Tag Archives: Sebastião Rodrigues

Livros numa tarde de Verão

Eis uma raridade: um texto sobre “capas de livros”, cuja publicação se deveu talvez à maior placidez ou escassez noticiosa do mês de Janeiro de 1968, que permitiu resgatar para o suplemento  “Vida Literária e Artística” do Diário de Lisboa do dia 25 desse mês o que não passava de uma reflexão superficial sobre algumas capas de livros portugueses das últimas décadas feita numa tarde de Verão. Raridade em duplo sentido, pois, além de há 40 ou 50 anos serem praticamente inexistentes na imprensa textos sobre o grafismo dos livros, ou o que hoje se engloba sob a designação de “design editorial”, o texto em causa não opta por uma análise sincrónica de um “período dourado”, tendo antes uma preocupação diacrónica até ao tempo presente da sua factura (o final da década de 1960), mencionando nomes que eram então activos e que iam sendo conhecidos fora do círculo estritamente profissional. O seu autor foi Alfredo Betâmio de Almeida (1920-1985), pedagogo e especialista na disciplina de Desenho (e antigo professor de Paulo-Guilherme, como confessa no texto), sendo autor de alguns compêndios da mesma. Esta é uma transcrição integral desse texto, acompanhada, sempre que possível, das imagens das capas cujos títulos sejam mencionados.

“Um livro vale, como é evidente, pelo seu conteúdo, literário ou científico, mas é a sua capa que oferece o primeiro encanto ou desencanto ao observador fortuito. A beleza e a surpresa da capa têm força de atracção sobre o comprador.
Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, mas apenas porque numa tarde de Verão estendemos sobre uma mesa vários livros ’empurrados’ para uma casa de praia, e aos nossos olhos se encadeou, com relativa evidência, o gosto de nossos livros, decidimos tomar estas notas.

A capa mais antiga desta pequena e ocasional colecção é a de um livro de versos, formato de bolso, romântico ainda. Toda a capa é uma gravura de traço fino, impresso a preto, como não podia deixar de ser. O desenho nasce como um ramo de flores brancas, apertado por um laço, e que se sobrepõe a um ‘pergaminho’ meio enrolado, em que o desenhador pôs a data: 1893. Por cima do ramo ergue-se um anjo, com asas e tudo, mesmo uma flutuante fita. O anjinho, de braços erguidos, sustenta um livro e, por cima, o nome da obra poética: Myosotis, desenhado com ligeira obliquidade. Fecha a forma rectangular um enrolado de desenho muito frouxo. Aqui está a capa dos fins do século dezanove, de um gosto romântico-lírico, complexa e enriquecida, graficamente, à custa de raminhos.

Seleccionámos depois uma pequena brochura de 1896, com versos de João de Deus. A sua capa é nitidamente já um desenho de ‘Art Nouveau’ e assina-a Celso Hermínio, o grande caricaturista, cujas maiores obras se divulgaram em gritantes bilhetes postais, já coloridos. Os motivos são do reino das flores mas desenhados segundo a estilização da época: contorno apenas e um movimento de formas até encher as superfícies parcelares em que o todo fora dividido.

1902. Uma capa com verdes, lilás e prateado, de desenho muito seguro, patenteia mais nitidamente o gosto do princípio do século, gosto que alastrou em ‘cache-pots’ de cerâmica e móveis de saleta. Os fios de água, serpenteando, e as hastes das flores, ondulando, lá estão a encher os espaços. Não se descobre o nome do artista, mas é do estilo de Alonso (Santos-Silva). O livro chama-se Noites Perdidas, e é seu autor um nosso parente com dois ‘tês’ no nome e que chegava apresentado por Alberto Pimentel.

Verificámos que, deste período que precede a Primeira Grande Guerra, nos falta um exemplo característico. Julgamos que do citado Alonso, que viemos a conhecer de ‘Os Ridículos’, há capas típicas de estilo à maneira de Mucha.

Já a anunciar outra época, uma capa de Leitão de Barros. Maior simplicidade, mas ainda uma cornucópia que vomita flores. Capa bem composta, com letras desenhadas pelo autor. É um livro de Norberto de Araújo.

miniaturas

E depois as capas dos anos vinte, modernistas, inicialmente ainda algo cacógrafas, mas depois mais limpas, apelando frequentemente para uma forma simbólica, em vez de formas narrativas. Temos presente: A Lâmpada de Aladim, com capa de Ary, de 1922, edição da Seara Nova.

