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Livros numa tarde de Verão

Eis uma raridade: um texto sobre “capas de livros”, cuja publicação se deveu talvez à maior placidez ou escassez noticiosa do mês de Janeiro de 1968, que permitiu resgatar para o suplemento  “Vida Literária e Artística” do Diário de Lisboa do dia 25 desse mês o que não passava de uma reflexão superficial sobre algumas capas de livros portugueses das últimas décadas feita numa tarde de Verão. Raridade em duplo sentido, pois, além de há 40 ou 50 anos serem praticamente inexistentes na imprensa textos sobre o grafismo dos livros, ou o que hoje se engloba sob a designação de “design editorial”, o texto em causa não opta por uma análise sincrónica de um “período dourado”, tendo antes uma preocupação diacrónica até ao tempo presente da sua factura (o final da década de 1960), mencionando nomes que eram então activos e que iam sendo conhecidos fora do círculo estritamente profissional. O seu autor foi Alfredo Betâmio de Almeida (1920-1985), pedagogo e especialista na disciplina de Desenho (e antigo professor de Paulo-Guilherme, como confessa no texto), sendo autor de alguns compêndios da mesma. Esta é uma transcrição integral desse texto, acompanhada, sempre que possível, das imagens das capas cujos títulos sejam mencionados.

“Um livro vale, como é evidente, pelo seu conteúdo, literário ou científico, mas é a sua capa que oferece o primeiro encanto ou desencanto ao observador fortuito. A beleza e a surpresa da capa têm força de atracção sobre o comprador.
Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, mas apenas porque numa tarde de Verão estendemos sobre uma mesa vários livros ’empurrados’ para uma casa de praia, e aos nossos olhos se encadeou, com relativa evidência, o gosto de nossos livros, decidimos tomar estas notas.

A capa mais antiga desta pequena e ocasional colecção é a de um livro de versos, formato de bolso, romântico ainda. Toda a capa é uma gravura de traço fino, impresso a preto, como não podia deixar de ser. O desenho nasce como um ramo de flores brancas, apertado por um laço, e que se sobrepõe a um ‘pergaminho’ meio enrolado, em que o desenhador pôs a data: 1893. Por cima do ramo ergue-se um anjo, com asas e tudo, mesmo uma flutuante fita. O anjinho, de braços erguidos, sustenta um livro e, por cima, o nome da obra poética: Myosotis, desenhado com ligeira obliquidade. Fecha a forma rectangular um enrolado de desenho muito frouxo. Aqui está a capa dos fins do século dezanove, de um gosto romântico-lírico, complexa e enriquecida, graficamente, à custa de raminhos.

Seleccionámos depois uma pequena brochura de 1896, com versos de João de Deus. A sua capa é nitidamente já um desenho de ‘Art Nouveau’ e assina-a Celso Hermínio, o grande caricaturista, cujas maiores obras se divulgaram em gritantes bilhetes postais, já coloridos. Os motivos são do reino das flores mas desenhados segundo a estilização da época: contorno apenas e um movimento de formas até encher as superfícies parcelares em que o todo fora dividido.

1902. Uma capa com verdes, lilás e prateado, de desenho muito seguro, patenteia mais nitidamente o gosto do princípio do século, gosto que alastrou em ‘cache-pots’ de cerâmica e móveis de saleta. Os fios de água, serpenteando, e as hastes das flores, ondulando, lá estão a encher os espaços. Não se descobre o nome do artista, mas é do estilo de Alonso (Santos-Silva). O livro chama-se Noites Perdidas, e é seu autor um nosso parente com dois ‘tês’ no nome e que chegava apresentado por Alberto Pimentel.

Verificámos que, deste período que precede a Primeira Grande Guerra, nos falta um exemplo característico. Julgamos que do citado Alonso, que viemos a conhecer de ‘Os Ridículos’, há capas típicas de estilo à maneira de Mucha.

Já a anunciar outra época, uma capa de Leitão de Barros. Maior simplicidade, mas ainda uma cornucópia que vomita flores. Capa bem composta, com letras desenhadas pelo autor. É um livro de Norberto de Araújo.

