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Sobre João da Câmara Leme, entre o fácil e o difícil

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Um amabilíssimo (e inesperado) convite do Jorge Silva há 3 anos para escrever um pequeno prefácio para o volume da Colecção D dedicado a João da Câmara Leme desembocou, finalmente, na apresentação do mesmo no dia 5 de Maio, na Biblioteca da INCM em Lisboa, na qual estive “na mesa”, junto ao responsável pela Silvadesigners!, o Dr. Duarte Azinheira (director da unidade de publicações da INCM) e o Dr. Rui Carp (presidente do Conselho de Administração da INCM). Depois da excelente introdução deste último (que entrou logo no terreno nostálgico e sentimental a que os trabalhos aqui reproduzidos remetem), comecei precisamente por me atirar de cabeça a essa contradição de ser “fácil” escrever ou falar sobre Câmara Leme e, ao mesmo tempo, “difícil” (ecoando um curiosíssimo paradoxo que este portefólio salienta: o de um capista tão dado aos jogos lúdicos formais, tão próximo, em certos casos, da abstração, ter sido também capaz de criar imagens icónicas para capas de livros de autores neo-realistas, conseguindo escapar incólume a essa guerra entre “formalistas” e “conteudistas”, agradando a ambos).

Se essa facilidade deriva da beleza e da harmonia de muitas destas peças gráficas (que, na verdade, pedem mais silêncio contemplador e fruidor do que verborreia), a dificuldade, quanto a mim, na altura de escrever esse texto, estava no facto de, apesar de ser um designer que morrera muito novo e há muito tempo (em 1983, com 53 anos), de ter andado os últimos dez anos da sua vida arredado da fama que recolhera durante a década de 1960 e, depois de morto, continuar, aparentemente, arredado do interesse dos exegetas (e o facto de este volume ser a primeira monografia que lhe é dedicada é prova cabal disso), apesar disso tudo, dizia, eu sentia e sabia que a vida e, sobretudo, a obra de João da Câmara Leme era um foco de paixões de muita gente, paixões que radicavam não apenas nesse rico solo de memórias da chegada dos primeiros livros às infâncias e adolescências de milhares de portugueses (o ubíquo Figuras e Figuronas, qualquer exemplar da “Biblioteca dos Rapazes” da Portugália – da qual um exemplar do Moby Dick me veio parar às mãos no final dos anos 70 – etc), mas também na admiração profissional, a começar na do meu “encomendador”: ouvir o Jorge Silva a falar sobre João da Câmara Leme não deixa qualquer dúvida acerca disso (não posso também deixar de referir um notável testemunho inédito de Henrique Cayatte que pude ler na preparação do texto, onde a mesma paixão e admiração são notórias, a que se acrescenta uma proximidade afectiva com Câmara Leme).

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Devo confessar, aliás, que se há algo de que não me arrependo no trabalho desta edição é de ter dito “não” quando o Jorge Silva me pediu que escrevesse mais três legendas, sugerindo-lhe antes que, dada essa sua óbvia e antiga paixão pela obra do designer, e as qualidades de escrita que ele vinha demonstrando no “Almanaque Silva”, fosse ele a escrevê-las: daria ao livro uma maior modulação de estilo e, sobretudo, daria aos leitores o mesmo prazer que, pelo menos, eu sentia a ler os textos concisos e precisos do “Almanaque” (uma concisão e precisão que pudemos também testemunhar no seu depoimento na Terça-feira). Decisão arriscada, suicida, de um tipo que devia ter agradecido aos deuses uma tão rara oportunidade como esta em vez de andar a esticar a corda, dirão. Certo. Mas os leitores deste volume, os que já o leram, sabem que não podia ser de outra forma.