Agora a capa de António Soares, a do livro Leviana de António Ferro. E começam as capas ‘pequenos quadros”, tricromias bem impressas. Esta é, de um certo efeito, de composição correcta, elegante, em que um bom pintor manchou, de forma sintética e convincente, uma cabeça de mulher galante.

leviana

De 1924, uma capa da primeira fase de Bernardo Marques, de desenho simbólico. Da mesma época, contudo, temos uma capa de desenho geometrizado, capa futurista, em que se procuram tornar eloquentes as linhas curvas e rectas, em sua expressão pura. É uma primeira edição do futurista brasileiro Mário Andrade. E por esta altura há quadros de valor pelas capas, são seus mestres: Stuart, Barradas, Alberto de Sousa, etc.

Dos anos trinta têm direito a ser lembradas as capas de Roberto Nobre, em que se dá maior importância ao desenho das letras e a ilustração é ainda simbólica, com um tratamento técnico muito pessoal. Digamos: a linha com expressão de ‘golpe’ de pincel e a cor reduzida a uma só e ao preto. Uma selecção de reproduções de capas e ilustrações de Nobre seria tarefa meritória para os estudiosos que se interessam por encontrar exemplos de uma comunhão de forma, conteúdo e época.

Mas nos trinta surge um pintor estrangeiro que altera a estética das capas dos nossos livros, e abre caminho, por exemplo, a um José Rocha e a um José Espinho. Estamo-nos a referir a Fred Kradolfer e a capa que temos presente é a de O Meu Amor Pequenino de António Botto. Para Kradolfer, a capa é também um diminuto quadro, mas de contexto mais leve: aí surgem valores cromáticos ‘nuançados’ e toques preciosos, decisivos para o significado estético do trabalho. Aqui estão as florzinhas de efeito, neo-românticas, que tanto se expandiram. Já não é a cor plana da litografia, mas a cor modulada da tetracromia.

meu-amor-pequenino

Kradolfer ensinou aos artistas plásticos portugueses uma visão artística clara, decorativa, poética. E ensinou, particularmente, a cuidar do desenho das letras e a estar atento à sua importância. É o reflexo da lição das escolas suíças.

Poéticas, tapetes orientais, de um formalismo encadeado, essencialmente decorativo, eis as capas habilidosas de João Carlos. Temos presente uma de 1939.

Quando se publicará, em monografias especiais e… compráveis, a obra dos desenhadores portugueses, de um satírico Nogueira da Silva, oitocentista, ao decorativo João Carlos, de algum modo consequência de um Amadeo de Souza-Cardoso? E não se esqueça a família (Escarraecospe, D. Encrenca e Piú) de mestre Carlos Botelho.

Nos anos quarenta, um jovem do nosso tempo renova inteligentemente as capas dos livros. É Victor Palla. Os títulos têm agora um valor plástico essencial na composição e na leitura da capa. O desenho moderniza-se e ganha valores estéticos adequados à circunstância de ser para uma capa. Trabalhos com economia de cor, económicos portanto, mas também elegantes na sua linguagem expressiva e sugestiva.

Dos anos de cinquenta, apreciamos uma capa de Bernardo Marques, sóbria, algo da lição de Kradolfer, mas com estilo próprio. Atravessa a capa de A Missão de Ferreira de Castro, uma faixa que é um típico desenho aguarelado de B. Marques, de um impressionismo gráfico a que as manchas de cor avivam o ambiente e dão atmosfera.

A-Missao-Ferreira-de-Castro1

Fixemos agora uma capa de Pavia, bem característica, na sua comunicação tão clara e tão simples. Para Manuel Ribeiro de Pavia a capa era sempre branca, letras aos topos e, no centro, a sua ilustração. Nesta, sempre de forma rectangular, projectava Pavia, com a grossura de um ferro de prisão, o seu sonho, geralmente a ternura da maternidade ou a largueza dos olhos que querem ver o mar. E flores que lembravam as estrelas desse mar. E cor como a de um vitral, para o sol lhe bater. Meu bom ganhão desenraizado, que não esqueces. Mas ninguém se lembrou de ti na devida altura.

A seguir arrumamos três capas dos anos sessenta, da época das capas brilhantes, envernizadas. Uma de João Câmara Leme, essencialmente decorativa, de um jogo formal de surpresa, geometrizada, atraente e, portanto, ajustada ao seu fim. Outra de Paulo-Guilherme, nosso antigo aluno, elegante, preciosa no seu desenho requintado e de aparente facilidade. Paulo-Guilherme sabe fazer uma capa, o seu grafismo cresce, estética e naturalmente, dentro da superfície escolhida. Preferência pelos tons que fazem moda. E, por fim, uma capa de Sebastião Rodrigues, já numa atmosfera de Pop-Art. Requinte na dimensão e na colocação dos dizeres, dando aos espaços vazios um valor atractivo. Desenho e ‘colagens’ em comunhão ordeira.

