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Uma hora rara com Luís Miguel Castro

Numa pequenina sala de uma biblioteca municipal (ainda as há!) de ar algo abandonado ali ao Calhariz aconteceu o impensável: o ar fresco de 1990 aliviou por momentos a atmosfera pesada deste final de 2011. Ontem, pelas 18:30, um Luís Miguel Castro (LMC) que, minutos antes e em surdina, se  julgava poder não aparecer de todo, irrompeu pela já bem recheada sala, cumprimentou o moderador Mário Moura (MM) e a blogger Susana Pomba (com um beijo na mão) e ofereceu-nos, num discurso escorreito, detalhado, técnico q.b. e sem escolhos de nostalgia sentimentalona, uma coisa rara: o testemunho de alguém que esteve no arranque e ajudou a produzir um dos mais importantes projectos de imprensa nacionais dos últimos 40 anos. Do ponto de vista técnico, o seu testemunho foi, pode dizer-se, uma autêntica masterclass, que poderia estender-se facilmente ao seu trabalho nos catálogos da Cinemateca (MM ainda forneceu a “deixa”) se o tempo e o tema não fossem limitados.

Referindo, como influências, desde o grafismo dos Construtivistas russos, em especial o trabalho de Alexei Brodovitch (mencionado pelo seu então parceiro de grafismo João Botelho num texto reproduzido no Ressabiator) até ao incontornável Neville Brody, passando pelo igualmente transversal Pioneers of Modern Typography de Herbert Spencer (tema de uma próxima palestra de MM na Culturgest), LMC soube ser também meticuloso nas referências técnicas (retive a ideia de que ele não trabalhava o layout pensando no efeito do spread esquerda-direita, compondo antes no plano finito da página), remetendo-nos para uma época de corte-e-cola, de sprays da 3M, de películas Letraset, de fotocópias, em que criar uma maquete de revista implicava sujar as mãos. Apesar de já o fazer no liceu, foi a K que li durante os anos do curso de História da Arte no Porto que me fez meter-me a sério (ou pelo menos eu assim o via) na paginação de revistas, pelo que devo àquele homem de camisa aos quadrados alguma coisa.

Houve tempo ainda para lembrar alguns números da K (LMC confessou não ter gostado muito da capa do número dedicado a José Vilhena, um dos mais famosos na altura), tendo eu lançado da assistência a memória de duas entrevistas que marcaram esses anos: a que Vasco Pulido Valente fez a Herman José, e que quebrou pela primeira vez a “aura” do comediante (a peça chamava-se “A Morte do Artista” e lembro-me que Herman fez uma referência amarga a ela na Roda da Sorte, chamando-lhe “a morte da revista”, o que dá uma ideia da sua repercussão) e, claro, a entrevista-bomba de Luiz Pacheco em 1992, responsável por uma das mais espectaculares ressurreições no mundo das letras portuguesas.

Apesar da preparação de MM, que compareceu munido de portátil, faltou o apoio visual de um datashow (coisa estranha num evento da “é-xis-dê-onze”) que permitisse a “ilustração” da conversa com alguns exemplos à propos. Curiosamente, LMC não parece ter sentido a falta desse apoio: revelando um certo afastamento (se não mesmo um ligeiro desprezo) face à parafernália visual em suporte digital (é ainda, como referiu, um homem do papel, que aprecia o contacto táctil com o produto impresso), o cuidado que colocou na descrição dos seus métodos de trabalho compensou sobremaneira essa falha tecnológica. Tão boa foi, aliás, esta hora de conversa que me pergunto porque não é LMC mais vezes convidado para falar de design gráfico. Ou do que seja.

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Portugal Imaginado

Um projecto de Joana Baptista e Mariana Leão (produzido para a exposição Timeless do Experimenta’09) à volta da imagem turística de Portugal, veiculada pelo SNI até 1974 (e pelo Turismo do Portugal pós-revolucionário desde então), e genialmente “deformada” pelo incontornável João Abel Manta (JAM) em duas ilustrações para o Diário de Notícias nesse também incontornável ano de 1974. Repito o que já escrevi aqui antes: escreve-se muito pouco (e expõe-se miseravelmente menos ainda) sobre JAM. Não sei porquê. Mas são pequenas edições assim que podem inverter a onda que vai apagando as marcas na areia. (Com um agradecimento às autoras pela oferta).

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Telegrama da Experimenta

START — Domingo à tarde, sob intensa canícula, duas visitas a outros tantos pontos no mapa da Experimenta’09 em Lisboa. — STOP — Museu Berardo continua a marcar pontos, em detrimento do MUDE (deve ter sido esse o masterplan…) — STOP — Quick, Quick, Slow peca talvez por excesso de conceptualização teórica na base para esconder um simples e meritório propósito: mostrar alguns objectos incontornáveis do(s) Modernismo(s) de novecentos. — STOP — As revistas desenhadas por Piet Zwart: o overprint explicado às massas, ou o Modernismo como devia ser: didáctico, funcional e muito excitante visualmente. — STOP — As Typographica de Herbert Spencer (e agora sei porque são tão valiosas no mercado). — STOP — Uma sombra de Rodchenko e Lissitsky, a fazer lembrar a grande exposição dedicada a este há 10 anos em Serralves, quando Serralves ainda olhava para o design gráfico com respeito. — STOP — OK, percebemos a ligação dos cartazes de corridas de automóveis de Max Huber ao conceito, mas, apesar do seu impacto, talvez seja Max Huber a mais. — STOP — A sala Helvetica: bela sequência de cartazes unicamente tipográficos de Muller-Brockman (mas sem o Schutz das Kind! de 1953, talvez o cartaz mais cinético de toda a produção suíça). — STOP — De Quentin Fiore (um designer estranhamente esquecido, se descontarmos o texto da dupla Lupton & Miller nessa obra-prima que foi o Design Writing Research) podia ter havido o esforço de mostrar algo mais raro do que o paperback da Bantam do Medium: o número da Aspen desenhado por ele e todo dedicado à obra de McLuhan. — STOP — Um fabuloso cartaz de Tschichold dos seus dias de neue typographie (só uma sala com exemplos da carreira dele já dava uma excelente aplicação dos princípios conceptuais desta exposição) — STOP — Palácio Brancaamp difícil de encontrar (não, não fica na Brancaamp ao Rato…) — STOP — Livraria pouco abonada, bar com preços absurdos. — STOP — “O que é urgente ver”, a exposição comissariada por José Bártolo, está numa salinha difícil de suportar no pico do calor da tarde (alcatifa, portadas das janelas fechadas), mas vale a pena como espaço de alguma intimidade com os cartazes. — STOP — Muito design de produto (por força dos sponsors certamente…), como se design fosse sinónimo de produto, mas o design gráfico em mostra é imperdível. — STOP — A continuar em Outubro. — END

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