“Resina de nudez fricção narcótica”

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Quando lançou este livro de poesia de Natália Correia em Abril de 1966, o editor Fernando Ribeiro de Mello estava em plena corrida à frente da censura, uma corrida que começara no seu primeiro livro, o Kama Sutra, lançado menos de um ano antes. Tinha, por então, já três livros proibidos pela censura, dois dos quais estariam no centro de outros tantos processos no Tribunal Plenário. O Vinho e a Lira não foi excepção: seria, em breve, o quarto livro da Afrodite a ser incluído no “Index” censório do Estado Novo. Seria seguido por mais duas edições proibidas, o que, no total, daria uma série até então inédita (e jamais repetida até ao fim do serviço de censura) de seis livros consecutivos de um pequeno editor proibidos no espaço de menos de ano e meio. Foi o suficiente para cimentar a fama do editor “maldito” que seria o sustento de Ribeiro de Mello até à Revolução de 1974.

De todas as edições dessa série “maldita” inicial, esta é aquela em que o editor mais apostou num conceito de “livro objecto”, reforçando a marca visual muito forte que fora já notória na Filosofia na Alcova ou na Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, e, com particular felicidade, nas fotografias de Sena da Silva para A Vénus de Kazabaika. Neste caso, essa marca está no acabamento: a tipografia discreta é um perfeito contraponto à surpresa táctil que é a superfície aveludada da capa cor de vinho, protegida por uma sobrecapa plástica, transparente e maleável, onde a tipografia da lombada se imprime: o contraste entre a lisura da sobrecapa e a textura da capa é, todo ele, uma homenagem sensorial à poesia da autora.

Ribeiro de Mello devia muito a Natália, que “amadrinhara” o arranque da sua carreira de editor, e parece claro que sentiu a necessidade de a compensar com estes requintes para um simples livro de poesia, algo por esses dias – tal como hoje, aliás – muito pouco usual. Perfeita ilustração dessa “fricção narcótica” do verso da autora, os requintes gráficos deste O Vinho e a Lira (um dos “pequenos livros esquecidos” da Afrodite) aproximavam verdadeiramente o editor daquele de quem o diziam “émulo”, Jean-Jacques Pauvert, que por então fabricava (com o designer Pierre Faucheux) pequenos livros que apostavam no prazer e na tensão tácteis, como as edições de Le Mort e Histoire de l’Oeil de Georges Bataille.

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