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Quatre taches de sang

Pequena revelação, a meio de uma conversa de Domingo de Março soalheiro com Robert Massin, ali para os lados de Belém. Quando falávamos de Germano Facetti, Massin atira de repente: “sabe qual é a capa de que mais gosto, das que foram feitas na Penguin durante os anos em que ele lá esteve?” Perante a minha ignorância, a resposta veio sem hesitação: a capa (com design de David Pelham, que seria o sucessor de Facetti como director de arte da editora) da edição de 1970 de In Cold Blood de Truman Capote.

É fácil perceber a escolha: as quatro manchas de sangue substituem aqui os quatro ós do título e do nome do autor, e a sua presença na capa, mais do que uma mera representação gráfica do crime (o assassinato de quatro pessoas: pai, mãe e dois filhos adolescentes), é um jogo dentro dessas regras da “tipografia expressiva” que Massin tão bem jogava e aplicava. Leitura visual e tipográfica em simultâneo e relação íntima da capa com a “história” ou conteúdo do livro. Não é despiciendo saber que é desse mesmo ano de 1970 a publicação de La Lettre et l’Image (Gallimard), obra em que Massin procurou analisar em profundidade estas interrelações entre imagens e  letras.

As manchas de sangue – solução visual de uso delicado e facilmente abusada e saturada pela repetição – aparecem em capas anteriores do próprio Massin, como as de Tropique du Caducée de Paul Malar (Éditions du Scorpion, 1954) ou de Le Poète Assassiné de Guillaume Apollinaire (Clube du Meilleur Livre, 1959), ainda que apenas como efeito expressivo e sem a função tipográfica da capa de Pelham.

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Correcções

Dois frames do documentário Paperback Writer, exibido pela BBCFour na sua série The Beauty of the Book. Em cima, David Pelham (o director de arte da Penguin nos anos 70 do século passado) com uma cópia da edição de 1972 de Clockwork Orange de Anthony Burgess com a sua icónica capa. Em baixo, “correcções” em forma de gatafunhos feitos pelo autor (que detestou a capa) na sua cópia pessoal. Para além da notável trouvaille visual do “olho-pestanas-roda dentada” (a provar que o trabalho feito à pressa pode dar bons resultados…), permanece a ironia de uma capa que quis aproveitar o sucesso da estreia do filme (apesar da total ausência de colaboração por parte de Kubrick na cedência de material) e acabou por lucrar ainda mais com a sua proibição, tornando-se, no Reino Unido, e durante muitos anos, uma espécie de efígie, uma marca visual de um objecto cultural distante e retirado de circulação.

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“Nostalgic for the future”


Este é o número 9 (de 1974) da revista Science Fiction Monthly (SFM), publicada pela New English Library (NEL), uma editora de paperbacks criada em 1961 e especializada, sobretudo, em ficção científica. Bastam as dimensões para traduzir a importância que o género tinha na altura: 40 x 28 cm, num misto de revista glossy e jornal (as folhas não são agrafadas), sendo que o verso da capa servia de poster, exibindo uma obra do ilustrador entrevistado em cada número e que serviria, igualmente, de capa para uma das publicações da NEL ou de outras editoras.

Este é o único número desse revista que possuo, e a razão para isso compõe-se de duas palavras: David Pelham (cuja ilustração para Tiger! Tiger! de Alfred Bester adorna a capa). As duas páginas que lhe são dedicadas tinham como claro pretexto a reedição pela Penguin, nesse ano de 1974, das obras emblemáticas de J.G. Ballard da década precedente, com novas capas e uma caixa (Prova A) primorosamente ilustradas e concebidas por Pelham, que era à altura o director de arte da grande editora inglesa.

Prova A

O interesse da entrevista aqui publicada (apesar do título algo pomposo: “The artist in Science Fiction”: para vê-la e lê-la na íntegra, ir aqui e aqui) estende-se, contudo, para além da inegável importância deste designer no panorama da edição inglesa desses anos. Não sendo um ilustrador exclusivamente dedicado à fantasia e à FC, como todos os outros entrevistados pela SFM, e não tendo apenas, dentro do género, ilustrado as capas de Ballard (são suas muitas das capas da série de FC da Penguin dos anos 70, bem como a icónica capa de A Clockwork Orange, e já na Panther em finais dos anos 60 se encontram capas suas para obras de FC), ele é aqui apresentado quase como “o” ilustrador de Ballard, uma simbiose que teria a sua justificação no conhecido apreço que o autor manifestou por essas capas da Penguin de meados da década. O curioso é que a simbiose se traduz a um nível extra visual: se Ballard sentiu que as ilustrações de Pelham “cristalizavam algumas das suas mais poderosas imagens literárias”, este, por seu lado, parece pensar e exprimir-se em uníssono com aquele.