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E depois as capas dos anos vinte, modernistas, inicialmente ainda algo cacógrafas, mas depois mais limpas, apelando frequentemente para uma forma simbólica, em vez de formas narrativas. Temos presente: A Lâmpada de Aladim, com capa de Ary, de 1922, edição da Seara Nova.

Agora a capa de António Soares, a do livro Leviana de António Ferro. E começam as capas ‘pequenos quadros”, tricromias bem impressas. Esta é, de um certo efeito, de composição correcta, elegante, em que um bom pintor manchou, de forma sintética e convincente, uma cabeça de mulher galante.

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De 1924, uma capa da primeira fase de Bernardo Marques, de desenho simbólico. Da mesma época, contudo, temos uma capa de desenho geometrizado, capa futurista, em que se procuram tornar eloquentes as linhas curvas e rectas, em sua expressão pura. É uma primeira edição do futurista brasileiro Mário Andrade. E por esta altura há quadros de valor pelas capas, são seus mestres: Stuart, Barradas, Alberto de Sousa, etc.

Dos anos trinta têm direito a ser lembradas as capas de Roberto Nobre, em que se dá maior importância ao desenho das letras e a ilustração é ainda simbólica, com um tratamento técnico muito pessoal. Digamos: a linha com expressão de ‘golpe’ de pincel e a cor reduzida a uma só e ao preto. Uma selecção de reproduções de capas e ilustrações de Nobre seria tarefa meritória para os estudiosos que se interessam por encontrar exemplos de uma comunhão de forma, conteúdo e época.

Mas nos trinta surge um pintor estrangeiro que altera a estética das capas dos nossos livros, e abre caminho, por exemplo, a um José Rocha e a um José Espinho. Estamo-nos a referir a Fred Kradolfer e a capa que temos presente é a de O Meu Amor Pequenino de António Botto. Para Kradolfer, a capa é também um diminuto quadro, mas de contexto mais leve: aí surgem valores cromáticos ‘nuançados’ e toques preciosos, decisivos para o significado estético do trabalho. Aqui estão as florzinhas de efeito, neo-românticas, que tanto se expandiram. Já não é a cor plana da litografia, mas a cor modulada da tetracromia.

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Kradolfer ensinou aos artistas plásticos portugueses uma visão artística clara, decorativa, poética. E ensinou, particularmente, a cuidar do desenho das letras e a estar atento à sua importância. É o reflexo da lição das escolas suíças.

Poéticas, tapetes orientais, de um formalismo encadeado, essencialmente decorativo, eis as capas habilidosas de João Carlos. Temos presente uma de 1939.

Quando se publicará, em monografias especiais e… compráveis, a obra dos desenhadores portugueses, de um satírico Nogueira da Silva, oitocentista, ao decorativo João Carlos, de algum modo consequência de um Amadeo de Souza-Cardoso? E não se esqueça a família (Escarraecospe, D. Encrenca e Piú) de mestre Carlos Botelho.

Nos anos quarenta, um jovem do nosso tempo renova inteligentemente as capas dos livros. É Victor Palla. Os títulos têm agora um valor plástico essencial na composição e na leitura da capa. O desenho moderniza-se e ganha valores estéticos adequados à circunstância de ser para uma capa. Trabalhos com economia de cor, económicos portanto, mas também elegantes na sua linguagem expressiva e sugestiva.

Dos anos de cinquenta, apreciamos uma capa de Bernardo Marques, sóbria, algo da lição de Kradolfer, mas com estilo próprio. Atravessa a capa de A Missão de Ferreira de Castro, uma faixa que é um típico desenho aguarelado de B. Marques, de um impressionismo gráfico a que as manchas de cor avivam o ambiente e dão atmosfera.

