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“She could have made it with a little luck”

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As agora célebres fotos de Bert Stern feitas na última sessão fotográfica de Marilyn Monroe, em Junho de 1962, seis semanas antes do suicídio da actriz, e foram publicadas em Setembro desse ano na Vogue (para a qual eram destinadas) e, pouco depois, no número de Outono da revista Eros (o terceiro e penúltimo). A Vogue planeara publicá-las em Agosto mas a notícia da morte de Monroe obrigou-os a um adiamento, o que permitiu essa publicação quase em simultâneo. Sendo a Eros uma revista de luxo (uns impressionantes 33 x 25,5 cm com capa dura) mas destinada, pelo seu conteúdo outré, a um público de nicho e vendida apenas por assinatura através dos Correios, foi à Vogue que coube a sua divulgação mais alargada. Mas hoje é este número da Eros que marca definitivamente o involuntário memento mori em que estas fotos acabaram por se transformar.

Com design e direcção de arte de Herb Lubalin, a revista dedicou ao portfolio 17 páginas, além da capa, contra-capa e guardas, suplantando as 7 páginas da Vogue, e, sobretudo, publicando algumas das fotos mais “arriscadas”. Contudo, o detalhe gráfico mais duradouro deste conjunto, e que Lubalin decidiu não apenas manter como destacar, foram as marcas em X  feitas a caneta de feltro cor de laranja pela actriz sobre as provas das fotos de que ela, por uma razão ou outra, menos gostava. Permitindo-nos a audácia de tentar descobrir essas “razões”, introduzindo-nos assim num espaço de intimidade psicológica quase incómoda, a assunção dessas marcas (que rompem a “encenação” e apontam para a “quarta parede” do estúdio) deu ao portfolio uma característica mais gráfica, inacabada, rough, mas com a curiosa variante dessa intervenção gráfica não vir do designer, do fotógrafo ou de um ilustrador, mas da própria modelo que controla assim o meio da sua exposição e se torna, de certa forma, numa co-autora deste portfolio (coisa rara, ou mesmo única, na carreira de alguém cuja imagem pública fora sempre manipulada por outros). Tendo em conta o destino da actriz, estas marcas sobre o seu rosto feitas por ela mesma adquirem também um sentido de inquietante augúrio.

O malogro da curta vida de Marilyn Monroe não é o único que estas fotos solares e esfuziantes prenunciam num completo paradoxo. A morte da revista Eros estava já também no horizonte. Após o quarto número, já em 1963, os Correios americanos levam o editor Ralph Guinzburg a tribunal pelo crime de usar os seus serviços para a expedição de material considerado à época “obsceno”. Uma longa batalha jurídica até ao final da década ditará finalmente a prisão do editor em 1972  (ler aqui sobre esse episódio). Antes desse desfecho, porém, Ginzburg voltou a este porfolio de Stern e de forma completamente inesperada, quando no número de Março de 1968 da Avant Garde (publicada por Ginzburg entre 1968 e 1971), encomenda ao fotógrafo uma revisão de algumas fotos desse conjunto. Impressas agora em cintilantes tintas serigráficas dayglo sob o título “The Marilyn Monroe Trip”, as imagens icónicas da actriz aparecem “actualizadas” e vistas sob as lentes psicadélicas do momento (o resultado, diga-se, é espantoso, e é também mais um tour de force de Lubalin).

A frase de Arthur Miller que se lia a acompanhar uma foto nesse número da Eros (“She could have made it with a little luck”), sendo possivelmente certeira no que diz respeito à vida de Norma Jean Mortenson e à carreira de Marilyn Monroe, foi, por uma perversa ironia, absolutamente premonitória do destino do editor Ralph Ginzburg e deste projecto editorial. Duas carreiras “castradas” (roubo o termo às amargas memórias do cárcere publicadas pelo editor dez anos depois) que se cruzaram brevemente no Outono de 1962.

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Oito meses

No dia 17 de Fevereiro de 1972, o editor Ralph Ginzburg foi encarcerado no estabelecimento prisional de segurança mínima de Allenwood , na Pensilvânia, para cumprir a pena de cinco anos de prisão a que tinha sido condenado. De que se tratava? De uma irregularidade fiscal particularmente grave? De associação a grupos de resistência política armada, uma das obsessões da administração Nixon? Não. Ginzburg fora condenado em 1963 pela edição e, sobretudo (providenciando assim a “prova de crime”), pelo envio por correio de uma revista considerada “obscena”, a Eros. Ainda mais estranho: em Junho de 1972, estreava, com fanfarra e cobertura (favorável) em jornais insuspeitos como o New York Times, o fime pornográfico Deep Throat (Garganta Funda). Ou seja: no ano em que a pornografia se tornava não só  “aceitável” como até “chique” (não havia figura do jet-set que não confessasse ter visto ou querer ver o filme), no preciso mês em que milhões de pessoas acorriam aos cinemas para verem Garganta Funda, Ginzburg estava na cadeia, ainda a meio de um pena de prisão (acabaria por cumprir apenas oito meses) por publicar o que dez anos antes se considerara… pornografia.

