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Por subterrâneos e terrenos baldios

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E quando se pensava que era já impossível, quando se começava a acreditar que a espera era em vão, eis que chega a primeira (com franqueza, não me consigo de lembrar de nenhuma a este nível antes feita) monografia sobre uma editora feita por quem trabalhou nela e com ela colaborou e, sobretudo, da forma como (creio eu, pelo menos) uma monografia destas deve ser feita: cruzando a herança propriamente literária do seu catálogo com o lastro visual desse mesmo catálogo, indo fundo ao(s) arquivo(s) e retirando deste(s) documentos que sejam ao mesmo tempo inéditos ou pouco vistos, relevantes aos desígnios da monografia e com um alto valor ilustrativo e com um texto ou um conjunto de textos que consigam evitar a redundância monocórdica da hagiografia ou a frieza formalista da prosa académica.

Coordenado e orientado graficamente (e brilhantemente) por um colaborador de primeira hora da &etc, Paulo da Costa Domingos, este Uma editora no subterrâneo (edição Letra Livre) tem tudo isso e mais. Para além do conjunto de textos de autores convidados, que abrange um leque heteróclito de indivíduos, desde autores e colaboradores da casa (como Fernando Cabral Martins, Adília Lopes, Isaque Ferreira, Luis Henriques ou o próprio Costa Domingos) a editores do mesmo lado da “barricada” (Vasco Santos da Fenda), incluindo gente que apenas há bem pouco tempo pôs o pé na soleira da porta ao cimo das escadas que dão para a “cave”, como Emanuel Cameira (que prepara uma tese de doutoramento sobre a &etc) e eu mesmo, que passei essa porta e desci essas escadas para falar com o Vitor Silva Tavares sobre o Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite há sensivelmente um ano e fui recebido com a naturalidade com que se revê um membro da “família”.

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Os autores estão indicados apenas pelo nome: nenhuma biografia cria aqui entre eles qualquer tipo de hierarquia de valor (social, académico, “corporativo”, etc), tendo apenas o texto que escreveram como bilhete de identidade face ao leitor. A ausência de um  índice pode não ser alheia a esta forma radicalmente democrática, ou anárquica, de organizar o volume, obrigando o leitor a folhear sem guia, a embrenhar-se nessa terra incognita. E as recompensas aos aventureiros são muitas e variadas, a começar pela recolha de textos inéditos ou previamente publicados mas perdidos nos arquivos da imprensa: duas cartas de Luiz Pacheco a Vitor Silva Tavares, documentação dos arquivos da Censura relativa à produção da “folheca” &etc a partir de 1973, a transcrição de uma carta do editor ao seu então já colaborador “Paulinho” da Costa Domingos, em pleno “Verão quente” de 1975, a republicação do já célebre texto de Pacheco no Diário Popular em 1976, “O Galimar da Rua da Emenda”, e da importante entrevista do editor a Alexandra Lucas Coelho, publicada em 2007 no Público, e, em particular, da “auto-entrevista” que Silva Tavares propôs como defesa do seu caso no episódio da apreensão da edição do folheto O Bispo de Beja, publicada no “seu” Diário de Lisboa em 1980. Ainda particularmente notáveis são quatro pequenas notas escritas pelo próprio Silva Tavares, relativas à edição ou recepção de outros tantos livros da & etc, e que tinham previamente sido publicadas como folhas-de-sala a acompanhar uma exposição comemorativa dos 33 anos da editora, em 2006.

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Quanto ao aparato visual da edição, é igualmente impressionante em quantidade (incluindo a reprodução de todas as capas do extenso catálogo de quarenta anos) e em qualidade, com particular relevância para algumas fotos, esboços preparatórios de desenhos que deram capas, um notável envelope ilustrado de Carlos Ferreiro enviado de Paris, uma colagem-homenagem do editor a Olímpio Ferreira, etc, etc. Refira-se que o texto de Luis Henriques, “A voz subterrânea”, se salienta particularmente no que a este aspecto gráfico do longo catálogo da editora diz estrito respeito.

Que a mão segura, o bom gosto e a memória impecável de Paulo da Costa Domingos tenham sido os responsáveis por todo este titânico trabalho de recolha, selecção, tratamento e apresentação gráfica não devia surpreender quem conhece os livros da Frenesi ou quem com ele fala no Anchieta todos os Sábados ou anualmente na Feira do Livro ou quem viu a sua decisiva participação no documentário de Cláudia Clemente sobre a editora, tapando alguns hiatos de contextualização e compreensão histórica do objecto do filme. E é por culpa dele que entro nesta história.

