Tag Archives: João Abel Manta

“Primavera?”

Exemplar do livro dedicado a João Abel Manta na colecção “Designers Portugueses” do jornal Público sobre exemplar do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1974, no qual Manta publicou o seu primeiro poster em tempo de “revolução em curso”. Imagem notável, pelo duplo significado (meteorológico e político) da interrogação do título e também pela curiosa cautela que este revela, cautela que se expressa na surpreendente escolha da flor: não o (por então, três dias depois da deposição do Estado Novo) já icónico cravo mas uma rosa vermelha.

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João Abel Manta: bibliografia

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O texto em cima, de Fernando Assis Pacheco, foi publicado no Diário de Lisboa a 23 de Dezembro de 1975 a propósito do lançamento dos Cartoons. Assis Pacheco fora um dos jornalistas e colaboradores do DL cujos textos (mais os de gente como Luís de Sttau Monteiro ou Vitor Silva Tavares) tinham convivido com os desenhos de João Abel Manta nas páginas do vespertino desde 1969, um caldo de atrevimento e cosmopolitismo cultural e (sempre que possível) crítica política que dera para alimentar dois dos melhores suplementos da imprensa desses anos, o “Literário” e a “Mosca”. Mal sabia Pacheco que, depois desse livro, Manta apenas lançaria outro (ainda que esse “outro” tenha valido por uma carreira inteira) e que o número de livros sobre a sua obra gráfica empalideceria face à extensão, à complexidade e à importância histórica da mesma. (A data do artigo é importante também: um mês depois do 25 de Novembro, talvez Pacheco não adivinhasse que, para Manta, se esfumara muito do que o motivara e o fizera agarrar-se ao estirador a produzir cartazes, cartoons e colagens para a imprensa desde Abril de 1974).

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Ao preparar (por amável convite de José Bártolo) os textos do volume dedicado a JAM na colecção “Designers Portugueses” que começou a ser lançada com o Público, para além da limitação natural no comprimento dos mesmos fui posto perante a decisão editorial de não incluir uma bibliografia, decisão que (independentemente de a aceitar ou não por princípio) acatei e entendi como perfeitamente lógica no contexto da produção de pequenos livros de referência essencialmente visual vendidos junto com um jornal diário, isto é, como objectos de consulta que não podiam (pelas limitações acima indicadas) aspirar a ombrear com o aparato habitual em monografias exaustivas. Isto não me impediu de reflectir sobre a questão essencial da relação da obra de JAM com a bibliografia que, ao longo dos anos, foi sendo produzida sobre ela (e à qual os meus textos agora se acrescentam): o facto de ela, essa bibliografia, carecer de um livro verdadeiramente crucial, axial, sobretudo no que toca a ler o que o próprio Manta pensou e disse sobre o seu trabalho gráfico.

Escrevi já aqui sobre o momento em que concluí ter passado há muito a ocasião de termos em mãos esse livro, pelo que não interessa agora alongar-me sobre isso. Muito simplesmente: creio que se José Cardoso Pires, o autor da curta introdução aos Cartoons (ou José Carlos Vasconcelos, o director d’O Jornal e, como tal, o editor desse livro), tivesse decidido sentar-se à mesa com JAM para uma entrevista sobre esse trabalho gráfico até 1975, e a entrevista tivesse acompanhado a edição, teríamos aí, sem dúvida, “o” grande livro sobre essa obra até então. No pico da sua forma intelectual, no calor desse ano ainda de “revolução em curso”, posso apenas imaginar que conversa não teria sido essa entre ambos. Não que tenham faltado bons exegetas depois, em livro ou na imprensa (Osvaldo de Sousa ou João Paulo Cotrim, Mário Dionísio ou João Medina), mas, no centro de tudo, está esse “vazio”. Uma interessante entrevista dada ao BD Jornal em 2005 e a que deu a José Jorge Letria no livro que analisei não o preenchem e, pelas suas lacunas (na primeira, onde, por exemplo, afirma que nunca fez um auto-retrato, quando são conhecidos pelo menos duas “aproximações” nos cartoons – um dos quais para a primeira prancha do Burro-em-Pé de Cardoso Pires, publicado no Diário de Lisboa a 6 de Outubro de 1971 e que é reproduzido no texto de Pacheco – e uma outra num desenho de 1958, “Retrato de Família”) ou pela deliberada e expressa vontade do entrevistado em não falar de outra coisa que não fosse a pintura (no caso da entrevista dada a Letria), até o reforçam.

