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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (X)

TRABALHO POÉTICO I e II
Carlos de Oliveira
Capa de Sebastião Rodrigues
Ed. Sá da Costa, Lisboa, 1978

E, no final dos anos 70, Sebastião Rodrigues é mais gráfico, mais abstracto ainda do que quando começou. Os trabalhos que foi desenvolvendo, sobretudo para a Fundação Calouste Gulbenkian, a atracção que nesses anos se sentia pelo grafismo suíço (frio, clássico, impessoal, elegante como Catherine Deneuve?) limpou, nesse imenso gráfico, todo o acidente calculado que surgia nos seus primeiros trabalhos (para a Ulisseia). É olharmos para esta capa e comparar com um dos Almanaques. Mas também Carlos de Oliveira, ao rever a sua poesia – ao retomar os seus romances e ao escrever esse Finisterra final que tanto nos inquieta ainda – fazia um trabalho parecido: indo ao essencial, despindo a prosa. Por isso, nunca mais posso ver a poesia de Carlos de Oliveira sem estas capas de Sebastião Rodrigues, sem este papel levemente amarelado e grosso, sem a mancha nítida da edição. Foi o breve recomeço da Sá da Costa (essa editora mítica de António Sérgio e Magalhães Godinho), ainda lá se juntou Augusto Abelaira. Mas a experiência durou pouco. Para lá do Saldanha, ninguém queria saber destes livros maiores – que ainda se encontram à venda, nunca esgotaram, embora tenha havido edições posteriores, na Dom Quixote, agora na Assírio e Alvim (mas eu, quando quero ler o Carlos, vou sempre a esta edição de há 32 anos – que se mantém nova e bela). Aqui, para esta poesia demorada de Carlos de Oliveira, Sebastião Rodrigues inventou uma calma intensa, aquele vermelho vivo, aquele negro, aquela lombada, aquele trabalho sobre as letras, aquela estranha moldura – e  o maravilhoso papel e a maravilhosa cola com que se uniram as páginas (dos dois volumes). Um encontro perfeito, a meu ver. Entre a clareza de Carlos de Oliveira e a lucidez (ética) de Sebastião Rodrigues.

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (IX)

O MISANTROPO
de Molière
Tradução de Luis Miguel Cintra
Grafismo de Soares Rocha
Editorial Estampa/Seara Nova, Lisboa, 1973