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O meu texto começa com a primeira, a mais remota memória pessoal de um encontro com um livro da & etc: um exemplar do Dissertação do Papa sobre o Crime de 1976, que encontrei em 1980 nuns misteriosos e apetecíveis caixotes de livros por cuja chegada de Luanda o meu pai esperara quase dois anos, desde que abandonara de vez a capital angolana, e que ainda hoje guardo. A cuidada factura continua a espantar todos estes anos depois: a sobrecapa de papel branco revelando a cartolina da capa, o impacto do negro e vermelho naquela, a sinuosidade tubular do desenho das letras de Carlos Fernandes, a aposição delicada de um hors-texte no verso da primeira página, a reprodução do motivo gráfico da capa e sobrecapa na folha de rosto, tudo ali remete, ao mesmo tempo, para o contexto visual que produziu esta edição (muito próximo da alguma banda-desenhada underground ou do design das capas de discos) mas também para toda uma cultura de oficina que Silva Tavares absorvera nos quase vinte anos anteriores.

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É um perfeito exemplo de uma marca de gosto do editor,  imposta por ele e não pelo designer, uma marca que encontramos já, por exemplo, dez antes antes, nas capas de Espiga Pinto para a colecção “Poesia e Ensaio” da Ulisseia (onde Silva Tavares foi director editorial), tal como é evidente no uso de sobrecapas em edições brochadas, com o arrojo do papel kraft em impressão serigráfica. E se dúvida houvesse sobre o gosto já antigo do editor da & etc de se meter em arriscadíssimos projectos gráficos, em que a fronteira entre livro comercial e livro de artista se esbate, que outra prova seria necessária além da edição d’A Cidade Queimada de Cesariny, em 1965?

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Além da pequena memória pessoal, parti para uma proposta de filiação de Vitor Silva Tavares e da & etc no que chamo de “exclusiva irmandade de piratas poéticos”, um grupo restrito de editores corajosos que ao longo da história trabalhou no fio da navalha e com o ferrete de “marginais” (aos sistemas religiosos, políticos, financeiros, jurídicos, etc, e por vezes “contra” eles também). Pegando no célebre “carolo” de Pacheco, chamando Silva Tavares de “Galimar” dos pequenos, aproveitei para evocar Eric Losfeld e a sua Terrain Vague como um modelo mais adequado ou alternativo ao ubíquo Pauvert, que era, no fundo, o tipo de editor que todos os pequenos editores “à margem” ou “contra” dos anos 50 aos 70 do século passado queriam ser. Descobri há uns anos uma curiosa monografia sobre Losfeld e a Terrain Vague, La Légende du Terrain Vague, publicada em 1977, dois anos antes do editor, já “retirado” (e falido) das lides independentes, publicar a sua autobiografia (Endetté comme une mule, ou la passion d’éditer). Se descontarmos o aspecto bem mais “pobre” desta edição (toda a preto, com uma paginação muito elementar, e sem o rasgo gráfico que se associara a algumas famosas edições de Losfeld), as suas motivação e estrutura são muito próximas da edição da Letra Livre: uma monografia essencialmente evocadora e celebratória, recorrendo ao vasto arquivo visual da editora celebrada e reunindo uma extensa série de depoimentos pessoais de gente do “meio”. Claro que a diferença crucial aqui é que essa edição de 1977 celebrava uma carreira já terminada e esta que acaba de ser lançada celebra um percurso que “segue dentro de momentos”.

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Termino evocando outros dois corajosos “espalha-brasas” através de uma fotografia onde se pode vê-los juntos, tirada em Nova Iorque em 1960 (a foto, que não está reproduzida no texto, foi retirada daqui): Barney Rosset, da Grove Press, e Maurice Girodias, da Olympia Press, combatentes na vanguarda da resistência à censura nos anos 50, que acabaram também falidos e quase esquecidos. Com Losfeld, três exemplos do que a recente obsessão com a gestão macroeconómica e o marketing musculado e milionário na edição (com o “sucesso”, em suma) facilmente nos levaria a concluir tratarem-se de “fracassos”, mas cujos sorrisos serenos e secretamente cautelosos me dizem que são, antes, “alguém que sabe e guarda um segredo, a chave de um tesouro imaterial que, por isso mesmo, parece difícil se não impossível de quantificar. É, por paradoxal que pareça, a foto de dois vencedores. Creio que Vitor Silva Tavares conhece esse segredo e tem uma cópia dessa chave.” (& etc – Uma editora no subterrâneo, p. 71).

