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Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

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Título
Dinossauro Excelentíssimo

Autor
José Cardoso Pires

Arranjo gráfico
Sebastião Rodrigues

Ilustrações
João Abel Manta

Edição
Bertrand, Abril de 1973 (5.ª)
106 páginas

Descrição
Um par de meses depois de ter avistado e assinalado um exemplar da edição da Europa-América de 1974 (já posterior à Revolução) de Dinossauro Excelentíssimo na Sá da Costa, ao Chiado, eis que os muito profissionais livreiros da Letra Livre me comunicam a existência de um exemplar da edição de 1973 da Bertrand. Devo dizer que, para além deste bom serviço de livraria, a celeridade do envio, o preço, o estado do livro e a minha particular afeição ao objecto fazem deste um dos melhores deals que já me aconteceram, comparável só a ter comprado há 2 anos, pelo ebay, um excelente exemplar do cartaz polaco de A Hard Day’s Night de Waldemar Swierzy por menos de 9.99 dólares.

Um capriccio (para pegar no termo exacto usado por Cardoso Pires) pensado e executado pelo seu autor quando em Londres em 1970, este livro, que em circunstâncias “normais” para o Marcelismo, não passaria acima do radar da censura, tornou-se um surpreendente êxito e soou como um toque de gongo a marcar o fim de uma era. Inicialmente publicado pela Arcádia (“uma editora falida, porque naquele momento publicar um retrato grotesco de Salazar era coisa que nenhuma casa ousaria”, segundo o próprio Cardoso Pires confessou no livro Cardoso Pires por Cardoso Pires – citação retirada de Livros Proibidos no Estado Novo, Assembleia da República, 2005, p. 54), a História quis sorrir a este livro e elevá-lo do Index censório quando a 28 de Novembro de 1972, em debate na Assembleia Nacional, e respondendo a uma acusação do deputado Miller Guerra de que não havia liberdade de expressão em Portugal, o deputado da “situação” Casal Ribeiro (“a espumar de raiva”) se lhe dirigiu, apontando precisamente a publicação de Dinossauro Excelentíssimo como prova da existência de liberdades. Facto consumado: a Censura estava “de mãos atadas”, e o livro passava a poder circular livremente. Esta curta parábola sobre um menino reptiliano e monstruoso da província que se torna no Tiranossaurus Rex de um país de pacotilha transformou-se, assim, num dos mais certeiros tiros de misericórdia no Estado Novo, tiro de suicídio também, com a contribuição desesperada da facção ultra conservadora na Assembleia Nacional.

Já sem a capa de fundo branco da Arcádia (que apenas pude ver em reproduções, uma delas no já citado Livros Proibidos no Estado Novo, mas que o João Ventura, orgulhoso detentor de um exemplar dessa edição, amavelmente digitalizou – Prova A), esta edição da Bertrand exibe uma sobrecapa de fundo negro, com a tipografia a abrir em branco e as linhas dos desenhos da coroa e cauda reptiliana abrindo a magenta, solução que se manteve nas edições subsequentes, até depois da Revolução. Confesso que a solução da Arcádia me agrada mais, e confere mais leveza à capa, jogando melhor com o tom jocoso do texto, mas ainda assim os olhos e as mãos dão conta do estranhíssimo e valioso objecto-livro em causa, uma relíquia dos tempos em que os livros eram também bombas de retardador, com efeitos reais e em curto espaço de tempo, e em que o som inaudível da abertura da capa era o equivalente mental ao clic da introdução do carregador de uma AK-47 (só um ano mais tarde as G3 poderiam reivindicar para si o estatuto de símbolos revolucionários…).

