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Emigração dolorosa

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Lançado há pouco mais de 50 anos, no início do Verão de 1965, na colecção “Vária” que o recém-empossado director editorial da Ulisseia, Vitor Silva Tavares, criara para publicar textos dificilmente encaixáveis noutras colecções, este França: a Emigração Dolorosa de Nuno Rocha traz a este ano de 2015 desconfortáveis memórias. O desconforto de um passado de pobreza envergonhada e escondida nas berças minhotas e beirãs, apenas a duas gerações de distância, mas também o de um discurso político oficial que – tal como o de hoje – procurava manipular ou ocultar os números reais da emigração. Como exemplo, um parágrafo na página 20 ganha agora uma espantosa urgência, quatro anos depois do início de um novo surto migratório, o maior desde essa primeira “sangria” de há meio século:

“Lisboa, entretanto, dormia sobre este surto migratório. Ninguém se apercebia de que pelas fronteiras, legalmente ou como clandestinos, passavam diariamente centenas de portugueses como que repelidos pelo meio em que viviam. O sol de Maio inundava o Terreiro do Paço, coalhadinho pelos automóveis dos funcionários que despachavam tranquilamente nos seus gabinetes. Mas era como se o sangue saísse das veias do país. A Junta da Emigração calava-se, cúmplice, procurando que ninguém descobrisse o que estava a passar-se.”

Com base numa série de artigos escritos em 1963 – quando o jornalista se juntou a um grupo de emigrantes e acompanhou a viagem em “camioneta” de Melgaço a Paris – e publicados no Diário Popular, este foi o primeiro livro dedicado a este delicado assunto e logo publicado numa editora que, sob a direcção de Silva Tavares, seria um alvo quase constante da censura e da PIDE. É por isso certa a interrogação de Maria Isabelle Vieira: como foi possível que este texto – incómodo, acusatório, acompanhado de fotografias dos primeiros miseráveis “bidonvilles” onde os emigrantes se acolhiam, como o de Champigny – fosse poupado a uma proibição, a não ser pela estratégia da “arbitrariedade”?

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Com uma paginação que remete as fotos do autor para uma série de extra-textos ao longo do livro, estava-se compreensivelmente ainda longe dos “livros integrados” da década seguinte, mas estavam também aqui os elementos básicos para o que poderia ter sido o “nosso” The Seventh Man (o “clássico” de 1975 sobre os trabalhadores migrantes na Europa escrito por John Berger, com fotografias de Jean Mohr e design de Richard Hollis), ainda que sem a frieza analítica de Berger e o pessimismo sobre as “promessas” das sociedades europeias materialmente mais avançadas a estas centenas de milhar de pobres das margens da Europa: Rocha era, apesar de tudo, um optimista, e, para além da óbvia exploração desta força de trabalho, via benefícios para a vida nacional no regresso destes homens, do simples consumo à arquitectura (quando o depois vilipendiado estilo “maison”, trazido de França pelos que aí trabalhavam na construção civil, era ainda uma refrescante melhoria das miseráveis condições de habitação nas aldeias). A capa de Rocha de Sousa, contudo, segue o adjectivo do título de forma muito clara, clara demais para o luxo de algum optimismo.

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Sete capas da Afrodite

Usando o pretexto de um destes anódinos (e algo escusados) “Dias Mundiais” (o do Livro, neste caso), e a propósito da exposição “Cólofon” de 500 capas de livros portugueses escolhidas por José Bártolo e Jorge Silva, e que abre no dia 8 de Maio no Museu Quinta de Santiago em Matosinhos, eis uma escolha de algumas capas do catálogo da Afrodite que tomei a liberdade de sugerir ao Jorge Silva há alguns meses, quando soube do projecto. Na altura, ele tinha já “pré-seleccionado”, digamos assim, as capas das edições de Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1971), Apocalipse do Apóstolo João (1972) e As Crianças Falam (1973). As capas que seguem abaixo estão ordenadas cronologicamente. Note-se que não sei sequer se elas foram escolhidas pelos curadores ou não: tratou-se apenas de simples sugestões.

Antologia-do-Conto-Fantastico-1968

Começo pela capa de Rocha de Sousa para a Antologia do Conto Fantástico Português (1967). O ano de 1967 foi aziago para Fernando Ribeiro de Mello: o processo da edição da Filosofia na Alcova de Sade chegara ao fim com uma dura condenação, e os custos do mesmo acrescidos à necessidade de não dar muito nas vistas fizeram com que ele apenas lançasse, lá bem para o fim do ano, este livro, ainda por cima mal recebido pela crítica. Se a antologia enferma de falhas na escolha dos contos e sua justificação ou não, o certo é que, para além do seu ineditismo (nunca antes se publicara uma antologia de contos portugueses dentro do género fantástico), a edição contou com uma das melhores capas de todo o catálogo da Afrodite, na composição, na factura do desenho, no arranjo tipográfico (com o uso elegante da Clarendon em caixa baixa), na sábia adição do vermelho como segunda cor, deixando-nos a lamentar a ausência de um conjunto de ilustrações a acompanhar a capa e de outras colaborações suas com a editora.