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Averbamento, de Paulo da Costa Domingos

Pequena trouvaille conceptual em mais uma edição da &etc de Vítor Silva Tavares, para um texto de Paulo da Costa Domingos. De como a economia de meios não obsta a um excelente efeito visual e táctil e a uma sensação de completude. Procure-se a bem fornecida banca de PCD na Rua do Anchieta aos Sábados para obter um exemplar.

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Cinco escolhas de Paulo da Costa Domingos

Poderão conhecê-lo como poeta. Poderão apenas conhecê-lo como o homem por trás do projecto editorial Frenesi. Os que viram o filme de Cláudia Clemente sobre a &etc e Vítor Silva Tavares lembrar-se-ão do seu depoimento apaixonado mas objectivo sobre os primeiros anos dessa editora. Outros conhecerão já a sua loja alfarrabista online (que não passou despercebida ao incontornável blogue Journey Around my Skull). No que me diz respeito, acho que Paulo da Costa Domingos é um verdadeiro divulgador de livros, no mais nobre e útil sentido: foi graças aos excertos que publicou no seu blogue que descobri o Shock Doctrine de Naomi Klein e, sobretudo, o Business of Books de André Schiffrin. Eis, pois, e em resposta a um repto meu, cinco escolhas suas. De notar, em especial, a capa de Grifo, que trai um olho atento do editor/grafista Vítor Silva Tavares ao que de melhor então vinha de França, no caso o alfabeto criado por Roman Cieslewicz para o Guide de la France Mysterieuse das edições Tchou, em 1964.

Um livro – e, mais exactamente, um documento tornado impresso – suscita a minha atenção apenas quando algo nele vem alterar o que está dado como senso comum ou por via de lei instituído. No resto, com melhor ou pior fortuna, melhor ou pior embalagem, melhor ou pior mercado, tenho para mim de que se trata de entretenimento. Alguns dos tais outros documentos impressos – que não estes últimos – até poderão ser livros de ensaio ou de estudo: os géneros, não os tenho por excluintes. Nem os movimentos culturais, nem as tendências. Claro que a primeira impressão que se colhe reside no isco gráfico exibido. Mas a minha decisão só vai para aquilo que consegue ultrapassar, pela riqueza interior, essa primeira leviandade de superfície.
Dito isto, e depois de depurar escolhas mais óbvias, reparo em cinco diversas publicações que, diversas ou no tempo, ou na intenção, ou no acabamento gráfico, ou noutro sinal de que foram portadoras, de algum modo marcaram a minha relação com o o Mundo e, por inerência, com o mundo editorial. São elas, pois:


A LANTERNA – FOLHA POLÍTICA
Editada em Lisboa, de 1868 a 1873

Melhor do que eu, fala-nos da sua atribulada vida editorial Inocêncio Francisco da Silva no Dicionário Bibliográfico Português, e que nos conta como umas exíguas folhecas panfletárias deram origem a «violentas polémicas na imprensa política do tempo, e a um notável processo, em virtude do qual esteve preso o dono da tipografia, [Joaquim Germano de] Sousa Neves, por não querer denunciar quais eram os responsáveis pelos vigorosos e revolucionários escritos desta folha, considerados abusivos da liberdade de imprensa e ofensivos das autoridades constituídas […]. Em todo o caso, revelou no seu autor um escritor talentoso e enérgico argumentador. O primeiro redactor, que não oculta a paternidade da sua obra, foi o sr. António Augusto da Silva Lobo, desde alguns anos estabelecido no Rio de Janeiro com uma empresa literária, e empregado na redacção das sessões das câmaras legislativas brasileiras. Seguiu-se-lhe, ostensivamente, Francisco Luís Coutinho de Miranda, que era seu amigo íntimo e companheiro inseparável do primeiro.»
As capas – o folheto aqui reproduzido até constitui o exemplo menos significativo – eram sempre de grande iluminação…