Prova A
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A ficha técnica é, também ela, um valor acrescido a este livro: a junção (creio que única) dos nomes de Sebastião Rodrigues (o máximo representante do modernismo gráfico da “escola americana” em Portugal, aqui como responsável pelo “arranjo”) e de João Abel Manta, como autor das ilustrações (algumas delas sendo do melhor que JAM fez por esses anos, o seu período de maior criatividade – Prova B), era o sinal de que o velório dos velhos tempos e o anúncio dos novos dias estava esteticamente mais do que bem apoiado em Portugal.

Prova B
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Ainda João Abel Manta: apontamentos sobre uma exposição

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Se muito na Revolução de 1974 parece algo atípico no contexto de meados dos anos 1970 (uma revolução de esquerda feita na rua com tanques, soldados rasos e capitães, em plena Europa Ocidental, e num período de progressiva desmotivação política, em que as guerrilhas urbanas em Espanha, na Alemanha, em França, na Itália, que procuravam concretizar a revolução pedida em 1968, ou eram desmanteladas ou se radicalizavam na clandestinidade), atípico seria também o artista que lhe ficou ligado indissociavelmente.

Sem o culto do traço livre e “raivoso” de um Siné, um Reiser, um Steadman, um Ungerer, um Topor ou um Feiffer (os cartoonistas de referência por esses anos), João Abel Manta parecia o grafista menos propício aos tempos de caos e renovação que couberam a Portugal em 74-75. Sem grande portfolio na produção de cartazes, a credencial sine qua non para um grafista radical e progressista, JAM cultivava, para além disso, um leque de referências muito erudito, conseguindo criar cartoons plenos de graça com legendas como Cidadão português despedindo-se da família antes de se aventurar na leitura duma crítica ensaística (em cartoon de 1974). O seu estilo gráfico de traço limpo, perfeccionista e pleno de contrastes, devia mais ao seu trabalho como arquitecto, à influência da “linha clara” franco-belga dos anos 1940-50 e ao culto da linha de alguma produção gráfica nos anos da Pop do que à ebulição que sacudiu os aparos e os pincéis com tinta-da-china, sobretudo em França (e que tanto influenciou outro dos grandes cartoonistas portugueses dos Setenta, Vasco). Além disso, sendo filho de um pintor de renome, estar-lhe-ia mais rapidamente prevista uma carreira de pintor para galerias do que de “rabiscador” para jornais.

Terá sido, contudo, a sua enorme experiência de trabalho como cartoonista na imprensa rigorosamente vigiada do Marcelismo (em que a inteligência e a astúcia de um desenho ou texto conseguiam, ainda assim, passar incólumes por entre as malhas da censura de um regime que precisava desesperadamente de uma fachada de liberalidade cosmopolita, obrigando o artista a um depuramento estilístico pedido pelos vários níveis de “leitura”), conjugado com uma enorme facilidade em usar de forma eficiente recursos recentemente disponíveis como as tramas da Pantone e a tipografia decalcável da Letraset, que lhe deu o músculo gráfico que lhe permitiu, em cima da hora, produzir uma assombrosa quantidade de desenhos sobre a vertiginosa cena política portuguesa do PREC. Tendo estado alguns desses desenhos políticos expostos no Museu Bordalo até ao início de Fevereiro, é difícil, perante a sua escala (alguns bem maiores do que A3) e a sua factura (colagens em perfeita união de desenho a tinta, tramas autocolantes e detalhes fotográficos ampliados ou aumentados em fotocopiadora – esses céus das gravuras oitocentistas que ele usou tão bem), não emitir um sinal de admiração.

Espanto, por outro lado, é o que se sente quando nos confrontamos com o facto de a última exposição da obra de JAM aberta ao público ter sido em 1992, há dezassete anos (também no Museu Bordalo) e de nada, nem sequer uma pequena fracção deste portfolio espantoso estar em exposição permanente em qualquer local deste país. Espera-se que, no seguimento da doação do seu espólio ao Museu Bordalo, este possa abrir em breve uma sala permanente dedicada a JAM.

