Uma entrevista

AS-interview

O John Dodds, da Amazing Stories, enviou-me uma série de perguntas sobre isto de produzir imagens para livros de FC, às quais dei as respostas que podem ler aqui. Inclui um muito simpático comentário do escritor Lavie Tidhar.

Leave a comment

Filed under Da casa, Imprensa

Ribeiro de Mello: ao fim de 23 anos, uma homenagem pública em Lisboa

Alguns frames e registo (filmado pelo Luís Rodrigues, a quem agradeço) da sessão da passada Quinta-feira, 21 de Maio, na Sociedade Guilherme Cossoul em Lisboa, em que, comigo e com o editor Vitor Silva Tavares na mesa, se lembrou e homenageou o editor Fernando Ribeiro de Mello (1941-1992) e a sua Afrodite, de cujo arranque se cumprem 50 anos por esta altura. A hora e meia da gravação foi ultrapassada em vinte minutos pela conversa, que correu muito bem e com o espaço do bar à pinha (cheguei a ver gente em pé junto ao balcão), mas o essencial está aqui preservado. Mais do que uma oportunidade para revelar detalhes de Editor Contra, o livro que preparo sobre a Afrodite, o que me parece mais mais digno de nota é que se tratou, se não estou em erro (e creio bem não estar, até pelo que me contou o próprio Vitor Silva Tavares), da primeira sessão pública de homenagem e evocação a uma das figuras mais emblemáticas de uma certa Lisboa ligada aos livros do último meio século, isto mais 23 anos após a sua morte, o que, bem vistas as coisas, até não surpreende tanto assim numa cidade que entrega bibliotecas municipais à gestão de juntas de freguesia e mantém encerrada mais de dois anos (e sem reabertura conhecida) uma importantíssima hemeroteca (cujo regime maravilhosamente liberal de consulta me permitiu aceder fácil e rapidamente a muitos e importantes registos de imprensa, coisa que, hoje, seria de todo impossível). Agradecimentos aos livreiros Ricardo Ribeiro, Débora Figueiredo e Fábio Daniel, e à direcção da Guilherme Cossoul.

SessaoCossoul7

SessaoCossoul6

SessaoCossoul8

SessaoCossoul1

SessaoCossoul3

SessaoCossoul4

SessaoCossoul5

SessaoCossoul2

Leave a comment

Filed under Capas, Eventos

Mais do que um editor na banheira: nos 50 anos da Afrodite

convite-21MAIO

Leave a comment

Filed under Eventos

Sobre João da Câmara Leme, entre o fácil e o difícil

CAMARALEME_7

20150505_190036

IMG_2465

Um amabilíssimo (e inesperado) convite do Jorge Silva há 3 anos para escrever um pequeno prefácio para o volume da Colecção D dedicado a João da Câmara Leme desembocou, finalmente, na apresentação do mesmo no dia 5 de Maio, na Biblioteca da INCM em Lisboa, na qual estive “na mesa”, junto ao responsável pela Silvadesigners!, o Dr. Duarte Azinheira (director da unidade de publicações da INCM) e o Dr. Rui Carp (presidente do Conselho de Administração da INCM). Depois da excelente introdução deste último (que entrou logo no terreno nostálgico e sentimental a que os trabalhos aqui reproduzidos remetem), comecei precisamente por me atirar de cabeça a essa contradição de ser “fácil” escrever ou falar sobre Câmara Leme e, ao mesmo tempo, “difícil” (ecoando um curiosíssimo paradoxo que este portefólio salienta: o de um capista tão dado aos jogos lúdicos formais, tão próximo, em certos casos, da abstração, ter sido também capaz de criar imagens icónicas para capas de livros de autores neo-realistas, conseguindo escapar incólume a essa guerra entre “formalistas” e “conteudistas”, agradando a ambos).

