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Ecos distantes da urgência febril de editar (lembrando ainda os 50 anos da morte de Alves Redol)

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Faltava um estudo em profundidade de um dos períodos mais férteis editorialmente e mais conturbados cultural, social e politicamente da história portuguesa


Arrisquemos o axioma: em Portugal adora-se (ou diz-se adorar) a literatura; os livros nem por isso. Matizemo-lo: se o escritor, ou melhor, o “autor” e o seu comércio com a musa são tema de incontáveis teses dentro e fora da academia e mesas de discussão em todos os inúmeros festivais pelo país, o editor é, em geral, a vil e apagada figura cujos indiscerníveis esforços lá conseguem produzir os livros daquele e levá-los aos escaparates, mas que para pouca coisa mais parece servir (a não ser como degrau numa escalada imparável até ao topo, caso o “autor” tenha, para além da musa, sido tocado também pela fortuna, mas essa é outra conversa).

Se, de um lado, temos todo um edifício cultural com décadas de exegese e historiografia da literatura nacional e de hábito de apoio e apreciação mais ou menos oficial dos escritores (bolsas, prémios, homenagens, a frequência do circuito das feiras e festivais, etc) e de recolha dos seus espólios, do outro estamos carentes até de uma história da edição portuguesa de referência e habituados à perda ou dispersão caótica dos espólios de editores ou empresas editoriais: apesar de brilhantes trabalhos parcelares sobre determinados períodos ou editoras (como os de Nuno Medeiros, João Luís Lisboa, Daniel Melo e outros contribuintes, muitos vindos da Sociologia da Cultura), a falta de uma estrutura como o francês IMEC (Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, que, com o apoio estatal, desde 1988 recolhe e arquiva espólios de gente ligada à edição contemporânea) e a acima aludida atitude mental de subestimar o trabalho editorial no cômputo das valências culturais têm minado o caminho oposto a este cenário. Exemplos não faltam, mesmo à espuma das coisas, traindo o que lhes subjaz: quando Vitor Silva Tavares morreu em 2015, a RTP titulou no seu site que fora um “escritor” a morrer; a INCM, a editora e gráfica estatal, não publica nem vende nas suas lojas qualquer livro ou colecção dedicada ao estudo e história da edição nacional; nas livrarias, qualquer livro que se atreva a cair dentro deste género acabará enfiado nos “estudos literários”. E etc. Culpa partilhada, sem dúvida, entre editores de expressivas carreiras que não nos deixaram testemunho autobiográfico das mesmas (o memorialismo ou a reflexão escrita sobre o seu próprio trabalho são características quase inteiramente ausentes da tradição editorial portuguesa no último século) e as empresas editoriais “históricas”, que não mostraram até hoje qualquer interesse em investir na investigação e publicação de monografias sobre as suas próprias histórias, “habituando” assim o mercado a este tipo de conteúdo: costumo apontar o exemplo da Dom Quixote, que nunca publicou um livro bem documentado e ilustrado sobre o trabalho notável da sua fundadora Snu Abecassis na primeira década da editora, mas lembro-me também da oportunidade perdida que foi a edição de Babel sobre Babel em 2010, celebrando a criação do grupo homónimo a partir da fusão de uma mão cheia de editoras que marcaram a história cultural do século XX, mas em que a parte dedicada a essa história era ínfima, acabando o livro por ser mais um vácuo exercício de narcisismo.

