Livrarias tropicais

Nas livrarias de Norberto Nunes, o sol irrompe ao fundo de corredores bafientos. O pintor, possivelmente influenciado pelos sebos do Rio de Janeiro, onde vive, continua a explorar os espaços onde vivem os livros que vão ficando, essa vida fora dos palcos comerciais.
Norberto Nunes publicou em 2010, com a Ministério dos Livros, uma monografia com as suas pinturas em torno do universo pessoano, Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou, de que fiz o design (ver aqui).

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“Era uma vez mil novecentos e oitenta e quatro”

Para quem não conseguiu deitar mão à última “Bang” (número 10), eis, para leitura e visualização, o meu texto sobre o catálogo do ciclo de cinema de ficção científica da Cinemateca e Fundação Gulbenkian em 1984/1985, com design de Fernando de Azevedo. Quem quiser “folhear” a revista online, pode fazê-lo aqui.

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Sardinhas e lua


Uma curiosa solução gráfica para a edição de 1971 (Itau Editores, de Lisboa, ainda que o livro não traga qualquer ficha técnica) de Sardinhas e Lua de Altino do Tojal, a mesma colectânea de contos que dois anos depois seria reeditada com o título pelo qual todos a conhecem hoje: Os Putos. Esta foi, pois, a segunda e última edição destes textos sob este título (depois da edição inicial de 1964, em Braga).

O formato rectangular acentuado ao alto (com uma largura desproporcional face à altura) parece ter sido do agrado dos grafistas por esses anos (em especial no exemplo da colecção “Livro B” da Estampa, pela mão de Alda Rosa), e é aqui explorado ao limite por Alice Trigueiros (de quem não possuo qualquer outra referência), particularmente na forma arrojada em que compõe os separadores com os títulos dos contos, no que poderia ser uma aproximação lúdica e infantil a um texto onde as crianças possuem o lugar central, pela desconstrução da linearidade do alinhamento das letras (ubíqua Helvetica) e da hierarquia do eixo vertical. Seja qual a interpretação a dar-lhe, é uma surpresa visual marcante e totalmente baseada num efeito tipográfico. (O facto de ter encontrado este exemplar a 1 euro num alfarrabista apenas aumentou o efeito dessa surpresa).

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Palavra d’escrita

Registo possível do encontro entre Jorge Silva e António Jorge Gonçalves, às 19:30 horas do passado dia 17 de Junho no S. Jorge, numa sessão (com o título “Palavra d’escrita”) do Festival Silêncio de Lisboa. Tema: a ilustração e a relação do visual com a palavra no design editorial.
Audiência escassa para uma conversa que, quando se afastou da exibição dos portfolios, conseguiu ser assaz pertinente e iluminada (bem mais do que a foto).

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Mãos e pés: ilustração e capas do Neo-Realismo

Título
Ilustração e Literatura Neo-Realista

Design
Júlio Miguel Rodrigues, Mauro Lopes Bexiga / GGIRP

Edição
Câmara Municipal de Vila Franca de Xira / Museu do Neorealismo, 2008
Coordenação: David Santos
240 x 170 mm, 200 páginas

Num provocador ensaio que servia de introdução ao álbum The Art of Revolution – 96 Posters from Cuba de Dugald Stermer (editado pela Pall Mall em 1970),  Susan Sontag argumentava que, chegados finalmente ao conhecimento do público americano apreciador, os cartazes cubanos – frutos de uma praxis política intensa e quotidiana e destinados a uma função largamente utilitária como veículos de educação, sensibilização e alerta –  estavam em vias de se tornarem commodities (o título do texto era sintético e programático: “Posters: Advertisement, Art, Political Artifact, Commodity”; foi reeditado no volume Looking Closer 3 em1999), ou seja, estavam prontos a serem “reificados” (usando o célebre conceito de Fredric Jameson) pelo mercado capitalista, valorizados como “objectos” para compra e venda e, consequentemente, despojados do seu valor político e estético original. Coleccioná-los, apreciá-los em álbuns, reproduzí-los num contexto externo ao da sua origem era, pois, ser cúmplice de uma traição e de uma pilhagem. 