Conversas-com-Versos_capa

Depois das atribulações com a polícia e a justiça (mas quando ainda tinha um outro processo a decorrer, o da Antologia da Poesia Erótica e Satírica, que só terminaria em 1970), Ribeiro de Mello reinventou-se como editor de livros infantis, para o qual foi essencial a colaboração com Maria Alberta Menéres, uma poetisa que começava então a dar os primeiros passos na literatura para crianças. O arranque da Cabra-Cega, a colecção infantil da Afrodite, dá-se com este Conversas com Versos (1968), que exibia esta soberba capa de Manuel Baptista e, no interior, algumas ilustrações a pincel, engenhosas de simplicidade, do mesmo estilo. Tal como Rocha de Sousa, Baptista expusera na Galeria Quadrante (por então, uma das novas galerias em ascensão em Lisboa); uma vez que a livraria ligada à galeria distribuía os livros da Afrodite, é bem possível que o editor tivesse aí o ponto de encontro para “arrebanhar” estes jovens artistas para o seu catálogo. Na Cabra-Cega publicarão as suas primeiras ilustrações em livros artistas como Fernando Calhau, Eduardo Batarda ou Julião Sarmento.

antologia-humor-portug_1969

A capa de Sena da Silva para a Antologia do Humor Português (1969) é não só uma das mais icónicas de todo o catálogo da Afrodite, como está associada (tendo certamente contribuído para tal) a uma das edições mais famosas da viragem da década de 60 para a de 70 e uma das mais bem sucedidas financeiramente de Fernando Ribeiro de Mello. Estendendo a imagem da “dentadura” a dezenas de homens-sanduíche e a eléctricos da Carris, a campanha de promoção desta antologia foi um marco incontornável da Lisboa que vivia a “primavera marcelista” e rompeu com a então muito tímida e pacata tradição de lançamentos de livros. A edição serviu também de “montra” para quatro jovens artistas e ilustradores em início de carreira: Carlos Ferreiro, João Machado, José Rodrigues e Eduardo Batarda, em particular este, com dezenas de brilhantes pequenos desenhos a ilustrar o índice temático.

Arte-de-Furtar_capa

Uma das melhores e mais prestigiadas colecções da Afrodite, lançada no auge da renovada fama após a Antologia do Humor Português, foi a dos Clássicos, dedicada à reedição de obras antigas (anteriores ao século XIX no mínimo) e algo esquecidas. O esquema gráfico da colecção foi concebido por Paulo-Guilherme e o primeiro volume foi este Arte de Furtar (1970). Tal como na Cabra-Cega, teria sido difícil começar melhor, sobretudo no que às ilustrações diz respeito. O estilo ácido e provocador dos pequenos bonecos grotescos de Eduardo Batarda, onde abundam as caveiras a casquinar, encaixa perfeitamente neste ensaio do século XVII sobre as mil e uma formas em que a corrupção e o desvio de dinheiro se insinuaram no ethos ibérico. Destacar apenas a capa num livro tão bem pensado e feito, em que o desenho de Batarda tem uma tal importância na imposição de um ambiente e uma “cenografia”  (a começar nas guardas), é, por si só, um exercício de mutilação. Que Eduardo Batarda não tenha feito depois uma carreira como ilustrador (para além de três outros livros da Afrodite – Histórias com Juízo de Mário Castrim, em 1969 na colecção Cabra-Cega, o Manual dos Inquisidores de 1972 e a Antologia de Poesia Erótica Latina de 1976 – o seu nome está apenas ligado a outra pequena grande edição, a das Fábulas Fantásticas de Ambrose Bierce, publicadas pela Estampa em 1971) é daqueles mistérios insondáveis do “mercado” do livro em Portugal.

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Um ano após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Ribeiro de Mello anunciava para a Feira do Livro de 1975 a reedição renovada de um dos seus dois livros condenados pela justiça do Estado Novo, a Filosofia na Alcova do Marquês de Sade. Com nova tradução, o livro apresentava-se também com novas ilustrações, desta feita por um dos ilustradores mais associados à Afrodite na década de 1970 (formando, com Eduardo Batarda e Henrique Manuel, o núcleo da imagem da editora nesses anos) e um dos mais notáveis também: Martim Avillez. Este dera-se a conhecer na espantosa edição do Livro de S. Cipriano em 1971 e subira a parada no Apocalipse do Apóstolo João no ano seguinte. A Filosofia foi o seu último livro para a Afrodite antes de emigrar para Nova York no final da década, e o seu trabalho esteve ao mesmo nível dos anteriores. Particularmente curiosa, contudo, é esta capa quase “minimalista” (não fosse toda a textura da factura manual do artista, até na tipografia), que recusa a exibição do que nas páginas se mostra e opta por ostentar este simples colchão cor-de-rosa (que se vê até de perfil na lombada). Para um artista ocasionalmente dado à grandiloquência e à minúcia obsessiva na representação do grotesco e do fantástico, esta simples solução espanta e encanta, até pelo inesperado.