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Fixemos agora uma capa de Pavia, bem característica, na sua comunicação tão clara e tão simples. Para Manuel Ribeiro de Pavia a capa era sempre branca, letras aos topos e, no centro, a sua ilustração. Nesta, sempre de forma rectangular, projectava Pavia, com a grossura de um ferro de prisão, o seu sonho, geralmente a ternura da maternidade ou a largueza dos olhos que querem ver o mar. E flores que lembravam as estrelas desse mar. E cor como a de um vitral, para o sol lhe bater. Meu bom ganhão desenraizado, que não esqueces. Mas ninguém se lembrou de ti na devida altura.

A seguir arrumamos três capas dos anos sessenta, da época das capas brilhantes, envernizadas. Uma de João Câmara Leme, essencialmente decorativa, de um jogo formal de surpresa, geometrizada, atraente e, portanto, ajustada ao seu fim. Outra de Paulo-Guilherme, nosso antigo aluno, elegante, preciosa no seu desenho requintado e de aparente facilidade. Paulo-Guilherme sabe fazer uma capa, o seu grafismo cresce, estética e naturalmente, dentro da superfície escolhida. Preferência pelos tons que fazem moda. E, por fim, uma capa de Sebastião Rodrigues, já numa atmosfera de Pop-Art. Requinte na dimensão e na colocação dos dizeres, dando aos espaços vazios um valor atractivo. Desenho e ‘colagens’ em comunhão ordeira.

E agora mesmo, as capas da Europa-América, neo-realistas – não sabemos porque surgiu esta palavra, que cremos certa – formalmente, ‘solarizações’, um contraponto de preto e branco sugerindo, pela colocação, espaço, atmosfera.

E amanhã? Capas cinéticas, capas luminosas ou talvez mesmo anti-capas.”

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(Alfredo Betâmio de Almeida, “Capas de Livros”, in suplemento  “Vida Literária e Artística”, pp. 1-2,  Diário de Lisboa, 25.01.1968)

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (III)

CAIS DAS BRUMAS
Pierre Mac Orlan
tradução de Freitas Leça
capa de Bernardo Marques
Livros do Brasil, s/d

OS HOMENS E OS OUTROS
Elio Vittorini
tradução de Elena Ricci Pinto e Wilson Pinto
capa de Vítor Palla
uma ilustração de Renato Guttuso (retrato do autor)
Gleba, Os Livros das Três Abelhas, s/d

Sobre a Lisboa do pós-guerra, contava-me a actriz Glicínia Quartin, no filme que realizei sobre ela: “Foi quando começámos a ver o cinema francês, sempre com uma carga poética muito grande. Era uma estética nova, poética, eram os temas, os conteúdos, a maneira como eram apresentados, os grandes sentimentos e também a sua humanidade, eram pessoas como nós. Foi a primeira corrente estética descoberta pela nossa geração, a geração do pós-guerra, estávamos todos pelos vinte anos.  E os realizadores, o Carné, o Cocteau… Fui muito tocada por essa visão poética. Os franceses fugiram do naturalismo, era outra coisa, mais criativa, era uma fuga para a poesia e para a fantasia.”

Ora, este breve e lindo romancinho de Pierre Mac Orlan está na origem do belo filme de Marcel Carné: brumas, candeeiros, gabardinas, um pouco de jazz. “É Nelly, e é a única mulher naquela sala cuja cabeleira não está cortada pela nuca. Ela reina no dancing como uma divindade da rua, mas da rua esquecida pelas mais loucas prodigalidades de quantos escaparam ao massacre. O perfume secreto do dancing, como o de 1919, é ainda o odor enjoativo do sangue.”, etc.  Não me fica nada bem, mas nem sabem como eu gosto deste naturalismo tardio – a que chamaram populismo ou, na fotografia, “humanismo”, dancings, portos, cais, hotéis – e Jean Gabin, o proletário!