De resto, houve tempo para reforçar o que deixei exposto no prefácio: o facto de que um portefólio destes, raríssimo em qualquer país, não se faz por geração espontânea ou num vácuo estético, mas é antes fruto de uma relação, quando não de uma dialética complexa e diária entre um designer e um encomendador, e que, quando este tem as qualidades de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso proprietário da Portugália, pode muito bem acontecer uma década de trabalho intensivo e prodigioso como a que este livrinho documenta. Fernandes, que encomendara já serviço ao melhor capista em Portugal na década de 30 e 40, o suíço Fred Kradolfer, e convivera com a nata do Modernismo português, era um cliente erudito e experiente, certamente muito exigente, e mantê-lo satisfeito durante mais de 10 anos com um trabalho que ia das ilustrações infantis às capas dos ubíquos livros de bolso é um feito de feições hercúleas. Que alguém tão modesto, tão pacato, tão “contido”, quase invisível (se o compararmos o seu com o portefólio ecléctico dos seus companheiros de geração Sebastião Rodrigues ou Victor Palla), de uma modéstia quase artesanal, tenha conseguido fazê-lo é algo não menos digno de espanto. Nisso, na capacidade de levar às costas anos a fio toda a imagem gráfica de uma editora de prestígio, Câmara Leme está na mesma liga de contemporâneos como Albe Steiner da Feltrinelli, Celestino Piatti da alemã DTV ou Roy Kuhlman da Grove Press. Mais de 30 anos depois da sua morte, há finalmente um livro para o provar.

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Apresentação de “João da Câmara Leme” na Colecção D

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Mais contida na quantidade de lançamentos anuais (a crise assim o obriga e a todos), a Colecção D da INCM (orientada e editada por Jorge Silva da Silvadesigners!) voltou com um dos designers e capistas “clássicos” mais esquecidos em livro, João da Câmara Leme (1930-1983). Como afirmo no pequenino texto de introdução, e dada a sua importância como capista e ilustrador e a sua ligação a uma das melhores editoras nacionais ao longo da década “crucial” de 1960 (a Portugália de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso homem de negócios mas também erudito financiador da Contemporânea de José Pacheko e coleccionador de Almada), é incrível que este nono volume da colecção seja a primeira monografia que lhe é dedicada. Só por esse facto, e pela beleza das capas, ilustrações e outro material reproduzido, este será certamente um dos mais importantes livros da colecção.
Fruto de um destes acasos e sortes que ainda ocorrem, o muito amável convite que o Jorge Silva me fez deu nesse pequeno texto de introdução em que tentei lembrar que um grande designer não aparece por geração espontânea, dependendo antes das circunstâncias e, sobretudo, da relação com certos clientes, sendo que a relação Câmara Leme/Fernandes foi uma dessas relações que deu frutos a ambas as partes e à qual o designer deve o seu enorme e excelente portefólio de capista e ilustrador ao longo daquela década.

A apresentação é no dia 5 de Maio na Biblioteca da INCM em Lisboa (Casa da Moeda, Rua da Escola Politécnica, 135), às 18:30 horas.

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Sete capas da Afrodite

Usando o pretexto de um destes anódinos (e algo escusados) “Dias Mundiais” (o do Livro, neste caso), e a propósito da exposição “Cólofon” de 500 capas de livros portugueses escolhidas por José Bártolo e Jorge Silva, e que abre no dia 8 de Maio no Museu Quinta de Santiago em Matosinhos, eis uma escolha de algumas capas do catálogo da Afrodite que tomei a liberdade de sugerir ao Jorge Silva há alguns meses, quando soube do projecto. Na altura, ele tinha já “pré-seleccionado”, digamos assim, as capas das edições de Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1971), Apocalipse do Apóstolo João (1972) e As Crianças Falam (1973). As capas que seguem abaixo estão ordenadas cronologicamente. Note-se que não sei sequer se elas foram escolhidas pelos curadores ou não: tratou-se apenas de simples sugestões.