Olhando para os esboços, as séries de ilustrações e as capas que se reproduzem neste catálogo da exposição homónima que o então recém-aberto Museu do Neo-realismo montou em 2008, e descontando o radicalismo da visão de Sontag, atrevo-me a perguntar se museologizar (logo, fazer entrar no mercado cultural) este imenso acervo pictórico não será, de certa forma, participar também de uma pequena “traição”. Expressão em segundo grau do sofrimento e miséria das camadas mais pobres e desprotegidas da sociedade portuguesa durante o Estado Novo que os textos literários documentavam mais ou menos directamente, estas ilustrações eram, claro, já parte de um “mercado” editorial (como o eram os textos), fruto de encomendas e produtos de um momento cultural em cujas batalhas estéticas e políticas (e “estética” era, muitas vezes, “política” nestes anos) eles foram peões aguerridos. Afastados que estamos historicamente desses anos, e culturalmente dessas “batalhas pelo conteúdo” (precisamente o nome da exposição inaugural do museu), assumindo ou não a possibilidade de uma “traição” na degustação estética destas obras, o certo é que qualquer português ou portuguesa nascido/a antes de 1980 se cruzou mais do que uma vez com um destes livros, com uma destas capas, com algumas destas ilustrações, na biblioteca familiar ou na da escola. Se a sua força política se diluiu, se o seu contexto estético foi sendo desarticulado pelo devir cultural, o seu poder como referencial de memória colectiva permanece intacto (e não tenho dúvida de que crescerá com o agudizar da crise económica: apesar do cinismo, os atavismos da pobreza e da sobrevivência estão apenas cobertos por finas camadas de verniz).

O catálogo que justificou este introito algo palavroso é um pequeno volume profusamente ilustrado que fui encontrar numa visita ao museu. Para além da série de capas expostas (na secção “Monografia”), o livro compõe-se de pequenos portfolios de ilustradores e capistas de relevo dentro do movimento, nos quais se destaca obviamente Manuel Ribeiro de Pavia, o ilustrador a quem o Neo-realismo mais trabalho deu (é dele a ilustração da capa do catálogo) e que, apesar disso, numa cruel mas lógica ironia, morreu na miséria em 1957 (leia-se o excelente texto sobre ele no Almanaque Silva). Apesar de falhas mais ou menos evidentes e graves (as capas na secção das Monografias não estão numeradas, pelo que encontrar as respectivas legendas no final do livro torna-se um suplício, e os portfolios individuais poderiam ganhar muito com separadores que dessem mais impacto a cada um dos capistas, bem como com pequenos textos biográficos), este é precisamente o tipo de monografia especializada que cruza história, literatura, edição, ilustração e design que vai faltando por cá (continuo a insistir na falta de pequenas monografias centradas em algumas das editoras-chave deste período e desta corrente estética, como a Ática, a Sociedade de Expansão Editorial ou a Portugália). Dos textos introdutórios, gostei particularmente dos de Luísa Duarte Santos e João Paulo Cotrim.

Numa recente conversa no âmbito do Festival Silêncio em Lisboa, o designer e director de arte (e agora também historiador da ilustração portuguesa) Jorge Silva afirmou que uma capa, mais do que não trair o texto que introduz, não deve, sobretudo, trair o “seu” tempo, o contexto cultural e político que precede e justifica a produção do texto que, por seu lado, justifica a sua própria existência como capa. As páginas deste modesto e barato catálogo, para além de provocarem pequenas faíscas de nostalgia pelo reconhecimento de uma ou outra capa que nos olhou, sisuda, da estante dos nossos pais (quando não mesmo de um livro que nos foi oferecido, como, por exemplo, A Flor Vai Ver o Mar de Alves Redol, cuja capa, com o desenho de belas linhas quebradas de Leonor Praça, me trouxe a recordação imediata de Caminha em 1978…), recolhem os ecos precisos dessas lutas e desse tempo cujas sombras, apesar de tudo, teimam em não se desfazer.

