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A filosofia de Alvin Lustig*

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“It took me only a few minutes to realize I had made the acquaintance of a “person”, as the saying is.”
James Laughlin (in Publisher’s Weekly, 11.05.1949, citado em The way it wasn’t, p. 168)

Noite de lua cheia. Ondas revoltas vão dar a um areal onde alguém acaba de escrever na areia húmida com um ramo encontrado ao acaso. Numa casa perto, talvez a mesma pessoa que escreveu na areia desemaranha uma folha de papel que antes amachucara e na qual se vislumbra mais uma linha de texto. Algo a faz olhar para a parede branca em frente: um crucifixo de madeira.

Há algo de hipnótico, de absolutamente irresistível nesta capa de Three tragedies de Federico Garcia Lorca, composta por Alvin Lustig (com fotografias de Connor) em 1947 para a colecção “Modern Reader” da editora New Directions. Lustig era um artista gráfico da mesma geração modernista americana do pós-II Guerra Mundial (Paul Rand, Saul Bass, George Lois, Lester Beal, entre outros) que reinventou a comunicação visual e tipográfica nos livros, nas revistas e na publicidade. Morreu muito jovem, em 1955 (com 40 anos), mas, no que toca apenas ao design editorial, deixou marcas em alguns trabalhos, nomeadamente nas capas para a Knopf e a New Directions. Nesta fez composições soberbas, e algumas até porventura mais brilhantes do que a da edição das três peças de Lorca, mas esta em particular tem uma força que poucas capas conseguirão.

Lustig abdicou de qualquer imposição tipográfica ou ilustração, coisa rara para a época, e, numa grelha muito simples, fez o que poderíamos chamar de preparação dramática do leitor para a “entrada” no texto com uma montagem de planos fotográficos, que podem ser “lidos” na ordem cronológica normal, de um plano geral no exterior para um plano de pormenor no interior (conseguindo-se assim o total efeito cinematográfico desta montagem), ou então por associação e cruzamento através do eixo horizontal central: a lua joga com a cruz e as ondas revoltosas com o papel rasgado. A tipografia é toda “localizada”, fotografada como se fizesse parte dos elementos naturais ou dos objectos desta “encenação”.

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Sutura é o termo usado nos estudos fílmicos para o efeito que a narrativa essencialmente visual do cinema opera no observador, uma concatenação de planos que nos leva para “dentro” da história e nos “cose” ao filme. Quando vi pela primeira vez esta capa reproduzida, e apesar do diminuto tamanho dessa reprodução, não pude deixar de sentir que ela operava precisamente o mesmo efeito. Uma possível aplicação das longínquas lições de Lev Kuleshov, e das experiências do cinema sem película, é também (pelo menos, gosto de pensar que é) uma quase directa referência a Un Chien Andalou de Luis Buñuel (afinal de contas, Buñuel e Lorca tinham sido amigos): aquela lua podia bem ser a dos planos iniciais desse filme, inspirando o mesmo sentimento de opressão soturna e irracional.

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Faz já parte da “lenda” o encontro entre James Laughlin, o poeta e editor fundador da New Directions, e o jovem Alvin Lustig em Los Angeles, no início da década de 1940. Laughlin procurava algo diferente e não há dúvida de que o encontrou algures no pequeno estúdio nas traseiras de uma loja que Lustig ocupava. A partir desse momento, as carreiras da ND e de Lustig são indissociáveis, até à morte deste (além dela até, pois a sua viúva Elaine Lustig Cohen fez ainda excelentes capas para a editora). Lustig criou a base e o modelo visual para uma editora modernista e vanguardista, primeiro com as suas capas abstractas e coloridas, depois (procurando fugir à “concorrência” que se apressara a seguir esse modelo) impondo um rigoroso monocromatismo a preto (usando fotomontagens ou colagens), fase de que a capa de 3 tragedies é um dos exemplos e que acentuou e marcou a identidade gráfica da ND por várias décadas, numa linha onde couberam aportações de Andy Warhol, Ivan Chermayeff, Tom Geismar ou, mais recentemente, Rodrigo Corral. Laughlin, por seu lado, nunca deixou passar uma oportunidade de louvar esta contribuição de Lustig para a sua editora (chegando mesmo a estabelecer uma correlação entre o seu design e o aumento das vendas num prefácio à edição de 1947 de Bookjackets by Alvin Lustig for New Directions Books), no que é um caso quase único, por esses anos, de um editor literário que escreve sobre um designer gráfico.

