Tag Archives: Science Fiction

A.D. 2230

Outro dos achados na biblioteca de João Barreiros, numa edição da Parceria A.M. Pereira de 1930. Ficção-científica portuguesa em anos de Modernismo (com um futuro arquitectónico à la Sant’Ellia). Desconheço a nome do autor da capa.

A.D. 2030
Cover of a Portuguese SF novel published in 1930 (with a very Sant’Ellia-influenced architectonic apparatus).

Advertisement

Leave a comment

Filed under Capas

Está tudo no título

Capa para o próximo livro do autor israelita de FC e Fantasia Lavie Tidhar, a noveleta Gorel and the Pot-bellied God, publicada pela inglesa PS. O livro a seguir é num registo completamente distinto e a capa será igualmente num tom bem diverso. Tal como neste, estará tudo no título: Osama.

IT’S ALL IN THE TITLE
Cover for the forthcoming book by Israeli SF and Fantasy author Lavie Tidhar, Gorel and the Pot-bellied God, a novelette published by PS Publishing. His next book, for which I’m doing the cover as well, will be a totally different business and accordingly the cover will respect that. Like in this one, all will be in the title: Osama.

Leave a comment

Filed under Capas, Da casa, Livros

“Nostalgic for the future”


Este é o número 9 (de 1974) da revista Science Fiction Monthly (SFM), publicada pela New English Library (NEL), uma editora de paperbacks criada em 1961 e especializada, sobretudo, em ficção científica. Bastam as dimensões para traduzir a importância que o género tinha na altura: 40 x 28 cm, num misto de revista glossy e jornal (as folhas não são agrafadas), sendo que o verso da capa servia de poster, exibindo uma obra do ilustrador entrevistado em cada número e que serviria, igualmente, de capa para uma das publicações da NEL ou de outras editoras.

Este é o único número desse revista que possuo, e a razão para isso compõe-se de duas palavras: David Pelham (cuja ilustração para Tiger! Tiger! de Alfred Bester adorna a capa). As duas páginas que lhe são dedicadas tinham como claro pretexto a reedição pela Penguin, nesse ano de 1974, das obras emblemáticas de J.G. Ballard da década precedente, com novas capas e uma caixa (Prova A) primorosamente ilustradas e concebidas por Pelham, que era à altura o director de arte da grande editora inglesa.

Prova A

O interesse da entrevista aqui publicada (apesar do título algo pomposo: “The artist in Science Fiction”: para vê-la e lê-la na íntegra, ir aqui e aqui) estende-se, contudo, para além da inegável importância deste designer no panorama da edição inglesa desses anos. Não sendo um ilustrador exclusivamente dedicado à fantasia e à FC, como todos os outros entrevistados pela SFM, e não tendo apenas, dentro do género, ilustrado as capas de Ballard (são suas muitas das capas da série de FC da Penguin dos anos 70, bem como a icónica capa de A Clockwork Orange, e já na Panther em finais dos anos 60 se encontram capas suas para obras de FC), ele é aqui apresentado quase como “o” ilustrador de Ballard, uma simbiose que teria a sua justificação no conhecido apreço que o autor manifestou por essas capas da Penguin de meados da década. O curioso é que a simbiose se traduz a um nível extra visual: se Ballard sentiu que as ilustrações de Pelham “cristalizavam algumas das suas mais poderosas imagens literárias”, este, por seu lado, parece pensar e exprimir-se em uníssono com aquele.

O que torna o interesse desta entrevista realmente duradouro é, creio, uma tensão surda que subjaz ao simples facto de ela ter ocorrido. Apesar de trabalhar numa editora modelo e de usar a ferramenta da moda na altura (o aerógrafo) e se inscrever numa linha estética devedora da Pop, as ilustrações de FC de Pelham não eram obviamente “ortodoxas” no sentido comercial que a NEL ou as outras editoras do género defendiam e promoviam. Pelham pensa e trabalha como um designer e um director de arte, recorrendo a bancos de imagens, procurando cruzamentos entre o sentido do texto e o zeitgeist. A força motriz do conceito de “colagem” é nítida. A sua aportação heterodoxa à iconografia do género era já, em 1974, um trabalho solitário de resistência, herdeiro da pesquisa iconoclasta da New Wave inglesa (materializada na revista New Worlds), numa altura em que o próprio Ballard dava os primeiros passos para fora da FC. No cerne, a questão era: que imagem nova pode a FC ter, ou então, quanto da imagem e da estética do presente e do passado recente contamina a visão de futuros mais ou menos remotos?