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De 1968…


Dada esta míngua, é de suma importância o aparecimento no mercado nacional, pela Parsifal, do livro de Flamarion Maués Livros que tomam partido: edição e revolução em Portugal, 1968-1980 (adaptação de uma tese de doutoramento na Universidade de São Paulo), uma importância a vários níveis. Antes de mais por nos lembrar que faltava um estudo em profundidade de um dos períodos mais férteis editorialmente e mais conturbados cultural, social e politicamente da história portuguesa, o que vai da assunção de Marcello Caetano ao leme do Estado Novo em 1968 ao fim da “revolução em curso” com a chegada ao poder de uma aliança partidária de direita com maioria, em 1980, doze anos que cobrem o pleno funcionamento da censura salazarista/marcelista e das apreensões e proibições de livros, o boom da edição política no PREC e, por fim, a brutal colisão com uma realidade pós-revolucionária de aguda crise financeira, de desencanto com o engajamento político e a correspondente recessão da procura de livros “que tomavam partido”, em benefício do regresso a uma procura de entretenimento que a televisão explorará em crescendo, uma conjuntura que ditará o fim de dezenas de projectos editoriais. Para além da minuciosa e objectiva organização de um tal volume de dados, o valor deste livro está em não fugir da linha central do projecto, a focagem no engajamento político destas editoras (das já existentes em 1968 a dezenas de outras que foram sendo criadas até 1980), quer sob o governo marcelista, quer já depois da Revolução, mediante graus de “politização” do seu catálogo e da sua posição face à “situação” anterior e posterior a 1974, abrangendo um espectro vastíssimo de editoras da extrema-esquerda à extrema-direita. Acrescendo de modo substantivo a esse valor está a exaustiva recolha de depoimentos entre sobreviventes destas batalhas, editores de projectos tão importantes como a Afrontamento, a Prelo, a Ulmeiro, a Centelha ou a tomarense Nova Realidade, que é, sem dúvida, a mais valiosa pepita deste tomo, não só “humanizando” a frieza e o rigor estatísticos a que um projecto destes deve obediência, mas dando testemunho de batalhas pela palavra impressa em momentos de aberta repressão ou de caótica atomização política, em que o engenho e a inteligência de alguns editores ficam bem revelados (note-se o modo astuto como a Afrontamento conseguiu publicar textos com a transcrição de julgamentos no Plenário, por exemplo). O trabalho a fundo do autor sobre a edição de resistência à ditadura brasileira torna a sua uma voz particularmente útil na necessária discussão sobre este esquecido período da edição nacional, a que este livro dá uma contribuição de peso.

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… a 1980


Há por aqui histórias fascinantes, que o peso estatístico não esconde e ajuda até a fazer ressaltar, como, por exemplo, a da Portucalense, pequena editora portuense próxima da situação que, por morte do fundador em 1971, cai nas mãos do herdeiro José Oliveira, que em apenas dois anos a transforma numa plataforma de edição de textos radicais de esquerda, todos proibidos, até desaparecer na clandestinidade. Exemplos como este, de urgência febril de intervenção política, relatados em primeira mão ou através de uma miríade de fontes, abundam neste livro, ecos de um tempo conturbado em que o livro era meio privilegiado para essa intervenção dada a sua maior facilidade em escapar ao “exame prévio” censório e o seu estatuto de objecto cultural por excelência para uma classe média-baixa em busca de instrumentos de “melhoramento” antes de 74 e, depois, de informação detalhada sobre o novo mundo (estatuto hoje, e de há muito, perdido).

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Spread de um dos números de Dezembro de 1969 da revista Notícia, com texto de Luiz Pacheco sobre a morte de Alves Redol


Na sessão de apresentação do livro, na Biblioteca das Galveias em Lisboa, António Mota Redol fez uma revelação que, curiosamente, me poderia obrigar a refazer a argumentação montada nos dois primeiros parágrafos: foi o dinheiro dos direitos de autor pelas vendas dos livros do seu pai, Alves Redol, que pagou os custos desta edição, através da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. Ou seja: acabou, finalmente, por ser um autor morto há 50 anos a vir em socorro de um livro em que os autores têm parte muito secundária face aos editores. Pedir um maior aparato visual ou a inclusão de cor em “extra-textos”, se justificável, seria exigir um risco financeiro para além do já notável esforço em resgatar esta volumosa obra (quase 700 páginas) dos corredores da Academia, um risco que mais seria exigível a uma distraidíssima INCM. Melhor será pensar que uma tão violenta e refrescante lufada desses ventos dos anos 70 nos abre apetite pelo resgate de alguns livros esquecidos sobre essa década de perigos e encantos, à cabeça dos quais estaria, por exemplo, Títulos, acções e obrigações: a cultura em Portugal de Eduarda Dionísio. Que os editores hodiernos se mirem no exemplo destes de há 50 anos e arrisquem. E que frutifique o exemplo de Alves Redol e dos seus herdeiros em apoiar a divulgação e preservação da memória da edição nacional, perante a escandalosa inacção de instituições que deveriam fazê-lo.