Lustig começara a dar nas vistas numa pequena editora de Los Angeles, a Ward Ritchie Press, e foi precisamente Ward Ritchie quem, num depoimento gravado e transcrito em 1969, reforçou a ideia de “intensidade” no carácter de Lustig que tanto impressionaria Laughlin:

“By birth he was Jewish, but he had gone through Judaism and Christianity. He enveloped all religion, rather than any particular religion. He had great faith and a tremendous personal ego. I think he was perfectly sincere in his belief at that time of his life that he was the reincarnation of Christ. He felt that as his own ideas and philosophy matured, he would be able to lead mankind back to the basic Christian philosophy of Jesus. One time I asked him about the type abstractions on which he was always working. He said, ‘This is part of my development. This is developing my philosophy too’.” (Printing and Publishing in Southern California, Ward Ritchie, p. 547, documento dactilografado, Universidade da Califórnia – Los Angeles, 1969)

Esta intensidade serena é indesmentível nas fotos que se conhecem dele, tal como na foto que Elaine Lustig Coen escolheu para a capa do volume póstumo de 1958 The Collected Writtings of Alvin Lustig.

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Para além de uma aplicação muito criativa do programa modernista, não é possível pensar no negrume de algumas das capas da série da New Directions sem o associar à consciência da morte que Lustig teria: o seu “desenvolvimento filosófico” seria, de certa forma, também a preparação para o fim esperado da sua convivência desde muito cedo  com a doença, a diabetes que, antes de o matar, o cegou nos seus últimos anos. (Estava já a caminho da cegueira quase total quando, em 1952, concebeu o genérico da série de desenhos animados Mr. Magoo, o célebre velhinho que decide teimosamente recusar que a miopia seja um obstáculo na sua vida diária, tal como Lustig recusou que a cegueira o impedisse de continuar a trabalhar). É essa consciência que se sente na capa de Three tragedies e que a torna tão forte: apesar do brilhantismo formal e do perfeito acabamento de todos os detalhes, há uma cadência visceral que dá dramatismo e urgência a um exercído gráfico que, em mãos menos subtis e movidas por um programa mais ortodoxo e superficial, não passaria de mera frivolidade.

Essencialmente um autodidacta, que decidiu aprender as bases da arquitectura (empregando-se no atelier de Frank Lloyd Wright) e das artes gráficas com a mesma obstinação com que aprendera magia no liceu (pelo que, quando Laughlin usa o termo “mágico” referindo-se à sua forma de trabalhar, não podemos deixar de concordar com a propriedade), Lustig possuía o segredo alquímico que o editor da New Directions procurava para enquadrar os seus textos incondicionalmente modernistas. Para Laughlin, a modernidade literária estaria coxa se não tivesse uma tradução gráfica ao mesmo nível.

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Há uns anos, a New Directions, ainda independente e resistente, publicou um curioso volume biográfico sobre o seu fundador, The Way It Wasn’t, no qual se nos dá acesso a documentos, cartas, reflexões e fotografias reunidas por Laughlin (falecido em 1997) ao longo da sua carreira. E o que esse livro nos mostra é que, se Lustig tinha realmente “nascido moderno”, como uma vez afirmara, não havia outra editora que se adequasse melhor ao seu trajecto do que a New Directions, onde, anos antes da primeira capa de Lustig, já aquele procurava os mesmos caminhos gráficos para a apresentação dos seus livros a que este depois daria, com total liberdade criativa, uma forma sistemática (o exemplo de uma soberba capa para The Cosmological Eye de Henry Miller, de 1939, é prova do projecto modernista que Laughlin já queria para a sua editora antes ainda de conhecer o designer).

Three tragedies, de Federico Garcia Lorca (New Directions, Nova Iorque, 1947, 378 páginas, capa dura com sobrecapa)
NOTA: um exemplar com uma sobrecapa intacta ou em estado aceitável pode custar entre os 30 e os 125 Dólares, dependendo da loja. Alguns vendedores no ebay podem constituir uma boa surpresa (de preferência os que não sabem quem foi Alvin Lustig…, apesar de a capa – tal como quase todas as suas e as da maioria dos seus colegas de geração – exibir a sua assinatura). A versão da capa para a edição em paperback (muito mais acessível) difere ligeiramente da da edição hardback: são omitidas as imagens do papel amachucado e do crucifixo, bem como a assinatura do designer e fotógrafo.

