Tag Archives: João Abel Manta

Manta 90/40 na Galeria Valbom

Algumas imagens da exposição MANTA 90/40, que inaugurou na Galeria Valbom no passado dia 29 de Setembro e que estará aberta ao público até dia 10 de Novembro. Haverá uma visita guiada no dia 13 de Outubro. Entrada gratuita. Os meus agradecimentos ao excelente trabalho da galeria na montagem desta exposição: Teresa Neto, Luís Ginja e os proprietários, Adélio e Lourenço Soares.

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Manta 90/40

Abre no dia 29 de Setembro, Sábado, na Galeria Valbom em Lisboa a exposição MANTA 90/40, dedicada à comemoração dos 90 anos de João Abel Manta e aos 40 anos da edição de Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, a sua obra-prima. Sou o curador científico da exposição e o responsável pelo design do livro/catálogo, publicado pela galeria e pela Caleidoscópio, que inclui também dois textos meus. Está aberta até 10 de Novembro.

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“João Abel Manta: um problema difícil”

Artigo publicado no Público de 2 de Maio (versão online aqui).

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90 anos de João Abel Manta

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29.01.2018 · 2:24 pm

“Primavera?”

Exemplar do livro dedicado a João Abel Manta na colecção “Designers Portugueses” do jornal Público sobre exemplar do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1974, no qual Manta publicou o seu primeiro poster em tempo de “revolução em curso”. Imagem notável, pelo duplo significado (meteorológico e político) da interrogação do título e também pela curiosa cautela que este revela, cautela que se expressa na surpreendente escolha da flor: não o (por então, três dias depois da deposição do Estado Novo) já icónico cravo mas uma rosa vermelha.

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João Abel Manta: bibliografia

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O texto em cima, de Fernando Assis Pacheco, foi publicado no Diário de Lisboa a 23 de Dezembro de 1975 a propósito do lançamento dos Cartoons. Assis Pacheco fora um dos jornalistas e colaboradores do DL cujos textos (mais os de gente como Luís de Sttau Monteiro ou Vitor Silva Tavares) tinham convivido com os desenhos de João Abel Manta nas páginas do vespertino desde 1969, um caldo de atrevimento e cosmopolitismo cultural e (sempre que possível) crítica política que dera para alimentar dois dos melhores suplementos da imprensa desses anos, o “Literário” e a “Mosca”. Mal sabia Pacheco que, depois desse livro, Manta apenas lançaria outro (ainda que esse “outro” tenha valido por uma carreira inteira) e que o número de livros sobre a sua obra gráfica empalideceria face à extensão, à complexidade e à importância histórica da mesma. (A data do artigo é importante também: um mês depois do 25 de Novembro, talvez Pacheco não adivinhasse que, para Manta, se esfumara muito do que o motivara e o fizera agarrar-se ao estirador a produzir cartazes, cartoons e colagens para a imprensa desde Abril de 1974).

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Ao preparar (por amável convite de José Bártolo) os textos do volume dedicado a JAM na colecção “Designers Portugueses” que começou a ser lançada com o Público, para além da limitação natural no comprimento dos mesmos fui posto perante a decisão editorial de não incluir uma bibliografia, decisão que (independentemente de a aceitar ou não por princípio) acatei e entendi como perfeitamente lógica no contexto da produção de pequenos livros de referência essencialmente visual vendidos junto com um jornal diário, isto é, como objectos de consulta que não podiam (pelas limitações acima indicadas) aspirar a ombrear com o aparato habitual em monografias exaustivas. Isto não me impediu de reflectir sobre a questão essencial da relação da obra de JAM com a bibliografia que, ao longo dos anos, foi sendo produzida sobre ela (e à qual os meus textos agora se acrescentam): o facto de ela, essa bibliografia, carecer de um livro verdadeiramente crucial, axial, sobretudo no que toca a ler o que o próprio Manta pensou e disse sobre o seu trabalho gráfico.