As minhas duas visitas em Janeiro, num dia de semana e num Sábado, reforçaram este sentimento de algum “abandono”: a exposição, montada com bom gosto num curto espaço organizado temática e cromaticamente (a única relação gráfica directa e bem conseguida com os desenhos de JAM) pareceu-me mal publicitada (um painel apenas na frontaria do museu, numa zona, ali perto do viaduto do Campo Grande, pouco própria a contemplações de passeio) e mal servida nos seus suportes gráficos (apenas um folheto A4, com um péssimo tratamento tipográfico, um eco desse do-it-yourself no que toca ao design que parece reinar na CML desde o “célebre” caso da Agenda LX…). Lá dentro, e em ambas as visitas, uma sala rigorosamente vazia (com a excepção do proverbial segurança a impedir-me de fotografar o espaço “porque não pode ser”), em contraste chocante com o bulício mental que alguns daqueles desenhos ainda provocam.

A exposição foi articulada com o lançamento da monografia de João Paulo Cotrim para a Assírio & Alvim, publicada no seguimento da atribuição do “Prémio Stuart” de 2008 (a edição tem o contributo do El Corte Ingles, que patrocina o Prémio), prémio que, sob outro patrocínio, JAM recebera em 1988. Mas, fora a presença deste (caro) livro na banca à entrada da sala de exposições temporárias, nada mais (para além dos souvenirs Bordalescos, claro):  nem uma reprodução de um cartaz, um cartoon, uma ilustração em postal, poster ou uma tshirt. (Quem o quisesse, teria de ir à Trindade, à loja da Associação 25 de Abril, onde comprei as excelentes reproduções de 3 cartoons “revolucionários”, por preço de chuva, que encimam este post). As óbvias e excitantes possibilidades de fazer reviver estas obras pela sua integração com um merchandising de qualidade parecem ter escapado a quem de direito: por exemplo, alguém se lembrou já de encomendar a criação de uma fonte com base na tipografia “infantil” de JAM, usada como legenda nos seus cartoons, e pô-la à disposição dos computadores nas escolas primárias?

Prova A
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Entre um livro de preço algo proibitivo (que não li, mas que, como documento de imagens, não vale o excelente catálogo publicado em conjunto pela CML e pelo Museu em 1992, com design de José Brandão – Prova A) e um folheto pouco memorável (alguém poderia ter-se lembrado de que estava nos jornais a força e a justificação das obras de JAM, pelo que seria muito melhor uma pequena edição de 8 páginas em papel de jornal a 2 cores, mas se nem o JL se lembrou de fazer isso para a edição mil…), restava, claro, a exposição. Cobrindo com parcimónia mas acerto a obra de JAM desde os anos de 1950 (mas, curiosamente, omitindo as suas obras feitas para as galerias, como os desenhos sobre as peças de Shakespeare), o conjunto permitia, mesmo numa visita apressada, comprovar o génio gráfico que esteve na sua origem. Os desenhos são extraordinários, sobretudo, pelo facto de manterem o seu impacto seja a que distância o observador estiver deles: passo a passo, da composição geral e harmonia das cores numa vista geral, à leitura da legenda, à observação da textura das colagens e, finalmente, à inspecção das ondulações e terminações de algumas linhas a pincel “seco”, os olhos não têm um momento de tédio. Apesar de uma gritante falta de suporte audiovisual (alguém se lembrou de filmar e entrevistar JAM e passar o resultado aos visitantes da sala?), a pura qualidade gráfica dos trabalhos é suporte de sobra.

João Abel Manta não merece estar em “museus”. “Museologizar” uma obra tão poderosa e tão interventiva estética e politicamente é anestesiar os seus (ainda muito fortes) valores extra-artísticos e condenar a sua riqueza plástica ao abandono. Isto, curiosamente, numa época em que, pelos seus assustadores paralelos mentais com os anos do Marcelismo, Portugal necessita cada vez mais de um novo JAM. E que Caricaturas ele não faria destes últimos 20 anos!