Essa “nostalgia do futuro”, assumindo o futuro como a imagem decadente, sob a acção das forças da entropia, das novas tecnologias do presente, é o programa de Pelham nestas ilustrações genuinamente “ballardianas”. A suavidade das gradações dada pelo aerógrafo e a obsessão pelo acabamento perfeito (que contrariam de certa forma a “brutalidade” e “selvajaria” que Pelham vê nelas) não retiram às imagens uma profunda melancolia e uma malaise que era, ao mesmo tempo, alheia à estética da FC ilustrada por então e muito contemporânea aos anos pós-1968.

“Pelham describes his illustrations as ‘uncompromising, brutal and savage’: machines appear starkly and incongruously against a background of frightening simplicity –  and present a philosophy of the future in picture form. To Pelham these machines are the debris of our society: ‘I’ve a big thing about machines and their subsequent breakdown. I love the idea of all this work going into making a machine and then it not working or being left redundant.’
Pelham explains his outlook in terms of a simple analogy: as many people find romance in viewing previous epochs, so he finds romance in seeing the future as if it were already the past – in visualizing ruins created from the artifacts we are manufacturing now.” (SFM, nr. 9. vol. 1, 1974, pp.6-7)

In English soon.

2 Comments

Filed under Capas, Livros, Revistas

Fogueiras e trevas


Duas capas para dois livros na área da fantasia e ficção científica, com uma pitada de romance histórico (confusos?). A mesma composição centrada sobre um eixo vertical, com recurso a iconografia pouco usada mas que se adequava histórica ou esteticamente: um retrato do pintor holandês do século XVII Anthonie Palamedesz (1601-1673) para a capa de As Fogueiras de Deus de Patricia Anthony e um cavaleiro (que adaptei consideravelmente) da autoria do pintor maneirista Francesco Mazzola, il Parmigianino (1503-1540), para a capa de O Feitiço das Trevas da autora portuguesa A.P. Cabral. Neste usei ainda um fundo retirado de um dos quadro do romântico alemão Caspar David Friedrichs e uns centauros pintados por Piero da Cosimo.

BONFIRES AND DARKNESS
Two covers for two books under the joint labels of fantasy, science fiction and a bit of historical novel thrown into the bargain (confused?). The same layout centred over a vertical axis, with the help of some thankfully underused iconography that I happened to find fit either historically or aesthetically: a portrait by Dutch painter Anthonie Palamedesz (1601-1673) for Patricia Anthony’s God’s Fires (Fogueiras de Deus), and a knight (whom I considerably messed with) painted by Italian mannerist Francesco Mazzola, il Parmigianino (1503-1540) for the cover of Feitiço das Trevas (something like The Spell of Darkness) by Portuguese author A.P. Cabral. Romantic German painter Friedrich provided the eerie background for this one also, and a couple of centaurs painted by Piero da Cosimo came in quite handy (I threw in a couple of pterodactyls just for the fun of it, and they do their part quit stoically).

1 Comment

Filed under Capas, Da casa

Gare à la bête

Com o embalo do texto que escrevi para o próximo número da revista Bang, publicada pela Saída de Emergência, com o título Nova vaga, novas capas e que versa sobre o portfolio renovador de capas de Ficção Científica (ou Ficção Especulativa, como então foi moda dizer-se) de algumas editoras americanas e inglesas entre meados da década de 1960 e os inícios ou meados da década seguinte, pus-me a pesquisar portfolios de outras paragens dentro do género por esses anos. A capa em cima encontrei-a pelo método que mais me apraz praticar no ebay, o da pura casualidade. É da edição francesa de 1976 de The Atrocity Exhibition (La Foire aux Atrocités) de J.G. Ballard, publicada pela Champ Libre na sua colecção Chute Libre. A continuação da pesquisa levou-me a este site, onde pude encontrar quase todo o portfolio das capas desta série de FC que durou entre 1974 e 1978. A Champ Libre, fundada por Gérard Lebovici (assassinado em circunstâncias misteriosas em 1984) era uma editora radical, nascida dos événements de 1968, e, como muitos projectos editoriais movidos por esse espírito e por esses anos, parece que soube aliar um gosto visual ímpar à publicação de livros “difíceis”. Dentro do tipo de portfolios que procuro, ou seja, dentro da possível heterodoxia gráfica num género sempre tão conservador, estas capas da Champ Libre são do mais inesperado que pude encontrar. (Para além da questão das vendas, presumo mesmo que o fim da colecção poderá ter tido algo a ver com o arrojo de algumas delas….).

 

É de notar que os editores recorreram aqui à oferta de grande qualidade de ilustradores vindos ou ligados ao universo da BD francesa nesses anos, que são já anos pós-Pilote ou Métal Hurlant, revistas que criaram uma concentração de grandes desenhadores por metro quadrado ímpar em todo o mundo. Não é pois de admirar ver duas capas de Moebius (e que capas!…), e uma de Jacques Tardi (Le Bal des Schizos), antes deste se tornar um dos autores de referência da revista À Suivre.