(Versão mais curta publicada no jornal Público aqui)

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Novidade Montag

Conferir e comprar no site Montag (já em algumas livrarias independentes seleccionadas de Lisboa, na banca de Frenesi/Paulo da Costa Domingos na feira do Anchieta ao Chiado e em breve na FNAC).

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Capas do cesto dos proibidos (VI)

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A Antologia do Conto Abominável de 1969 foi o regresso do editor Fernando Ribeiro de Mello à lista dos proibidos pela Censura, depois de um hiato de três anos em que procurou “portar-se bem”: deixar de publicar títulos de cariz sexual e claramente afrontosos da sólida moral lusa e tornar-se, por exemplo, um respeitável editor de livros infantis.

Foi a sua primeira colaboração com Aníbal Fernandes (um engenheiro nascido em Angola e que em breve teria a seu cargo o controle do abastecimento de água à cidade de Luanda), que, além de seleccioná-los, traduziu todos os contos e também deu à editora neste volume o que faltara na Antologia do Conto Fantástico Português dois anos antes: uma organização lógica e pequenas introduções a cada conto carregadas de erudição. (A edição contava ainda com um prefácio politicamente acutilante de Vitor Silva Tavares). A capa, uma arrojada experiência grandguignolesca de Carlos Fernandes (outro residente em Luanda), podia ser vista como uma homenagem aos comics de horror da EC de uma década antes (Vault of Horror, Tales from the Crypt, etc), como uma tentativa de amálgama ilustrativa de alguns contos (sendo “Os Sem-Fronha” de Marcel Schwob o mais óbvio candidato) ou apenas resultado de um desejo de chocar sem esquecer algumas das aportações surrealistas. Fernandes fizera capas muito boas para a Ulisseia no tempo em que Vitor Silva Tavares estivera na editora (fizera parte, com Rocha de Sousa e Espiga Pinto, do trio de jovens artistas gráficos que o editor lançara então), exibindo um alargado leque de soluções gráficas e grandes dotes no desenho de letras. Dessa fase data a pequena caixa de texto publicada no suplemento & etc do Jornal de Fundão a 27 de Julho de 1967, em que é notória a boa impressão que o seu trabalho causara no então  quase ex-editor da Ulisseia.

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A carreira de Carlos Fernandes, hoje praticamente esquecida dos curadores do cânone, não ganhou tracção depois desse sólido arranque (talvez por causa dessa falta de “jeito para o negócio”), apesar das excelentes companhias que manteve em Luanda até ao seu “retorno” a Portugal, como fica documentado nesta fotografia de 1971, em que se vê o artista de costas e à esquerda, junto ao arquitecto Troufa Real e ao poeta Herberto Helder (foto de Júlio de Saint-Maurice, retirada daqui). Voltaria, porém, a fazer uma excelente capa para um livro traduzido por Aníbal Fernandes, a edição da &etc de Dissertação do Papa sobre o Crime seguida de Orgia do Marquês de Sade, em 1976.

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“Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite”: à venda

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Finalmente, à venda o primeiro livro dedicado ao lendário “editor maldito” por excelência na última década do Estado Novo, Fernando Ribeiro de Mello, e à sua “pseudo-editora”, a Afrodite. Dele escreveu a censura, em 1966, que personificava a mais “insólita ofensiva de corrupção” a que o regime assistira em quarenta anos de existência. Pode ser adquirido aqui.