Este Castrated: my eight months in prison é, como o subtítulo deixa claro, o testemunho desses oito meses de cadeia. Publicado em 1973, a sua única ligação ao passado “glorioso” de Ginzburg como editor de projectos “picantes”, aguerridos, sofisticados e “vanguardistas” estava no design de Herb Lubalin, o seu colaborador regular ao longo da década precedente em revistas como Eros, Fact e Avant Garde: é Lubalin que dá a este relato seco e sombrio a marca visual e tipográfica que fizera dele, através do trabalho nessas mesmas revistas, um dos máximos representantes desse virtuosismo “expressivo” da tipografia americana que fora uma reacção aos ditames do racionalismo suíço do Estilo Internacional. Nem o logo bem visível da Avant Garde Books, contudo, poderia já esconder que a carreira de Ginzburg como editor cultural de relevo estava acabada: os anunciantes fugiam de associações a penas de prisão como o Diabo da cruz e Ginzburg sabia-o bem.

A história do processo Eros tinha sido já pormenorizadamente contada num número da Fact de 1965. Encerrada já aquela (que não tinha passado dos quatro números até 1963), a Fact era o mais recente projecto de Ginzburg, uma revista bimensal de informação e opinião no-nonsense, sem os luxos visuais da Eros, impressa apenas a uma cor, mas de novo com excelente trabalho de direcção de arte de Lubalin. Este número em particular apresentava um segmento em papel couché com amostras de alguns dos melhores spreads da Eros (cujo maior feito tinha sido a publicação das últimas fotos de Marylin Monroe, tiradas por Bert Stern poucos dias antes da morte da actriz).

Mas a má fortuna de Ginzburg não largava: um artigo lançando dúvidas sobre a saúde mental do senador Barry Goldwater, publicado na Fact em 1964, originou um processo contra a revista. A perda deste, junta ao “processo Eros”, foi um enorme revés e ditou o fim da Fact. Seguiu-se a Avant Garde, entre 1968 e 1971, em tempos de maior soltura moral, na qual a colaboração de Lubalin foi preciosa (foi nesta revista que ficou, possivelmente, o melhor do seu trabalho, a começar no logótipo e na fonte criada para o mesmo), mas as dificuldades financeiras devidas aos contínuos recursos em tribunal e a uma má distribuição ditaram o seu encerramento. (Sobre a Avant Garde e a Eros, tinha já escrito aqui e aqui).

Estranha a carreira em comum destes dois homens. Apesar das vitórias em tribunal em casos de “obscenidade” relativos às edições da Grove Press de Barney Rosset do Lady Chaterley’s Lover de D.H. Lawrence, dos Trópicos de Henry Miller e de Naked Lunch de William Burroughs, todos anteriores a 1963, todos resolvidos a favor da sua publicação e pondo, de facto, um fim à possibilidade de censura na edição americana, Ginzburg parece não ter tido qualquer tipo benefício dessas conquistas, e a sua contínua dedicação à publicação de material “arriscado” com uma apresentação visual de enorme qualidade (tão grande que é, essencialmente, pelo seu grafismo que hoje as revistas de Ginzburg continuam a ser resgatadas do esquecimento) também parece não ter tido qualquer efeito atenuante. Quanto a Lubalin, o seu grande momento poderia ter chegado quando lhe foi encomendado o redesenho do respeitável Saturday Evening Post em 1961 (uma célebre capa de Norman Rockwell para a revista mostrava-o de costas, no seu estirador, a redesenhar o logótipo), mas os leitores não gostaram das mudanças e a revista entrou em declínio financeiro (em 1968, uma nova direcção da revista voltou a pedir-lhe um redesenho, ao que ele terá respondido: “are you out of your fucking minds?” – vide U&lc, n.º 2, 1974, p. 17); foi, contudo, apenas a colaboração com este editor marcado pelo infortúnio, que arrastava o inconveniente ferrete de “pornógrafo” quando ainda não era cool sê-lo ou assumi-lo, que permitiu a Lubalin criar algumas das suas mais decisivas aportações à tipografia e ao design editorial, e isto para revistas que corriam o sério risco de serem encerradas por ordem do tribunal. Castrated pode ser visto, então, como um último “magafone” tipográfico que Lubalin pôs à disposição das palavras de Ginzburg. (Este refaria a carreira como fotógrafo freelancer em Nova Iorque, morrendo aos 76 anos em 2006).

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