E agora mesmo, as capas da Europa-América, neo-realistas – não sabemos porque surgiu esta palavra, que cremos certa – formalmente, ‘solarizações’, um contraponto de preto e branco sugerindo, pela colocação, espaço, atmosfera.

E amanhã? Capas cinéticas, capas luminosas ou talvez mesmo anti-capas.”

IMG_0508[1]

(Alfredo Betâmio de Almeida, “Capas de Livros”, in suplemento  “Vida Literária e Artística”, pp. 1-2,  Diário de Lisboa, 25.01.1968)

Leave a comment

Filed under Capas, Imprensa

“Neste momento o que realmente interessa é esta alegria”: quando os partidos não tinham vergonha dos seus símbolos

Camara-Leme-DL-230475_1

Num momento em que a confiança popular nos partidos políticos é tão baixa que, nos (poucos) cartazes que começam a aparecer nos espaços públicos anunciando as eleições autárquicas, os logos e outra identificação gráfica desses partidos (em especial os do chamado “arco governativo”: PSD, PS e CDS-PP) são quase imperceptíveis ou completamente omitidos, é curioso olhar para trás, para o ponto simetricamente oposto neste ciclo eleitoral. Dois dias antes das primeiras eleições legislativas após a Revolução de 1974, que decorreram precisamente a 25 de Abril de 1975, o Diário de Lisboa publicava os depoimentos de “dois artistas gráficos e um pintor professor das Belas-Artes: Sebastião Rodrigues, João Câmara Leme e Luís Filipe Abreu” sobre esse então novíssimo fenómeno visual nas cidades portuguesas: o cartaz político ou, mais precisamente, o cartaz partidário.

Camara-Leme-DL-230475_2

A imagem que ilustra o texto (intitulado “Murais em vez de paredes”) é perfeitamente clara, por contraste, quanto ao estado actual de quase “invisibilidade” identitária nos cartazes de campanha: as fotografias dos três deponentes sobrepõem-se a uma amálgama literal de cartazes colados numa parede de uma cidade nessa campanha de 1975, da qual ressaltam apenas os símbolos visuais dos partidos (o punho erguido do PS, a foice e o martelo do PCP e dos partidos na sua órbita, a seta ascendente “à direita” do PSD, etc).

A conversa (por constantes referências dos deponentes a respostas dos outros, mais parece terem estado os três reunidos do que terem gravado os seus depoimentos em separado) girou, essencialmente, em torno da então absoluta novidade que era o efeito visual da massa de cartazes colados caoticamente no ambiente urbano e a sua conjugação com o outro meio de propaganda política mais recorrente então, o mural (ou até o “grafitti”), não se analisando a campanha partido a partido, talvez por algum pudor em horas de reflexão nas vésperas do plebiscito (ainda que Sebastião Rodrigues refira que, dessa amálgama quase indistinta, sobressaiam “símbolos mais constantes e uma ou outra palavra”, e que “a foice e o martelo têm uma leitura clara e imediata”), e num contexto em que eram vistos como claramente mais importantes a “acumulação” e a “repetição” do que a qualidade individual de cada cartaz (Luís Filipe Abreu). Ainda assim, em jeito de remate, Câmara Leme não se coibiu de apontar o “baixo nível gráficos dos cartazes” e a “falta de critério de afixação”; o importante, contudo, era uma mobilização colectiva e uma comunicação política que, segundo ele e Luís Filipe Abreu, se concretizaram. Sebastião Rodrigues termina com uma nota de nítido optimismo: essa “falta de critério” apontada por Câmara Leme significava apenas que a elaboração e a fixação dos cartazes tinham fugido a “todos os esquemas tradicionais”, fuga que os tornou, no seu conjunto aparentemente caótico, numa “coisa viva e participante”.

“Neste momento o que realmente interessa é esta alegria”, resumira já ele umas linhas antes. Que ano esse, o de 1974/75, em que a palavra “alegria” se usava sem uma sombra de ironia num depoimento sobre uma campanha eleitoral…

(A transcrição do texto completo do artigo pode ser descarregada aqui).

(Addendum: excerto do filme Revolução de Ana Hatherly (1975), que funciona como perfeita ilustração desta conversa a três.)


