final de 1966, preso para interrogatórios durante seis meses pela autoria de “A Guerra Santa”, uma das duas Peças em Um Acto publicadas pela Minotauro nesse ano (editora que seria encerrada pelo atrevimento), publicar em Portugal este libelo directamente acusatório do colonialismo português teria sido um suicídio, mesmo já em pleno “marcelismo”: Carlos Porto escreveu em 10 An­os de Teatro e Cinema em Portugal, que se tratou da peça “mais detestada e mais proibida” na última década do regime.

A poderosa capa de Benjamim Marques é outro dos elementos que enriquece esta edição plena de “cruzamentos” significantes: ex-frequentador do Café Gelo e dos surrealistas de Lisboa (é dele um desenho que representava o grupo em 1965) e a viver em Paris desde meados da década, ele empresta à violenta sátira de Weiss o espírito de rebeldia anárquica que se tinha respirado naquele canto do Rossio.

Eis um exemplo (ainda que raro) de como se podia combater o Estado Novo e a sua Censura de fora de Portugal e com livros (a Ruedo imprimiu 3 mil exemplares desta edição, que se vendia livremente em Paris).

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Portfolio

Pode ser visitado aqui.

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“Primavera?”

Exemplar do livro dedicado a João Abel Manta na colecção “Designers Portugueses” do jornal Público sobre exemplar do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1974, no qual Manta publicou o seu primeiro poster em tempo de “revolução em curso”. Imagem notável, pelo duplo significado (meteorológico e político) da interrogação do título e também pela curiosa cautela que este revela, cautela que se expressa na surpreendente escolha da flor: não o (por então, três dias depois da deposição do Estado Novo) já icónico cravo mas uma rosa vermelha.

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