Escrevi já aqui sobre o momento em que concluí ter passado há muito a ocasião de termos em mãos esse livro, pelo que não interessa agora alongar-me sobre isso. Muito simplesmente: creio que se José Cardoso Pires, o autor da curta introdução aos Cartoons (ou José Carlos Vasconcelos, o director d’O Jornal e, como tal, o editor desse livro), tivesse decidido sentar-se à mesa com JAM para uma entrevista sobre esse trabalho gráfico até 1975, e a entrevista tivesse acompanhado a edição, teríamos aí, sem dúvida, “o” grande livro sobre essa obra até então. No pico da sua forma intelectual, no calor desse ano ainda de “revolução em curso”, posso apenas imaginar que conversa não teria sido essa entre ambos. Não que tenham faltado bons exegetas depois, em livro ou na imprensa (Osvaldo de Sousa ou João Paulo Cotrim, Mário Dionísio ou João Medina), mas, no centro de tudo, está esse “vazio”. Uma interessante entrevista dada ao BD Jornal em 2005 e a que deu a José Jorge Letria no livro que analisei não o preenchem e, pelas suas lacunas (na primeira, onde, por exemplo, afirma que nunca fez um auto-retrato, quando são conhecidos pelo menos duas “aproximações” nos cartoons – um dos quais para a primeira prancha do Burro-em-Pé de Cardoso Pires, publicado no Diário de Lisboa a 6 de Outubro de 1971 e que é reproduzido no texto de Pacheco – e uma outra num desenho de 1958, “Retrato de Família”) ou pela deliberada e expressa vontade do entrevistado em não falar de outra coisa que não fosse a pintura (no caso da entrevista dada a Letria), até o reforçam.

Sem esse depoimento do artista, longo, intensivo, cronologicamente orientado, o depoimento que ele poderia ter dado nesse período de “reflexão” logo após o PREC (talvez em Londres, poiso comum a Manta e ao seu amigo Cardoso Pires, e onde, de resto, aquele preparou o grosso das Caricaturas Portuguesas), a exegese da obra gráfica de João Abel Manta ficará sempre dependente desta “cosedura” de várias peças de tecido, um “patchwork” de diversas leituras ao longo do tempo e de variada frequência (estando o pico desta frequência já distante, concentrado naqueles dois anos seguintes ao aparecimento do seu magnum opus de 1978). Veremos se a extraordinária qualidade técnica e estética dessa obra gráfica (transversal a toda ela, dos simples cartoons para os jornais aos cartazes ou às ilustrações de livros) resiste aos incompreensíveis hiatos na sua apresentação pública (a última exposição integral ocorreu em 1992, no mesmo Museu Bordalo de Lisboa que alberga esse espólio e que dele voltou a mostrar apenas um fragmento em 2008) e, sobretudo, ao avanço do tempo, que, se essa exegese não se encorpar e se os hiatos na sua exposição se mantiverem, poderá tornar os seus momentos mais críticos e decisivos (os cartoons e as ilustrações durante o marcelismo e os cartazes para as “campanhas de dinamização cultural” no PREC) de problemática compreensão (exemplo real: ainda há dias vi um desses cartazes de Manta para o MFA tomado por um cartoon satírico…). Termino um dos meus três textos do livro agora publicado afirmando que, apesar de o seu autor já não o querer fazer, a obra produzida por essa “máquina de imagens” (expressão que roubei a um artigo de José Luís Porfírio, de resto notável por cobrir em detalhe a exposição de 1992) continua o seu diálogo connosco. Esperemos que quem a tem à sua guarda o entenda.

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Imprensa:
– ABELAIRA, Augusto. “As capas do JL” (Jornal de Letras, 28.04.1981, p. 11)
– BOTELHO, Clara. “Entrevista a João Abel Manta: ‘Agora pinto. Desvairadamente'” (BD Jornal, n.º 5, Setembro 2005, pp. 11-14)
– DIONÍSIO, Mário. “Um outro Goya e algo mais” (O Jornal, 29.12.1978, p. 29)
– FRANÇA, José-Augusto. “João Abel Manta: obra gráfica” (Colóquio-Artes, n.º 93, Junho 1992, p. 67)
– MANTA, João Abel. “Uma carta de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 07.01.1971, p. 5)
– MEDINA, João. “João Abel Manta ou o cinzento salazarista pintado a cores” (O Jornal, 19.01.1979)
– PACHECO, Fernando Assis. “Elogio natalício de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, 23.12.1975, p. 2)
— idem. “Viva Manta!” (O Jornal Ilustrado, 28.02.1992, pp. 31-33)
– PORFÍRIO, José Luís. “João Abel Manta – a máquina de imagens” (Expresso, “Revista”, 29.02.1992. pp. 43-44)
– RAMOS, Artur. “A Relíquia: encenação e cenografia” (Gráfica 70, n.º 1, 1970, p. 32)
– SOUSA, Rocha de. “Virtudes e defeitos da mão” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 11.06.1970, p. 3)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta: Cartoons que abalaram o fascismo” (O Jornal, 19.12.1975)
Almanaque, Dezembro de 1960/Janeiro de 1961 e Maio de 1961
– “João Abel Manta – debate na Comuna” (Jornal de Letras, 14.04.1981, p. 27)
– “Retratos do Salazarismo” (Jornal de Letras, 18.11.1998, p. 28)
Entrevista na SIC Notícias (28.10.2013)