A quem havíamos nós de nos dirigir, nos finais de 1972, para lançar uma colecção de textos de teatro (sobretudo clássicos)? Nós, o Luís Miguel Cintra, o Osório Mateus e eu?  Era com a Estampa que todos nós (a Helena Domingos, o Manuel Gusmão, a Luiza Neto Jorge… ) íamos trabalhando, em traduções, revisões, trabalhos de universitários que ainda não tinham saído de casa dos pais e arranjavam uns biscates literários, era a Estampa a nossa casa. Havia algumas editoras que, nesses anos 70, tinham colecções (um pouco irregulares, a Prelo (que dirigia, creio, Viriato Camilo), a Plátano (que dirigia Carlos Porto). E tinha havido algumas colecções espúrias de teatro, a da Contraponto de Luís Pacheco, a do Teatro de Arte de Lisboa… Mas, nas vésperas de fundarmos o Teatro da Cornucópia, eram os grandes exemplos do Piccolo Teatro di Milano (que, em parceria com a grande Einaudi de Turim, lançou nos anos 50 uma colecção que ainda perdura com mais de 1000 títulos), o TNP de Vilar que se lançou, com a L´Arche, no seu “Repertório Para o Teatro Contemporâneo” (colecção exemplar que durou menos – mas ainda está nas estantes de todos os que se interessam pelo teatro, com as grandes traduções de Adamov, de Marthe Robert, de Robert Marrast… ). Fomos falar com a Ana Maria Alves, a Estampa tinha várias colecções, o risco económico era grande, aquilo demorou um tempo. Acenámos com os nomes de tradutores: tínhamos o Ruy Bello para um Lorca, o Manuel Gusmão para um Calderón, a Luiza para um Racine, o Osório para um Feydeau, eu faria o Goldoni, o Osório falou no José de Oliveira Barata (que vivia em Veneza) para o Ruzante, recuperámos a bela tradução dos Dias Felizes de Beckett que fez o Salazar Sampaio, queríamos recuperar as traduções de O’Neill feitas pelo Jorge de Sena (vistas agora, não são tão boas como isso) e a Sophia tinha-nos prometido o Hamlet.  Mas era difícil. Até que, passados uns meses, Ana Maria Alves lembrou-se  de negociar com outra editora, a Seara Nova. E esta colecção foi (com que orgulho nosso!) uma co-produção. Na capa, dois nomes de editora, a (nova) Estampa e a (velha) Seara Nova. Tudo próximo do PCP (menos nós). Claro que, com um orçamento muito pequeno, o problema eram os direitos. E por isso, a colecção baseou-se nos textos clássicos (que eram a nossa preocupação, foi com Molière e Marivaux a que se seguiria Lope que começámos o Teatro da Cornucópia). Negociações foram difíceis ainda com os herdeiros de Pirandello (para o Esta Noite Improvisa-se), fáceis para o Alberti, impossíveis para o O’Neill. E, durante dois anos, os livros foram saindo. De dois em dois meses, dois. A ideia gráfica era simples: uma capa nítida que mudava de cor, duas cores bem distintas em cada lançamento, só letras, Soares Rocha (que nunca encontrei) fez um trabalho que ainda hoje vibra nas estantes: os livros vêem-se logo. E um prefácio bem claro, e a página bem espaçada que permitisse as notas dos actores em ensaios. E um preço médio: 30 escudos, quando começámos. Os primeiros volumes saíram no princípio de 1973, esses textos, O Misantropo de Molière e os Seis Entremeses de José Daniel Rodrigues da Costa marcaram o teatro desses anos finais da ditadura. E, durante dois anos, foi fantástico, escrever os prefácios, rever as traduções, rever provas, insistir com prazos. E é uma colecção, a meu ver, exemplar. Depois, veio o 25 de Abril, reuniões, política, manifestações. Ficámos com menos tempo, os atrasos foram sendo cada vez maiores, os espectadores estariam interessados num outro repertório (para a compra dos direitos não tínhamos dinheiro). Ainda conseguimos que a Portugália editasse o Terror e Miséria do III Reich que a Fiama traduziu, ainda tentámos lançar uma outra colecção na Ulmeiro com textos contemporâneos, saíram dois: de Jean Jourdheuil e David Hare. Só muito depois, em 2002, conseguimos lançar, nos Artistas Unidos os Livrinhos de Teatro (a que a Cotovia se viria juntar a partir de certa altura). Mas isso já é de outro século. Só que não concebo teatro sem a publicação dos textos. E vejo, com alegria, que o Dona Maria II anda a fazer o mesmo com os seus textos e espectáculos. Ainda bem. Nós estivemos no princípio – e ainda cá estamos.

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VIII)

