Ribeiro de Mello: ao fim de 23 anos, uma homenagem pública em Lisboa

Alguns frames e registo (filmado pelo Luís Rodrigues, a quem agradeço) da sessão da passada Quinta-feira, 21 de Maio, na Sociedade Guilherme Cossoul em Lisboa, em que, comigo e com o editor Vitor Silva Tavares na mesa, se lembrou e homenageou o editor Fernando Ribeiro de Mello (1941-1992) e a sua Afrodite, de cujo arranque se cumprem 50 anos por esta altura. A hora e meia da gravação foi ultrapassada em vinte minutos pela conversa, que correu muito bem e com o espaço do bar à pinha (cheguei a ver gente em pé junto ao balcão), mas o essencial está aqui preservado. Mais do que uma oportunidade para revelar detalhes de Editor Contra, o livro que preparo sobre a Afrodite, o que me parece mais mais digno de nota é que se tratou, se não estou em erro (e creio bem não estar, até pelo que me contou o próprio Vitor Silva Tavares), da primeira sessão pública de homenagem e evocação a uma das figuras mais emblemáticas de uma certa Lisboa ligada aos livros do último meio século, isto mais 23 anos após a sua morte, o que, bem vistas as coisas, até não surpreende tanto assim numa cidade que entrega bibliotecas municipais à gestão de juntas de freguesia e mantém encerrada mais de dois anos (e sem reabertura conhecida) uma importantíssima hemeroteca (cujo regime maravilhosamente liberal de consulta me permitiu aceder fácil e rapidamente a muitos e importantes registos de imprensa, coisa que, hoje, seria de todo impossível). Agradecimentos aos livreiros Ricardo Ribeiro, Débora Figueiredo e Fábio Daniel, e à direcção da Guilherme Cossoul.

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Mais do que um editor na banheira: nos 50 anos da Afrodite

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Sobre João da Câmara Leme, entre o fácil e o difícil

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Um amabilíssimo (e inesperado) convite do Jorge Silva há 3 anos para escrever um pequeno prefácio para o volume da Colecção D dedicado a João da Câmara Leme desembocou, finalmente, na apresentação do mesmo no dia 5 de Maio, na Biblioteca da INCM em Lisboa, na qual estive “na mesa”, junto ao responsável pela Silvadesigners!, o Dr. Duarte Azinheira (director da unidade de publicações da INCM) e o Dr. Rui Carp (presidente do Conselho de Administração da INCM). Depois da excelente introdução deste último (que entrou logo no terreno nostálgico e sentimental a que os trabalhos aqui reproduzidos remetem), comecei precisamente por me atirar de cabeça a essa contradição de ser “fácil” escrever ou falar sobre Câmara Leme e, ao mesmo tempo, “difícil” (ecoando um curiosíssimo paradoxo que este portefólio salienta: o de um capista tão dado aos jogos lúdicos formais, tão próximo, em certos casos, da abstração, ter sido também capaz de criar imagens icónicas para capas de livros de autores neo-realistas, conseguindo escapar incólume a essa guerra entre “formalistas” e “conteudistas”, agradando a ambos).

Se essa facilidade deriva da beleza e da harmonia de muitas destas peças gráficas (que, na verdade, pedem mais silêncio contemplador e fruidor do que verborreia), a dificuldade, quanto a mim, na altura de escrever esse texto, estava no facto de, apesar de ser um designer que morrera muito novo e há muito tempo (em 1983, com 53 anos), de ter andado os últimos dez anos da sua vida arredado da fama que recolhera durante a década de 1960 e, depois de morto, continuar, aparentemente, arredado do interesse dos exegetas (e o facto de este volume ser a primeira monografia que lhe é dedicada é prova cabal disso), apesar disso tudo, dizia, eu sentia e sabia que a vida e, sobretudo, a obra de João da Câmara Leme era um foco de paixões de muita gente, paixões que radicavam não apenas nesse rico solo de memórias da chegada dos primeiros livros às infâncias e adolescências de milhares de portugueses (o ubíquo Figuras e Figuronas, qualquer exemplar da “Biblioteca dos Rapazes” da Portugália – da qual um exemplar do Moby Dick me veio parar às mãos no final dos anos 70 – etc), mas também na admiração profissional, a começar na do meu “encomendador”: ouvir o Jorge Silva a falar sobre João da Câmara Leme não deixa qualquer dúvida acerca disso (não posso também deixar de referir um notável testemunho inédito de Henrique Cayatte que pude ler na preparação do texto, onde a mesma paixão e admiração são notórias, a que se acrescenta uma proximidade afectiva com Câmara Leme).