Se essa facilidade deriva da beleza e da harmonia de muitas destas peças gráficas (que, na verdade, pedem mais silêncio contemplador e fruidor do que verborreia), a dificuldade, quanto a mim, na altura de escrever esse texto, estava no facto de, apesar de ser um designer que morrera muito novo e há muito tempo (em 1983, com 53 anos), de ter andado os últimos dez anos da sua vida arredado da fama que recolhera durante a década de 1960 e, depois de morto, continuar, aparentemente, arredado do interesse dos exegetas (e o facto de este volume ser a primeira monografia que lhe é dedicada é prova cabal disso), apesar disso tudo, dizia, eu sentia e sabia que a vida e, sobretudo, a obra de João da Câmara Leme era um foco de paixões de muita gente, paixões que radicavam não apenas nesse rico solo de memórias da chegada dos primeiros livros às infâncias e adolescências de milhares de portugueses (o ubíquo Figuras e Figuronas, qualquer exemplar da “Biblioteca dos Rapazes” da Portugália – da qual um exemplar do Moby Dick me veio parar às mãos no final dos anos 70 – etc), mas também na admiração profissional, a começar na do meu “encomendador”: ouvir o Jorge Silva a falar sobre João da Câmara Leme não deixa qualquer dúvida acerca disso (não posso também deixar de referir um notável testemunho inédito de Henrique Cayatte que pude ler na preparação do texto, onde a mesma paixão e admiração são notórias, a que se acrescenta uma proximidade afectiva com Câmara Leme).

CAMARALEME_10

CAMARALEME_1

CAMARALEME_2

CAMARALEME_23

Devo confessar, aliás, que se há algo de que não me arrependo no trabalho desta edição é de ter dito “não” quando o Jorge Silva me pediu que escrevesse mais três legendas, sugerindo-lhe antes que, dada essa sua óbvia e antiga paixão pela obra do designer, e as qualidades de escrita que ele vinha demonstrando no “Almanaque Silva”, fosse ele a escrevê-las: daria ao livro uma maior modulação de estilo e, sobretudo, daria aos leitores o mesmo prazer que, pelo menos, eu sentia a ler os textos concisos e precisos do “Almanaque” (uma concisão e precisão que pudemos também testemunhar no seu depoimento na Terça-feira). Decisão arriscada, suicida, de um tipo que devia ter agradecido aos deuses uma tão rara oportunidade como esta em vez de andar a esticar a corda, dirão. Certo. Mas os leitores deste volume, os que já o leram, sabem que não podia ser de outra forma.

De resto, houve tempo para reforçar o que deixei exposto no prefácio: o facto de que um portefólio destes, raríssimo em qualquer país, não se faz por geração espontânea ou num vácuo estético, mas é antes fruto de uma relação, quando não de uma dialética complexa e diária entre um designer e um encomendador, e que, quando este tem as qualidades de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso proprietário da Portugália, pode muito bem acontecer uma década de trabalho intensivo e prodigioso como a que este livrinho documenta. Fernandes, que encomendara já serviço ao melhor capista em Portugal na década de 30 e 40, o suíço Fred Kradolfer, e convivera com a nata do Modernismo português, era um cliente erudito e experiente, certamente muito exigente, e mantê-lo satisfeito durante mais de 10 anos com um trabalho que ia das ilustrações infantis às capas dos ubíquos livros de bolso é um feito de feições hercúleas. Que alguém tão modesto, tão pacato, tão “contido”, quase invisível (se o compararmos o seu com o portefólio ecléctico dos seus companheiros de geração Sebastião Rodrigues ou Victor Palla), de uma modéstia quase artesanal, tenha conseguido fazê-lo é algo não menos digno de espanto. Nisso, na capacidade de levar às costas anos a fio toda a imagem gráfica de uma editora de prestígio, Câmara Leme está na mesma liga de contemporâneos como Albe Steiner da Feltrinelli, Celestino Piatti da alemã DTV ou Roy Kuhlman da Grove Press. Mais de 30 anos depois da sua morte, há finalmente um livro para o provar.

CAMARALEME_4

CAMARALEME_5

CAMARALEME_6

CAMARALEME_11

Leave a comment

Filed under Eventos, Livros

No dia 21, a dar ao dente pela Afrodite

No dia 21 de Maio, às 21:30 horas, na livraria “Sr.Teste/Ennui” da Guilherme Cossoul (a Santos), vai-se lembrar a Afrodite e Fernando Ribeiro de Mello, nos 50 anos do início das publicações daquela chancela com o Kamasutra e, em Dezembro de 1965, a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. A sessão terá o título genérico de “Mais do que um editor na banheira: celebrando os 50 anos da Afrodite”. O Vitor Silva Tavares vai estar comigo a dar ao dente pela Afrodite, e eu mostrarei detalhes do meu livro Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, que, se tudo correr bem, conto ter cá fora depois do Verão.