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Começo pela capa de Rocha de Sousa para a Antologia do Conto Fantástico Português (1967). O ano de 1967 foi aziago para Fernando Ribeiro de Mello: o processo da edição da Filosofia na Alcova de Sade chegara ao fim com uma dura condenação, e os custos do mesmo acrescidos à necessidade de não dar muito nas vistas fizeram com que ele apenas lançasse, lá bem para o fim do ano, este livro, ainda por cima mal recebido pela crítica. Se a antologia enferma de falhas na escolha dos contos e sua justificação ou não, o certo é que, para além do seu ineditismo (nunca antes se publicara uma antologia de contos portugueses dentro do género fantástico), a edição contou com uma das melhores capas de todo o catálogo da Afrodite, na composição, na factura do desenho, no arranjo tipográfico (com o uso elegante da Clarendon em caixa baixa), na sábia adição do vermelho como segunda cor, deixando-nos a lamentar a ausência de um conjunto de ilustrações a acompanhar a capa e de outras colaborações suas com a editora.

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Depois das atribulações com a polícia e a justiça (mas quando ainda tinha um outro processo a decorrer, o da Antologia da Poesia Erótica e Satírica, que só terminaria em 1970), Ribeiro de Mello reinventou-se como editor de livros infantis, para o qual foi essencial a colaboração com Maria Alberta Menéres, uma poetisa que começava então a dar os primeiros passos na literatura para crianças. O arranque da Cabra-Cega, a colecção infantil da Afrodite, dá-se com este Conversas com Versos (1968), que exibia esta soberba capa de Manuel Baptista e, no interior, algumas ilustrações a pincel, engenhosas de simplicidade, do mesmo estilo. Tal como Rocha de Sousa, Baptista expusera na Galeria Quadrante (por então, uma das novas galerias em ascensão em Lisboa); uma vez que a livraria ligada à galeria distribuía os livros da Afrodite, é bem possível que o editor tivesse aí o ponto de encontro para “arrebanhar” estes jovens artistas para o seu catálogo. Na Cabra-Cega publicarão as suas primeiras ilustrações em livros artistas como Fernando Calhau, Eduardo Batarda ou Julião Sarmento.

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A capa de Sena da Silva para a Antologia do Humor Português (1969) é não só uma das mais icónicas de todo o catálogo da Afrodite, como está associada (tendo certamente contribuído para tal) a uma das edições mais famosas da viragem da década de 60 para a de 70 e uma das mais bem sucedidas financeiramente de Fernando Ribeiro de Mello. Estendendo a imagem da “dentadura” a dezenas de homens-sanduíche e a eléctricos da Carris, a campanha de promoção desta antologia foi um marco incontornável da Lisboa que vivia a “primavera marcelista” e rompeu com a então muito tímida e pacata tradição de lançamentos de livros. A edição serviu também de “montra” para quatro jovens artistas e ilustradores em início de carreira: Carlos Ferreiro, João Machado, José Rodrigues e Eduardo Batarda, em particular este, com dezenas de brilhantes pequenos desenhos a ilustrar o índice temático.

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Uma das melhores e mais prestigiadas colecções da Afrodite, lançada no auge da renovada fama após a Antologia do Humor Português, foi a dos Clássicos, dedicada à reedição de obras antigas (anteriores ao século XIX no mínimo) e algo esquecidas. O esquema gráfico da colecção foi concebido por Paulo-Guilherme e o primeiro volume foi este Arte de Furtar (1970). Tal como na Cabra-Cega, teria sido difícil começar melhor, sobretudo no que às ilustrações diz respeito. O estilo ácido e provocador dos pequenos bonecos grotescos de Eduardo Batarda, onde abundam as caveiras a casquinar, encaixa perfeitamente neste ensaio do século XVII sobre as mil e uma formas em que a corrupção e o desvio de dinheiro se insinuaram no ethos ibérico. Destacar apenas a capa num livro tão bem pensado e feito, em que o desenho de Batarda tem uma tal importância na imposição de um ambiente e uma “cenografia”  (a começar nas guardas), é, por si só, um exercício de mutilação. Que Eduardo Batarda não tenha feito depois uma carreira como ilustrador (para além de três outros livros da Afrodite – Histórias com Juízo de Mário Castrim, em 1969 na colecção Cabra-Cega, o Manual dos Inquisidores de 1972 e a Antologia de Poesia Erótica Latina de 1976 – o seu nome está apenas ligado a outra pequena grande edição, a das Fábulas Fantásticas de Ambrose Bierce, publicadas pela Estampa em 1971) é daqueles mistérios insondáveis do “mercado” do livro em Portugal.