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Livros:
– ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (Lisboa: Minotauro, 1961)
– BARBOSA, Cassiano. ODAM – Organização dos Arquitectos Modernos, 1947-52 (Porto: Asa, 1972)
– BARROS, Leitão de. Corvos (Lisboa: Editorial Notícias, 1960, 2 vol.)
– BOCACCIO, Giovanni. Decameron (Lisboa: Minotauro, 1964)
– COTRIM, João Paulo. João Abel Manta: Caprichos e Desastres (Lisboa: Assírio & Alvim, 2008)
– MANTA, João Abel. João Abel Manta – Cartoons (Lisboa: Edições O Jornal, 1975)
— idem. Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (Lisboa: Edições O Jornal, 1978)
— idem (com LETRIA, José Jorge). Não se Distorce a Cara de um Homem (Lisboa: Guerra e Paz, 2014)
– MATOS, A. Campos. Dicionário de Eça de Queiroz (Lisboa: Caminho, 1988, p. 580)
– QUEIRÓS, Eça de. O 1º de Maio (Lisboa: Edições O Jornal, 1979)
– PIRES, José Cardoso Pires. Cartilha do Marialva (Lisboa: Moraes, 1970, 4.ª ed.)
— idem. Dinossauro Excelentíssimo (Lisboa: Arcádia, 1972)
— idem. E Agora, José? (Lisboa: Moraes, 1977, pp. 129-135)
— idem (com PORTELA FILHO, Artur). Cardoso Pires por Cardoso Pires (Lisboa: Dom Quixote, 1991)
– PORTELA FILHO, Artur. O Novo Conde de Abranhos (Edição do autor, 1971)
– RIBEIRO, Aquilino. A Casa Grande de Romarigães : crónica romanceada (Lisboa: Bertrand, 1957)
— idem. Tombo no Inferno / O Manto de Nossa Senhora (Lisboa: Bertrand, 1963)
— idem. Quando os Lobos Uivam (Lisboa: Avante, 2008)
– SOUSA, Osvaldo de. João Abel Manta – Gráfica (Lisboa: Regisconta, 1988)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta” (in COSTA E SILVA, Manuel. Os Meus Amigos, Lisboa: Dom Quixote, 1983)
– WAUGH, Evelyn. O Ente Querido (Lisboa: Ulisseia, 1955)
Arte de Furtar (Lisboa: Estúdios Cor, 1969)
Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar (Lisboa: Edições António Ramos, 1980)
João Abel Manta: Obra Gráfica (Lisboa: CML / Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992)
Livros Proibidos no Estado Novo (Lisboa: Assembleia da República, 2005, pp. 52-53)
Um Sabor de Desenho: Homenagem a João Abel Manta (Amadora: CM Amadora, 2008; texto de Júlia COUTINHO, “João Abel Manta: o artista resistente”)
Um Tempo e um Lugar: Dos Anos Quarenta aos Anos Sessenta. Dez Exposições Gerais de Artes Plásticas (Vila Franca de Xira: CM V.F. Xira / Museu do Neo-Realismo, 2005)

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Uma questão de timing

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Há perto de um ano, instado a pronunciar-se sobre as memórias do célebre editor argentino e octogenário Jorge Alvarez (publicadas pouco antes), o agente Guillermo Schavelzon foi implacável: tratava-se de um livro “caótico” e “limitado”, e era a prova do que ele sempre tinha recomendado aos autores agenciados por si: nunca escrever as “memórias” depois dos 80 anos, quando a memória fraqueja.