sessao21MAIO

Leave a comment

Filed under Eventos

Ainda as “capas”: a propósito de um artigo publicado na revista “Estante”

IMG_1219

Como será óbvio a quem passar os olhos por aqui, já há muito tempo que deixei (com raras excepções) de me concentrar em análises de ou em torno de “capas” de livros, em benefício crescente daquilo que realmente me interessa bem mais para além do “design”: o cruzamento deste com a edição, ou melhor, a sua necessária definição pela relação do seu produto com a encomenda de um editor e a personalidade deste e da sua editora. Em suma, meros portefólios ou monografias de “capas” começam a deixar-me indiferente se não trouxerem de arrasto à colação o contexto pessoal, editorial, social, histórico ou económico da relação encomendador/designer que lhes deu origem.
Ainda assim, contactado em Fevereiro por um membro da equipa editorial responsável pela revista Estante da FNAC com uma série de perguntas sobre “capas”, decidi responder-lhes. O resultado aparece publicado no último número da revista, o quinto (Primavera 2015) como uma montagem de várias respostas de outros contactados, o que é compreensível (dando-me até, acho, espaço a mais, tendo em conta a importância no mercado actual dos outros capistas). Ficam aqui as perguntas que me foram colocadas e as respostas que dei.

IMG_1221

IMG_1222

P: Concorda que o sucesso comercial de um livro depende em grande parte do design da capa? Porquê?
R: Não, de todo. Concordo que uma capa pode mobilizar alguma atenção que, por sua vez, se traduza em algumas vendas, mas entre a capa do livro e os olhos e a mão do potencial leitor/comprador opera uma máquina de distribuição e marketing, cada vez mais poderosa, que começa logo por determinar que livros esse leitor vai encontrar ao passar por uma montra ou entrar numa livraria, máquina onde o design não passa de uma peça secundária e, muitas vezes, dispensável. Há casos históricos em que editores reconheceram essa relação entre o design e o sucesso comercial (como, por exemplo, Alfred Knopf sobre as capas de W. A. Dwiggins ou James Laughlin sobre as de Alvin Lustig), e um bom design (não apenas da capa mas do conjunto do livro) pode “dignificar” ou dar alguma notoriedade a edições que careçam do apoio dessa máquina poderosa, mas, sem esta, o design pouco pode fazer: entregue à sua sorte, uma nova edição tem um tempo de vida em estante de livraria muito curto, pelo que a sua capa só será vista em reproduções na imprensa (no caso de uma rara recensão) ou, por acaso, na internet.

P: Uma boa capa (também) dá mais valor ao livro enquanto objecto de colecção?
R: No caso de livros “de luxo”, há muitos factores a ter em conta (no fundo, todo o aparato gráfico e técnico envolvido na sua produção: qualidade do papel, ilustrações, detalhes de acabamento, etc) e que pesam no sentido do desejo de compra de um “objecto de colecção”, mas em edições mais comerciais, como um livro de bolso ou os hoje mais vulgares “trade paperbacks”, a capa – que nestes livros mais modestos é a única prova de um investimento de design – pode ser decisiva na escolha, sobretudo se, no mercado, houver outras edições do mesmo título. Isso é notório no caso de livros mais antigos, alimentando até um certo “fetichismo” estético que considero perfeitamente salutar, desde que financeiramente controlado, bem entendido, e articulado com alguma pesquisa. O exemplo da capa de Germano Facetti para a edição da Penguin do “1984” de George Orwell, em 1962 (ver), é um que gosto de apresentar: se à simplicidade e à qualidade gráfica evidentes dessa capa juntarmos o conhecimento do contexto da mesma (no momento crucial em que a Penguin renovava a imagem dos seus livros de bolso sob a batuta do mesmo Facetti) e do facto de Facetti ter sido prisioneiro no campo de concentração de Mauthausen (testemunha em primeira mão, portanto, do que uma poderosa ditadura militar, como a que Orwell descreve, pode fazer a um indivíduo), teremos de concluir que dificilmente haverá outra edição melhor para ler aquele texto (ver). Não se trata de um objecto bibliográfico “de luxo”, pelo contrário, mas a sua capa reúne esses factores decisivos e acaba por ter uma força magnética irresistível.
Um exemplo nacional poderia ser a capa da Antologia do Humor Português, edição da Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello de 1969: um livro de características então inéditas e sui generis (mais de 1000 páginas, 1 quilo de peso), ao qual a capa de António Sena da Silva (a célebre “dentadura” sobre fundo laranja) emprestou a dose certa de engodo visual que elevou o livro de ser, possivelmente, apenas um objecto bizarro e do agrado de uma pequena “clique” a um objecto popular e icónico (e uma das mais bem sucedidas edições do final da década de 1960 – ver).