MARQUÊS DA BACALHOA
António de Albuquerque

Livro editado no início de Janeiro de 1908, a escassas semanas do regicídio. A indicação da Imprimerie Liberté em Bruxelas era pura mistificação para iludir as perseguições policiais ao impressor. Documento de imediato proibido e perseguido, mas que nunca parou de circular clandestinamente. Foi num contexto histórico de revolta popular armada generalizada contra a ditadura do ministro monárquico João Franco que surgiu este romance panfletário; e, no dia 1 de Fevereiro, o inevitável regicídio, assumido por Manuel Buíça e Alfredo Costa. Fossem os deputados António José de Almeida, Egas Moniz, Afonso Costa, etc., ou o escritor Aquilino Ribeiro, as prisões enchiam-se então de presos políticos, enquanto esquadras e quartéis iam sendo assaltados ou meramente destruídos à bomba. Timor, Moçambique, Angola, por exemplo, eram então autênticos viveiros de deportados… Só para se fazer uma ideia da influência ravacholista (a «poesia da dinamite») entre a população comum: a Carbonária, segundo o historiador Borges Grainha – que nem é único a dar à posteridade um tal retrato –, contava com algo como quarenta mil aderentes. «O lisboeta medroso foi substituído pelo lisboeta que dá tiros nos cafés…» (nas palavras de Raul Brandão). Deste mesmo modo, certos escritos da época, por seu turno, saíam dos entrefolhos da Literatura, descuidados na confecção estilística, respondendo à urgência do momento: consolidar uma opinião pública, legitimando d’avance a acção directa dos revoltosos.
Nunca se terá visto unanimidade mais geral, como a que os raros dicionários que se lhe referem patenteiam quando põem a sua garra sobre este autor: «escritor medíocre». E quando é Júlio Dantas, com a sua Ceia dos Cardeais, quem recolhe o elogio de «correcção formal», está tudo dito! Todavia, viviam-se dias pródigos em jornais de caricatura agressiva, e, entre o traço grosso e a reportagem de costumes, são esses os mais óbvios inspiradores da pena do nosso Albuquerque.
A caricatura na capa, de autor mantido anónimo, representa a grosseria do poder.


GRIFO
1970, Lisboa

Com fecho tipográfico a 30 de Abril de 1970, é uma antologia de inéditos organizada e editada pelos autores: António Barahona da Fonseca, António José Forte, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Manuel de Castro, Maria Helena Barreiro, Pedro Oom, Ricarte-Dácio e Virgílio Martinho. O objecto, graficamente foi concebido pelo futuro editor da casa & etc: Vitor Silva Tavares. Volume colectivo que, para nem chegar a ser proibido, e apesar do corajoso distribuidor Quadrante, circulou clandestinamente de mão em mão. Até hoje. O poema com que António José Forte participa dá o tom, de uma época em que as vagas revolucionárias do Maio de 1968 talvez ainda pudessem levar tudo à frente. A Portugal, haviam chegado a Coimbra no ano anterior. A capa é um mimo surrealista.


RECTROMERDÁRIO
Anónimo, 1975

Publicação com proveniência anónima, difundida em Lisboa apenas por mão de ardinas anarquistas no chamado Verão Quente de 75. Aparentemente impressa com meios técnicos rudimentares, mas dando especial relevo à articulação selvagem das imagens com texto, trazendo portanto o modernismo para a rua.
A capa recupera, cinicamente, o significado do libertador príncipe Valente (banda desenhada que Harold Foster criou para um público consumidor lumpen), cujas chaves para soltar os prisioneiros da Segunda Guerra Mundial apareciam agora substituídas pelas toleradas mocas de Rio Maior, num contexto revolucionário português em que bastantes militantes da esquerda radical haviam sido presos pela junta militar. Aliás, o artigo de abertura é especialmente depreciativo para qualquer exército do mundo.


EX.º SR. DR. ARNALDO DANTAS DA GAMA. CARTA INÉDITA A PROPÓSITO DE
“A CALDEIRA DE PERO BOTELHO”
Camilo Castelo Branco

E por último, não sendo por assim dizer uma publicação, mas um estojo para uma carta autógrafa de Camilo Castelo Branco e para o volume da sua edição em livro, criado pelo encadernador Vasco Antunes, é de referi-lo como modelo da compreensão gráfica de um artista perante a diversidade dos materiais postos ao seu dispor. Peça única, em pele gravada, papel de fantasia, cartão e mica, contendo a citada carta e o exemplar n.º 1 da tiragem de 250 exemplares mandada imprimir, em 2006, pela Frenesi. Não sendo exequível por meios tipográficos industriais, por isso mesmo a tenho como modelo daquilo que derradeiramente se perdeu no mundo editorial.
O texto em Exórdio dá a nota e confirma o desgosto: “Os leilões são uma torrente de conhecimento e aventura pela nossa humanidade passada. Ao invés do que, ciúme ou ganância, afirmam certos colegas editores, são, actualmente, os antiquários e os alfarrabistas os únicos negociantes de livros com interesse iniludível e feliz surpresa… Já que os mais, editores e livreiros de novidades estabelecidos, fraca mercadoria exibem nas suas quitandas. […]” Etc., etc., etc,…

Paulo da Costa Domingos

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