Sem esse depoimento do artista, longo, intensivo, cronologicamente orientado, o depoimento que ele poderia ter dado nesse período de “reflexão” logo após o PREC (talvez em Londres, poiso comum a Manta e ao seu amigo Cardoso Pires, e onde, de resto, aquele preparou o grosso das Caricaturas Portuguesas), a exegese da obra gráfica de João Abel Manta ficará sempre dependente desta “cosedura” de várias peças de tecido, um “patchwork” de diversas leituras ao longo do tempo e de variada frequência (estando o pico desta frequência já distante, concentrado naqueles dois anos seguintes ao aparecimento do seu magnum opus de 1978). Veremos se a extraordinária qualidade técnica e estética dessa obra gráfica (transversal a toda ela, dos simples cartoons para os jornais aos cartazes ou às ilustrações de livros) resiste aos incompreensíveis hiatos na sua apresentação pública (a última exposição integral ocorreu em 1992, no mesmo Museu Bordalo de Lisboa que alberga esse espólio e que dele voltou a mostrar apenas um fragmento em 2008) e, sobretudo, ao avanço do tempo, que, se essa exegese não se encorpar e se os hiatos na sua exposição se mantiverem, poderá tornar os seus momentos mais críticos e decisivos (os cartoons e as ilustrações durante o marcelismo e os cartazes para as “campanhas de dinamização cultural” no PREC) de problemática compreensão (exemplo real: ainda há dias vi um desses cartazes de Manta para o MFA tomado por um cartoon satírico…). Termino um dos meus três textos do livro agora publicado afirmando que, apesar de o seu autor já não o querer fazer, a obra produzida por essa “máquina de imagens” (expressão que roubei a um artigo de José Luís Porfírio, de resto notável por cobrir em detalhe a exposição de 1992) continua o seu diálogo connosco. Esperemos que quem a tem à sua guarda o entenda.

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Imprensa:
– ABELAIRA, Augusto. “As capas do JL” (Jornal de Letras, 28.04.1981, p. 11)
– BOTELHO, Clara. “Entrevista a João Abel Manta: ‘Agora pinto. Desvairadamente'” (BD Jornal, n.º 5, Setembro 2005, pp. 11-14)
– DIONÍSIO, Mário. “Um outro Goya e algo mais” (O Jornal, 29.12.1978, p. 29)
– FRANÇA, José-Augusto. “João Abel Manta: obra gráfica” (Colóquio-Artes, n.º 93, Junho 1992, p. 67)
– MANTA, João Abel. “Uma carta de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 07.01.1971, p. 5)
– MEDINA, João. “João Abel Manta ou o cinzento salazarista pintado a cores” (O Jornal, 19.01.1979)
– PACHECO, Fernando Assis. “Elogio natalício de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, 23.12.1975, p. 2)
— idem. “Viva Manta!” (O Jornal Ilustrado, 28.02.1992, pp. 31-33)
– PORFÍRIO, José Luís. “João Abel Manta – a máquina de imagens” (Expresso, “Revista”, 29.02.1992. pp. 43-44)
– RAMOS, Artur. “A Relíquia: encenação e cenografia” (Gráfica 70, n.º 1, 1970, p. 32)
– SOUSA, Rocha de. “Virtudes e defeitos da mão” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 11.06.1970, p. 3)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta: Cartoons que abalaram o fascismo” (O Jornal, 19.12.1975)
Almanaque, Dezembro de 1960/Janeiro de 1961 e Maio de 1961
– “João Abel Manta – debate na Comuna” (Jornal de Letras, 14.04.1981, p. 27)
– “Retratos do Salazarismo” (Jornal de Letras, 18.11.1998, p. 28)
Entrevista na SIC Notícias (28.10.2013)