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Um ano após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Ribeiro de Mello anunciava para a Feira do Livro de 1975 a reedição renovada de um dos seus dois livros condenados pela justiça do Estado Novo, a Filosofia na Alcova do Marquês de Sade. Com nova tradução, o livro apresentava-se também com novas ilustrações, desta feita por um dos ilustradores mais associados à Afrodite na década de 1970 (formando, com Eduardo Batarda e Henrique Manuel, o núcleo da imagem da editora nesses anos) e um dos mais notáveis também: Martim Avillez. Este dera-se a conhecer na espantosa edição do Livro de S. Cipriano em 1971 e subira a parada no Apocalipse do Apóstolo João no ano seguinte. A Filosofia foi o seu último livro para a Afrodite antes de emigrar para Nova York no final da década, e o seu trabalho esteve ao mesmo nível dos anteriores. Particularmente curiosa, contudo, é esta capa quase “minimalista” (não fosse toda a textura da factura manual do artista, até na tipografia), que recusa a exibição do que nas páginas se mostra e opta por ostentar este simples colchão cor-de-rosa (que se vê até de perfil na lombada). Para um artista ocasionalmente dado à grandiloquência e à minúcia obsessiva na representação do grotesco e do fantástico, esta simples solução espanta e encanta, até pelo inesperado.

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Se, na segunda metade dos anos 70, José Martins Garcia substituiu, de certa forma, a figura de Natália Correia como intelectual tutelar, autor nacional de referência e colaborador regular do editor da Afrodite, Nuno Amorim foi o último colaborador regular na área visual, do simples design das capas à ilustração pontual (de que é exemplo o seu brilhante trabalho para O Super Macho de Alfred Jarry, em 1975). O seu estilo, como é claro a quem vê os desenhos da edição do Jarry, estava próximo da banda desenhada de ficção científica e fantasia que a revista francesa Métal Hurlant publicava então (tendo chegado a estar próximo de uma possível publicação nessa revista de referência), e ele chegara a publicar histórias na revista Visão, que por cá tentou emular aquela. É por isso curioso que a que considero ser a sua melhor capa para a Afrodite seja uma em que o estilo pessoal dele é preterido em benefício de uma simples intervenção gráfica no trabalho de outrem: ou seja, uma capa não ao seu estilo mas “ao estilo de”, no caso de João Abel Manta. Os curtos contos absurdos de Martins Pereira, muito próximos de um Ambrose Bierce, reflectem um desencanto azedo com a situação pós-revolucionária, algo de que a capa não nos deixa duvidar. Apropriando-se de um dos mais famosos cartazes de João Abel Manta do PREC, o “MFA,POVO/ POVO,MFA”, em que o soldado e o camponês partilhavam alfaias e armas, Nuno Amorim acrescenta ao primeiro as extensões “diabólicas” da iconografia popular (cornos, rabo, patas de bode e um tridente) e pinta-o de vermelho, e ao camponês, por seu lado, acrescenta umas asas de querubim. Poder-se-á discutir sobre a subtileza da solução (sendo que, no rescaldo de um PREC escaldante, esperar “subtileza” fosse algo da ordem do milagre), mas, graficamente, a capa tem uma força inegável. Muita dessa força, irónica e nada ingenuamente, apoia-se, claro está, na linha clara e sólida de JAM, e se há algo de que esta capa é prova, é da referência que o trabalho deste representava na altura, com cartazes e cartoons ubíquos que marcaram visualmente toda a década: mesmo uma acção de “terrorismo gráfico” como esta, contrária à ideologia do próprio JAM, não deixava de ser uma homenagem.

