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Sardinhas e lua


Uma curiosa solução gráfica para a edição de 1971 (Itau Editores, de Lisboa, ainda que o livro não traga qualquer ficha técnica) de Sardinhas e Lua de Altino do Tojal, a mesma colectânea de contos que dois anos depois seria reeditada com o título pelo qual todos a conhecem hoje: Os Putos. Esta foi, pois, a segunda e última edição destes textos sob este título (depois da edição inicial de 1964, em Braga).

O formato rectangular acentuado ao alto (com uma largura desproporcional face à altura) parece ter sido do agrado dos grafistas por esses anos (em especial no exemplo da colecção “Livro B” da Estampa, pela mão de Alda Rosa), e é aqui explorado ao limite por Alice Trigueiros (de quem não possuo qualquer outra referência), particularmente na forma arrojada em que compõe os separadores com os títulos dos contos, no que poderia ser uma aproximação lúdica e infantil a um texto onde as crianças possuem o lugar central, pela desconstrução da linearidade do alinhamento das letras (ubíqua Helvetica) e da hierarquia do eixo vertical. Seja qual a interpretação a dar-lhe, é uma surpresa visual marcante e totalmente baseada num efeito tipográfico. (O facto de ter encontrado este exemplar a 1 euro num alfarrabista apenas aumentou o efeito dessa surpresa).

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VI)

Jorge Silva Melo regressa com as excursões em volta de alguns livros da sua vida. Desta feita, entramos nos anos 70. E da melhor forma, com um dos meus livros favoritos na sua melhor edição portuguesa. (PM)

FÁBULAS FANTÁSTICAS
Ambrose Bierce
Tradução Joäo da Fonseca Amaral.
Ilustrações Eduardo Batarda
Grafismo de Alda Rosa
Lisboa : Estampa, 1971

Em 1969, houve a campanha da CDE. E dessa aventura – que foi ousada e ultrapassou em muito o frentismo do PCP – muita coisa mudou nos círculos culturais. A Editorial Estampa (dirigida por Ana Maria Alves e António Manso Pinheiro), inequivocamente próxima do PCP, é um dos sinais mais curiosos dessa mudança. Ao mesmo tempo que editavam, em colecções acessíveis, alguns títulos da mais obediente doutrinação comunista, os editores (cultos, inteligentes, próximos de algum surrealismo como o de Manuel de Lima, próximos do jovem Mário Vieira de Carvalho que editava por lá inúmeros volumes ora sobre Beethoven, ora sobre Mozart), lançavam obras de Michel Leiris, Cortázar, Álvaro Lapa, Luiz Pacheco. E um dos seus grandes êxitos foi esta colecção preta, com as páginas azul claro, colecção “gótica” cheia daqueles autores que o surrealismo amou, noctívagos como Nerval, venenosos como Mary Shelley, estrambóticos como Allais… Eu cheguei a traduzir para eles Lovecraft e Oscar Wilde. A colecção impôs-se pela escolha do catálogo mas também pela originalidade do grafismo – de Alda Rosa, recém-chegada de Londres. E a Alda Rosa (que fora brilhante nos seus estudos londrinos) conseguiu aqui um milagre gráfico que havia de lhe dar reforma por inteiro, se é que não nome de rua: identificar muito simplesmente – e de maneira única – uma colecção que se mantinha de um subgénero, um ideal, uma estética, uma literatura. Creio que não há outra colecção assim neste mundo dos livros europeus (nem na Pauvert…), nem na riqueza dos títulos nem na clareza da proposta gráfica. E não é de estranhar que os inúmeros e extraordinários bonecos deste livro sejam de Eduardo Batarda que ainda assinava Fernandes e andava ainda por Londres, quase não expusera, embora fosse muitíssimo conhecido nos meios universitários (por causa dos maravilhosos cartazes que fez para o Citac, em Coimbra). O livro, baratíssimo, cruel, tremendo, cintilante, muito bem traduzido (com a rapidez do relâmpago, com certeza) ainda não esgotou, 43 anos depois da segunda edição, de 1977. E que significa isso? Que, naquela década, entre 73 e 77, se venderam os fantasmas, os mortos-vivos (foram anos de insónias, aqueles anos 71 a 73, tudo parado) – e de tal forma se vendeu essa crueldade que os editores se abalançaram a nova edição. Mas esta segunda, que já veio depois do 25 de Novembro, já não vendeu. E ainda surge na net, nalgumas feiras, nalgumas livrarias. Por seis euros e pouco. Sempre que dou com o livro, compro. Assim como o Swift, os Conselhos para o Pessoal Doméstico. Não só porque nunca houve ninguém como Bierce para escrever sobre o absurdo e a carnificina da guerra – ele que é um dos autores mais citados por Heiner Müller. Mas porque adoro oferecer este livro, ilustrado por um dos maiores artistas do nosso século XX (é o que penso do Eduardo Batarda, génio ímpar) e sem ar de livro de luxo, qual quê?

Jorge Silva Melo

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