O que torna o interesse desta entrevista realmente duradouro é, creio, uma tensão surda que subjaz ao simples facto de ela ter ocorrido. Apesar de trabalhar numa editora modelo e de usar a ferramenta da moda na altura (o aerógrafo) e se inscrever numa linha estética devedora da Pop, as ilustrações de FC de Pelham não eram obviamente “ortodoxas” no sentido comercial que a NEL ou as outras editoras do género defendiam e promoviam. Pelham pensa e trabalha como um designer e um director de arte, recorrendo a bancos de imagens, procurando cruzamentos entre o sentido do texto e o zeitgeist. A força motriz do conceito de “colagem” é nítida. A sua aportação heterodoxa à iconografia do género era já, em 1974, um trabalho solitário de resistência, herdeiro da pesquisa iconoclasta da New Wave inglesa (materializada na revista New Worlds), numa altura em que o próprio Ballard dava os primeiros passos para fora da FC. No cerne, a questão era: que imagem nova pode a FC ter, ou então, quanto da imagem e da estética do presente e do passado recente contamina a visão de futuros mais ou menos remotos?

Essa “nostalgia do futuro”, assumindo o futuro como a imagem decadente, sob a acção das forças da entropia, das novas tecnologias do presente, é o programa de Pelham nestas ilustrações genuinamente “ballardianas”. A suavidade das gradações dada pelo aerógrafo e a obsessão pelo acabamento perfeito (que contrariam de certa forma a “brutalidade” e “selvajaria” que Pelham vê nelas) não retiram às imagens uma profunda melancolia e uma malaise que era, ao mesmo tempo, alheia à estética da FC ilustrada por então e muito contemporânea aos anos pós-1968.

“Pelham describes his illustrations as ‘uncompromising, brutal and savage’: machines appear starkly and incongruously against a background of frightening simplicity –  and present a philosophy of the future in picture form. To Pelham these machines are the debris of our society: ‘I’ve a big thing about machines and their subsequent breakdown. I love the idea of all this work going into making a machine and then it not working or being left redundant.’
Pelham explains his outlook in terms of a simple analogy: as many people find romance in viewing previous epochs, so he finds romance in seeing the future as if it were already the past – in visualizing ruins created from the artifacts we are manufacturing now.” (SFM, nr. 9. vol. 1, 1974, pp.6-7)

In English soon.

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Três capas de livro (e uma capa espanhola) para John Lennon

Três capas que definiram o “autor” John Lennon, de meados dos anos 60 ao início da década de 70, sempre com alguma fortuna no que tocou à qualidade gráfica, sobretudo na Penguin.  A da Jonathan Cape de A Spaniard in the Works (1965)  parece feita para provocar um dos trocadilhos de que Lennon gostava (ele de capa espanhola na capa de um livro da Cape). Na Penguin, encheu em 1966 a capa da primeira edição antológica dos seus textos, vestido de Super-Homem mas ostentando ao peito um logo com as suas iniciais. Sinal da mudança dos tempos: estes divertimentos barrocos e muito Pop de Alan Aldridge (amigo pessoal de Lennon) estavam já fora de moda quando, em 1973, e sob a direcção de arte de David Pelham, David Nutter concebe a mais minimalista das capas para as suas obras, quase um rebus que traduz o título: Penguin John Lennon.

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Penguin by Designers

penguinbydesigners
Título
Penguin by Designers

Design
David Pearson

Edição
Penguin Collectors’ Society, 2007
176 páginas

Descrição
Ostentando a mais famosa grelha da história do design editorial, criada por Romek Marber em 1961 para a série de Crime da Penguin e que depois serviu de modelo a quase todo o catálogo da editora, a capa deste volume imprescindível “trai” logo o contexto histórico do seu conteúdo: dos anos pós-Tschichold, sob comando do “herdeiro” Hans Schmoller nos anos 50, à ultra-criativa fase contemporânea, que coincidiu com os 70 anos da empresa.