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A edição deste Textos Malditos de Luiz Pacheco (1977), uma antologia dos seus textos proibidos durante a última década e meia do Estado Novo, fora acordada entre o autor e o editor em 1974, um mês depois da Revolução. Nos três anos que distaram entre a sua concepção e a saída do livro, a relação entre ambos esfriou e o editor deparou-se com sérios problemas financeiros, os quais, acrescidos a uma nítida perda do prestígio cultural de que gozara por força de edições que pareciam não corresponder ao padrão de qualidade da Afrodite, ditaram o lento crepúsculo do projecto. O que teria sido, em 1974, um grande título de Pacheco, na senda das suas edições na Estampa, em 1977 era já apenas a sombra de uma “negociata” longínqua com um editor pelo qual – em virtude de uma certa viragem “à direita” deste e de edições como a da tradução portuguesa do Mein Kampf em 1976 – ele não nutria já grandes afinidades. Ainda assim, o bom olho de Ribeiro de Mello para a escolha de ilustradores leva-o a associar ao projecto um artista que se estreia no catálogo da Afrodite em 1974, e que marcará esse catálogo até à sua última colaboração, que se dá precisamente neste livro: Henrique Manuel. Partilhando com o editor (e o autor) o culto de uma libido explosiva (notória nos seus desenhos para a Nova Recolha de Provérbios ou na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII-XIX), Henrique Manuel deixa neste último livro para a Afrodite algumas ilustrações realmente notáveis da figura do autor “libertino” e, sobretudo, uma capa icónica que coroa uma década de tentativas de representação do “boneco” Pacheco. Perdido no meio do implacável fundo branco, obrigado a um desconfortável aprumo no eixo central da composição, o autor apresenta-se-nos com os seus habituais atributos… e decapitado, ou melhor, com a cabeça cuidadosamente amparada nos braços e nas mãos cruzadas. É um misto perfeito de caricatura e retrato psicológico, a que as finas hachuras feitas com a Rotring concedem uma delicadeza que parece contrária ao absurdo chocante da imagem (sobre a história desta edição, escrevi a monografia A Última Sessão que pode ser adquirida aqui).

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Saber olhar para trás (como os chineses)

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Um livro e uma revista, dois projectos díspares em ambição mas que comungam do mesmo desejo de olhar para trás, com serenidade e distanciamento, e capturar uma imagem ou as imagens possíveis da história do design gráfico português no último meio século. Depois de anos a olhar febrilmente em frente e para os lados, será a crise a oportunidade de recuperar e reflectir sobre o que foi sendo esquecido?*

Numa pesquisa fortuita na internet, dentro de um nicho de interesse que confesso, descobri há pouco tempo um livro chamado Testimonios del Diseño Gráfico Cubano 1959-1974 (2010), com coordenação de Héctor Villaverde. Trata-se de uma análise intensiva da actividade gráfica cubana (dos cartazes ao design editorial) baseada em testemunhos orais transcritos, com mais de 300 páginas. Ou seja: num país económica e geograficamente muito mais modesto do que o nosso (ainda os há), com uma história cultural muito menos extensa, edita-se e produz-se um volume desta dimensão que cobre apenas um trecho temporal de 15 anos.

Este orgulho pelos feitos históricos do design gráfico nacional traduzido em edição de livros é comum a países tão diversos como a República Checa, o Brasil, a Argentina ou a Holanda, para além das incontornáveis potências culturais europeias e norte-americana. Em Portugal, nos vinte anos de “vacas gordas” que se sucederam às crises pós-PREC e à entrada na CEE e que precederam a chegada da presente crise financeira pandémica, olhou-se freneticamente em frente e para os lados. Perante o impulso da prática e do aggiornamento da actividade face os padrões internacionais, o design gráfico em Portugal vivia num frenesi de actualidade e de novidade: a História era algo a exigir um distanciamento, uma serenidade e uma capacidade reflexiva que a excitação e o burburinho dos novos tempos não permitiam ou não pediam. Contam-se pelos dedos de uma mão mutilada as edições sobre a história do design gráfico nacional nesse período, e os livros de referência publicados (como a monografia sobre Sebastião Rodrigues na Gulbenkian ou o catálogo da exposição da obra de João Abel Manta no Museu Bordalo Pinheiro, em 1992) foram raríssimos e estão hoje remetidos aos alfarrabistas. Mesmo as edições com base em testemunhos de grafistas, ilustradores, tipógrafos ou designers foram quase inexistentes (salvou-se o Falando do Ofício, uma edição de 1989), e a ausência de massa crítica na imprensa, quer em revistas (em Portugal não há hoje uma única revista sobre design gráfico nas bancas, e há já quase 10 anos que é assim) quer nas colunas dos jornais, foi confirmando o quadro geral de escassez. A julgar pela produção editorial, não parecíamos gostar ou querer provar que gostávamos da nossa tradição gráfica, excepção feita ao panteão do primeiro modernismo em torno do incontornável Almada (e mesmo esse ia acumulando pó).

