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Quem seria o Ernst Bettler português?

Não vou poder ir amanhã à última conferência do Mário Moura na Culturgest, desta feita sobre a revista DOT DOT DOT (entretanto já encerrada). Mas recomendo-a vivamente (à conferência, pois claro, e à revista): apesar de a conhecer pouco (alguns números folheados na loja da Fábrica Benetton do Chiado), foi lá que no distante ano de 2000 se publicou um dos textos que mais me fascinaram em torno do design gráfico. Este “I’m only a designer: the double life of Ernst Bettler” de Christopher Wilson, sobre um suposto designer gráfico suíço, Ernst Bettler (veterano do Estilo Internacional dos anos de 1950, e que teria denunciado um cliente – uma farmacêutica com um passado secreto de colaboração com os Nazis – da forma mais subtil: através dos próprios cartazes encomendados) foi uma patranha que enganou alguns (o nome de Bettler chegou a ser incluído em algumas histórias do design gráfico publicadas pouco depois), irritou outros (Rick Poynor, por exemplo) e confundiu quase todos, mas, na sua concisão e simplicidade (e no twist que constitui o seu núcleo dramático) é quase tão perfeita como um pequeno conto de Cortázar, algo que o autor de Bestiário ou As Armas Secretas poderia ter publicado nos seus livros mais experimentais, gráfica e literariamente, como Último Round ou A Volta do Dia em Oitenta Mundos. (Cheguei uma vez a mandar um email ao autor perguntando-lhe se não gostaria de estender o artigo para uma noveleta. Não tive resposta.)

Como tiro apontado da anca, à Sam Spade, em direcção à vacuidade ética de muita da prática comercial do design gráfico, é terrivelmente certeiro, tendo até (é a minha humilde opinião) mais impacto do que muitos manifestos do estilo First Things First (cujo “remake” se publicou precisamente também em 2000). Não é por acaso que a Adbusters lhe chamou, num artigo de 2001, “uma das maiores invenções no design de que há registo” (citado a partir do artigo de Michael Bierut no Design Observer).

Chegaria ao ponto de afirmar que esta pequena pérola falsa devia servir de mote a exercícios dentro do que agora sói chamar-se pomposamente “escrita criativa”. Teria até já preparada a primeira proposta: “quem seria o Ernst Bettler português?” Imagino-o um veterano da publicidade da primeira metade dos anos de 1970, envolvido depois na onda revolucionária, criando cartazes para os programas de dinamização cultural e social (como o SAAL), e tendo de fazer escolhas incómodas para sobreviver na ressaca do PREC, nos finais da década ou inícios dos oitenta. Mas já estou a divagar…

(Com mil agradecimentos ao Paulo Pereira pelo envio dos scans).

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Em busca do “livro integrado”

Em extrema simplificação, o título do post poderia ter sido o da excelente conferência de Mário Moura (mais uma pequena aula) no dia 17 na Culturgest de Lisboa, que teve como eixo uma certa tradição tipográfica “heterodoxa” (que o Modernismo incorporou como sua) que defendia a união dos elementos heteróclitos do plano/página num todo coerente (ecos do ideal de “gesamtkunstwerk” que obcecou os vanguardistas de finais do século XIX e de que William Morris foi uma das mais famosas personificações) e que desembocou, nos anos 50 do século passado, no conceito de “livro integrado” (ao qual o desenvolvimento e adopção generalizada da tecnologia da impressão offset e da fotocomposição deu o empurrão decisivo). O pretexto foi o livro de Herbert Spencer Pioneers of Modern Typography de 1969, uma antologia precisamente do melhor dessa tradição modernista dos anos 20, 30 e 40 (Zwart, Werkman, Moholy-Nagy, Tschichold, etc). Na imagem, e entre os vários exemplos de “livros integrados” exibidos, está um spread da edição inglesa do volume dedicado a Portugal na colecção originariamente criada e dirigida por Chris Marker em meados dos anos 50 na Seuil, a “Petite Planète” (colecção que terá sido uma das inspirações para o desenvolvimento do design “integrado” que Germano Facetti procurou implementar na Penguin anos depois). O Robert Massin da Cantatrice Chauve ou o Quentin Fiore dos livros com Marshall McLuhan poderiam ter sido chamados à pista de dança, mas o baile foi exemplarmente conduzido mesmo sem eles.