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Cartoons 1969-1975

A falta em Portugal de um portal de vendas de livros usados (à imagem do eBay, por exemplo, que tem uma versão espanhola) faz destas coisas. O acaso de uma pesquisa no Google trouxe-me ao conhecimento o anúncio anónimo da venda de “um livro” de João Abel Manta. Apenas isso, sem fotos ou quaisquer outras referências. Um contacto por email revelou o tesouro. Trata-se de um exemplar da edição de O Jornal de 1975 dos Cartoons 1969-1975 de João Abel Manta, com prefácio de José Cardoso Pires. Não resisti a pedir fotografias desse raríssimo volume e e algumas delas aqui estão. Como nunca ninguém se lembrou de reeditar isto, escapa-me. Para os interessados numa possível compra, o contacto será este (lembro que, neste processo, sou meramente um intermediário desinteressado e muito invejoso de quem vier a ficar com este volume).

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Noto, de novo, o sábio uso da Futura (que se repetiu na obra prima de JAM, as Caricaturas) e a soberba textura dos seus desenhos, sobretudo os que ostentam em legenda a sua caligrafia “infantil” perfeitamente estilizada. Mas sobre isto (e sobre a exposição que se mantém no Museu Bordalo Pinheiro até dia 1 de Fevereiro, e que me parece enfermar de alguns paradoxos que minam uma obrigatória, urgente e já tardia recuperação popular da obra de JAM) escreverei algo em breve.

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Prolongamento

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Foi prolongada até 1 de Fevereiro a exposição sobre João Abel Manta no Museu Bordalo Pinheiro (ao Campo Grande). Por manifesta vergonha, não vou sequer abordar o facto de a sua inauguração em Novembro passado me ter passado completamente ao lado, tal como a primeira, em 1992, já me escapara. Trata-se, agora, de dar prazer aos olhos. Acompanhando esta exposição, foi editado um livro/catálogo pela Assírio e Alvim com a autoria do seu comissário, João Paulo Cotrim.
Nota: na Associação 25 de Abril (Rua da Misericórdia, à Trindade) podem comprar-se a preço da chuva excelentes reproduções de 3 cartoons de JAM sobre o programa cultural do MFA, bem com dos dois dos seus mais famosos cartazes “revolucionários” (um deles também reproduzido num dos mais ubíquos selos a circular em Portugal na segunda metade da década de 1970).

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Excelentíssimo

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Um exemplar de uma edição pós-Revolução de Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires (a da Europa-América, de 1974 presumo, que se sucedeu à famosa edição da Arcádia de 1972) está em exposição e venda na Sá da Costa do Chiado (onde também muitas e fabulosas capas de Sebastião Rodrigues se destacam, tão frescas hoje como há mais de 30 anos). As ilustrações de João Abel Manta são, claro está, de se ficar a olhar para elas muito tempo, mas o preço não permite mais do que um flirt de esquina de mesa.
Nota: sou um admirador confesso de João Abel Manta, e agradeço desde já qualquer indicação de avistamento de livros ou jornais ilustrados por ele.

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Um cartaz de João Abel Manta

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Mesmo fotografado com a (pouco fiável) câmara de um telemóvel, este cartaz mantém a excelência que o faz destacar-se dos restantes que, cobrindo a obra de Manoel de Oliveira, estão expostos na Cinemateca Portuguesa. E parece que nos faz uma singela pergunta: porque raio não está ele, e os outros cartazes e obra gráfica de João Abel Manta, exposto mais regularmente? Alô, Gulbenkian? E, já agora, se os cartazes do cubano René Azcuy, muito semelhantes em estilo (serigrafias com contraste de áreas planas a preto com imagens em meio tom) e contemporâneos, são expostos, coleccionados e defendidos por esse mundo fora, porque tem o público português de esperar por um ciclo de cinema para ver um cartaz de JAM?

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