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Devo confessar, aliás, que se há algo de que não me arrependo no trabalho desta edição é de ter dito “não” quando o Jorge Silva me pediu que escrevesse mais três legendas, sugerindo-lhe antes que, dada essa sua óbvia e antiga paixão pela obra do designer, e as qualidades de escrita que ele vinha demonstrando no “Almanaque Silva”, fosse ele a escrevê-las: daria ao livro uma maior modulação de estilo e, sobretudo, daria aos leitores o mesmo prazer que, pelo menos, eu sentia a ler os textos concisos e precisos do “Almanaque” (uma concisão e precisão que pudemos também testemunhar no seu depoimento na Terça-feira). Decisão arriscada, suicida, de um tipo que devia ter agradecido aos deuses uma tão rara oportunidade como esta em vez de andar a esticar a corda, dirão. Certo. Mas os leitores deste volume, os que já o leram, sabem que não podia ser de outra forma.

De resto, houve tempo para reforçar o que deixei exposto no prefácio: o facto de que um portefólio destes, raríssimo em qualquer país, não se faz por geração espontânea ou num vácuo estético, mas é antes fruto de uma relação, quando não de uma dialética complexa e diária entre um designer e um encomendador, e que, quando este tem as qualidades de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso proprietário da Portugália, pode muito bem acontecer uma década de trabalho intensivo e prodigioso como a que este livrinho documenta. Fernandes, que encomendara já serviço ao melhor capista em Portugal na década de 30 e 40, o suíço Fred Kradolfer, e convivera com a nata do Modernismo português, era um cliente erudito e experiente, certamente muito exigente, e mantê-lo satisfeito durante mais de 10 anos com um trabalho que ia das ilustrações infantis às capas dos ubíquos livros de bolso é um feito de feições hercúleas. Que alguém tão modesto, tão pacato, tão “contido”, quase invisível (se o compararmos o seu com o portefólio ecléctico dos seus companheiros de geração Sebastião Rodrigues ou Victor Palla), de uma modéstia quase artesanal, tenha conseguido fazê-lo é algo não menos digno de espanto. Nisso, na capacidade de levar às costas anos a fio toda a imagem gráfica de uma editora de prestígio, Câmara Leme está na mesma liga de contemporâneos como Albe Steiner da Feltrinelli, Celestino Piatti da alemã DTV ou Roy Kuhlman da Grove Press. Mais de 30 anos depois da sua morte, há finalmente um livro para o provar.

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No dia 21, a dar ao dente pela Afrodite

No dia 21 de Maio, às 21:30 horas, na livraria “Sr.Teste/Ennui” da Guilherme Cossoul (a Santos), vai-se lembrar a Afrodite e Fernando Ribeiro de Mello, nos 50 anos do início das publicações daquela chancela com o Kamasutra e, em Dezembro de 1965, a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. A sessão terá o título genérico de “Mais do que um editor na banheira: celebrando os 50 anos da Afrodite”. O Vitor Silva Tavares vai estar comigo a dar ao dente pela Afrodite, e eu mostrarei detalhes do meu livro Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, que, se tudo correr bem, conto ter cá fora depois do Verão.