Devo acrescentar que não posso estar mais de acordo com o conferencista quando (partindo do exemplo de como adquiriu a primeira edição do livro de Spencer) ele afirma que, graças à internet e a meios de pagamento online acessíveis, todo um mundo de produção de livros no passado se abriu aos curiosos, e que ter nas mãos, a um preço baixo, livros dos quais apenas conhecíamos referências ou reproduções de detalhes é algo que considero ser uma pequena revolução cultural (sem maiúsculas iniciais para não chocar ninguém…) e a possibilidade de salvação e prolongamento para a próxima geração do conceito de “livro” no meio da histeria digital, movida pela imperiosa necessidade da venda de gadgets de leitura em ciclos cada vez mais curtos. Estas conferências não serão estritamente para um tipo específico de público (pelo contrário: a acessibilidade é aqui a palavra chave), mas para “retronautas” do livro e outros crentes na força de contágio e osmose que os livros têm (um bom livro sendo, na essência, apenas uma porta de entrada e saída para outros) elas são um banquete irresistível. Pena é que numa suposta “capital europeia”, onde há um suposto “museu de design”, estas coisas (leia-se sem rodeios: conversas sobre design de livros) não aconteçam mais vezes e num ritmo menos “sazonal”…

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Nada

Há dias, em comentários a um post particularmente pessimista no Ressabiator sobre a situação do ensino e da divulgação do design gráfico em Portugal, procurei apresentar indícios ou provas de algo positivo que pudesse contrapor a esse bem argumentado ataque ao statu quo. Um desses indícios que apresentei foi o MUDE (Museu do Design e da Moda), que visitei em Julho e que, apesar do seu estado incipiente (estava ainda com as “costuras” à mostra), me pareceu ser uma clara luz ao fundo do túnel, tanto mais que se apresentava com uma exposição de cartazes vinda, nada menos, do Museum fur Gestaltung de Zurique.

Creio estar na iminência de rever essa minha opinião optmista. Em resposta a um email meu ao MUDE, perguntando-lhes pela programação prevista até final do ano, retive apenas a palavra nuclear no meio da cordata mensagem recebida: “nada”. Este “nada” levanta-me algumas perguntas (entre as quais, e não despicienda, está esta: como é que o Museu de Design de Lisboa não está articulado com o Experimenta 2009, no ano em que coincidiu a sua abertura com o regresso da Bienal à cidade?), mas deixo-as para 2010, ou para a mais certeira e inquisitiva prosa do Mário Moura.

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Avulsos

O estado das coisas – Como para confirmar as teses sobre a penetração insidiosa do mercado nas práticas do design que Mário Moura explora no seu Design em tempos de crise, o episódio da renovação gráfica do branding de Serralves (que o próprio autor relata no seu blogue, aqui) deixa-nos muitas interrogações, que ultrapassam o seu estatuto local. Há muito que Serralves deixou bem claro que o design gráfico não faz parte do seu panteão de estima (desde 1999, data da exposição da obra de El Lissitsky, sendo a forma marginal como a exposição Gateways foi tratada uma prova incontornável); que o demonstre no processo da sua própria imagem gráfica é algo em que a comunidade ligada ao design no Porto (e, repito, não apenas lá) deve reflectir e contra o qual deve reagir, sobretudo quem ensina e lança praticantes para este mercado todos os anos.

Demasiados – Prometido e cumprido: evitei a edição novo-rica da Temas & Debates do livro de Gabriel Zaid e, por menos de 8 euros (portes incuídos), recebi um exemplar usado da edição inglesa da Sort of Books, sem vernizes UV ou filetes agressivos em todas as páginas para me cegarem a vista (até a língua se justifica, pois Zaid recorre a inúmeras citações de bibliografia americana e inglesa). Faz-me confusão que se editem livros sobre o estado da edição em conjuntura de crise como se se estivesse em 1998, com cores metalizadas, papéis Munken e o resto da parafernália que faz viver as gráficas e pesa no bolso do comprador. Como o próprio autor deixa bem claro: não há demasiados livros; há sim demasiados maus livros ou demasiados livros feitos de forma incorrecta.

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Design em tempos de crise, de Mário Moura

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Título
Design em tempos de crise

Autor
Mário Moura

Design
Pedro Nora e Isabel Carvalho

Edição
Braço de Ferro, 2009
170 x 125 mm, 96 páginas

Descrição
Aparentemente inserido na onda de livros “retirados” de blogues, este pequeno volume (preciosamente desenhado e impresso) consegue assumir uma identidade própria que ultrapassa esse contexto devido ao editing inteligente dos seus textos em unidades temáticas, em que os posts (ou outros textos publicados em blogues que não o do seu autor, ou mesmo em revistas) se relacionam de uma forma que a rígida diacronicidade dum blogue não pode alcançar. Dessa forma, por exemplo, no capítulo Design depois da Revolução, podemos comparar lado-a-lado dois textos separados por 4 anos de distância sobre a apropriação e o esvaziamento ideológico da iconografia revolucionária em duas campanhas publicitárias, comparação que nos permite também avaliar a evolução do pensamento do seu autor durante esse lapso de tempo. O livro ganha, pois, uma espessura acrescida de leitura face à sua fonte nessa montagem temporal, tal como um documentário o faz face às suas fontes telejornalísticas.

