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Lisboa, 232,7 graus centígrados

Quando o bombeiro Montag não era o único a brincar com o fogo em Lisboa, e o medo da perseguição fazia dos próprios editores incineradores de livros.

Fahrenheit 451 de François Truffaut estreou em Lisboa em Dezembro de 1967, possivelmente num dos cinemas da Avenida da Liberdade e, aparentemente, sem problemas com a censura (a julgar pela ausência de menções, por exemplo, no Cinema e Censura em Portugal de Lauro António, edição da Arcádia de 1978). Já não os tivera a primeira edição portuguesa da obra de Ray Bradbury que lhe servia de base, onze anos antes (o número trinta e três da colecção Argonauta da Livros do Brasil), com tradução de Mário-Henrique Leiria: a ficção científica escapava, sob a capa e o estigma da menoridade de um género marginal, à inclusão no Index. Não que este romance não tivesse condimentos capazes de excitar o faro dos controladores. Bem pelo contrário: todo ele era um bolo indigesto ao palato dos implacáveis censores de livros portugueses (que nesses anos de sessentas rivalizavam em sanha persecutória com os piores censores do outro lado da Cortina de Ferro, suas supostas némesis), parecendo ter sido confeccionado de propósito por algum autor português a coberto de pseudónimo “camone” para lhes provocar uma infecção alimentar de monta.

Eis a primeira parte desta ironia de duas faces. Quer por baixo da ilustração de Lima de Freitas de 1956 (que incluía um “cão-polícia mecânico”), quer nestas novas roupagens fotográficas da edição tie-in (termo contudo anacrónico no mundo da edição portuguesa de 1967) que visava aproveitar a estreia deste sucesso cinematográfico quase garantido, o texto de Bradbury sobre um estado futuro onde a censura aos livros passa da selecção para o puro extermínio indiscriminado pela mão de bombeiros profissionais não terá causado qualquer comichão à Comissão de Censura (mais uma vez, nenhum registo consta das listas conhecidas). Mas, quando o filme de Truffaut estreia em Lisboa, cheira a livros queimados. A cinzas, pelo menos.

O ano de 1966 fora de razia censória, e no olho do furacão estivera Luiz Pacheco (colega de andanças surrealistas de Mário Henrique Leiria). No caso mais grave, as suas participações como prefaciador na edição da Filosofia de Alcova do Marquês de Sade e como um dos autores da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ambas edições da Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello, custaram-lhe implacáveis condenações (e o suicídio do ilustrador da primeira, João Rodrigues). Talvez por isso, a sua aguardada estreia nesse mesmo ano como autor “a solo” com Crítica de Circunstância, numa das editoras de referência de então, a Ulisseia, se tenha saldado pela (esperada) investida da PIDE. As autoridades assaltam os escritórios da Ulisseia e apreendem todos os exemplares da obra que estavam em armazém. Todos? Não. O editor Vítor Silva Tavares, prevendo o óbvio, tinha salvaguardado umas centenas, levando-os certa noite de carro do armazém da Ulisseia para uma garagem na quinta dos seus pais a 60 Kms de Lisboa.
Fim feliz da história? De novo, não. Pouco tempo depois, e antes de sair da editora, V.S. Tavares conta o segredo (apenas conhecido do seu irmão, também funcionário da Ulisseia) ao proprietário Manuel Correia.

“E saí. Tempos depois, creio que um sobrinho dele […] quis saber da administração da editora, e o meu irmão falou-lhe então da existência desses livros e o rapaz, atemorizado, numa certa noite, foi lá com o meu irmão e recolheu os caixotes com os exemplares da Crítica. Caixotes esses, livros esses, que nessa mesma noite foram regados a gasolina, algures no parque de Monsanto, e desapareceram. […] Por um lado, salvo os livros das garras da PIDE, por outro lado, por um excesso de honestidade, acabo por ser também responsável, de certo modo, pelo triste destino que tiveram os ditos.” (in Puta que os pariu!, João Pedro George, p. 397).

Não era, pois, a rosas que cheirava o ar de Lisboa quando o filme estreou no ano seguinte, a mesma Lisboa onde eram as pessoas que trabalhavam e produziam os livros que se encarregavam de os queimar com medo de represálias: teria Bradbury pensado num twist tão perverso, numa tão radical versão da auto-censura que eliminava a necessidade de bombeiros pirómanos? E quantas mais fogueiras de livros ardiam e arderam por esses recantos da Grande Lisboa?
(Nota final de remate da amarga ironia desta história: quando as instalações da PIDE são ocupadas em 1974, há umas dezenas de livros ali pelos cantos. Que livros? Os exemplares da Crítica de Circunstância, preservados e salvos para a posteridade, que os agentes tinham apreendido em livrarias e na editora.)

(texto publicado na revista Bang! n.º 13, Julho de 2012)

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Viagens de João Barreiros (IV)

A CIDADE NO TEMPO
Clifford Simak
Europa-América, 1955
Capa de António Areal

Há sessenta e cinco milhões de anos, durante o Cretáceo tardio, e antes que o meteoro incendiasse a Terra e desse lugar aos grandes gelos, o mundo corria de uma forma bem diferente da nossa, se quiséssemos parafrasear L. P. Hartley. Surgiam, a toque de caixa, antologias de FC na Editora Palirex, borbulhavam tentativas de novas colecções como aquela que poderia ter sido organizada pelo Mário Henrique Leiria, chamada “Escalas do Futuro” e da qual só vieram a ser publicados dois volumes.