MORITURI TE SALUTANT
Joao César Monteiro
Capa de João Vieira
&etc, Lisboa, 1974

Querem saber uma coisa? À  excepção do primeiro (Quem Espera Por Sapatos de Defunto) e do último filmes (Vai e Vem), nunca me convenceu o cinema de João César Monteiro. Em contrapartida, tenho-o como um dos maiores prosadores da segunda metade do século XX, elegante, soturno, tremendo. Podíamos filiá-lo em muita literatura francesa que terá lido nos livres de poche mais baratos (e se é fácil pensar em Sade, Céline ou em Bataille, pensemos em Soupault ou até no mais negro Bernanos); mas a prosa, a prosa rigorosa, sinuosa, interminável, essa é única, filha de Camilo, mas dele. E tantas vezes lhe disse, ao João César: você é um escritor preguiçoso, porque é que não escreve mais?, o cinema para si é um trabalho que não o interessa. Interessava, sim: no cinema, nas rodagens, aparecem as raparigas, pode-se até pedir-lhes que abram um pouco mais o decote – as raparigas que raramente enchem a maldita página branca do escritor. E, se se pode namorar filmando, é mais difícil escrevendo. E o César queria era namorar. Este seu livro é uma obra-prima: de graça, malícia, contundência, sinuosidade, liberdade. E, claro, ódio. Do mais venenoso, sem nenhum amor. Vem dos grandes solitários (que o João César preferiu não ser, atraído pelos cafés e pelo convívio), vem da noite mais funda (que o João César conheceu e enfrentou – mas de que quis, com graça infinda, escapar-se com um bom fatinho e um bom sapatinho). E, claro, editado em 1974, marca os alvores de uma editora insólita, a editora do Vítor Silva Tavares (nosso amigo de Montes Carlos e Saldanhas), crítico de cinema, organizador dos ciclos da Casa da Imprensa, jornalista, homem dos livros e dos grafismos. E a capa, como as dos primeiros livros & etc, é do João Vieira, artista das letras, artista imprecativo dos do café Gelo (todos mais velhos do que eu, mas a todos tratei por tu). A &etc continua, insólita, crucial, pertinente, angustiante, serenamente. O Vítor é o Vítor e fica-lhe bem o reconhecimento agora mítico que tem: ele é o nosso off-off, está deliciadamente na margem, no esconderijo, vive numa Lisboa (subterrâneo 3) que felizmente ainda existe, em que se anda a pé e se levam uns livritos na mala. Quem viu começar a editora não lhe daria mais do que cinco anos, seis. Qual quê! É, neste momento, das editoras mais antigas que por aqui anda, imbatível, exigente. E já morreram tantos dos nossos amigos, tantos. Mas tantos se sucedem, com estes livros lindos, raros, malditos, cheirando a enxofre e a liberdade. Mas eu nunca mais fui ao Saldanha – que era onde se sabia que saíam estes livros.

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VII)

O TEXTO DE JOÃO ZORRO
Fiama Hasse Pais Brandão
Capa de Armando Alves
Desenho de Ângelo de Sousa
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1974

E o mundo editorial subiu para o Porto, naqueles anos 70 mesmo antes do 25 de Abril. A Afrontamento, por um lado, com o seu impressionante catálogo de livros de história e de política (orientados pelo primeiro José Pacheco Pereira, aquele que foi meu amigo então, reeditando textos de anarquistas -o Alexandre Vieira, que eu tanto admirei –, falando das lutas operárias, editando o César de Oliveira…). Mas, com a inabalável iniciativa de Egito Gonçalves, congregando artistas plásticos (os Quatro Vintes: Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues) em torno daquele mundo que ia do café Ceuta até ao Orfeu, passando pela inclassificável livraria Leitura. A Inova foi a editora desses tempos, publicando Stendhal (traduzido pela Luiza Neto Jorge) ou Kleist (Egito Gonçalves) e até Rodrigues Miguéis e Fitzgerald. Este terceiro volume da colecção “Coroa da Terra” é a primeira antologia de um dos maiores poetas da segunda parte do século XX, Fiama Hasse Pais Brandão: radical, lírica, intelectual, sensível, meta-textual, na sua poesia (aqui reunida a que vai de 61 a 74 – a posterior está no enorme volume da Assírio) está muito do que viria a ser a literatura que se lhe seguiu (a melhor). E o desenho em que a capa se baseia é do Ângelo de Sousa – que fez muitas capas  (para Helga Moreira na &etc, para Álvaro Lapa na Estampa mas também hors texts para Eugénio, Natália Correia ou José Emílio Nelson). Aqui estamos em plenos anos 70: o grafismo da capa, com o seu verde cintilante, atropela a delicadeza do desenho de Ângelo, há uma contradição sem solução, como se o gráfico tivesse feito a capa deixando apenas um lugar para um desenho que não vira: e este escapa-se, pela delicadeza. É um dos mais belos livros de poesia – e um dos mais belos desenhos, intrincados, subtis de Angelo: mas a capa esmaga-o, e é pena. Mas foram assim muitos dos anos 70, ideológicos e não sensíveis.