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Ainda as “capas”: a propósito de um artigo publicado na revista “Estante”

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Como será óbvio a quem passar os olhos por aqui, já há muito tempo que deixei (com raras excepções) de me concentrar em análises de ou em torno de “capas” de livros, em benefício crescente daquilo que realmente me interessa bem mais para além do “design”: o cruzamento deste com a edição, ou melhor, a sua necessária definição pela relação do seu produto com a encomenda de um editor e a personalidade deste e da sua editora. Em suma, meros portefólios ou monografias de “capas” começam a deixar-me indiferente se não trouxerem de arrasto à colação o contexto pessoal, editorial, social, histórico ou económico da relação encomendador/designer que lhes deu origem.
Ainda assim, contactado em Fevereiro por um membro da equipa editorial responsável pela revista Estante da FNAC com uma série de perguntas sobre “capas”, decidi responder-lhes. O resultado aparece publicado no último número da revista, o quinto (Primavera 2015) como uma montagem de várias respostas de outros contactados, o que é compreensível (dando-me até, acho, espaço a mais, tendo em conta a importância no mercado actual dos outros capistas). Ficam aqui as perguntas que me foram colocadas e as respostas que dei.

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P: Concorda que o sucesso comercial de um livro depende em grande parte do design da capa? Porquê?
R: Não, de todo. Concordo que uma capa pode mobilizar alguma atenção que, por sua vez, se traduza em algumas vendas, mas entre a capa do livro e os olhos e a mão do potencial leitor/comprador opera uma máquina de distribuição e marketing, cada vez mais poderosa, que começa logo por determinar que livros esse leitor vai encontrar ao passar por uma montra ou entrar numa livraria, máquina onde o design não passa de uma peça secundária e, muitas vezes, dispensável. Há casos históricos em que editores reconheceram essa relação entre o design e o sucesso comercial (como, por exemplo, Alfred Knopf sobre as capas de W. A. Dwiggins ou James Laughlin sobre as de Alvin Lustig), e um bom design (não apenas da capa mas do conjunto do livro) pode “dignificar” ou dar alguma notoriedade a edições que careçam do apoio dessa máquina poderosa, mas, sem esta, o design pouco pode fazer: entregue à sua sorte, uma nova edição tem um tempo de vida em estante de livraria muito curto, pelo que a sua capa só será vista em reproduções na imprensa (no caso de uma rara recensão) ou, por acaso, na internet.

P: Uma boa capa (também) dá mais valor ao livro enquanto objecto de colecção?
R: No caso de livros “de luxo”, há muitos factores a ter em conta (no fundo, todo o aparato gráfico e técnico envolvido na sua produção: qualidade do papel, ilustrações, detalhes de acabamento, etc) e que pesam no sentido do desejo de compra de um “objecto de colecção”, mas em edições mais comerciais, como um livro de bolso ou os hoje mais vulgares “trade paperbacks”, a capa – que nestes livros mais modestos é a única prova de um investimento de design – pode ser decisiva na escolha, sobretudo se, no mercado, houver outras edições do mesmo título. Isso é notório no caso de livros mais antigos, alimentando até um certo “fetichismo” estético que considero perfeitamente salutar, desde que financeiramente controlado, bem entendido, e articulado com alguma pesquisa. O exemplo da capa de Germano Facetti para a edição da Penguin do “1984” de George Orwell, em 1962 (ver), é um que gosto de apresentar: se à simplicidade e à qualidade gráfica evidentes dessa capa juntarmos o conhecimento do contexto da mesma (no momento crucial em que a Penguin renovava a imagem dos seus livros de bolso sob a batuta do mesmo Facetti) e do facto de Facetti ter sido prisioneiro no campo de concentração de Mauthausen (testemunha em primeira mão, portanto, do que uma poderosa ditadura militar, como a que Orwell descreve, pode fazer a um indivíduo), teremos de concluir que dificilmente haverá outra edição melhor para ler aquele texto (ver). Não se trata de um objecto bibliográfico “de luxo”, pelo contrário, mas a sua capa reúne esses factores decisivos e acaba por ter uma força magnética irresistível.
Um exemplo nacional poderia ser a capa da Antologia do Humor Português, edição da Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello de 1969: um livro de características então inéditas e sui generis (mais de 1000 páginas, 1 quilo de peso), ao qual a capa de António Sena da Silva (a célebre “dentadura” sobre fundo laranja) emprestou a dose certa de engodo visual que elevou o livro de ser, possivelmente, apenas um objecto bizarro e do agrado de uma pequena “clique” a um objecto popular e icónico (e uma das mais bem sucedidas edições do final da década de 1960 – ver).