A crise parece ter despertado esta ânsia de olhar para trás de forma objectiva e selectiva e, sobretudo, de preservar para memória futura através da edição. Depois do arranque da “Colecção D” há pouco mais de um ano, uma série de monografias sobre designers portugueses clássicos e contemporâneos publicadas pela INCM (e a cujo ritmo espaçado de lançamentos a dita crise não será alheia), eis que chega este Design Gráfico em Portugal de Margarida Fragoso (Livros Horizonte). Desta editora tinha já saído em 2009 um muito interessante sortido de textos no volume bilingue O Triunfo do Desenho, alguns dos quais se revelaram de extrema importância neste novo ímpeto de analisar e captar imagens do nosso passado gráfico. Constituindo-se a partir de uma tese académica da sua autora, Design Gráfico procura cruzar o eixo diacrónico de uma história resumida da cultura visual de cariz popular em Portugal desde finais do século XIX (e seu contexto internacional, em dinâmica de influências e comparações) com aportações testemunhais do que aqui se chamam “actores significantes”, designers gráficos com carreiras activas nos últimos 60 anos (sendo Maria Keil, recentemente falecida, a mais “veterana”). Sem o orçamento ao dispor da INCM, a Livros Horizonte não pôde claramente investir num aparato gráfico e de acabamento ao nível do da Colecção D, mas a “aridez académica” de que padece em parte este volume não é culpa apenas desse menos inspirado design do livro (o Triunfo do Desenho era bem mais apelativo), tendo faltado porventura um trabalho de edição que limasse a excessiva compartimentação do discurso e um “aparato” em certos casos desnecessário (tal como o Anexo “técnico” sobre impressão e o glossário). Na sua melhor parte, a das entrevistas, nota-se também alguma falta desse labor editorial em alguns detalhes (a excessiva rigidez ou “controlo” das respostas em algumas entrevistas trai o facto de terem sido feitas por email, ao contrário dos ritmos típicos das conversas transcritas que se sentem noutras), mas ele não retira o valor a alguns destes testemunhos, e é neles que está o grosso da importância deste volume. Destaco as entrevistas a Carlos Rocha, Henrique Cayatte, Luís Filipe Abreu, Maria Keil e José Brandão, mas é nas palavras explosivas e muito honestas (uma autêntica excepção no discurso público dos “actores significantes” do design português) de Jorge Silva que está a “granada de mão” encerrada neste livro, um repto à reforma do design dos jornais e revistas que vai deixar muita redacção de orelhas a arder.