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Livros:
– ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (Lisboa: Minotauro, 1961)
– BARBOSA, Cassiano. ODAM – Organização dos Arquitectos Modernos, 1947-52 (Porto: Asa, 1972)
– BARROS, Leitão de. Corvos (Lisboa: Editorial Notícias, 1960, 2 vol.)
– BOCACCIO, Giovanni. Decameron (Lisboa: Minotauro, 1964)
– COTRIM, João Paulo. João Abel Manta: Caprichos e Desastres (Lisboa: Assírio & Alvim, 2008)
– MANTA, João Abel. João Abel Manta – Cartoons (Lisboa: Edições O Jornal, 1975)
— idem. Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (Lisboa: Edições O Jornal, 1978)
— idem (com LETRIA, José Jorge). Não se Distorce a Cara de um Homem (Lisboa: Guerra e Paz, 2014)
– MATOS, A. Campos. Dicionário de Eça de Queiroz (Lisboa: Caminho, 1988, p. 580)
– QUEIRÓS, Eça de. O 1º de Maio (Lisboa: Edições O Jornal, 1979)
– PIRES, José Cardoso Pires. Cartilha do Marialva (Lisboa: Moraes, 1970, 4.ª ed.)
— idem. Dinossauro Excelentíssimo (Lisboa: Arcádia, 1972)
— idem. E Agora, José? (Lisboa: Moraes, 1977, pp. 129-135)
— idem (com PORTELA FILHO, Artur). Cardoso Pires por Cardoso Pires (Lisboa: Dom Quixote, 1991)
– PORTELA FILHO, Artur. O Novo Conde de Abranhos (Edição do autor, 1971)
– RIBEIRO, Aquilino. A Casa Grande de Romarigães : crónica romanceada (Lisboa: Bertrand, 1957)
— idem. Tombo no Inferno / O Manto de Nossa Senhora (Lisboa: Bertrand, 1963)
— idem. Quando os Lobos Uivam (Lisboa: Avante, 2008)
– SOUSA, Osvaldo de. João Abel Manta – Gráfica (Lisboa: Regisconta, 1988)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta” (in COSTA E SILVA, Manuel. Os Meus Amigos, Lisboa: Dom Quixote, 1983)
– WAUGH, Evelyn. O Ente Querido (Lisboa: Ulisseia, 1955)
Arte de Furtar (Lisboa: Estúdios Cor, 1969)
Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar (Lisboa: Edições António Ramos, 1980)
João Abel Manta: Obra Gráfica (Lisboa: CML / Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992)
Livros Proibidos no Estado Novo (Lisboa: Assembleia da República, 2005, pp. 52-53)
Um Sabor de Desenho: Homenagem a João Abel Manta (Amadora: CM Amadora, 2008)
Um Tempo e um Lugar: Dos Anos Quarenta aos Anos Sessenta. Dez Exposições Gerais de Artes Plásticas (Vila Franca de Xira: CM V.F. Xira / Museu do Neo-Realismo, 2005)

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Uma questão de timing

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Há perto de um ano, instado a pronunciar-se sobre as memórias do célebre editor argentino e octogenário Jorge Alvarez (publicadas pouco antes), o agente Guillermo Schavelzon foi implacável: tratava-se de um livro “caótico” e “limitado”, e era a prova do que ele sempre tinha recomendado aos autores agenciados por si: nunca escrever as “memórias” depois dos 80 anos, quando a memória fraqueja.

Ainda que este Não Se Distorce a Cara de Um Homem (Guerra & Paz, 2014) não seja um volume autobiográfico (trata-se simplesmente da transcrição de uma conversa entre José Jorge Letria e João Abel Manta em 2010), a questão da “memória” é também honesta e brutalmente abordada quando, a páginas tantas, o entrevistado se queixa do “Alzheimer” (se literal ou figurado, fica por saber) num momento em que perde o fio condutor da resposta. Apesar da possibilidade de controlo e orientação das perguntas pelo entrevistador, somos de pronto confrontados com o facto incontornável: João Abel Manta tem 86 anos (82 à data da entrevista) e a memória é um bem perecível.

Se a isso juntarmos o facto de o entrevistado ser sobretudo e justamente conhecido por uma actividade (o cartoon político na imprensa) da qual não quer falar, acabamos com um estranho livro: linhas e linhas sobre a sua actividade de pintor (à qual se tem dedicado em quase exclusividade desde há 20 anos) e sobre a pintura em geral, ilustradas por exemplos desses notáveis cartoons e ilustrações dispersas (incluindo algumas publicadas no Almanaque da Ulisseia) aos quais Abel Manta não dedica grande atenção, confessando mesmo detestar ser associado a eles, em particular aos cartoons. Na verdade, já não se trata aqui de uma questão de qualidade da memória (fora umas desculpáveis gralhas ou gaffes, que terão escapado ao crivo da revisão, como “arte pólvora” em vez de arte povera e “Barrett Newmann” em vez de Barnett Newmann, e uma questionável localização temporal do Dadaísmo nos anos 60 do século passado), mas de uma opção tomada pelo artista há um bom par de décadas: um corte deliberado com a sua biografia de ilustrador, cartazista e cartoonista para se “reinventar” como pintor (fruto, talvez, de um certo preconceito comum à sua geração, segundo o qual o trabalho “nobre” para um pintor – ou, no caso, um arquitecto filho de insignes pintores – não está nas páginas dos jornais e dos livros ou no papel dos cartazes).