* versão editada e aumentada de um texto publicado no site PNETdesign em 2010

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Nascido moderno

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O encontro com este post no blogue da New Directions veio confirmar o que a anterior leitura de The Way It Wasn’t tinha deixado claro: falta um livro de referência sobre o design gráfico (em especial, as capas ou as sobrecapas) associado a esta editora independente desde, pelo menos, 1939 (data da mais antiga capa da ND que captou a minha atenção). Com um design limpo (talvez demais?) de Rodrigo Corral, actual director criativo da editora, TWIW (2006) é, sobretudo, um scrapbook, um livro de recortes e textos dos arquivos de James Laughlin, o fundador da ND, montado por ordem alfabética e tendo como função a organização mental de todo esse material (”my head’s collection” como lhe chamou JL) que tinha servido, dez anos antes, para a escrita do seu esboço de autobiografia, Byways.

Comprei-o esperando algo no estilo dos livros sobre editores de que escrevi aqui no blogue da Livros de Areia, mas, ainda que um testemunho claro de um percurso pioneiro no Modernismo literário americano do século XX, este livro é, acima de tudo, uma prova de que esse Modernismo literário era indissociável da sua tradução gráfica: uma literatura diferente e vanguardista implicava uma nova imagem. Herdeiro de uma fortuna de família (coisa que partilhava com muito editores da “velha escola”), Laughlin era, contudo, um caso aparte: aluno rebelde de Harvard, abandona a universidade no seu segundo ano de curso e vai viver um ano para Itália e estudar na “academia” informal que o poeta Ezra Pound abrira em Rapallo; é este que o aconselha a enveredar pela edição e, de volta aos EUA e com 22 anos, cria a New Directions em 1936, que nos primeiros anos funciona num celeiro adaptado na propriedade de uma tia sua.

Faz já parte da lenda do design gráfico o encontro entre Laughlin e Alvin Lustig em Los Angeles, em meados da década seguinte (contado com algum detalhe por JL). O que me parece claro depois de ler este livro é que esse encontro pode não ter sido assim tão fortuito: Laughlin procurava algo e não há dúvida de que o encontrou algures no pequeno estúdio nas traseiras de uma loja que Lustig ocupava. A partir desse momento, as carreiras da ND e de Lustig são indissociáveis, até à morte deste em 1955 (e até além disso, pois a sua viúva Elaine Lustig Cohen fez ainda excelentes capas para a editora). Lustig criou a base e o modelo visual para uma editora modernista e vanguardista, primeiro com as suas capas abstractas e coloridas, depois impondo um rigoroso monocromatismo a preto (usando fotomontagens ou colagens) que acentuou e marcou a identidade gráfica da ND por várias décadas, numa linha onde couberam aportações de Andy Warhol (vide post da ND), Ivan Chermayeff, Tom Geismar ou, mais recentemente, Rodrigo Corral.

Creio, contudo, que uma prova de que nem tudo começou com Lustig e de que uma visão do novo grafismo a procurar precedera já a sua, está na edição de 1939 de The Cosmological Eye de Henry Miller, a primeira edição deste autor nos EUA. Descobri-a, por puro acaso, há meses no ebay, e, mesmo numa pequena imagem em JPG com uma marca do ebay sobreposta, é notório que estamos perante um objecto estético que nada deve ao acaso: 70 anos depois, apesar de incontáveis filtros de espaço, tempo e tecnologia reprodutiva, esta capa (sem uma única linha de texto ou sombra de carácter impresso – Prova A) é de uma eloquência indesmentível. Uma das coisas espantosas nela é que precede em quase 15 anos a opção de Lustig pelo preto nas capas da ND, procurando fugir à onda de “seguidores” que invadia as montras das livrarias: vemos aqui já a imagem da ND moderna e estabelecida, com o seu tratamento levemente surrealista da fotografia monocromática, antes da era Lustig.

Prova A
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Foi na página 22 de TWIW que descobri que, por trás desta sobre-capa, esteve a mão de James Laughlin. Ou melhor: o seu olho, literalmente (Prova B). Composta a seu pedido por dois colegas de Harvard, o resultado final foi uma montagem cuidadosa do negativo de umas nuvens e outro do seu olho esquerdo. Dez anos mais tarde, Laughlin vê um filme de Ingmar Bergman chamado Three Strange Loves (Sede de Paixões, 1949) e redescobre o seu olho: uma personagem, à janela de um comboio, aperta um exemplar dessa edição de 1939 na mão. “O que vira Bergman no meu olho?”, pergunta-se. “Escrevi-lhe a perguntar, mas nunca me respondeu”.

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O motto “born modern” é atribuído a Lustig, mas é claro que essa predeterminação de cunho modernista não o poderia ter levado a outra editora que não à New Directions e a outro editor que não a esse outro “nascido moderno”, James Laughlin. Esperemos, pois,  que a ND e Rodrigo Corral nos dêem em breve (a editora faz 75 anos em 2011) o complemento perfeito a este The Way It Wasn’t: um livro sobre toda esta incontornável aventura gráfica.