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Ora é precisamente como revista que a PLI se apresenta, apesar de neste seu número duplo 2/3 ela desafiar gráfica e tactilmente o que habitualmente concebemos como “revista”. Publicada pela Escola Superior de Arte e Design do Porto, a qualidade e arrojo gráfico deste volume (com design de João Martino e edição de José Bártolo) denotam a solidez financeira da instituição que sustenta este projecto, a qual deixa igualmente prever alguma continuidade do mesmo. Apesar de centrado na questão da edição de livros de artista e no universo algo restrito em que elas se produzem e comercializam, a surpresa deste número PLI está na abrangência histórica e ambição de alguns dos seus textos, e dos seus proveitosos cruzamentos com as matérias de design editorial e edição. Nesse sentido, são realmente incontornáveis, pela sua qualidade informativa e documentação iconográfica, textos como “A liberdade está a passar por aqui” de José Bártolo, sobre o design gráfico português na década de 1970, “perdida” entre dois booms sócio-culturais (com uma pertinente revalorização da obra gráfica de Armando Alves); “Almada e Ernesto Dois Nomes de Guerra”, de António Quadros Ferreira e Paulo T. Silva, sobre o “mixed media” de Ernesto de Sousa em torno da figura de Almada Negreiros, ou (apesar de infelizmente curta) a entrevista a Luís Miguel Castro em torno do seu trabalho como director de arte da revista K nos anos 90 e dos catálogos da Cinemateca (e à qual terá talvez faltado o complemento de algumas perguntas a João Botelho, companheiro de jornadas gráficas daquele e muito referido na entrevista). Foi também pedido a uma série de designers que escolhessem o seu livro “fetiche”, num segmento que, apesar da (previsível) irregularidade na qualidade dos textos de argumentação das escolhas, reforça esta orientação assumida e saudavelmente “arqueológica”.

Na apresentação da PLI em Maio último, Luís Miguel Castro referiu que, ao contrário dos “ocidentais”, os chineses não se preocupam com o futuro, preferindo antes analisar cuidadosa e profundamente o seu passado e fazer desse estudo o mapa para o caminho a percorrer. Parece, pois (e agora que da China chega algo mais do que apenas sabedoria milenar e comércio de bairro), ser hora de o fazermos também no que toca ao nosso património gráfico e editorial. Ainda que de forma desigual e com ambições díspares, estas duas publicações são dois passos seguros nesse caminho.

*texto escrito em Junho de 2012

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Modernidade alegre

Com mais um volume dedicado a um histórico do design gráfico português, o polivalente Paulo-Guilherme, a Colecção D da INCM afirma-se, neste momento de crise, como a única tábua de salvação e base de divulgação de um património visual que em Portugal tem sido esquecido.

Paulo-Guilherme (d’Eça Leal) morreu com 78 anos em 2010, no pico da “consagração” de Luiz Pacheco que se seguiu à morte deste. Pois nem um artigo de jornal lembrou então que fora a ele que Pacheco recorrera no arranque da sua Contraponto: era dele o logótipo da editora. Perdera-se a oportunidade de perguntar ao “grafista” sobre esse outro lado mais visual do Pacheco editor. Ainda que não cubra muito território dessa colaboração, este volume da Colecção D da INCM dedicado à obra gráfica de Paulo-Guilherme vem sem dúvida compensar esse silêncio e essa injustiça.

Filho “rebelde” de Olavo d’Eça Leal (1908-1976), que fora homem de vários ofícios (escritor, desenhador, cineasta, bailarino, publicitário) e biografia romanesca, colaborador da Presença e uma das vozes sonantes da Emissora Nacional, Paulo-Guilherme terá traduzido essa rebeldia numa independência prematura e na assunção do primeiro nome em vez do apelido paterno na sua assinatura profissional. De resto, toda a sua polivalência profissional ecoa a do pai, cuja narrativa Iratan e Iracema (publicada em 1939) ele chegou adaptar para cinema em 1987. Um certo espírito desafiador e lúdico, uma mundivivência aristocrática e boémia e um aprumo no “bem-fazer” técnico ter-lhe-ão ficado como marcas indeléveis e definidoras.