Saído durante o pico da escalada da crise na agenda quotidiana (e em Janeiro ela era já mais um facto do que uma iminência), o livro de Mário Moura ganha pontos pelo seu design discreto e muito certeiro quanto às referências (a Gill Sans em caixa alta do título e a linha descendente de um gráfico económico que se opõem na capa e contra-capa remetem-nos para as capas da Penguin nos anos de chumbo do pré-II Guerra Mundial ou para o trabalho desses mesmos anos de Otto Neurath, ambos dominados pela necessidade de tornar a linguagem do design permeável a uma certa ideia de imperativa economia de meios), e o aspecto de pequena agenda reforça o seu carácter de urgência, e denota o objectivo de lançar a premente discussão (que vem já da década anterior, desde o manifesto First Things First de 2000, em si mesmo uma renovação do manifesto homónimo de 1964) sobre a relação dos designers gráficos com o sistema de produção capitalista para o qual (mais do que “no qual”) trabalham. A composição do texto nunca destoa dessa linha, o que se nota logo na beleza austera do seu índice, digno de figurar em The Next Page: 30 Tables of Contents, publicado pelo colectivo do blogue Design Observer e um dos mais surpreendentes livros expostos na Gateways (Prova A).

Prova A
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Talvez por razões dessa mesma economia de meios que assume como programa (e pelo seu contexto de produção: pequena tiragem, pequena editora “de nicho”), nota-se a falta de uma iconografia que acompanhe e ilustre alguns dos seus textos (ausência que se lamenta, por exemplo, no caso dos textos do capítulo acima mencionado, dada a ligação íntima do sentido dos mesmos a imagens muito específicas). Ainda assim, o livro abre com uma bela trouvaille visual (Prova B), tão subtil e tão clara para a compreensão do sentido do texto que essa ausência quase se desculpa, e a compensação, globalmente, é mais do que atingida pelo efeito cromático (o cinza prateado da flexicover em contraste com o vermelho da tintagem das arestas do miolo, mais um delicioso e muito justificado toque retro) e táctil deste volume, tornando-o um objecto realmente irresistível.

Prova B
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Mas nem só de alimento dos olhos se trata aqui, claro. Há textos certeiríssimos, e se há lugar a um destaque, permito-me dá-lo a Bartleby, o Designer (p. 57), em que o autor faz radicar o presente status do designer não nos “tipógrafos, [nos] publicitários , [nas] vanguardas do início do século XX”, mas nos escrivães de Oitocentos, como o Bartleby de Melville;  como eles, os designers gráficos limitam-se a emprestar uma bela “caligrafia” a um conteúdo empresarial que não dominam, não subscrevem muitas das vezes e que acabam, invariável e inconscientemente, por representar. É uma ideia forte, que consegue enquadrar a reflexão sobre o design no seu contexto literário, e que tem o condão das ideias novas: produzir a faísca que Herbert Read dizia ser vital ao avanço do pensamento nas artes.

Num país que ainda não tem (alguma vez terá de novo?) uma revista sobre design gráfico, em que as 2 ou 3 revistas e jornais que se dedicam à produção e edição de livros ignoram teimosa e olimpicamente qualquer referência a quem desenha, monta e imprime livros, e em que nenhuma instituição, museu ou fundação, parece valer a este estado de coisas, eis chegada a hora de personagens marcantes na blogosfera assumirem, em livro, o seu papel de críticos e exegetas do que se produz por aí, sem a quase proverbial (e obrigatória, no que diz respeito, por exemplo, à crítica literária) “benção” da imprensa de “referência”. Mário Moura tem tudo para o conseguir, e esperemos que, passada a fase da sua tese de doutoramento, ele cumpra o que este livro promete e pede: mais, mais, mais.

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Avulsos

Ainda a Gateways – No incontornável blogue do Mário Moura (onde, precisamente, descobri a notícia do concurso para a exposição), noticia-se que a Gateways teve um duplo sinal de triunfo: um prolongamento até 6 de Outubro (ou seja, rentrée adentro, o que é de toda a justiça) e a chegada ao topo do (convenhamos, pouco concorrido…) top da secção “Design, Arte e Arquitectura”. Quanto ao prolongamento, nada a dizer a não ser aplaudir (e lamentar que não se lhe junte uma extensão geográfica a Lisboa). Quanto ao Top, uma dúvida: será apenas o Top da loja da FNAC do Norte-Shopping ? Porque em duas lojas dessas cadeia em Lisboa me foi dito que o livro apenas se encontrava à venda lá… E nas lojas Bertrand nem sabem do que se trata quando se pergunta pelo livro. Ainda assim, um triunfo inegável do designer Andrew Howard por ter a ousadia de fazer coisas destas num país onde a iliteracia e a incultura gráficas são norma.

Milton Glaser – No Reactor, leio, numa tradução de José Bártolo, um curioso texto de Milton Glaser precisamente sobre a incultura gráfica, poucos dias após ter recebido em casa um perfeito exemplar da edição de 1973 da monografia publicada pela Overlook Press (a da sobrecapa que reproduz o celebérrimo cartaz de Bob Dylan – um vizinho de Glaser em Woodstock – de 1969). Ao prazer de ter conseguido esse livro a um preço ridiculamente baixo, juntou-se um prazer que foi também confirmação: Glaser escrevia MUITO bem. Os comentários a alguns daqueles trabalhos são os de alguém que despreza a “treta” (esse linguajar que abunda nas “memórias descritivas”) e não se inibe em se auto-criticar abertamente.

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