Leave a comment

Filed under Cartazes

Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (X)

TRABALHO POÉTICO I e II
Carlos de Oliveira
Capa de Sebastião Rodrigues
Ed. Sá da Costa, Lisboa, 1978

E, no final dos anos 70, Sebastião Rodrigues é mais gráfico, mais abstracto ainda do que quando começou. Os trabalhos que foi desenvolvendo, sobretudo para a Fundação Calouste Gulbenkian, a atracção que nesses anos se sentia pelo grafismo suíço (frio, clássico, impessoal, elegante como Catherine Deneuve?) limpou, nesse imenso gráfico, todo o acidente calculado que surgia nos seus primeiros trabalhos (para a Ulisseia). É olharmos para esta capa e comparar com um dos Almanaques. Mas também Carlos de Oliveira, ao rever a sua poesia – ao retomar os seus romances e ao escrever esse Finisterra final que tanto nos inquieta ainda – fazia um trabalho parecido: indo ao essencial, despindo a prosa. Por isso, nunca mais posso ver a poesia de Carlos de Oliveira sem estas capas de Sebastião Rodrigues, sem este papel levemente amarelado e grosso, sem a mancha nítida da edição. Foi o breve recomeço da Sá da Costa (essa editora mítica de António Sérgio e Magalhães Godinho), ainda lá se juntou Augusto Abelaira. Mas a experiência durou pouco. Para lá do Saldanha, ninguém queria saber destes livros maiores – que ainda se encontram à venda, nunca esgotaram, embora tenha havido edições posteriores, na Dom Quixote, agora na Assírio e Alvim (mas eu, quando quero ler o Carlos, vou sempre a esta edição de há 32 anos – que se mantém nova e bela). Aqui, para esta poesia demorada de Carlos de Oliveira, Sebastião Rodrigues inventou uma calma intensa, aquele vermelho vivo, aquele negro, aquela lombada, aquele trabalho sobre as letras, aquela estranha moldura – e  o maravilhoso papel e a maravilhosa cola com que se uniram as páginas (dos dois volumes). Um encontro perfeito, a meu ver. Entre a clareza de Carlos de Oliveira e a lucidez (ética) de Sebastião Rodrigues.

Jorge Silva Melo

Leave a comment

Filed under Capas, Livros

Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (II)

AGOSTINHO
Alberto Moravia
tradução de Gomes Ferreira
capa de Sebastião Rodrigues sobre fotografia de Sena da Silva
Ulisseia, Lisboa 1959

Terá sido editado antes, mesmo no final dos anos 50, mas eu só o vi nalgumas montras (ou só mesmo na 111, por trás do balcão?) em meados dos anos 60, a edição tivera problemas com a censura (como outras desta editora fantástica). E só o comprei há meses, nos alfarrabistas da Rua Anchieta. São os anos de início do trabalho gráfico de Sebastião Rodrigues e, na colecção “Sucessos Literários” da Ulisseia, ele marcou o tempo usando as extraordinárias  fotografias (em altíssimo contraste) de Sena da Silva (seu amigo e meu, mestre do design nesta terrinha). Havia um romance de Faure da Rosa em que a capa era uma fotografia da actriz Isabel de Castro, nessa altura cunhada do Sena da Silva, mas eu perdi o livro (De Profundis, creio). Agostinho é um breve relato de uma adolescência, a descoberta do sexo, dos corpos – e eu creio que o li, pela primeira vez, em inglês, na Penguin, numa edição muito baratinha com mais outras novelas de Moravia. Rápido, breve (não é a mesma coisa), é um relato maravilhoso (e um tema a que os italianos tanto ligaram, do Pavese de A Praia à maravilhosa Morante da maravilhosa Ilha de Arturo). Esta é uma capa perfeita: reparem no uso que Sebastião Rodrigues faz dos cabos, da sombra que aumentou no interior dos barcos (sombra na alma das personagens?), reparem na leveza das letras, em como tudo é claro, meridiano, simples como a vida deveria ser. Na mesma Ulisseia, Sebastião Rodrigues, o génio, haveria de aventurar-se na aventura (sim: pleonasmo intencional) extraordinária do Almanaque, noutras capas mais gráficas ainda, para depois marcar a imagem da Gulbenkian dos anos 60. Ainda ontem vi o programa do Piccolo Teatro di Milano em Lisboa, só grafismo e que maravilhoso programa!  Sebastião Rodrigues ainda irá criar a BAB (a Biblioteca Arcádia de Bolso) mas começa a sair dos livros – e a Ulisseia, daí a pouco (e com Vitor Silva Tavares), passa para as imagens criadas por Espiga Pinto e logo depois Rocha de Sousa (belíssima capa, a do Gadda, O Conhecimento da Dor). Eu tenho particular carinho por estes primeiros trabalhos de Sebastião Rodrigues: porque adorava o Sena da Silva (o homem, a delicadeza, o artista, o convívio…), e adoro as suas fotografias. E gosto deste mano-a-mano que, modernos, eles conseguiram.