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O outro Coppola

Grelha rígida, duas cores, tipografia e montagem/manipulação de fotografias. Programa simples, que unia a arrumação do espaço ao estilo internacional suíço com a complexidade e o “impacto” visual (sobretudo visível nas “grotescas” negras capitulares e condensadas) que os anos pós-1968 pediam, nesta série de capas de Silvio Coppola para a colecção “Franchi Narratori” (“Franco-narradores”) da editora Feltrinelli, publicadas ao longo dos anos 70 (anos de luta e imposição da marca editorial num mercado politicamente adverso após a morte trágica, na clandestinidade, do seu fundador). O volume Visual Design: Fifty Years of Production in Italy (Idealibri, 1985) reproduz algumas destas e doutras capas de Coppola para a editora de Milão. (Ver também um portfolio no Flickr, montado por Federico Novaro, e um pequeno documento em PDF sobre a colecção produzido pela Oblique, que comprovam a complexidade do aparato gráfico por trás do aparente despojamento das capas – as imagens deste post foram obtidas numa pesquisa pelo ebay italiano).

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Cinco capas polacas para Luiz Pacheco

E se os Textos Malditos (nem mais) de Luiz Pacheco tivessem sido publicados na Polónia? Foi este o conceito com que participei no concurso de capas polacas imaginárias do 50Watts de Will Schoffield. Quatro propostas “originais” e um pastiche directo de uma capa da editora Iskry de 1971. Um divertimento de Domingo à tarde.


1) “What if Pacheco’s texts had been published in Poland in the 1950s/60s? No sexual references in sight, hand drawn typography (by me, only the word “Przeklęty”) and a cartoonish portrait of the author (by me). Many arrows shot in the air, in all directions, since his targets in these texts were many and all over: it was war.”


2) “What if Poland had had a 2nd political and cultural spring right at the end of the 80s? This cover could have been made then: a dirtier, post-punkish in-your-face kind of thing. Note: the inclusion of the word “chuje”, meaning “dick/cock”, is a direct reference to a famous episode in Pacheco’s life, when he typed four letter words in red for every word he didn’t understand in the original he was translating (Voltaire’s “Philosophical dictionary”), hoping to correct them later… A putto is holding a book from which arrows shoot forward.”


3) “Again in the 50s and 60s, a comic jab at his diabolical verve and his appetite for young women in every shape or form. The little putto again holding the book from which Pacheco’s venomous arrows shoot.”


4) “The riskiest cover, perhaps. Let’s say this could be a cover some Polish designer did in the early 60s, during Gomulka’s cultural “spring”, and later had to throw in the bin at the end of the more liberal political period. Two important women in Europe’s intellectual heritage share central stage, Simone de Beauvoir and Saint Teresa of Avila, no doubt known to Pacheco (a supremely well read man) at that time: up to you to find who’s who. The poor putto, horrified from such a shock, is now shot by one of the arrows that fly around dangerously.”


5) “I chose to pastiche the very simple and yet striking 1971 cover for Dumas’ “Czarny tulipan” (published by Iskry). Just classic Baskerville (I believe) for type and a silhouette fused with another image intimately connected with the former: in this case I chose again Bernini’s Saint Teresa with her ecstatic pose, allowing readings of sexual frustration and/or drive but also of a very intense intellectual who took her mission dead seriously, which could be a very accurate portrait of Luiz Pacheco. Considering Pacheco was imprisoned for writing a preface to Marquis de Sade’s Portuguese 1966 edition of “Philosophy in the Bedroom”, it’s also a very explosive fusion.

All covers are as if published by ISKRY since that, browsing through Polish ebay or antiquarian online booksellers, I found that almost all the covers coming from this publishing house are very seductive eye-catchers. A tip of the ol’ hat to them for that.”

FIVE POLISH COVERS FOR LUIZ PACHECO
My five entries for Will Schofield’s 50Watts Imaginary Polish Covers Contest. Luiz Pacheco’s Damned Texts is not actually a “classic book” (far from it), but this was quite a bit of fun for a Sunday afternoon.

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