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VI)

Jorge Silva Melo regressa com as excursões em volta de alguns livros da sua vida. Desta feita, entramos nos anos 70. E da melhor forma, com um dos meus livros favoritos na sua melhor edição portuguesa. (PM)

FÁBULAS FANTÁSTICAS
Ambrose Bierce
Tradução Joäo da Fonseca Amaral.
Ilustrações Eduardo Batarda
Grafismo de Alda Rosa
Lisboa : Estampa, 1971

Em 1969, houve a campanha da CDE. E dessa aventura – que foi ousada e ultrapassou em muito o frentismo do PCP – muita coisa mudou nos círculos culturais. A Editorial Estampa (dirigida por Ana Maria Alves e António Manso Pinheiro), inequivocamente próxima do PCP, é um dos sinais mais curiosos dessa mudança. Ao mesmo tempo que editavam, em colecções acessíveis, alguns títulos da mais obediente doutrinação comunista, os editores (cultos, inteligentes, próximos de algum surrealismo como o de Manuel de Lima, próximos do jovem Mário Vieira de Carvalho que editava por lá inúmeros volumes ora sobre Beethoven, ora sobre Mozart), lançavam obras de Michel Leiris, Cortázar, Álvaro Lapa, Luiz Pacheco. E um dos seus grandes êxitos foi esta colecção preta, com as páginas azul claro, colecção “gótica” cheia daqueles autores que o surrealismo amou, noctívagos como Nerval, venenosos como Mary Shelley, estrambóticos como Allais… Eu cheguei a traduzir para eles Lovecraft e Oscar Wilde. A colecção impôs-se pela escolha do catálogo mas também pela originalidade do grafismo – de Alda Rosa, recém-chegada de Londres. E a Alda Rosa (que fora brilhante nos seus estudos londrinos) conseguiu aqui um milagre gráfico que havia de lhe dar reforma por inteiro, se é que não nome de rua: identificar muito simplesmente – e de maneira única – uma colecção que se mantinha de um subgénero, um ideal, uma estética, uma literatura. Creio que não há outra colecção assim neste mundo dos livros europeus (nem na Pauvert…), nem na riqueza dos títulos nem na clareza da proposta gráfica. E não é de estranhar que os inúmeros e extraordinários bonecos deste livro sejam de Eduardo Batarda que ainda assinava Fernandes e andava ainda por Londres, quase não expusera, embora fosse muitíssimo conhecido nos meios universitários (por causa dos maravilhosos cartazes que fez para o Citac, em Coimbra). O livro, baratíssimo, cruel, tremendo, cintilante, muito bem traduzido (com a rapidez do relâmpago, com certeza) ainda não esgotou, 43 anos depois da segunda edição, de 1977. E que significa isso? Que, naquela década, entre 73 e 77, se venderam os fantasmas, os mortos-vivos (foram anos de insónias, aqueles anos 71 a 73, tudo parado) – e de tal forma se vendeu essa crueldade que os editores se abalançaram a nova edição. Mas esta segunda, que já veio depois do 25 de Novembro, já não vendeu. E ainda surge na net, nalgumas feiras, nalgumas livrarias. Por seis euros e pouco. Sempre que dou com o livro, compro. Assim como o Swift, os Conselhos para o Pessoal Doméstico. Não só porque nunca houve ninguém como Bierce para escrever sobre o absurdo e a carnificina da guerra – ele que é um dos autores mais citados por Heiner Müller. Mas porque adoro oferecer este livro, ilustrado por um dos maiores artistas do nosso século XX (é o que penso do Eduardo Batarda, génio ímpar) e sem ar de livro de luxo, qual quê?

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (IV)

TECLADO UNIVERSAL
Fernando Lemos
com um prefácio de Jorge de Sena
colecção Circulo de Poesia
capa de José Escada
Livraria Morais Editora, Lisboa, 1963