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Ribeiro de Mello: ao fim de 23 anos, uma homenagem pública em Lisboa

Alguns frames e registo (filmado pelo Luís Rodrigues, a quem agradeço) da sessão da passada Quinta-feira, 21 de Maio, na Sociedade Guilherme Cossoul em Lisboa, em que, comigo e com o editor Vitor Silva Tavares na mesa, se lembrou e homenageou o editor Fernando Ribeiro de Mello (1941-1992) e a sua Afrodite, de cujo arranque se cumprem 50 anos por esta altura. A hora e meia da gravação foi ultrapassada em vinte minutos pela conversa, que correu muito bem e com o espaço do bar à pinha (cheguei a ver gente em pé junto ao balcão), mas o essencial está aqui preservado. Mais do que uma oportunidade para revelar detalhes de Editor Contra, o livro que preparo sobre a Afrodite, o que me parece mais mais digno de nota é que se tratou, se não estou em erro (e creio bem não estar, até pelo que me contou o próprio Vitor Silva Tavares), da primeira sessão pública de homenagem e evocação a uma das figuras mais emblemáticas de uma certa Lisboa ligada aos livros do último meio século, isto mais 23 anos após a sua morte, o que, bem vistas as coisas, até não surpreende tanto assim numa cidade que entrega bibliotecas municipais à gestão de juntas de freguesia e mantém encerrada mais de dois anos (e sem reabertura conhecida) uma importantíssima hemeroteca (cujo regime maravilhosamente liberal de consulta me permitiu aceder fácil e rapidamente a muitos e importantes registos de imprensa, coisa que, hoje, seria de todo impossível). Agradecimentos aos livreiros Ricardo Ribeiro, Débora Figueiredo e Fábio Daniel, e à direcção da Guilherme Cossoul.

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No dia 21, a dar ao dente pela Afrodite

No dia 21 de Maio, às 21:30 horas, na livraria “Sr.Teste/Ennui” da Guilherme Cossoul (a Santos), vai-se lembrar a Afrodite e Fernando Ribeiro de Mello, nos 50 anos do início das publicações daquela chancela com o Kamasutra e, em Dezembro de 1965, a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. A sessão terá o título genérico de “Mais do que um editor na banheira: celebrando os 50 anos da Afrodite”. O Vitor Silva Tavares vai estar comigo a dar ao dente pela Afrodite, e eu mostrarei detalhes do meu livro Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, que, se tudo correr bem, conto ter cá fora depois do Verão.

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“Fernando de Bentley”, Guy Debord e a edição portuguesa de “A Sociedade do Espectáculo”

O texto deste post é um excerto de Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, a monografia “in progress” que tenho vindo a compor e que – figas – espero poder publicar este ano. Para o caso em questão – a publicação na Afrodite da primeira edição portuguesa de A Sociedade do Espectáculo de Guy Debord, em 1972 – são devidos todos os agradecimentos e mais um a Francisco Alves, amigo de Debord e autor da tradução, e Maria de Magalhães Ramalho, que teve acesso ao arquivo pessoal daquele e me disponibilizou a reprodução de algumas cartas.

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Caminhando para o sétimo ano de actividade, celebrado com a sua mais mediática sessão de promoção, que catálogo era, em 1972, o da Afrodite, cuja validade e relevância cultural Ribeiro de Mello tão veementemente defendera no meio de uma “banheira” gigantesca em Dezembro do ano anterior? Se o editor da “revolução sexual” tivera de tirar estrategicamente o sexo desse catálogo (ainda que o explorador sexual, o “caça-saias”, continue activo, como o deixa claro o Diário que Luiz Pacheco escreve desde o início da década), a chancela (que corresponde ainda a um projecto “semi-clandestino”, larvar, sem uma “sede”, em que o trabalho de preparação dos livros se faz em casa do editor ou dos colaboradores e onde nunca uma morada de contacto se indica nas fichas técnicas) conseguira prosperar com a edição de títulos infantis de novos autores e ilustradores portugueses, com antologias inéditas e, em geral, de grande prestígio crítico e com a reedição de clássicos da literatura nacional, tudo embalado em livros cuidadosamente produzidos e que, pelo seu formato e grafismo, apelavam a um imediato reconhecimento visual num contexto em que a vida de uma edição podia ser brutalmente encurtada por intervenção censória ou policial. A tradução de obras estrangeiras de ficção ou ensaio, depois do arranque de 1965-66, é mínima, e – ponto importante – o peso dos títulos abertamente “políticos” nesse catálogo é igualmente reduzido. Tal como no seu arranque, continua a beneficiar de um “mercado paralelo” em que os “livros proibidos eram verdadeiros best-sellers”, com tiragens de “3 mil, 4 mil exemplares”, livros que as livrarias “recebiam e nem expunham, ficavam debaixo do balcão e havia os clientes certos que iam lá e compravam” (1): “a proibição aguçava o apetite”. (2) Quantitativamente, entre 1968 e 1972, o número de obras em 1.ª edição registadas na BN mantém-se sempre acima dos cinco milhares por ano, ultrapassando mesmo a marca dos seis mil a partir de 1972 e até ao final da década. (3)