Uma outra série publicada por outra editora pela mesma altura, a Contre Coup da Sagittaire, parece ter recorrido à mesma estrutura de layout e contenção tipográfica, ainda que preterindo a ilustração em favor do tratamento e tintagem de fotografias. É o mesmo programa de “choque” visual, mas com alguns excelentes resultados.

In English soon.

Leave a comment

Filed under Capas

Ballard paperback fetish


Ando há uns meses a ler Ballard nas edições paperback vintage dos anos 60 e 70, sobretudo as da Penguin (faltando-me ainda as outras que David Pelham fez para as reedições de 1974) e as da melhor fase da Panther (antes dos descalabro das suas capas para o Crash e o High Rise). Lamento apenas não ter encontrado uma boa (leia-se, com uma boa capa) edição vintage do Concrete Island, que acabei por ler numa edição recente da Picador. Algum possível fetichismo à parte, não creio que haja melhor forma de o ler, e estas capas terão mesmo sido o pico na difícil tarefa de ilustrar Ballard na sua  fase pré-mainstream.

A propósito disto, estou a preparar um texto para a revista Bang! (publicada pela Saída de Emergência) sobre a excelência de algumas das capas das edições de FC naquele curto período entre aproximadamente meados da década de 1960 e o início da década seguinte, em que algumas editoras de paperbacks e hardbacks abandonaram os clichés visuais do género e produziram capas que procuravam traduzir a essência experimental e contemporânea de alguma prosa de FC (ou, pelo menos, traduzir em termos visuais a urgência e a modernidade que se associavam à literatura especulativa por esses anos), com cruzamentos interessantes com o grafismo dos romances de vanguarda e as edições de poesia. Uma fusão e extensão de alguns textos já publicados aqui. Dada a ausência de qualquer bibliografia sobre o grafismo de FC nesse período, será um trabalho essencialmente (retro)especulativo, pelo que peço a vossa compreensão e benevolência.

In the past year, I’ve been collecting and reading Ballard’s vintage paperback editions from the 60s and 70s, mainly  Penguin’s (I’m still looking for the other three books in the 1974 reprints designed by David Pelham) and the best ones from Panther (before their appalling Crash and High Rise covers). I’m only sorry not to have been able to find a good edition (that is, one with a good cover) of Concrete Island, which I’ve read from a recent Picador edition. Some possible fetishism aside, I believe there’s no better way to read him, and these five covers can very well stand as the peak in the hard task of putting Ballard to pictures in his pre-mainstream years.

6 Comments

Filed under Capas

1968 (IV)


Esta é a fascinante capa de The man inside de W. Watts Biggers, tão enigmática que me levou a comprar um exemplar e a fazer dele o ponto de partida para um post. O uso elegante da Futura (cuja fama, já longeva, levara um novo empurrão graças a 2001 de Kubrick, que estreara em Abril desse ano), a colocação e composição do bloco de texto e a imagem hipnótica que usa o eixo central de forma perfeita são obra anónima para esta edição de Novembro de 1968.

Na sinopse da 1.ª página deste romance esquecido, podemos ler que se trata de “a Kafkaesque porsuit of purpose, the ceaseless quest for the meaning of life…, or a journey toward wisdom – in the manner of Hermann Hesse – that culminates oddly: satori achieved inside a robot.” Eis como um género saía do seu ghetto para contaminar o mainstream (apesar de a Ballantine ter uma linha de paperbacks de Ficção Científica, este título não era apresentado nessa colecção): um jovem romancista, mesmo valendo-se de referências highbrow (Kafka, Hesse), podia recorrer à FC sem correr o risco de um rótulo indesejado. Em 1968, os temas da ficção especulativa cruzavam-se e confundiam-se com o zeitgeist: uma década de obsessão lunar e espacial nos EUA (e no outro lado do muro), uma paranóia latente sobre o cataclismo nuclear, a incipiente ansiedade acerca da sobrepopulação e, incontornavelmente, o filme de Stanley Kubrick 2001: Odisseia no Espaço (que se seguia à sua adaptação de Nabokov: a FC era agora parte do cânone culto e já não uma diversão de drive-in) somavam-se à já enorme qualidade literária do género nos dois lados do Atlântico para fazer da FC um dos mais excitantes cantos criativos do panorama literário e cultural desses últimos anos de 60.