P: O que constitui uma boa capa?
R: Para além das necessárias ligações ao texto que essa capa anuncia – mais ou menos evidentes, mais ou menos sólidas, baseadas numa maior ou menor leitura desse texto – acaba-se sempre por regressar à famosa fórmula dos Pós-Impressionistas: no fundo, trata-se de uma conjugação harmónica de letras, imagens de variada proveniência e uma paleta de cores num plano estritamente delimitado. A essa fórmula essencial podemos juntar uns pós de “estilo” (uma palavra que o design modernista tentou transformar em anátema, por ir contra o seu programa de fria racionalidade), estilo não apenas do designer mas também da editora: acredito que um editor com bom “olho” não precisa de ter apenas um designer a trabalhar consigo (como nas parcerias, aliás notáveis, de Sebastião Rodrigues com a Ulisseia ou Câmara Leme com a Portugália); pode variar, sem que o seu catálogo perca em estilo ou “personalidade” visual (veja-se, por exemplo, o caso da Estampa o da Arcádia na década de 1970, ou o da já citada Afrodite nos seus primeiros 10 ano de existência).
Apesar da moda do regresso da ilustração às capas, também não acredito que uma boa capa dependa de alguém que saiba desenhar: Massin, por exemplo, não sabe e foi um dos designers mais revolucionários da história da edição. Assim, ao possível “estilo” do designer em questão, eu preferiria usar o termo “inteligência visual” e dar o exemplo da uma das capas favoritas do mesmo Massin, a da edição da Penguin de In Cold Blood de Truman Capote (concebida por David Pelham em 1970): sobre um fundo branco, o título e o nome do autor correm em cinco linhas, substituindo-se os quatro ós por quatro manchas de sangue que representam as quatro vítimas da história (um casal de meia idade e os seus dois filhos menores). É um exemplo de como uma conjugação muito simples e inteligente de elementos díspares (“arriscados” até, como as gotas de sangue, que se prestam a abusos e efeitos gratuitos) consegue criar uma ligação exacta, subtil, íntima mas dramática com o texto (ver).

P: Todos os livros merecem o mesmo esforço na elaboração do design da capa?
R: Se porventura acharmos que um certo livro não merece o esforço, o cliente, esse, merecê-lo-á sempre.

Leave a comment

Filed under Capas, Da casa

Apresentação de “João da Câmara Leme” na Colecção D

CAMARALEME3D

Mais contida na quantidade de lançamentos anuais (a crise assim o obriga e a todos), a Colecção D da INCM (orientada e editada por Jorge Silva da Silvadesigners!) voltou com um dos designers e capistas “clássicos” mais esquecidos em livro, João da Câmara Leme (1930-1983). Como afirmo no pequenino texto de introdução, e dada a sua importância como capista e ilustrador e a sua ligação a uma das melhores editoras nacionais ao longo da década “crucial” de 1960 (a Portugália de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso homem de negócios mas também erudito financiador da Contemporânea de José Pacheko e coleccionador de Almada), é incrível que este nono volume da colecção seja a primeira monografia que lhe é dedicada. Só por esse facto, e pela beleza das capas, ilustrações e outro material reproduzido, este será certamente um dos mais importantes livros da colecção.
Fruto de um destes acasos e sortes que ainda ocorrem, o muito amável convite que o Jorge Silva me fez deu nesse pequeno texto de introdução em que tentei lembrar que um grande designer não aparece por geração espontânea, dependendo antes das circunstâncias e, sobretudo, da relação com certos clientes, sendo que a relação Câmara Leme/Fernandes foi uma dessas relações que deu frutos a ambas as partes e à qual o designer deve o seu enorme e excelente portefólio de capista e ilustrador ao longo daquela década.

A apresentação é no dia 5 de Maio na Biblioteca da INCM em Lisboa (Casa da Moeda, Rua da Escola Politécnica, 135), às 18:30 horas.

Leave a comment

Filed under Da casa, Livros