Tratando-se, basicamente, da transcrição das intervenções dos designers e directores artísticos em funções ao longo desses anos, reunidos na tarde de 18 de Junho de 2005 no Victoria & Albert Museum (no contexto da exposição que esse museu dedicou ao aniversário da editora), o livro depende exclusivamente da qualidade dessas exposições. Como seria de esperar, a qualidade é bem alta. Com a excepção de Germano Facetti (que não esteve presente na sessão, e de quem se publica um texto “programático” sobre o design de paperbacks publicado na revista Dot Zero em 1967), John Miles, Romek Marber, Jerry Cinamon, Derek Birdsall, David Pelham e o actual director de arte Jim Stoddart sucedem-se por ordem “cronológica” e o que resulta é o complemento perfeito (porque vindo de quem amassou o pão) ao livro cujo título serviu de referência a este, Penguin by Design do designer e historiador Phil Baines (que escreve aqui as pequenas introduções às intervenções). Junto com o livro de Baines, esta colectânea representa uma visão completa e abrangente, ainda que incontestavelmente subjectiva e passional, da história gráfica da Penguin.

É difícil destacar uma ou outra apresentação das demais, dado que parece até ter havido o objectivo de uma certa complementaridade (por exemplo, as intervenções de Miles e Cinnamon são mais sobre o layout e as grelhas para os livros das edições comuns e especiais, sendo ambas de extraordinária utilidade no que à história da tecnologia do design diz respeito). Pessoalmente, há muito que admiro tudo o que vejo de Birdsall e Pelham desses anos, designers que conseguiram verdadeiras obras-primas de condensação icónica (e aqui também há complementaridade, na medida em que Birdsall era sobretudo um designer freelancer e Pelham o director de arte, e o último que Sir Lane contratou pessoalmente). É uma verdadeira delícia ler e ver o que este dois apresentam e há mesmo uma descoberta (para mim, pelo menos): a das capas da série de reedições da obra de Somerset Maugham, que Birdsall criou como uma longa e contínua fotografia em composição horizontal (Prova A). Isto só me deu mais vontade de comprar Notes on Book Design (assim que o preço, ou a libra, ou ambos, baixarem mais…)

Prova A
penguinbydesigners2

Outro grande momento do livro é a apresentação de Marber: a odisseia da criação de dezenas de capas para a colecção de Crime em poucas semanas dá-nos a perfeita justificação para a necessidade da sua famosa grelha e obriga-nos a uma intensa inveja e admiração…

Como em tudo, as ausências falam quase tão alto como as presenças, e aqui notamos duas importantes: a de Alan Aldridge (cuja entrada e saída da Penguin se rodearam sempre de polémica, e que tentou aproximar a editora aos caminhos da pop nesses anos de 66-69) e de alguém que viesse falar dos “famigerados” anos 80. Uma e outra ausência compreendem-se (mas, no caso de Aldridge, lamenta-se, pois foi ainda assim o criador de capas excelentes e teria coisas interessantíssimas a dizer), sobretudo a da fase negra após a saída de Pelham em 1980, em que a Penguin se perdeu no desejo de se impor graficamente nos EUA, deixando-se contaminar pelo que de pior se fazia (e se faz ainda) dum e doutro lado do Atlântico (o que outras ediroras aproveitaram e agradeceram, como a Faber, que dominou os escaparates nesses anos com as fabulosas capas de Andrzej Klimowski e a direcção de John McConnell). Quem ler o livro de Baines não estranha essa ausência, e as palavras de Pelham não sao meigas…

Stoddart termina com um sentido de missão cumprida (mas com esforço, o que certas indirectas denotam…), e é notório o orgulho com a espantosa exibição de talento que foi o pack especial dos 70 anos, em que a Penguin mostrou à evidência uma quase infalibilidade na atribuição da capa de um qualquer título a um designer ou ilustrador. Tudo resulta por ali, e muito do porquê está neste livrinho.

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Time to jump

farpavillions

“I left Penguin in 1980 largely due to this dreadful cover, others like it, and an increasing frustration with the unions. Covers like this were being wrapped around pages of bulked paper to fatten out ‘the product’ and to give additional ‘perceived value’. When, from time to time, I overheard people in the marketing department referring to books as ‘the product’, I knew it was time to jump. The marketing people had won.”
(David Pelham, in Penguin by Designers, p. 153, Penguin Collectors’ Society, 2007)

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