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Se, na segunda metade dos anos 70, José Martins Garcia substituiu, de certa forma, a figura de Natália Correia como intelectual tutelar, autor nacional de referência e colaborador regular do editor da Afrodite, Nuno Amorim foi o último colaborador regular na área visual, do simples design das capas à ilustração pontual (de que é exemplo o seu brilhante trabalho para O Super Macho de Alfred Jarry, em 1975). O seu estilo, como é claro a quem vê os desenhos da edição do Jarry, estava próximo da banda desenhada de ficção científica e fantasia que a revista francesa Métal Hurlant publicava então (tendo chegado a estar próximo de uma possível publicação nessa revista de referência), e ele chegara a publicar histórias na revista Visão, que por cá tentou emular aquela. É por isso curioso que a que considero ser a sua melhor capa para a Afrodite seja uma em que o estilo pessoal dele é preterido em benefício de uma simples intervenção gráfica no trabalho de outrem: ou seja, uma capa não ao seu estilo mas “ao estilo de”, no caso de João Abel Manta. Os curtos contos absurdos de Martins Pereira, muito próximos de um Ambrose Bierce, reflectem um desencanto azedo com a situação pós-revolucionária, algo de que a capa não nos deixa duvidar. Apropriando-se de um dos mais famosos cartazes de João Abel Manta do PREC, o “MFA,POVO/ POVO,MFA”, em que o soldado e o camponês partilhavam alfaias e armas, Nuno Amorim acrescenta ao primeiro as extensões “diabólicas” da iconografia popular (cornos, rabo, patas de bode e um tridente) e pinta-o de vermelho, e ao camponês, por seu lado, acrescenta umas asas de querubim. Poder-se-á discutir sobre a subtileza da solução (sendo que, no rescaldo de um PREC escaldante, esperar “subtileza” fosse algo da ordem do milagre), mas, graficamente, a capa tem uma força inegável. Muita dessa força, irónica e nada ingenuamente, apoia-se, claro está, na linha clara e sólida de JAM, e se há algo de que esta capa é prova, é da referência que o trabalho deste representava na altura, com cartazes e cartoons ubíquos que marcaram visualmente toda a década: mesmo uma acção de “terrorismo gráfico” como esta, contrária à ideologia do próprio JAM, não deixava de ser uma homenagem.

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A edição deste Textos Malditos de Luiz Pacheco (1977), uma antologia dos seus textos proibidos durante a última década e meia do Estado Novo, fora acordada entre o autor e o editor em 1974, um mês depois da Revolução. Nos três anos que distaram entre a sua concepção e a saída do livro, a relação entre ambos esfriou e o editor deparou-se com sérios problemas financeiros, os quais, acrescidos a uma nítida perda do prestígio cultural de que gozara por força de edições que pareciam não corresponder ao padrão de qualidade da Afrodite, ditaram o lento crepúsculo do projecto. O que teria sido, em 1974, um grande título de Pacheco, na senda das suas edições na Estampa, em 1977 era já apenas a sombra de uma “negociata” longínqua com um editor pelo qual – em virtude de uma certa viragem “à direita” deste e de edições como a da tradução portuguesa do Mein Kampf em 1976 – ele não nutria já grandes afinidades. Ainda assim, o bom olho de Ribeiro de Mello para a escolha de ilustradores leva-o a associar ao projecto um artista que se estreia no catálogo da Afrodite em 1974, e que marcará esse catálogo até à sua última colaboração, que se dá precisamente neste livro: Henrique Manuel. Partilhando com o editor (e o autor) o culto de uma libido explosiva (notória nos seus desenhos para a Nova Recolha de Provérbios ou na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII-XIX), Henrique Manuel deixa neste último livro para a Afrodite algumas ilustrações realmente notáveis da figura do autor “libertino” e, sobretudo, uma capa icónica que coroa uma década de tentativas de representação do “boneco” Pacheco. Perdido no meio do implacável fundo branco, obrigado a um desconfortável aprumo no eixo central da composição, o autor apresenta-se-nos com os seus habituais atributos… e decapitado, ou melhor, com a cabeça cuidadosamente amparada nos braços e nas mãos cruzadas. É um misto perfeito de caricatura e retrato psicológico, a que as finas hachuras feitas com a Rotring concedem uma delicadeza que parece contrária ao absurdo chocante da imagem (sobre a história desta edição, escrevi a monografia A Última Sessão que pode ser adquirida aqui).

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