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No fundo, uma questão de timing: aos que, como eu, queriam saber como foi colaborar com esse Almanaque no início da década de 60, como foi colaborar com o Diário de Lisboa nessa fase “dourada” entre finais dessa década e meados da seguinte (onde fez tudo e sempre a um nível superior: cartoon, ilustração editorial, polémica estética, intervenção “subversiva”, com a respectiva atenção da Censura e dos tribunais), como via ele a ilustração editorial, à qual deixou exemplos brilhantes, como era a colaboração com as editoras ou com José Cardoso Pires, o autor com quem mais colaborou, enfim, aos que procuravam saber detalhes daquilo que fez de João Abel Manta o artista gráfico mais importante nesses anos-charneira é oferecida outra coisa, porventura fiel ao que o artista é agora mas que, pela junção da falibilidade da memória com uma vontade deliberada, passa ao lado desse núcleo de trabalho crucial. Tivesse esta entrevista sido publicada, digamos, em 1975, na edição dos Cartoons 1969-1975, conduzida pelo mesmo Cardoso Pires que aí publicou o seu panegírico ao artista e que com Abel Manta colaborara em proximidade desde o Almanaque, e talvez tivéssemos hoje o livro definitivo sobre o JAM desses anos, o mesmo JAM que, no seu primeiro cartoon para o Diário de Lisboa, em 1969, se retratava junto a uma enorme caneta, sob um “requerimento” em que afirmava a sua identidade dentro do “importante sector das Artes Plásticas que se chama ‘a Caricatura'” e onde se listavam as suas influências (Daumier, Forain, os dadaístas Heartfield e Grosz, Osborn, Topolski, Steinberg, François, Levine, etc – destes nomes, a julgar por este volume da Guerra & Paz, Manta parece agora apenas lembrar-se ou manter como importantes os de Steinberg e o de Daumier).

A bibliografia sobre João Abel Manta carece, precisamente, de um livro que possamos concordar como estando próximo de ser “definitivo” (por impossível que saibamos ser isso). A minha aposta seria no excelente catálogo da exposição da sua “Obra Gráfica” em 1992 (publicado pela Câmara Municipal de Lisboa), até hoje o melhor guia visual e cronológico para quem procura embrenhar-se no seu universo gráfico, ao qual (apesar da qualidade dos textos de arquivo reunidos, incluindo o de Cardoso Pires, e da enorme quantidade de reproduções) faltaria talvez um texto condutor, que é o que nos oferece a edição de Caprichos e Desastres (com texto de João Paulo Cotrim), publicada em 2008 aquando da última exposição da sua obra gráfica. Ainda assim, em quase 40 anos (a partir dessa antologia de cartoons de 1975), e descontando as Caricaturas Portuguesas de 1977, os dedos de uma mão sobram para contar as monografias dedicadas ao trabalho de João Abel Manta (e, mesmo sobre a sua pintura, há apenas o catálogo da exposição de 2009). Manifestamente pouco, mesmo no caso de um artista pouco dado a falar ou a escrever sobre si, que há duas décadas vive em quase “reclusão”, retirado e distante do burburinho social, e que, pelo que se pode comprovar nesta entrevista, perdeu de vez a vontade de recordar ou referir-se ao seu trabalho gráfico.

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Pelo meio, contudo, ainda se resgata algum orgulho de Manta com esse seu enorme portefólio, em particular com a edição das Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar em 1977 (“Esse livro foi feito muito a sério. Se me disserem que sou o maior cartoonista português por ter feito aquele livro, eu digo: ‘têm razão'”, p. 80-81) e, em 1981, com a direcção de arte dos primeiros números do Jornal de Letras (“os bonecos que eu fiz para esses números, para mim, já eram arte”, p. 63). Talvez Letria pudesse ter tentado ser mais específico, ter levado o seu interlocutor a iluminar algumas dessas áreas de sombra (sobre o mesmo assunto delicado e a propósito de outro livro-entrevista, escrevi aqui), mas compreende-se o pudor em fazê-lo, tanto mais que o que interessava a Manta, em 2010, era justificar os seus quase vinte anos ininterruptos dedicados à pintura, um trabalho que a exposição do ano anterior tornara público. Fica, pois, nestas 160 páginas, pouco mais do que umas curiosas anotações autobiográficas do convívio com os seus pais e o grupo de amigos destes, de uma educação quase esquizofrénica entre um liceu ultra-salazarista e um meio familiar e social “do contra”, e, sobretudo, uma série de considerações de ordem ética, política, técnica e estética em torno da arquitectura e da pintura (a mais curiosa das quais será o facto de, por via da “deformação” profissional de arquitecto e grafista/cartoonista, nunca ter deixado de ser um “pintor de prancheta”), a sua única actividade nestes últimos anos de vida e, em rigor, o pretexto para a entrevista. Fica também a sensação de que, se não tivesse havido essa exposição em 2009, muito dificilmente Manta teria acedido a pronunciar-se apenas sobre algo que considerava já ultrapassado na sua carreira e pouco digno de menção. Como o Rimbaud “negreiro”, que se recusava sequer a admitir ter sido poeta.