Sempre foram especiais – e quase sempre muito belas – as colecções de poesia por cá, onde, ao contrário de outros lugares, a poesia não andou reduzida a editoras especializadas (excepção à beleza: as da Dom Quixote dos anos áureos, Cadernos de Poesia...com a cara do poeta em negativo, mais feio seria impossível).  Pelo contrário, quase todos os grandes editores (excepções: a Bertrand, a Livros do Brasil, e depois a Europa-América) quiseram, a certo passo da sua afirmação intelectual, ter uma colecção de poesia (para perder dinheiro e ganhar respeito crítico?), onde, como é natural ,”a marca” da colecção e a “garantia” da editora  será mais importante do que a especificidade daquele livro.  Possivelmente marcadas pela bela colecção da Ática dirigida por Luis de Montalvor, onde o cavalo alado de Almada surgia trazido pela brisa da poesia, muitas foram as colecções que quiseram mais um logotipo do que uma capa. E assim foram os trabalhos de  João da Câmara Leme para a Portugália, as capas da Guimarães, mais tarde, as de Armando Alves no Porto dos anos 70-80 (ah, o Ouro do Dia)… A Morais, editora fundada por António Alçada Baptista, congregando os jovens vindos da militância católica (e do jornalismo universitário, pois quase todos vieram do importantíssimo jornal Encontro, da JUC, dirigido durante os seus “esplendor na relva” por um João Bénard da Costa de 17-18 anos e já genial), quis, desde os primeiros meses, lançar colecções distintas (textos católicos no “círculo do humanismo cristão”, “cadernos de poesia”). E seria o muito jovem pintor (e militante católico) José Escada (articulista,crítico mas também paginador e ilustrador do Encontro e que já fizera singelas e muito belas ilustrações dos Fioretti  de São Francisco, na mesma Moraes) quem iria desenhar esta capa, (mais do que capa: este logo especial), pensar esta colecção belíssima; capa de linho, o título colado, sobrecapa de acetato duro nos primeiros anos. Vista agora, a colecção é menos interessante do que na altura parecia (o seu prestígio era mesmo enorme nos círculos universitários – e o preço alto para os nossos tostões), e muitos dos autores publicados  foram-se sumindo na areia do tempo. Outros são livros imprescindíveis, como Metamorfoses de Jorge de Sena, Livro Sexto de Sophia, a afirmação do grande poeta do grupo, Pedro Tamen, a breve poesia de Cristovão Pavia, a recuperação de Nemésio, esse nómada de génio. E este Teclado Universal de Fernando Lemos (que só consegui comprar há dois anos, nesse paraíso borgesiano que é a Rua Anchieta dos sábados de manhã, 1.ª edição, 15 euros… e acabei, logo a seguir, por pedir autógrafo ao Lemos!), prefaciado por Jorge de Sena, a segunda recolha de poesias deste artista multímodo que, logo nos anos a seguir ao MUD, se foi para o Brasil (onde ainda vive e de onde vem de vez em quando, para alegria intensa de todos os que, por cá, tanto o amamos).

De si próprio ele diz, como só ele sabe: Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor. (Fernando Lemos)

Jorge Silva Melo

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Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (III)

CAIS DAS BRUMAS
Pierre Mac Orlan
tradução de Freitas Leça
capa de Bernardo Marques
Livros do Brasil, s/d

OS HOMENS E OS OUTROS
Elio Vittorini
tradução de Elena Ricci Pinto e Wilson Pinto
capa de Vítor Palla
uma ilustração de Renato Guttuso (retrato do autor)
Gleba, Os Livros das Três Abelhas, s/d

Sobre a Lisboa do pós-guerra, contava-me a actriz Glicínia Quartin, no filme que realizei sobre ela: “Foi quando começámos a ver o cinema francês, sempre com uma carga poética muito grande. Era uma estética nova, poética, eram os temas, os conteúdos, a maneira como eram apresentados, os grandes sentimentos e também a sua humanidade, eram pessoas como nós. Foi a primeira corrente estética descoberta pela nossa geração, a geração do pós-guerra, estávamos todos pelos vinte anos.  E os realizadores, o Carné, o Cocteau… Fui muito tocada por essa visão poética. Os franceses fugiram do naturalismo, era outra coisa, mais criativa, era uma fuga para a poesia e para a fantasia.”

Ora, este breve e lindo romancinho de Pierre Mac Orlan está na origem do belo filme de Marcel Carné: brumas, candeeiros, gabardinas, um pouco de jazz. “É Nelly, e é a única mulher naquela sala cuja cabeleira não está cortada pela nuca. Ela reina no dancing como uma divindade da rua, mas da rua esquecida pelas mais loucas prodigalidades de quantos escaparam ao massacre. O perfume secreto do dancing, como o de 1919, é ainda o odor enjoativo do sangue.”, etc.  Não me fica nada bem, mas nem sabem como eu gosto deste naturalismo tardio – a que chamaram populismo ou, na fotografia, “humanismo”, dancings, portos, cais, hotéis – e Jean Gabin, o proletário!