P: O que constitui uma boa capa?
R: Para além das necessárias ligações ao texto que essa capa anuncia – mais ou menos evidentes, mais ou menos sólidas, baseadas numa maior ou menor leitura desse texto – acaba-se sempre por regressar à famosa fórmula dos Pós-Impressionistas: no fundo, trata-se de uma conjugação harmónica de letras, imagens de variada proveniência e uma paleta de cores num plano estritamente delimitado. A essa fórmula essencial podemos juntar uns pós de “estilo” (uma palavra que o design modernista tentou transformar em anátema, por ir contra o seu programa de fria racionalidade), estilo não apenas do designer mas também da editora: acredito que um editor com bom “olho” não precisa de ter apenas um designer a trabalhar consigo (como nas parcerias, aliás notáveis, de Sebastião Rodrigues com a Ulisseia ou Câmara Leme com a Portugália); pode variar, sem que o seu catálogo perca em estilo ou “personalidade” visual (veja-se, por exemplo, o caso da Estampa o da Arcádia na década de 1970, ou o da já citada Afrodite nos seus primeiros 10 ano de existência).
Apesar da moda do regresso da ilustração às capas, também não acredito que uma boa capa dependa de alguém que saiba desenhar: Massin, por exemplo, não sabe e foi um dos designers mais revolucionários da história da edição. Assim, ao possível “estilo” do designer em questão, eu preferiria usar o termo “inteligência visual” e dar o exemplo da uma das capas favoritas do mesmo Massin, a da edição da Penguin de In Cold Blood de Truman Capote (concebida por David Pelham em 1970): sobre um fundo branco, o título e o nome do autor correm em cinco linhas, substituindo-se os quatro ós por quatro manchas de sangue que representam as quatro vítimas da história (um casal de meia idade e os seus dois filhos menores). É um exemplo de como uma conjugação muito simples e inteligente de elementos díspares (“arriscados” até, como as gotas de sangue, que se prestam a abusos e efeitos gratuitos) consegue criar uma ligação exacta, subtil, íntima mas dramática com o texto (ver).

P: Todos os livros merecem o mesmo esforço na elaboração do design da capa?
R: Se porventura acharmos que um certo livro não merece o esforço, o cliente, esse, merecê-lo-á sempre.

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Apresentação de “João da Câmara Leme” na Colecção D

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Mais contida na quantidade de lançamentos anuais (a crise assim o obriga e a todos), a Colecção D da INCM (orientada e editada por Jorge Silva da Silvadesigners!) voltou com um dos designers e capistas “clássicos” mais esquecidos em livro, João da Câmara Leme (1930-1983). Como afirmo no pequenino texto de introdução, e dada a sua importância como capista e ilustrador e a sua ligação a uma das melhores editoras nacionais ao longo da década “crucial” de 1960 (a Portugália de Agostinho Fernandes, o todo-poderoso homem de negócios mas também erudito financiador da Contemporânea de José Pacheko e coleccionador de Almada), é incrível que este nono volume da colecção seja a primeira monografia que lhe é dedicada. Só por esse facto, e pela beleza das capas, ilustrações e outro material reproduzido, este será certamente um dos mais importantes livros da colecção.
Fruto de um destes acasos e sortes que ainda ocorrem, o muito amável convite que o Jorge Silva me fez deu nesse pequeno texto de introdução em que tentei lembrar que um grande designer não aparece por geração espontânea, dependendo antes das circunstâncias e, sobretudo, da relação com certos clientes, sendo que a relação Câmara Leme/Fernandes foi uma dessas relações que deu frutos a ambas as partes e à qual o designer deve o seu enorme e excelente portefólio de capista e ilustrador ao longo daquela década.

