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Osama contra-ataca

A minha capa (e, suponho, também o design interior) para a edição do romance de Lavie Tidhar OSAMA, publicado em 2011 pela PS Publishing, acaba de ser nomeada para o prémio de “Best Art” da BSFA (British Science Fiction Association). Sobre a feitura desta capa, escrevi já aqui. Sobre o livro, leia-se esta recensão no The Guardian. Pode-se vê-lo aqui.

OSAMA STRIKES BACK
I’ve just been nominated for a “Best Art” award in the 2011  BSFA (British Science Fiction Association) Awards for my cover (and also, presumably, interior design) for Lavie Tidhar’s novel OSAMA, published in 2011 by PS Publishing. For a bit of information on how this cover was created, go here. You can also read the review published in The Guardian. Or flip through the book in a one-minute YouTube silent flick.

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O espectro de uma década

Esta é a capa que Gertrude Huston fez para a edição de 1951 da editora nova-iorquina New Directions do romance de Julien Gracq A Dark Stranger (no original Un Beau Ténébreux). Huston era a mulher de James Laughlin, o fundador e director da New Directions, mas era, pelos vistos, também uma grafista e capista com excelente olho para poderosas associações de imagens e soluções visuais que deviam bastante ao Surrealismo (que no final dos anos de 1930, e durante a década seguinte, chegara em força a Nova Iorque). Tal como muitas das pepitas gráficas do imenso catálogo da New Directions, esta apenas se encontra reproduzida na internet, e foi aí, no inevitável A Journey Around My Skull de Will Schoffield (agora 50Watts) que a encontrei por acaso há um par de anos.

Quando me caiu em mãos a encomenda para o design do livro de Lavie Tidhar Osama (à venda dentro de dias), Osama Bin Laden estava ainda vivo (onde ainda não se sabia) e o seu lastro icónico sobre a década que se seguiu aos ataques de 11 de Setembro de 2001 (iniciados, diga-se, por uma personagem mais inquietante mas menos icónica, o egípcio Mohamed Atta, que conduzia o primeiro avião a embater numa das torres do World Trade Center) parmanecia intacto. Em Osama Tidhar propõe a hipótese de um mundo que não conheceu os ataques às torres gémeas de Nova Iorque, e no qual Osama Bin Laden é uma personagem ficcional de uma série de romances pulp, nos quais se podem ler as descrições exactas dos atentados de Dar es Salaam e Nairobi que, pelas referências históricas do nosso universo, foram orquestrados pelo nosso Osama Bin Laden em 1998. A estética pulp talvez fosse a escolha mais óbvia para a capa deste livro complexo, mas eu não resisti a tentar uma súmula icónica que envolvesse o nome do título. Foi aí que me lembrei da silhueta desse “estranho soturno” que Gertrude Huston tinha colocado na capa do romance de Gracq. A silhueta clássica de estatuária grega perfeitamente reconhecível era agora substituída pela silhueta menos distinta formada pelo turbante, barba e vestes largas (pouquíssimas fotos já restavam em circulação de Bin Laden, substituídas pelos frames dos seus famosos comunicados em vídeo), o que me obrigou a colocar os seus olhos por cima da textura de detritos e escombros de uma das explosões de 1998 que preenche essa silhueta. Além dos escombros, chamei outras duas referências visuais na composição deste ícone “soturno”: as linhas da fachada de um arranha-céus e uma coluna de fumo. E eis o espectro que presidiu aos destinos da primeira década do novo século e milénio.

A capa estava já fechada e aprovada quando surgiu a notícia da morte de Osama Bin Laden no Paquistão. O ícone maligno tinha, afinal, desgastado-se, implodindo numa patética figura de homem de meia-idade doente e recluso, a viver num subúrbio de alta burguesia numa cidade da província paquistanesa. Mas, tal como a personagem ficcional dentro da ficção de Tidhar, Bin Laden viveu, sobretudo a partir de 2001, da, na e para a imagem que a propaganda (a dele e a dos que o combatiam) criou dele. Como um espectro soturno sobre os nossos anos sombrios.

THE SPECTER OF A DECADE
In doing the cover for Lavie Tidhar‘s wonderfully complex novel Osama (very soon available through PS Publishing), I drew inspiration from a magnetic image created in 1951 by Gertrude Huston (the wife of New Direction’s publisher James Laughlin) for Julien Gracq’s A Dark Stranger, which I found on Will Schoffield’s blog. I replaced the greco-roman classical silhouette with the more complex turban clad, bearded one of Osama Bin Laden, deciding later to add his eyes over the texture made up of debris (from a photo of one of the 1998 bombing sites in Africa) that fill this silhouette.
In Tidhar’s novel, Bin Laden is nothing but a fictional character in a pulp paperback series, and the world hasn’t lived through 9/11, but what one reads in those pulp novels is pretty much what happened in our own dimension in the 1998 Dar es Salaam and Nairobi bombings. Maybe a pulp cover would have been more suitable, but I could not resist trying to assemble an iconic summary of the figure hiding behind the name: Osama. As in Tidhar’s pulp-novel-within-the-novel, Bin Laden ended up living for (and actually being) an image made up by his and his opponents’ propagandas.
So here’s what I believe to be the “dark” specter of our very sombre first decade of the new century and millenium, the very dark essence of our present days: not the late Bin Laden (a pathetic middle-aged sick man living in a well-to-do neighbourhood in a quiet town of Pakistan), nor even what may be known as Al Qaeda, but the fear, the willingness to accept brutality as a way of going forward in history, and, ultimately, the loss of hope in the future.

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