Não sei de quando é esta edição portuguesa, comprei-a em 1964, numa papelariazinha ao pé do Marques de Pombal, subindo do metro até casa. Eram livros baratos (custavam 12$50), lindos, lacrados com cola (o receio do contágio da tuberculose ainda durou pelos anos 60 dentro), e desenhados por Bernardo Marques, edições perfeitas. Marques é o capista delicado, leitor bem atento , o  homem que fez as capas dos Livros do Brasil, na Luz Soriano, mesmo ao pé de sua casa, ao dobrar a esquina, a primeira à direita, quando ia a caminho do SNI, para o qual também trabalhou e tanto – e com o “bom gosto” que defendia ( Panorama…). O homem que desenhou com quase nada as ramagens de Sintra e as personagens de Eça (e de Thomas Mann), não podia deixar de entender bem esta atmosfera fugidia e lúgubre, soturna, este Paris macambúzio e frenético: como é perfeita a linha de fuga da descoberta que se vê pela porta, como é “poética” a sombra da esquerda, como é extraordinário o copo com palhinha do refresco, mesmo à esquerda da mesa… Estes livrinhos da Miniatura eram todo um mundo delicado, fim de um mundo até. Aquele de que falava Glicínia quando falava do cinema francês desses anos 45. Mas ainda durava, essa paleta, delicadamente melancólica pelos anos 60 de Bernardo Marques nesta colecção perfeita, ainda o entrevi. E Marques irá para a Gulbenkian, não esqueçamos, uma continuidade.

Mas, nesses mesmos anos do pós-guerra, na outra colina de Lisboa, na Rua da Madalena, à Mouraria, uns rapazes uns bons vinte anos mais novos (Aurélio Cruz, Victor Palla e Cardoso Pires lá pelo meio…) juntavam-se, criavam uma editora, a Gleba, inventavam uma colecção, os Livros das Três Abelhas (que mais tarde foi exportada para a Europa-América). E propunham uma outra literatura, a americana, a italiana, a grega da resistência (o grande André Kedros). E embora, nas duas colecções, surjam autores comuns, percebemos que a Miniatura se centrava sobretudo na delicada França racional de André Gide e sobretudo de Romain Rolland (é nela que surge o Jean-Christophe de todas as iniciações adolecentes) e vai, catálogo da Gallimard por ali fora, até Camus, já nas 3 Abelhas, passamos à luta politica tal qual: Miller (o Caixeiro), Lorca (a Bernarda, traduzida por José Gomes Ferreira…),  Manuel da Fonseca, o extraordinário contista, o Vittorini marxista deste admirável Homens e os Outros.

E as capas são desse homem multímodo, exigente, inesperado, multi-talentoso que foi Vítor Palla. E Palla é imbatível: aprendeu com as grandes artes gráficas alemãs (a Neue Sachlickeit e o seu gosto pelos contrastes agressivos), devorou os princípios do realismo social americano (a colecção das Três Abelhas – “os melhores livros para os melhores leitores” –  nasceu ecoando os populares Signet Books, papel grosseiro, grandes tiragens, cores fortes…), conhecia bem os italianos marxistas (neste livro há uma reprodução do retrato de Vittorini por Guttuso). Esta capa (e Palla terá feito mais de uma centena de capas, antes e depois desta e outras tantas por assinar…) é todo um programa depois de Auschwitz: arame farpado, o vermelho e negro, as letras em todas as direcções. E o surpreendente logo da colecção (ao que parece, uma parodia ao emblema da Mocidade Portuguesa Feminina, disseram-me).

E dizia-me ainda a Glicínia Quartin (que foi amiga de ambos, do delicado Bernardo Marques, “muito bem educado”, e do intempestivo Palla, sempre vibrante nas polémicas e nas convicções): “Foi nos cineclubes que descobrimos o cinema italiano, que surgiu um pouco depois do cinema francês. Era mais combativo, mais rebarbativo, mais social, no fundo.”

Ambas estas edições – em data, as duas – comprei-as em papelarias normais por onde passava, vindo do liceu (63?, 64?), a pé para poupar na semanada – papelarias onde a exposição dos livros durava tempo,  não apenas os quinze dias desta nossa vergonha de hoje.

E os meus anos 60 eram feitos destes livros que vieram dantes. Diria eu agora: destas duas capas contemporâneas mas onde podemos ver dois mundos, dois tempos, dois programas – e até, quem sabe, pensar  na “luta de classes”.

Jorge Silva Melo

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