Que isso se reflectisse nas capas de algumas edições é, mais do que uma agradável constatação para o explorador gráfico, um efeito perfeitamente compreensível. As grandes editoras e imprints de Londres e Nova Iorque estavam permeáveis à onda de experimentação estética desse período, e o resultado é, por um lado, um redesenho profundo ou uma aposta em design e ilustrações menos tradicionais nas colecções de FC em paperback (Penguin e Panther em Londres, Ballantine em Nova Iorque), e por outro, e mais importante, uma elevação da aposta com a criação de séries exclusivas em hardback, de que o caso mais extraordinário é o Clube de FC da Doubleday, responsável pelas mais soberbas capas que o género conhece nesses anos e até meados dos anos 70.

Na Penguin, após a saída de Alan Aldridge, e sob a direcção de David Pelham, Franco Grignani redesenha por completo a colecção de FC e aparecem então as capas abstractas, que teriam uma enorme influência nas edições inglesas contemporâneas. A capa da edição da novela pós-apocalíptica Davy de Edgar Pangborn (1969, Prova A) é disso um exemplo notável pela sua simplicidade cromática e de composição.

(Prova A)

A Panther opta pela abstracção a partir de detalhes fotográficos, conseguindo efeitos inesperados e, em alguns casos, muito atraentes (Prova B). A influência de 2001 é visível na capa de The thirst quenchers de Rick Raphael (1968, Prova C) pela inversão das cores e sua saturação, a fazer lembrar os célebres minutos de efeitos visuais “far out” da viagem a Jupiter and beyond, influência a que os livros da Penguin também não escapam.

(Provas B e C)

Às serifadas da Penguin corresponde, na Panther, a ubíqua Helvetica em estrita caixa baixa, mas a grelha racionalizadora e o objectivo são comuns: a fuga ao excesso visual e à iconografia estafada do período precedente. Esse esforço é também notório nas edições do Science Fiction Book Club de Londres, e de uma forma mais radical e surpreendente: as capas, em edições hardback, são um misto das soluções mais abstractas da Penguin e mais fotográficas da Panther e o seu belíssimo preto-e-branco faz lembrar as capas de Alvin Lustig para a New Directions dos anos 40 e 50 (Prova D – edições de 1968 e 1969, imagens de capas de designers desconhecidos de livros que não possuo).

(Prova D)

Na América, o caso da Doubleday é ainda mais interessante. Apostando num clube de FC próprio, a editora lança edições hardback de grande qualidade, criando um enorme contraste com a tradição de livro de bolso pulp a que o género estava remetido (sob a chancela da Dell ou da Berkley, por exemplo). A grelha inglesa é aqui preterida em favor de uma contínua experimentação (tipo)gráfica, apostando em ilustradores que vêm refrescar o imaginário com óbvias referências à Pop Art, Op Art e ao Surrealismo (Prova E – edições de 1967 a 1970, imagens de capas de livros que não possuo). Olhando para elas, fico sem saber se se tratava de uma subtil manobra de contrabando cultural por parte de uma casa editorial grande e conservadora, apresentando a FC sob a capa do mainstream, ou de uma genuína confiança nos valores culturais intrínsecos ao género, mas creio que esta última hipótese será a certa. Nunca Philip K. Dick, por exemplo, teve nos EUA capas tão boas como as que a Doubleday fez para Do androids dream of electric sheep? ou Ubik. O pico desta fase é a edição em 1970 de The Atrocity Exhibition de J. G. Ballard, que Ronald Reagan, então governador da Califórnia, impediu que saisse para as livrarias e mandou destruir devido ao conto Why I want to fuck Ronald Reagan. A capa era de Michael Foreman e a edição continha desenhos feitos ad hoc por este ilustrador (é, hoje, e como se compreende, a edição de Ballard mais rara e valiosa: nem o próprio autor possui qualquer cópia – ver aqui). Era a assunção do surrealismo como constante referência na edição de FC, aqui bem escolhido (referência a Les Amoureux de Man Ray), decantado e articulado com o design da capa (tal como nas da Cape em Londres para os livros do mesmo autor).

(Prova E)

Este panorama refrescante na edição de FC ter-se-á mantido até à imposição (ou regresso sob novas roupagens), nos anos 70, da ilustração naturalista (em que o aerógrafo substitui lentamente os pincéis), preterindo a sugestão das texturas ou detalhes fotográficos abstractos e o jogo onírico de grafismo actualizado em favor de um imaginário muito pobre e reciclado da nostalgia pulp dos anos 50 (no cinema, e arriscando a extrema simplificação, diria que será o passo de 2001 ou Ameaça de Andrómeda – um filme graficamente soberbo, talvez o mais coeso, com o de Kubrick, nesse aspecto – para Encontros Imediatos ou Guerra das Estrelas).

Leave a comment

Filed under 1968, Capas