O primeiro destes fósseis vale a pena ser guardado para sempre no Museu das Tentativas Falhadas. Trata-se do romance City, do Clifford Simak, que surgiu entre nós com o nome A cidade no tempo, com uma tradução sublime de M. Pina e A. Margarido e que só muitos anos mais tarde voltaria a ser reeditado na colecção Argonauta, aí com uma tradução bem mais manhosa (As cidades mortas). Corria o ano de 1955 de um outro século, as patorras dos dinossáurios pesavam sobre a espinha dos pequenos mamíferos, mas mesmo assim, trémulos e escondidos nas pequenas tocas, ainda ousavam mastigar os ovos dos gigantes. A importância da Cidade no tempo, dotado de uma capa nostálgica e discreta de António Areal, é que, logo nas páginas da introdução, encontramos um texto original do Mario Henrique Leiria. A fazer de cão leitor. Acreditem. Um mimo de originalidade e sensibilidade.

Porque é que a colecção, editada pela Europa-América, desapareceu ao fim de dois volumes? Mistério sinistro e profundo. E a triste verdade é que já não está cá ninguém para o contar.

NOVE AMANHÃS / JUSTIÇA FACIAL
Isaac Asimov / L.P.Hartley
Minotauro, 1961
Capas de Fernando Azevedo

Outra colecção efémera, também ela com apenas dois volumes, (desconheço se  Nascidos no Espaço do E. C. Tubb, e Missão de gravidade de Hal Clement, chegaram a vir à superfície), chamava-se “Órbita” e foi publicada por uma tal Editora Minotauro de seu nome. A direcção pertencia a Fernando de Castro Ferro. A capa da Justiça facial do L. P. Hartley e dos Nove amanhãs do Asimov (melhor seria dizer “Nove ontens”) foi desenhada por Fernando Azevedo. Até dói pensar nas oportunidades perdidas. Já pensaram o prazer dos leitores a deliciarem-se com a Missão de gravidade do Hal Clement, nesse ano perdido de 1961? Infelizmente eis mais um nicho ecológico que passou à história, como o pássaro Dodo, roído por uma qualquer micose, ou devorado pelas presas dos bem-pensantes.

O QUE É A FICÇÃO CIENTÍFICA?
Org. Victor Palla
Atlântida (Coimbra), 1959
Capa de Victor Palla

Porque mesmo nessa época revoluta, os “bem pensantes” odiavam FC. A tecnofobia criava já o seu empório. A FC é anti-humanista, dizia-se. Assim Victor Palla, o editor da antologia O que é a Ficção Científica?, detestava já tudo o que saísse da pena de um Murray Leinster ou de um Van Vogt. Não sou eu que o afirmo, mas sim o próprio Victor Palla à guisa de conclusão, neste livrinho publicado em 1959, numa colecção chamada “Centauro”. Mesmo assim, aqui apareceram continhos do Kuttner, do Sheckley, do William Tenn. A propósito, leiam TUDO o que o Tenn escreveu e depois digam-me o que a ecosfera editorial portuguesa perdeu durante as grandes glaciações.

SALTO NO TEMPO / INDÓMITO PLANETA
Yves Dermeze / Roy Sheldon
Livros do Brasil, 1955
Capas de Lima de Freitas e Cândido Costa Pinto

E já agora a colecção “Argonauta”, com traduções do Mário Henrique Leiria, do Fernando de Castro Ferro e capas do Cândido Costa Pinto e, finalmente (durante anos e anos), do Lima de Freitas. E, caso estranho e nunca visto pelos nossos olhos contemporâneos, estes desenhadores LIAM mesmo os livrinhos antes de desenharem as capas. Capas coloridas, sem fotomontagens, perfeitamente adequadas às expectativas do leitor.

Depois o meteoro caiu. Os dinossáurios extinguiram-se. Livrarias e Editoras entraram em auto-gestão revolucionária. Os responsáveis pelas antigas colecções foram silenciados.

O fulgor revolucionário de um novo ecossistema foi ainda mais prejudicial ao género, desta vez considerado como um produto ianque pequeno-burguês.

As colecções mirraram nos conteúdos e dedicaram-se a entreter as classes cada vez mais incultas, com obras cada vez mais simplistas e baratuchas.

Os leitores fiéis que ainda sobreviviam foram morrendo aos poucos e as esposas desfizeram-se dos livros dos defuntos esposos, religiosamente guardados nas prateleiras das estantes, para fazerem delas expositores de biblôs. E as coisas ficaram neste pé. Até hoje.

Mas se o bom existe e ainda continua a existir para lá da tristonha fronteira portuguesa, porque é que não se publica boa FC (pergunto eu)? Ora, porque os leitores não querem saber dela. Não querem mesmo. E quando uma Editora publica algo de importante, é precisamente esse livro que menos se vende.

“Barreiros”, disse-me certa vez um Editor que eu não nomeio. “Sei perfeitamente que estamos a publicar merda! Mas a merda vende, aí é que está. É ela que nos permite publicar um bom livro de vez em quando, sabendo perfeitamente que ele não será lido tanto quanto os outros. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, seria como se estivéssemos a dar pérolas a porcos”.

É verdade que as deliciosas trufas crescem no meio do esterco. É verdade que vale a pena procurá-las. Mas o esterco é às toneladas e as pobrezinhas das trufas são tão poucas…

Tristes tristezas.

João Barreiros

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