É esse carácter lúdico da produção gráfica de Paulo-Guilherme que Mário Moura aponta na curta introdução ao volume. A esta liberdade e facilidade no recurso à combinação de texturas, padrões e facturas gráficas juntava-se um conhecimento notório das “modas” contemporâneas, sem contudo haver nele uma tentação de mera reprodução e aplicação desses modelos internacionais ao mercado português. Apesar de ser possível ver em alguns dos trabalhos aqui reproduzidos ecos de um Saul Bass (com quem ele partilhava, aliás, uma estreita ligação ao cinema), de um Alvin Lustig e de outros designers americanos de meados do século XX, ou até, arriscando, de um Eugénio Hirsch, que por essa altura mudava a face do grafismo editorial no Brasil, há em todos eles uma “verve própria”, uma tradução pessoal e livre da modernidade gráfica do seu tempo. Capas como a de Toda a Verdade de Morris West ou de O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald são disso testemunho, e onde mais se terá expresso tão bem e de maneira tão económica a ameaça espectral, a brutal inumanidade dos professores do seminário de província de Manhã Submersa de Vergílio Ferreira do que na capa de Paulo-Guilherme? Mas além das capas, este livro oferece-nos provas dessa polivalência, que incluem projectos de design de interiores e arquitectura (foi dele, afinal, um dos espaços marcantes de certa Lisboa “cosmopolita” de há 40 anos, o Apolo 70), sendo as fotos da nova sede do Banco Pinto & Sotto Mayor em 1973 (“encomenda pessoal” de António Champalimaud) uma surpresa inesperada mas bem-vinda e, afinal, lógica num volume cuja atracção se deverá, em grande parte, a um irresistível impulso nostálgico e a um (bom) gosto “retro”.

Faltando, talvez, a este formato mais espaço para entrevistas ou depoimentos escritos que os designers possam ter deixado, ou até bibliografias (no volume dedicado a Victor Palla isso terá sido mais notório), essa falta é compensada com a qualidade da prosa introdutória, como é o caso. Compensadora é, sobretudo, a superior qualidade gráfica destes volumes e a riqueza das imagens seleccionadas. Fruto da teimosia e da paixão de Jorge Silva, um dos designers portugueses de referência internacional, esta colecção é, ao mesmo tempo, uma tábua de salvação e um farol na premente missão de resgate e divulgação de um património visual nacional à mercê das intempéries destes tempos de crise, em que a memória é vítima fácil.

(texto publicado na revista LER de Abril de 2012)

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Memória, aposta e esperança

Um relance da apresentação (não consegui estar a tempo do debate que começou às 15:00 horas) da Colecção D, hoje no MUDE, sobre cujos dois primeiros livros escrevi aqui há mais de um mês. Ainda ouvi Jorge Silva falar da justiça que o projectado livro sobre Paulo Guilherme (d’Eça Leal) representa no que toca à recuperação e memória de um grande designer polivalente. Não posso concordar mais. Foi, aliás, uma pena que ninguém se tenha lembrado de o entrevistar quando morreu Luiz Pacheco, em 2008, e de lhe perguntar como era trabalhar com o Pacheco editor, ele (Paulo Guilherme) que foi o criador do logótipo da Contraponto. Pelo datashow, viam-se os spreads do livro dedicado ao designer (no prelo) e não há duvida de que promete: outro livro-memória ao mesmo nível do dedicado a Victor Palla. Continuo, contudo, com algum receio que esta obrigatória e salvífica missão “recuperadora” da colecção se desvaneça perante a necessidade de mostrar e “vender” portfolios jovens e “no activo” a um mercado internacional: dos 50 nomes que o responsável editorial da mesma indicou como tendo possibilidades de integrar a lista das monografias, quantos são desses designers de há 30, 40, 50 ou mais anos? Quanto ao MUDE, está ainda para me convencer que não é apenas um museu especializado em moda e (algum) design de equipamento: será que a parceria com esta colecção (onde o design gráfico e editorial tem fatia não despicienda) marca o início de exposições de design gráfico e editorial no museu (o mesmo que nem na Experimenta parece ter tido espaço para uma pequena exposição de livros da designer da Penguin Coralie Bickford-Smith)? O título deste post resume, em suma, as linhas orientadoras do que pude ouvir no palco do auditório (na foto, da esquerda para a direita: Duarte Azinheira, responsável pela INCM cujo nome não retive, Bárbara Coutinho pelo MUDE, Jorge Silva e Henrique Cayatte pelo CPD).

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Comparecei, se puderdes

É hoje, é no MUDE, é às 17:30 e é importante. Comparecei pois, se puderdes.

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