BORN MODERN
Finding this post in the New Directions’ blog came as a proof of what my previous reading of The Way It Wasn’t had made very clear: that there is a long overdue book on the graphic design (mainly the dust jackets and covers) associated with this independent publishing house from, at least, 1939 (the date of the most ancient ND cover that has caught my attention). With a clean layout (perhaps too much?) by Rodrigo Corral, presently working as creative director for ND, TWIT (published in 2006) is a scrapbook, organizing and presenting in alphabetical order bits and pieces from the archives of James Laughlin (“my head’s collection”, as the founder of ND called them), material that had served him, ten years earlier, to write his autobiography, Byways.

I bought it hoping to find something along the lines of the books on publishers I had written about elsewhere, but, although pretty much a clear testimony on a pioneering career in American mid-XXth century literary Modernism, this book is above all a proof that that particular brand of Modernism was unthinkable without its graphic translation: a new avant-garde literature meant a new image to present it. Heir to a considerable fortune (something he shared with a lot of old-school publishers), Laughlin was however quite a case: a rebellious sophomore student at Harvard, he left it and went to Italy to study and live with Ezra Pound, who had established in Rapallo an informal academy; after being convinced by Pound to turn to publishing, he went back to the US and, at age 22, started New Directions in 1936, which had its first offices in a barn in his aunt Leila’s property.

The first encounter between Laughlin and Alvin Lustig, in the mid-1940s, is now part of graphic design’s “legends” (and is recounted in some detail here by JL). What seems clear after reading this book is that perhaps that meeting was not so fortuitous after all: Laughlin was already looking for something new to begin with and he sure found it somewhere inside the small studio Lustig occupied in the back of a Los Angeles store. From that moment on, the careers of ND and Lustig were intertwined, until the latter’s death in 1955 (even beyond that, considering that his widow, Elaine Lustig Cohen, still did remarkable covers for ND). Lustig laid the graphic blueprint for any modernist and consciously avant-garde American publisher, first with his abstract colourful covers and finally with a shift towards monochromatic solutions, using black-and-white photomontages and collages, giving ND its identity and setting a path along which have travelled so far the likes of Ivan Chermayeff, Tom Geismar, Andy Warhol (see ND’s post) and, more recently, the aforementioned Rodrigo Corral.

I do believe however that there is one proof at least that not all of this modern shift at ND started with Lustig, and that a vision of a new graphic identity pre-dated his own. The proof is in the 1939 cover for The Cosmological Eye by Henry Miller, the very first American edition of this author. I found it quite by chance at ebay, some time ago, and even on a small JPEG picture with a watermark over imposed, it is obvious we are facing an object which owes nothing to chance: 70 years after, and despite all these filters of time, space and reproduction technologies, this dust jacket (without a single line of text on it – A) is undeniably eloquent on its own. The most striking thing about it is that it precedes in almost 15 years Lustig’s option for black-and-white in ND’s covers (looking to detach them from the visual competition that was beginning to invade the bookshops): we can already see here ND’s modern and established image, with its lightly surrealist treatment of monochromatic photos, way before Lustig’s era.

On page 22 of TWIW I found that behind this cover was James Laughlin’s hand. More precisely: his eye, literally (B). Created at his request by two of his Harvard colleagues, the final image for the dust jacket was a careful montage of the negatives of some clouds and Laughlin’s left eye. Ten years later, while watching Ingmar Bergman’s Three Strange Loves, he finds his eye inside the film: in one scene, one of the characters holds a copy of that 1939 edition in his hand. “What did Bergman see in my eye?”, he asked himself. “I wrote to ask him but he didn’t answer”.

The “born modern” motto is attributed to Lustig, but it is beyond any doubt that such a modernist predetermination could not have lead him to any other publishing house than New Directions and to any other publisher than James Laughlin, a “born modern” on his own right. Let’s hope then that ND and Rodrigo Corral give us soon (the publishing house turns 75 in 2011) the perfect and still missing complement to The Way It Wasn’t: a book on all of this amazing graphic adventure.

Finding this post in the New Direction’s blog came as a proof of what my previous reading of The Way It Wasn’t had made very clear: that there is a long overdue book on the graphic design (the dust jackets and covers, mainly) associated with this independent publishing house from, at least, 1939 (the most ancient ND cover that has caught my attention). With a clean layout (perhaps too much?) by Rodrigo Corral, presently working as creative director for ND, TWIT (published in 2006) is a scrapbook, organizing and presenting in alphabetical order bits and pieces from the archives of James Laughlin (“my head’s collection”, as the founder of ND called them), material that had served him, ten years earlier, to write his autobiography, Byways.

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