Tal como algumas das suas melhores composições mistas, entre o desenho e a colagem, esse “livro definitivo” sobre a obra gráfica de João Abel Manta que nunca se materializou nestes 40 anos terá, a partir de agora, de ir sendo composto mentalmente por nós com bocados das pouquíssimas edições disponíveis, com recortes de jornais, com vislumbres dos poucos mas notáveis cartazes (mesmo fora do “cânone” do PREC: lembro-me do espantoso cartaz para Benilde ou a Virgem Mãe de Oliveira, que vi exposto na Cinemateca há uns anos, ou da surpresa e emoção ao encontrar, perdido e dado como “papel velho” na feira de velharias de Algés, um exemplar do cartaz para o II Congresso dos Escritores Portugueses de 1982, com o seu alinhamento grotesco dos fantasmas da APE – uma imagem que seria impensável hoje, em que a “literatura” e o seu marketing andam intimamente ligados, produtos que são do complexo financeiro e corporativo), quem sabe até com um contacto mais regular com os originais dessa mesma obra, caso se chegue finalmente à conclusão que duas exposições em mais de vinte anos é quase nada. Dele, Manta, não é sensato ou sequer justo esperar mais: afinal de contas, já fez a sua parte.

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“…dentro da esfera armilar, uma boca aberta…”

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Há precisamente quarenta anos, a 4 de Agosto de 1973, o Expresso, na sua coluna “Gente”, informava que  João Abel Manta, arquitecto mas conhecido, sobretudo, como cartoonista e ilustrador, e António Ruella Ramos, director do Diário de Lisboa, tinham sido absolvidos das acusações que os tinham levado a julgamento: “abuso da liberdade de imprensa” e “ofensas à bandeira nacional”.

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O início do julgamento fora também noticiado no próprio Diário de Lisboa na edição de 28 de Junho, com chamada de primeira página e continuação com destaque na última.

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O suposto “crime”: a publicação, a 11 de Novembro de 1972, no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, de um cartoon de Abel Manta intitulado “Festival”. Procurando ridicularizar as presenças de cançonetistas nacionais no Festival da Eurovisão, a composição, num misto de desenho e colagem, centrava-se numa apropriação da bandeira nacional, na qual a esfera armilar representava o rosto da figura e o escudo delimitava a boca (onde se podia ver um conjunto de dentes de resplandecente brancura e uma língua túrgida), tudo encimado por uma poupa devidamente “lacada”. Rematando o atrevimento, o cartoon fora publicado nas duas páginas centrais do suplemento, logo podia ser usado como um poster (e tê-lo-á sido certamente).

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Como noticiara já o Expresso a 30 de Junho, e depois de vários adiamentos, o início do julgamento teve lugar a 26 desse mês. Defendendo os arguidos, estavam os advogados Abranches Ferrão, Galvão Telles e José Carlos de Vasconcelos, que reuniram um rol de testemunhas onde se contavam José Cardoso Pires e Artur Portela Filho. Surpreendentemente, a censura, para além de ter deixado publicar a notícia, não viu obstáculos à citação do ferrão encoberto que Abel Manta lançou como tentativa de explicação do processo, o qual, segundo ele, só podia  acontecer dada a “falta de treino visual no nosso país”.

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O testemunho de José Cardoso Pires, a “principal testemunha abonatória”, e cujo Dinossauro Excelentíssimo acabara de ser publicado com ilustrações de Abel Manta, foi, já em Julho, novo pretexto para curta nota sobre o processo, voltando a denotar alguma lassidão da censura.

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No catálogo da exposição da obra gráfica de Abel Manta no Museu Bordallo Pinheiro em 1992 (publicado pela Câmara Municipal de Lisboa e, de longe, o melhor livro até hoje sobre a obra de JAM), José Carlos de Vasconcelos escreveu sobre o julgamento:

“Segundo a acusação, ‘o simbolismo dos cinco Castelos das quinas são voluntariamente substituídos pela leviandade de um flash de cançoneta; o símbolo da pátria é posto a latere de um background de opereta’. Sic!
Nas alegações, após meia dúzia de sessões de julgamento com depoimentos escritos, depois de salientar que o sentido do desenho era exactamente o contrário do que lhe queriam dar ‘e uma defesa da Pátria e do seu símbolo contra aqueles que o usurpam, dele se servindo em manifestações artísticas medíocres, ou pior ainda’, tive oportunidade de dizer:
‘Este não foi o processo de João Abel Manta, mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo, de quem pretende impedir toda a forma livre de expressão, nesse caso através da linguagem específica do cortoonismo (…) Um processo que felizmente chegou até este tribunal e que permitira à justiça a absolvição do artista (…) sendo a única sentença condenatória, na consciência de todos os homens livres, a do regime tirânico que trouxe para o Banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta’.
O Tribunal era um tribunal comum, e não de excepção como o Plenário, e João Abel foi de facto absolvido, absolvição que a Relação de Lisboa confirmou. O processo serviu para lhe dar ainda mais notoriedade, näo obstante as notícias do julgamento serem quase integralmente proibidas, e para atiçar contra ele, com ímpeto redobrado, a maquina censória.” (José Carlos de Vasconcelos, “A Grande Arte de João Abel Manta”,  in João Abel Manta – Obra Gráfica, CML, Lisboa, 1992, p. 49).

Era o regime a implodir em ridículo, permitindo brechas no bloqueio à cobertura pela imprensa do processo que revelavam os sinais dessa implosão e as provas desse ridículo, e tentando ocultar uma impiedosa perseguição censória numa aparente leveza de processos (não julgando o cartoonista no Tribunal Plenário – que condenara duramente os arguidos em processos semelhantes na década anterior – mas num tribunal comum). Menos de um ano depois, o Estado Novo desabava finalmente, para dar lugar a um “novo” regime que, à imagem do anterior, parece manter uma relação confusa com a bandeira nacional.

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Portugal Imaginado

Um projecto de Joana Baptista e Mariana Leão (produzido para a exposição Timeless do Experimenta’09) à volta da imagem turística de Portugal, veiculada pelo SNI até 1974 (e pelo Turismo do Portugal pós-revolucionário desde então), e genialmente “deformada” pelo incontornável João Abel Manta (JAM) em duas ilustrações para o Diário de Notícias nesse também incontornável ano de 1974. Repito o que já escrevi aqui antes: escreve-se muito pouco (e expõe-se miseravelmente menos ainda) sobre JAM. Não sei porquê. Mas são pequenas edições assim que podem inverter a onda que vai apagando as marcas na areia. (Com um agradecimento às autoras pela oferta).

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Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

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Título
Dinossauro Excelentíssimo

Autor
José Cardoso Pires

Arranjo gráfico
Sebastião Rodrigues

Ilustrações
João Abel Manta

Edição
Bertrand, Abril de 1973 (5.ª)
106 páginas

Descrição
Um par de meses depois de ter avistado e assinalado um exemplar da edição da Europa-América de 1974 (já posterior à Revolução) de Dinossauro Excelentíssimo na Sá da Costa, ao Chiado, eis que os muito profissionais livreiros da Letra Livre me comunicam a existência de um exemplar da edição de 1973 da Bertrand. Devo dizer que, para além deste bom serviço de livraria, a celeridade do envio, o preço, o estado do livro e a minha particular afeição ao objecto fazem deste um dos melhores deals que já me aconteceram, comparável só a ter comprado há 2 anos, pelo ebay, um excelente exemplar do cartaz polaco de A Hard Day’s Night de Waldemar Swierzy por menos de 9.99 dólares.

Um capriccio (para pegar no termo exacto usado por Cardoso Pires) pensado e executado pelo seu autor quando em Londres em 1970, este livro, que em circunstâncias “normais” para o Marcelismo, não passaria acima do radar da censura, tornou-se um surpreendente êxito e soou como um toque de gongo a marcar o fim de uma era. Inicialmente publicado pela Arcádia (“uma editora falida, porque naquele momento publicar um retrato grotesco de Salazar era coisa que nenhuma casa ousaria”, segundo o próprio Cardoso Pires confessou no livro Cardoso Pires por Cardoso Pires – citação retirada de Livros Proibidos no Estado Novo, Assembleia da República, 2005, p. 54), a História quis sorrir a este livro e elevá-lo do Index censório quando a 28 de Novembro de 1972, em debate na Assembleia Nacional, e respondendo a uma acusação do deputado Miller Guerra de que não havia liberdade de expressão em Portugal, o deputado da “situação” Casal Ribeiro (“a espumar de raiva”) se lhe dirigiu, apontando precisamente a publicação de Dinossauro Excelentíssimo como prova da existência de liberdades. Facto consumado: a Censura estava “de mãos atadas”, e o livro passava a poder circular livremente. Esta curta parábola sobre um menino reptiliano e monstruoso da província que se torna no Tiranossaurus Rex de um país de pacotilha transformou-se, assim, num dos mais certeiros tiros de misericórdia no Estado Novo, tiro de suicídio também, com a contribuição desesperada da facção ultra conservadora na Assembleia Nacional.