As atribulações, talvez poéticas, talvez pessoais, da Luísa [sic], têm-lhe feito protelar dia a dia as notícias que sobre o assunto ela queria dar. Como sou muito intranquilo, ansioso e apressado, pedi-lhe que permitisse ser eu a escrever-lhe.”

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Os acontecimentos de Maio de 1968 em Paris e, depois, a “primavera” marcelista tinham sido os catalisadores de um “forte incremento” da actividade editorial em Portugal, em particular “de livros de carácter político, com destaque para obras vinculadas ao pensamento de esquerda” (4), resultando não apenas no aparecimento de algumas novas editoras (até no Porto de Ribeiro de Mello, onde José da Cruz Santos funda em 1968 a bem sucedida Inova e, em 1971, a Afrontamento começa a despontar como uma referência) como na “politização” dos catálogos de algumas editoras já existentes.
Neste contexto de uma certa radicalização dos catálogos e de uma maior consciência política dos novos editores, como era vista a Afrodite, cujo editor, apesar de ter apenas 30 anos, tinha já quase dez anos de actividade, três dos quais ainda sob o governo de Salazar? João Carlos Alvim, o amigo de Fernando Ribeiro de Mello que, com José Antunes Ribeiro, fundará a Assírio & Alvim em Novembro de 1972 (que no ano seguinte publicará de uma autora de referência da Afrodite na década anterior, Maria Alberta Menéres, um dos seus livros mais populares, O Poeta Faz-se Aos 10 Anos) dá uma resposta:

“Para o que nós queríamos fazer, a Afrodite não era uma referência importante. A Assírio & Alvim nasceu sobretudo como um projecto de editora política de intervenção, só aos poucos foi adquirindo um cariz mais literário. As nossas referências seriam, na época, a Afrontamento – que estava igualmente a nascer por essa altura – a Centelha, a Prelo, a Seara Nova (bem como a equipa da revista Análise Social). E do lado espanhol os Cuadernos para el Diálogo e a Seix Barral. Ou em França a Maspero”. (5)

François Maspero (que, além da editora em seu nome, geria a famosa livraria “La Joie de Lire”, no Quartier Latin de Paris), pelo seu catálogo mais combativo politicamente ao longo dos anos 60, era agora o modelo para um aspirante a editor no início da nova década, o mesmo tipo modelo que Pauvert fora dez anos antes: este estava próximo da falência (um prémio Goncourt para um dos seus autores em 1972 apenas adiou a fusão da sua editora na Hachette) e os outros grandes modelos da edição “marginal” desde os anos 50, Girodias e Losfeld, saíam lentamente de cena. Não sendo propriamente o exemplo de uma editora “política” ou politizada, a Afrodite prepara-se contudo para acrescentar ao seu catálogo em 1972, na colecção de Ensaios/Documentos, o título que informara grande parte dos protestos de Maio de 1968 em Paris e os anos de ressaca depois dos mesmos. Nascida de um interesse manifestado pelo próprio editor ainda em 1970, a primeira edição portuguesa de A Sociedade do Espectáculo de Guy Debord (a quarta mundial, depois das edições italiana, norte-americana e dinamarquesa) desenrola-se, ao longo de 1971, no ritmo lento de uma correspondência entre Lisboa e Paris que envolve o editor, o tradutor Francisco Alves e o autor, complementada com a vinda a Lisboa de Gianfranco Sanguinetti, companheiro de Debord na Internacional Situacionista, que traz (num Bentley azul e branco, modelo Mark VI de 1951) (6) o manuscrito da tradução e Afonso Monteiro, que fizera a revisão da mesma. Numa carta de Alves ao editor, datada de 9 de Fevereiro de 1971, aquele confessava já alguma ansiedade por saber se, “nove meses depois da manifestação do seu interesse”, Ribeiro de Mello ainda pretendia avançar com a edição, indicando ainda que “as mais vantajosas condições” lhe tinham sido concedidas para a mesma. (7)