Ainda que este Não Se Distorce a Cara de Um Homem (Guerra & Paz, 2014) não seja um volume autobiográfico (trata-se simplesmente da transcrição de uma conversa entre José Jorge Letria e João Abel Manta em 2010), a questão da “memória” é também honesta e brutalmente abordada quando, a páginas tantas, o entrevistado se queixa do “Alzheimer” (se literal ou figurado, fica por saber) num momento em que perde o fio condutor da resposta. Apesar da possibilidade de controlo e orientação das perguntas pelo entrevistador, somos de pronto confrontados com o facto incontornável: João Abel Manta tem 86 anos (82 à data da entrevista) e a memória é um bem perecível.

Se a isso juntarmos o facto de o entrevistado ser sobretudo e justamente conhecido por uma actividade (o cartoon político na imprensa) da qual não quer falar, acabamos com um estranho livro: linhas e linhas sobre a sua actividade de pintor (à qual se tem dedicado em quase exclusividade desde há 20 anos) e sobre a pintura em geral, ilustradas por exemplos desses notáveis cartoons e ilustrações dispersas (incluindo algumas publicadas no Almanaque da Ulisseia) aos quais Abel Manta não dedica grande atenção, confessando mesmo detestar ser associado a eles, em particular aos cartoons. Na verdade, já não se trata aqui de uma questão de qualidade da memória (fora umas desculpáveis gralhas ou gaffes, que terão escapado ao crivo da revisão, como “arte pólvora” em vez de arte povera e “Barrett Newmann” em vez de Barnett Newmann, e uma questionável localização temporal do Dadaísmo nos anos 60 do século passado), mas de uma opção tomada pelo artista há um bom par de décadas: um corte deliberado com a sua biografia de ilustrador, cartazista e cartoonista para se “reinventar” como pintor (fruto, talvez, de um certo preconceito comum à sua geração, segundo o qual o trabalho “nobre” para um pintor – ou, no caso, um arquitecto filho de insignes pintores – não está nas páginas dos jornais e dos livros ou no papel dos cartazes).

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No fundo, uma questão de timing: aos que, como eu, queriam saber como foi colaborar com esse Almanaque no início da década de 60, como foi colaborar com o Diário de Lisboa nessa fase “dourada” entre finais dessa década e meados da seguinte (onde fez tudo e sempre a um nível superior: cartoon, ilustração editorial, polémica estética, intervenção “subversiva”, com a respectiva atenção da Censura e dos tribunais), como via ele a ilustração editorial, à qual deixou exemplos brilhantes, como era a colaboração com as editoras ou com José Cardoso Pires, o autor com quem mais colaborou, enfim, aos que procuravam saber detalhes daquilo que fez de João Abel Manta o artista gráfico mais importante nesses anos-charneira é oferecida outra coisa, porventura fiel ao que o artista é agora mas que, pela junção da falibilidade da memória com uma vontade deliberada, passa ao lado desse núcleo de trabalho crucial. Tivesse esta entrevista sido publicada, digamos, em 1975, na edição dos Cartoons 1969-1975, conduzida pelo mesmo Cardoso Pires que aí publicou o seu panegírico ao artista e que com Abel Manta colaborara em proximidade desde o Almanaque, e talvez tivéssemos hoje o livro definitivo sobre o JAM desses anos, o mesmo JAM que, no seu primeiro cartoon para o Diário de Lisboa, em 1969, se retratava junto a uma enorme caneta, sob um “requerimento” em que afirmava a sua identidade dentro do “importante sector das Artes Plásticas que se chama ‘a Caricatura'” e onde se listavam as suas influências (Daumier, Forain, os dadaístas Heartfield e Grosz, Osborn, Topolski, Steinberg, François, Levine, etc – destes nomes, a julgar por este volume da Guerra & Paz, Manta parece agora apenas lembrar-se ou manter como importantes os de Steinberg e o de Daumier).