Não sei de quando é esta edição portuguesa, comprei-a em 1964, numa papelariazinha ao pé do Marques de Pombal, subindo do metro até casa. Eram livros baratos (custavam 12$50), lindos, lacrados com cola (o receio do contágio da tuberculose ainda durou pelos anos 60 dentro), e desenhados por Bernardo Marques, edições perfeitas. Marques é o capista delicado, leitor bem atento , o  homem que fez as capas dos Livros do Brasil, na Luz Soriano, mesmo ao pé de sua casa, ao dobrar a esquina, a primeira à direita, quando ia a caminho do SNI, para o qual também trabalhou e tanto – e com o “bom gosto” que defendia ( Panorama…). O homem que desenhou com quase nada as ramagens de Sintra e as personagens de Eça (e de Thomas Mann), não podia deixar de entender bem esta atmosfera fugidia e lúgubre, soturna, este Paris macambúzio e frenético: como é perfeita a linha de fuga da descoberta que se vê pela porta, como é “poética” a sombra da esquerda, como é extraordinário o copo com palhinha do refresco, mesmo à esquerda da mesa… Estes livrinhos da Miniatura eram todo um mundo delicado, fim de um mundo até. Aquele de que falava Glicínia quando falava do cinema francês desses anos 45. Mas ainda durava, essa paleta, delicadamente melancólica pelos anos 60 de Bernardo Marques nesta colecção perfeita, ainda o entrevi. E Marques irá para a Gulbenkian, não esqueçamos, uma continuidade.

Mas, nesses mesmos anos do pós-guerra, na outra colina de Lisboa, na Rua da Madalena, à Mouraria, uns rapazes uns bons vinte anos mais novos (Aurélio Cruz, Victor Palla e Cardoso Pires lá pelo meio…) juntavam-se, criavam uma editora, a Gleba, inventavam uma colecção, os Livros das Três Abelhas (que mais tarde foi exportada para a Europa-América). E propunham uma outra literatura, a americana, a italiana, a grega da resistência (o grande André Kedros). E embora, nas duas colecções, surjam autores comuns, percebemos que a Miniatura se centrava sobretudo na delicada França racional de André Gide e sobretudo de Romain Rolland (é nela que surge o Jean-Christophe de todas as iniciações adolecentes) e vai, catálogo da Gallimard por ali fora, até Camus, já nas 3 Abelhas, passamos à luta politica tal qual: Miller (o Caixeiro), Lorca (a Bernarda, traduzida por José Gomes Ferreira…),  Manuel da Fonseca, o extraordinário contista, o Vittorini marxista deste admirável Homens e os Outros.

E as capas são desse homem multímodo, exigente, inesperado, multi-talentoso que foi Vítor Palla. E Palla é imbatível: aprendeu com as grandes artes gráficas alemãs (a Neue Sachlickeit e o seu gosto pelos contrastes agressivos), devorou os princípios do realismo social americano (a colecção das Três Abelhas – “os melhores livros para os melhores leitores” –  nasceu ecoando os populares Signet Books, papel grosseiro, grandes tiragens, cores fortes…), conhecia bem os italianos marxistas (neste livro há uma reprodução do retrato de Vittorini por Guttuso). Esta capa (e Palla terá feito mais de uma centena de capas, antes e depois desta e outras tantas por assinar…) é todo um programa depois de Auschwitz: arame farpado, o vermelho e negro, as letras em todas as direcções. E o surpreendente logo da colecção (ao que parece, uma parodia ao emblema da Mocidade Portuguesa Feminina, disseram-me).

E dizia-me ainda a Glicínia Quartin (que foi amiga de ambos, do delicado Bernardo Marques, “muito bem educado”, e do intempestivo Palla, sempre vibrante nas polémicas e nas convicções): “Foi nos cineclubes que descobrimos o cinema italiano, que surgiu um pouco depois do cinema francês. Era mais combativo, mais rebarbativo, mais social, no fundo.”

Ambas estas edições – em data, as duas – comprei-as em papelarias normais por onde passava, vindo do liceu (63?, 64?), a pé para poupar na semanada – papelarias onde a exposição dos livros durava tempo,  não apenas os quinze dias desta nossa vergonha de hoje.

E os meus anos 60 eram feitos destes livros que vieram dantes. Diria eu agora: destas duas capas contemporâneas mas onde podemos ver dois mundos, dois tempos, dois programas – e até, quem sabe, pensar  na “luta de classes”.

Jorge Silva Melo

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