A apresentação é no dia 5 de Maio na Biblioteca da INCM em Lisboa (Casa da Moeda, Rua da Escola Politécnica, 135), às 18:30 horas.

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Sete capas da Afrodite

Usando o pretexto de um destes anódinos (e algo escusados) “Dias Mundiais” (o do Livro, neste caso), e a propósito da exposição “Cólofon” de 500 capas de livros portugueses escolhidas por José Bártolo e Jorge Silva, e que abre no dia 8 de Maio no Museu Quinta de Santiago em Matosinhos, eis uma escolha de algumas capas do catálogo da Afrodite que tomei a liberdade de sugerir ao Jorge Silva há alguns meses, quando soube do projecto. Na altura, ele tinha já “pré-seleccionado”, digamos assim, as capas das edições de Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1971), Apocalipse do Apóstolo João (1972) e As Crianças Falam (1973). As capas que seguem abaixo estão ordenadas cronologicamente. Note-se que não sei sequer se elas foram escolhidas pelos curadores ou não: tratou-se apenas de simples sugestões.

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Começo pela capa de Rocha de Sousa para a Antologia do Conto Fantástico Português (1967). O ano de 1967 foi aziago para Fernando Ribeiro de Mello: o processo da edição da Filosofia na Alcova de Sade chegara ao fim com uma dura condenação, e os custos do mesmo acrescidos à necessidade de não dar muito nas vistas fizeram com que ele apenas lançasse, lá bem para o fim do ano, este livro, ainda por cima mal recebido pela crítica. Se a antologia enferma de falhas na escolha dos contos e sua justificação ou não, o certo é que, para além do seu ineditismo (nunca antes se publicara uma antologia de contos portugueses dentro do género fantástico), a edição contou com uma das melhores capas de todo o catálogo da Afrodite, na composição, na factura do desenho, no arranjo tipográfico (com o uso elegante da Clarendon em caixa baixa), na sábia adição do vermelho como segunda cor, deixando-nos a lamentar a ausência de um conjunto de ilustrações a acompanhar a capa e de outras colaborações suas com a editora.

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Depois das atribulações com a polícia e a justiça (mas quando ainda tinha um outro processo a decorrer, o da Antologia da Poesia Erótica e Satírica, que só terminaria em 1970), Ribeiro de Mello reinventou-se como editor de livros infantis, para o qual foi essencial a colaboração com Maria Alberta Menéres, uma poetisa que começava então a dar os primeiros passos na literatura para crianças. O arranque da Cabra-Cega, a colecção infantil da Afrodite, dá-se com este Conversas com Versos (1968), que exibia esta soberba capa de Manuel Baptista e, no interior, algumas ilustrações a pincel, engenhosas de simplicidade, do mesmo estilo. Tal como Rocha de Sousa, Baptista expusera na Galeria Quadrante (por então, uma das novas galerias em ascensão em Lisboa); uma vez que a livraria ligada à galeria distribuía os livros da Afrodite, é bem possível que o editor tivesse aí o ponto de encontro para “arrebanhar” estes jovens artistas para o seu catálogo. Na Cabra-Cega publicarão as suas primeiras ilustrações em livros artistas como Fernando Calhau, Eduardo Batarda ou Julião Sarmento.