A bibliografia sobre João Abel Manta carece, precisamente, de um livro que possamos concordar como estando próximo de ser “definitivo” (por impossível que saibamos ser isso). A minha aposta seria no excelente catálogo da exposição da sua “Obra Gráfica” em 1992 (publicado pela Câmara Municipal de Lisboa), até hoje o melhor guia visual e cronológico para quem procura embrenhar-se no seu universo gráfico, ao qual (apesar da qualidade dos textos de arquivo reunidos, incluindo o de Cardoso Pires, e da enorme quantidade de reproduções) faltaria talvez um texto condutor, que é o que nos oferece a edição de Caprichos e Desastres (com texto de João Paulo Cotrim), publicada em 2008 aquando da última exposição da sua obra gráfica. Ainda assim, em quase 40 anos (a partir dessa antologia de cartoons de 1975), e descontando as Caricaturas Portuguesas de 1977, os dedos de uma mão sobram para contar as monografias dedicadas ao trabalho de João Abel Manta (e, mesmo sobre a sua pintura, há apenas o catálogo da exposição de 2009). Manifestamente pouco, mesmo no caso de um artista pouco dado a falar ou a escrever sobre si, que há duas décadas vive em quase “reclusão”, retirado e distante do burburinho social, e que, pelo que se pode comprovar nesta entrevista, perdeu de vez a vontade de recordar ou referir-se ao seu trabalho gráfico.

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Pelo meio, contudo, ainda se resgata algum orgulho de Manta com esse seu enorme portefólio, em particular com a edição das Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar em 1977 (“Esse livro foi feito muito a sério. Se me disserem que sou o maior cartoonista português por ter feito aquele livro, eu digo: ‘têm razão'”, p. 80-81) e, em 1981, com a direcção de arte dos primeiros números do Jornal de Letras (“os bonecos que eu fiz para esses números, para mim, já eram arte”, p. 63). Talvez Letria pudesse ter tentado ser mais específico, ter levado o seu interlocutor a iluminar algumas dessas áreas de sombra (sobre o mesmo assunto delicado e a propósito de outro livro-entrevista, escrevi aqui), mas compreende-se o pudor em fazê-lo, tanto mais que o que interessava a Manta, em 2010, era justificar os seus quase vinte anos ininterruptos dedicados à pintura, um trabalho que a exposição do ano anterior tornara público. Fica, pois, nestas 160 páginas, pouco mais do que umas curiosas anotações autobiográficas do convívio com os seus pais e o grupo de amigos destes, de uma educação quase esquizofrénica entre um liceu ultra-salazarista e um meio familiar e social “do contra”, e, sobretudo, uma série de considerações de ordem ética, política, técnica e estética em torno da arquitectura e da pintura (a mais curiosa das quais será o facto de, por via da “deformação” profissional de arquitecto e grafista/cartoonista, nunca ter deixado de ser um “pintor de prancheta”), a sua única actividade nestes últimos anos de vida e, em rigor, o pretexto para a entrevista. Fica também a sensação de que, se não tivesse havido essa exposição em 2009, muito dificilmente Manta teria acedido a pronunciar-se apenas sobre algo que considerava já ultrapassado na sua carreira e pouco digno de menção. Como o Rimbaud “negreiro”, que se recusava sequer a admitir ter sido poeta.

Tal como algumas das suas melhores composições mistas, entre o desenho e a colagem, esse “livro definitivo” sobre a obra gráfica de João Abel Manta que nunca se materializou nestes 40 anos terá, a partir de agora, de ir sendo composto mentalmente por nós com bocados das pouquíssimas edições disponíveis, com recortes de jornais, com vislumbres dos poucos mas notáveis cartazes (mesmo fora do “cânone” do PREC: lembro-me do espantoso cartaz para Benilde ou a Virgem Mãe de Oliveira, que vi exposto na Cinemateca há uns anos, ou da surpresa e emoção ao encontrar, perdido e dado como “papel velho” na feira de velharias de Algés, um exemplar do cartaz para o II Congresso dos Escritores Portugueses de 1982, com o seu alinhamento grotesco dos fantasmas da APE – uma imagem que seria impensável hoje, em que a “literatura” e o seu marketing andam intimamente ligados, produtos que são do complexo financeiro e corporativo), quem sabe até com um contacto mais regular com os originais dessa mesma obra, caso se chegue finalmente à conclusão que duas exposições em mais de vinte anos é quase nada. Dele, Manta, não é sensato ou sequer justo esperar mais: afinal de contas, já fez a sua parte.

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