“Quanto à capa, somos adeptos de um certo luxo clássico, de que a própria revista [a Internationale Situationiste, publicada de 1958 a 1969] ou a recente edição de Van Gennep são excelentes exemplos. Cor única, letras a preto. O branco, o metálico-prata ou ouro, parecem excelentes.”


Seguir a correspondência entres os dois agentes principais desta “missão” é aqui de particular relevância para entender o modus operandi de Ribeiro de Mello e compreender como se via ele no papel de um pequeno editor semi-marginal. A 7 de Maio, em carta do editor a Francisco Alves, aquele indica claramente “a nossa amiga Luísa [sic] Neto Jorge” (poucos antes regressada de quase uma década em Paris) como a intermediária nos primeiros contactos, e que lhe teria perguntado se estaria interessado em publicar uma edição do título de Debord com a tradução do seu correspondente:

“Disse-lhe que sim. Que isso seria para mim do maior interesse, não só editorial mas também pessoal – aspecto da minha actividade sempre muito relevante.
As atribulações, talvez poéticas, talvez pessoais, da Luísa [sic], têm-lhe feito protelar dia a dia as notícias que sobre o assunto ela queria dar. Como sou muito intranquilo, ansioso e apressado, pedi-lhe que permitisse ser eu a escrever-lhe.”

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Capa da edição americana da Black & Red (1970)

Pela poetisa, Ribeiro de Mello teria ficado a saber que, sem qualquer inconveniente para Debord, “estaria dispensado do pagamento de direitos de autor” e que “poderia fazer a edição (tal como a americana) clandestina”. De facto, em 1970 aparecera uma edição da obra traduzida pelo anarquista Fredy Perlman e publicada “clandestinamente” (sem o pagamento de quaisquer direitos de autor) pela Black & Red de Detroit. A resposta do editor da Afrodite a ambas sugestões permite-nos ter uma rara e bem definida imagem não só do astuto negociante que ele era como do tipo de editor que ele sabia ou queria ou julgava ser:

“Quanto ao primeiro aspecto (direitos-dinheiro), óptimo, pois que sou um editor só não falido de prestígio e desprestígio, de simpatia e ódio, naqueles sectores brindados com o privilégio de usufruírem em Portugal a condição de intelectuais ou políticos – razão (dinheiros) porque sempre tenho fugido aos autores não caídos no domínio público; quanto ao segundo (clandestinidade da edição) não me serve, não só porque vivo muito do gozo público das edições que faço (e assim deixaria de ter gozo pelo desconhecimento da minha responsabilidade e participação nela), mas também porque penso que isso poderia constituir qualquer coisa de incoerente relativamente ao texto e até (em Portugal) desprestigiante”.

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Aproveitando a oferta de isenção de pagamento de direitos (uma raridade no negócio da edição), e conhecedor da mentalidade do mundo editorial português, avesso ao ferrete de “clandestinidade”, Ribeiro de Mello joga uma cartada arrojada, pedindo ao autor uma autorização escrita para uma edição “não-clandestina” mas que usufruísse dos mesmos “benefícios” financeiros de uma feita ilegalmente. Pedindo urgência da entrega da tradução (“paga a 20$00 à página dactilografada a 28 linhas”), ele limita-se aguardar, “intranquilo, ansioso e apressado”, por uma resposta. (8)
Como pedido, será o próprio Debord a dá-la, numa carta de 15 de Maio do mesmo ano:

“Je vous donne mon accord pour l’édition portugaise de mon livre La Société du Spectacle, à la seule condition que le texte publié soit exactement celui de la traduction que vous remettra mon ami Alves, sans aucune modification. J’ai moi-même collaboré à la vérification de cette traduction.
Je vous confirme que vous n’aurez pas à payer de droits de propriété littéraire. Je vous abandonne mes droits d’auteur.” (9)


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Esse gesto teria menos a ver com uma súbita generosidade de Debord do que com a consciência e o receio de que a apertada vigilância censória e policial em Portugal (acrescendo-se à história judicial do próprio editor) poderia impedir a publicação da edição (o facto de se ter desentendido, por essa altura, com a sua anterior editora francesa, a Buchet/Chastel, e de estar prestes a ser publicado pela Champ Libre de Gérard Lebovici não teria sido também despiciendo na sua decisão). Isso mesmo ele revelara numa carta 13 de Abril a Sanguinetti: “Tous les amis au Portugal sont en prison. Comme tu penses, l’éditeur portugais de mon livre n’est plus en état de l’éditer.” (10)

“A colecção tem as suas características, forçosamente constantes (como todas as colecções), mas que, por sinal, julgo absolutamente de acordo com os desejos e gosto de Guy Debord”


Pedindo ao correspondente português para, em virtude do seu mau francês, agradecer por ele ao autor a generosa “oferta”, Ribeiro de Mello responde, comprometendo-se a publicar “rigorosa e fielmente” a tradução que lhe for enviada. (11)A resposta de Alves é particularmente curiosa quantos aos detalhes financeiros (recusando, também ele, um pagamento em dinheiro, preferindo-o antes no “equivalente número de exemplares”) e gráficos da produção da edição:

“Quanto à capa, somos adeptos de um certo luxo clássico, de que a própria revista [a Internationale Situationiste, publicada de 1958 a 1969] ou a recente edição de Van Gennep são excelentes exemplos. Cor única, letras a preto. O branco, o metálico-prata ou ouro, parecem excelentes.” (12)

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Capa do segundo número do boletim da IS Internationale Situationniste (Dezembro de 1958)

Quando Ribeiro de Mello responde, já em Novembro, é para comunicar o iminente envio das provas da edição para revisão e o facto de que A Sociedade do Espectáculo será o segundo título da nova colecção de ensaios, logo após o Anti-Duhring, que ele apresentaria, dali a uns dias, na célebre “banheira” (ainda que, nesta carta, e por razões óbvias, tenha mantido o secretismo quanto ao plano desse arrojado lançamento). Quanto às sugestões gráficas para a capa, o editor mistura o realismo com a habitual pitada de orgulhoso optimismo:

“A colecção tem as suas características, forçosamente constantes (como todas as colecções), mas que, por sinal, julgo absolutamente de acordo com os desejos e gosto de Guy Debord. De resto, e particularmente no que diz respeito a ‘um certo luxo clássico’, defendo que esta minha nova colecção se afirmará por uma eficiência de bom gosto e funcionalidade pouco comum e verdadeiramente exemplar – e isto, com o maior à-vontade, refere-se não só a estes lavabos turísticos da Europa. Seja como for, resta-me a certeza de que como retribuição à simpatia do autor Guy Debord, vou fazer melhor do que seja quem for (que se conheça) faria aqui.” (13)


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A única “nódoa” na satisfação de Debord com esta edição terá sido ver a imagem do seu rosto em alto contraste multiplicada na folha de rosto – solução gráfica que Marques de Abreu aplicara já no primeiro livro da colecção ao rosto de Engels – algo que, segundo Francisco Alves, lhe provocou um acesso de ira que quase o fez enviar uma carta de reclamação ao editor.