Jorge Silva Melo

Leave a comment

Filed under Capas, Livros

Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

dinossauroexmo1

Título
Dinossauro Excelentíssimo

Autor
José Cardoso Pires

Arranjo gráfico
Sebastião Rodrigues

Ilustrações
João Abel Manta

Edição
Bertrand, Abril de 1973 (5.ª)
106 páginas

Descrição
Um par de meses depois de ter avistado e assinalado um exemplar da edição da Europa-América de 1974 (já posterior à Revolução) de Dinossauro Excelentíssimo na Sá da Costa, ao Chiado, eis que os muito profissionais livreiros da Letra Livre me comunicam a existência de um exemplar da edição de 1973 da Bertrand. Devo dizer que, para além deste bom serviço de livraria, a celeridade do envio, o preço, o estado do livro e a minha particular afeição ao objecto fazem deste um dos melhores deals que já me aconteceram, comparável só a ter comprado há 2 anos, pelo ebay, um excelente exemplar do cartaz polaco de A Hard Day’s Night de Waldemar Swierzy por menos de 9.99 dólares.

Um capriccio (para pegar no termo exacto usado por Cardoso Pires) pensado e executado pelo seu autor quando em Londres em 1970, este livro, que em circunstâncias “normais” para o Marcelismo, não passaria acima do radar da censura, tornou-se um surpreendente êxito e soou como um toque de gongo a marcar o fim de uma era. Inicialmente publicado pela Arcádia (“uma editora falida, porque naquele momento publicar um retrato grotesco de Salazar era coisa que nenhuma casa ousaria”, segundo o próprio Cardoso Pires confessou no livro Cardoso Pires por Cardoso Pires – citação retirada de Livros Proibidos no Estado Novo, Assembleia da República, 2005, p. 54), a História quis sorrir a este livro e elevá-lo do Index censório quando a 28 de Novembro de 1972, em debate na Assembleia Nacional, e respondendo a uma acusação do deputado Miller Guerra de que não havia liberdade de expressão em Portugal, o deputado da “situação” Casal Ribeiro (“a espumar de raiva”) se lhe dirigiu, apontando precisamente a publicação de Dinossauro Excelentíssimo como prova da existência de liberdades. Facto consumado: a Censura estava “de mãos atadas”, e o livro passava a poder circular livremente. Esta curta parábola sobre um menino reptiliano e monstruoso da província que se torna no Tiranossaurus Rex de um país de pacotilha transformou-se, assim, num dos mais certeiros tiros de misericórdia no Estado Novo, tiro de suicídio também, com a contribuição desesperada da facção ultra conservadora na Assembleia Nacional.

Já sem a capa de fundo branco da Arcádia (que apenas pude ver em reproduções, uma delas no já citado Livros Proibidos no Estado Novo, mas que o João Ventura, orgulhoso detentor de um exemplar dessa edição, amavelmente digitalizou – Prova A), esta edição da Bertrand exibe uma sobrecapa de fundo negro, com a tipografia a abrir em branco e as linhas dos desenhos da coroa e cauda reptiliana abrindo a magenta, solução que se manteve nas edições subsequentes, até depois da Revolução. Confesso que a solução da Arcádia me agrada mais, e confere mais leveza à capa, jogando melhor com o tom jocoso do texto, mas ainda assim os olhos e as mãos dão conta do estranhíssimo e valioso objecto-livro em causa, uma relíquia dos tempos em que os livros eram também bombas de retardador, com efeitos reais e em curto espaço de tempo, e em que o som inaudível da abertura da capa era o equivalente mental ao clic da introdução do carregador de uma AK-47 (só um ano mais tarde as G3 poderiam reivindicar para si o estatuto de símbolos revolucionários…).

Prova A
dino_capa2

A ficha técnica é, também ela, um valor acrescido a este livro: a junção (creio que única) dos nomes de Sebastião Rodrigues (o máximo representante do modernismo gráfico da “escola americana” em Portugal, aqui como responsável pelo “arranjo”) e de João Abel Manta, como autor das ilustrações (algumas delas sendo do melhor que JAM fez por esses anos, o seu período de maior criatividade – Prova B), era o sinal de que o velório dos velhos tempos e o anúncio dos novos dias estava esteticamente mais do que bem apoiado em Portugal.

Prova B
dinossauroexmo2

dinossauroexmo3

3 Comments

Filed under Capas, Livros