Já sem a capa de fundo branco da Arcádia (que apenas pude ver em reproduções, uma delas no já citado Livros Proibidos no Estado Novo, mas que o João Ventura, orgulhoso detentor de um exemplar dessa edição, amavelmente digitalizou – Prova A), esta edição da Bertrand exibe uma sobrecapa de fundo negro, com a tipografia a abrir em branco e as linhas dos desenhos da coroa e cauda reptiliana abrindo a magenta, solução que se manteve nas edições subsequentes, até depois da Revolução. Confesso que a solução da Arcádia me agrada mais, e confere mais leveza à capa, jogando melhor com o tom jocoso do texto, mas ainda assim os olhos e as mãos dão conta do estranhíssimo e valioso objecto-livro em causa, uma relíquia dos tempos em que os livros eram também bombas de retardador, com efeitos reais e em curto espaço de tempo, e em que o som inaudível da abertura da capa era o equivalente mental ao clic da introdução do carregador de uma AK-47 (só um ano mais tarde as G3 poderiam reivindicar para si o estatuto de símbolos revolucionários…).

Prova A
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A ficha técnica é, também ela, um valor acrescido a este livro: a junção (creio que única) dos nomes de Sebastião Rodrigues (o máximo representante do modernismo gráfico da “escola americana” em Portugal, aqui como responsável pelo “arranjo”) e de João Abel Manta, como autor das ilustrações (algumas delas sendo do melhor que JAM fez por esses anos, o seu período de maior criatividade – Prova B), era o sinal de que o velório dos velhos tempos e o anúncio dos novos dias estava esteticamente mais do que bem apoiado em Portugal.

Prova B
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Ainda João Abel Manta: apontamentos sobre uma exposição

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Se muito na Revolução de 1974 parece algo atípico no contexto de meados dos anos 1970 (uma revolução de esquerda feita na rua com tanques, soldados rasos e capitães, em plena Europa Ocidental, e num período de progressiva desmotivação política, em que as guerrilhas urbanas em Espanha, na Alemanha, em França, na Itália, que procuravam concretizar a revolução pedida em 1968, ou eram desmanteladas ou se radicalizavam na clandestinidade), atípico seria também o artista que lhe ficou ligado indissociavelmente.

Sem o culto do traço livre e “raivoso” de um Siné, um Reiser, um Steadman, um Ungerer, um Topor ou um Feiffer (os cartoonistas de referência por esses anos), João Abel Manta parecia o grafista menos propício aos tempos de caos e renovação que couberam a Portugal em 74-75. Sem grande portfolio na produção de cartazes, a credencial sine qua non para um grafista radical e progressista, JAM cultivava, para além disso, um leque de referências muito erudito, conseguindo criar cartoons plenos de graça com legendas como Cidadão português despedindo-se da família antes de se aventurar na leitura duma crítica ensaística (em cartoon de 1974). O seu estilo gráfico de traço limpo, perfeccionista e pleno de contrastes, devia mais ao seu trabalho como arquitecto, à influência da “linha clara” franco-belga dos anos 1940-50 e ao culto da linha de alguma produção gráfica nos anos da Pop do que à ebulição que sacudiu os aparos e os pincéis com tinta-da-china, sobretudo em França (e que tanto influenciou outro dos grandes cartoonistas portugueses dos Setenta, Vasco). Além disso, sendo filho de um pintor de renome, estar-lhe-ia mais rapidamente prevista uma carreira de pintor para galerias do que de “rabiscador” para jornais.

Terá sido, contudo, a sua enorme experiência de trabalho como cartoonista na imprensa rigorosamente vigiada do Marcelismo (em que a inteligência e a astúcia de um desenho ou texto conseguiam, ainda assim, passar incólumes por entre as malhas da censura de um regime que precisava desesperadamente de uma fachada de liberalidade cosmopolita, obrigando o artista a um depuramento estilístico pedido pelos vários níveis de “leitura”), conjugado com uma enorme facilidade em usar de forma eficiente recursos recentemente disponíveis como as tramas da Pantone e a tipografia decalcável da Letraset, que lhe deu o músculo gráfico que lhe permitiu, em cima da hora, produzir uma assombrosa quantidade de desenhos sobre a vertiginosa cena política portuguesa do PREC. Tendo estado alguns desses desenhos políticos expostos no Museu Bordalo até ao início de Fevereiro, é difícil, perante a sua escala (alguns bem maiores do que A3) e a sua factura (colagens em perfeita união de desenho a tinta, tramas autocolantes e detalhes fotográficos ampliados ou aumentados em fotocopiadora – esses céus das gravuras oitocentistas que ele usou tão bem), não emitir um sinal de admiração.