“Fernando de Bentley” (nome secreto pelo qual o editor português era referido na correspondência de Debord, numa referência ao Bentley que Sanguinetti conduzira até Portugal) acabaria por conseguir publicar a sua edição do livro, certamente durante o primeiro trimestre de 1972 (pouco tempo antes, portanto, do anúncio público da “cisão” da Internacional Situacionista, ocorrida em Maio): numa carta a Sanguinetti de Abril desse ano, o autor admite ter visto provas corrigidas da mesma. (14) O que começara como um projecto de “tesão” (15) para o jovem estudante universitário Francisco Alves acabara no que Debord consideraria uma das melhores edições estrangeiras e na melhor tradução do seu texto, a par da dinamarquesa (16) (a única “nódoa” nessa satisfação terá sido ver a imagem do seu rosto em alto contraste multiplicada na folha de rosto – solução gráfica que Marques de Abreu aplicara já no primeiro livro da colecção ao rosto de Engels – algo que, segundo Francisco Alves, lhe provocou um acesso de ira que quase o fez enviar uma carta de reclamação ao editor). De apresentação gráfica discreta (apesar do fundo prateado da capa, eco das sugestões de Debord via Alves), sem os arrojos de composição de texto do primeiro volume da colecção mas também, é certo, sem conseguir um equilíbrio harmónico entre o esquema gráfico dessa colecção e o que o autor pretenderia, A Sociedade do Espectáculo não mereceu a proibição que caíra sobre a edição de Engels: apesar de identificar o autor como “um marxista francês” e de admitir que “em princípio seria um livro para proibir” pela sua “crítica do capitalismo” e pelo “elogio da revolução”, o censor Lima de Carvalho, na sua ficha de leitura de 6 de Junho, considerava que, pela sua “abordagem difícil”, se tratava de um livro acessível apenas a uma elite intelectual, propondo apenas restrições à sua divulgação em vez da apreensão. (17) Esta recepção “morna” da censura parece ter-se reflectido nas vendas, que terão sido lentas até à Revolução de Abril de 1974, após o que a edição se esgota em poucos dias. (18)

NOTAS:
1. António Abreu, cit. in SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. (Tese de Doutoramento) São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013, p. 75.
2. José Reis, cit. in SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Idem, ibidem.
3. SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Op. cit., p. 44.
4. SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Op. cit., p. 36.
5. Entrevista por email, 12.08.2014.
6. RAMALHO, Maria. Realizar a Poesia – Guy Debord e a Revolução de Abril. Punkto (revista online).
7. Carta de Francisco Alves a Fernando Ribeiro de Mello, 09.02.1971. Arquivo da PIDE/DGS (Serviços Centrais), Torre do Tombo: CI (2) 550/74 NT – 7881, fl. 19 (processo 2215/58-SR).
8. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 07.05.1971. Arquivo de Francisco Alves.
9. Carta de Guy Debord a Fernando Ribeiro de Mello, 15.05.1971 (cópia). Arquivo de Francisco Alves. (Cf. DEBORD, Guy. Corréspondance. Vol. IV. Paris: Arthème Fayard, 2004 – também disponível aqui).
10. DEBORD, Guy. Op. Cit.
11. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 07.06.1971. Arquivo de Francisco Alves.
12. Carta de Francisco Alves a Fernando Ribeiro de Mello, 28.06.1971. Arquivo de Francisco Alves.
13. Carta de Fernando Ribeiro de Mello a Francisco Alves, 20.11.1971. Arquivo de Francisco Alves.
14. Carta de Guy Debord a Gianfranco Sanguinetti, 18.04.1972, in DEBORD, Guy. Op. Cit.
15. Conversa telefónica com Francisco Alves, 27.11.2014.
16. DEBORD, Guy. Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo. Prefácio à quinta edição italiana de A Sociedade do Espectáculo. Lisboa: mobilis in mobile, 1995, p. 111.
17. Relatório 793/72 de 08.06.1972. Arquivo do Secretariado Nacional de Informação – Direcção dos Serviços de Censura, Torre do Tombo (PT-TT-SNI-DSC-13-8_m0352).
18. Carta de Guy Debord a Afonso Monteiro, 12.06.1974 (in RAMALHO, Maria. Op. cit.).

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