Espanto, por outro lado, é o que se sente quando nos confrontamos com o facto de a última exposição da obra de JAM aberta ao público ter sido em 1992, há dezassete anos (também no Museu Bordalo) e de nada, nem sequer uma pequena fracção deste portfolio espantoso estar em exposição permanente em qualquer local deste país. Espera-se que, no seguimento da doação do seu espólio ao Museu Bordalo, este possa abrir em breve uma sala permanente dedicada a JAM.

As minhas duas visitas em Janeiro, num dia de semana e num Sábado, reforçaram este sentimento de algum “abandono”: a exposição, montada com bom gosto num curto espaço organizado temática e cromaticamente (a única relação gráfica directa e bem conseguida com os desenhos de JAM) pareceu-me mal publicitada (um painel apenas na frontaria do museu, numa zona, ali perto do viaduto do Campo Grande, pouco própria a contemplações de passeio) e mal servida nos seus suportes gráficos (apenas um folheto A4, com um péssimo tratamento tipográfico, um eco desse do-it-yourself no que toca ao design que parece reinar na CML desde o “célebre” caso da Agenda LX…). Lá dentro, e em ambas as visitas, uma sala rigorosamente vazia (com a excepção do proverbial segurança a impedir-me de fotografar o espaço “porque não pode ser”), em contraste chocante com o bulício mental que alguns daqueles desenhos ainda provocam.

A exposição foi articulada com o lançamento da monografia de João Paulo Cotrim para a Assírio & Alvim, publicada no seguimento da atribuição do “Prémio Stuart” de 2008 (a edição tem o contributo do El Corte Ingles, que patrocina o Prémio), prémio que, sob outro patrocínio, JAM recebera em 1988. Mas, fora a presença deste (caro) livro na banca à entrada da sala de exposições temporárias, nada mais (para além dos souvenirs Bordalescos, claro):  nem uma reprodução de um cartaz, um cartoon, uma ilustração em postal, poster ou uma tshirt. (Quem o quisesse, teria de ir à Trindade, à loja da Associação 25 de Abril, onde comprei as excelentes reproduções de 3 cartoons “revolucionários”, por preço de chuva, que encimam este post). As óbvias e excitantes possibilidades de fazer reviver estas obras pela sua integração com um merchandising de qualidade parecem ter escapado a quem de direito: por exemplo, alguém se lembrou já de encomendar a criação de uma fonte com base na tipografia “infantil” de JAM, usada como legenda nos seus cartoons, e pô-la à disposição dos computadores nas escolas primárias?

Prova A
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Entre um livro de preço algo proibitivo (que não li, mas que, como documento de imagens, não vale o excelente catálogo publicado em conjunto pela CML e pelo Museu em 1992, com design de José Brandão – Prova A) e um folheto pouco memorável (alguém poderia ter-se lembrado de que estava nos jornais a força e a justificação das obras de JAM, pelo que seria muito melhor uma pequena edição de 8 páginas em papel de jornal a 2 cores, mas se nem o JL se lembrou de fazer isso para a edição mil…), restava, claro, a exposição. Cobrindo com parcimónia mas acerto a obra de JAM desde os anos de 1950 (mas, curiosamente, omitindo as suas obras feitas para as galerias, como os desenhos sobre as peças de Shakespeare), o conjunto permitia, mesmo numa visita apressada, comprovar o génio gráfico que esteve na sua origem. Os desenhos são extraordinários, sobretudo, pelo facto de manterem o seu impacto seja a que distância o observador estiver deles: passo a passo, da composição geral e harmonia das cores numa vista geral, à leitura da legenda, à observação da textura das colagens e, finalmente, à inspecção das ondulações e terminações de algumas linhas a pincel “seco”, os olhos não têm um momento de tédio. Apesar de uma gritante falta de suporte audiovisual (alguém se lembrou de filmar e entrevistar JAM e passar o resultado aos visitantes da sala?), a pura qualidade gráfica dos trabalhos é suporte de sobra.

João Abel Manta não merece estar em “museus”. “Museologizar” uma obra tão poderosa e tão interventiva estética e politicamente é anestesiar os seus (ainda muito fortes) valores extra-artísticos e condenar a sua riqueza plástica ao abandono. Isto, curiosamente, numa época em que, pelos seus assustadores paralelos mentais com os anos do Marcelismo, Portugal necessita cada vez mais de um novo JAM. E que Caricaturas ele não faria destes últimos 20 anos!

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