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A capa de Sena da Silva para a Antologia do Humor Português (1969) é não só uma das mais icónicas de todo o catálogo da Afrodite, como está associada (tendo certamente contribuído para tal) a uma das edições mais famosas da viragem da década de 60 para a de 70 e uma das mais bem sucedidas financeiramente de Fernando Ribeiro de Mello. Estendendo a imagem da “dentadura” a dezenas de homens-sanduíche e a eléctricos da Carris, a campanha de promoção desta antologia foi um marco incontornável da Lisboa que vivia a “primavera marcelista” e rompeu com a então muito tímida e pacata tradição de lançamentos de livros. A edição serviu também de “montra” para quatro jovens artistas e ilustradores em início de carreira: Carlos Ferreiro, João Machado, José Rodrigues e Eduardo Batarda, em particular este, com dezenas de brilhantes pequenos desenhos a ilustrar o índice temático.

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Uma das melhores e mais prestigiadas colecções da Afrodite, lançada no auge da renovada fama após a Antologia do Humor Português, foi a dos Clássicos, dedicada à reedição de obras antigas (anteriores ao século XIX no mínimo) e algo esquecidas. O esquema gráfico da colecção foi concebido por Paulo-Guilherme e o primeiro volume foi este Arte de Furtar (1970). Tal como na Cabra-Cega, teria sido difícil começar melhor, sobretudo no que às ilustrações diz respeito. O estilo ácido e provocador dos pequenos bonecos grotescos de Eduardo Batarda, onde abundam as caveiras a casquinar, encaixa perfeitamente neste ensaio do século XVII sobre as mil e uma formas em que a corrupção e o desvio de dinheiro se insinuaram no ethos ibérico. Destacar apenas a capa num livro tão bem pensado e feito, em que o desenho de Batarda tem uma tal importância na imposição de um ambiente e uma “cenografia”  (a começar nas guardas), é, por si só, um exercício de mutilação. Que Eduardo Batarda não tenha feito depois uma carreira como ilustrador (para além de três outros livros da Afrodite – Histórias com Juízo de Mário Castrim, em 1969 na colecção Cabra-Cega, o Manual dos Inquisidores de 1972 e a Antologia de Poesia Erótica Latina de 1976 – o seu nome está apenas ligado a outra pequena grande edição, a das Fábulas Fantásticas de Ambrose Bierce, publicadas pela Estampa em 1971) é daqueles mistérios insondáveis do “mercado” do livro em Portugal.

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Um ano após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Ribeiro de Mello anunciava para a Feira do Livro de 1975 a reedição renovada de um dos seus dois livros condenados pela justiça do Estado Novo, a Filosofia na Alcova do Marquês de Sade. Com nova tradução, o livro apresentava-se também com novas ilustrações, desta feita por um dos ilustradores mais associados à Afrodite na década de 1970 (formando, com Eduardo Batarda e Henrique Manuel, o núcleo da imagem da editora nesses anos) e um dos mais notáveis também: Martim Avillez. Este dera-se a conhecer na espantosa edição do Livro de S. Cipriano em 1971 e subira a parada no Apocalipse do Apóstolo João no ano seguinte. A Filosofia foi o seu último livro para a Afrodite antes de emigrar para Nova York no final da década, e o seu trabalho esteve ao mesmo nível dos anteriores. Particularmente curiosa, contudo, é esta capa quase “minimalista” (não fosse toda a textura da factura manual do artista, até na tipografia), que recusa a exibição do que nas páginas se mostra e opta por ostentar este simples colchão cor-de-rosa (que se vê até de perfil na lombada). Para um artista ocasionalmente dado à grandiloquência e à minúcia obsessiva na representação do grotesco e do fantástico, esta simples solução espanta e encanta, até pelo inesperado.

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Se, na segunda metade dos anos 70, José Martins Garcia substituiu, de certa forma, a figura de Natália Correia como intelectual tutelar, autor nacional de referência e colaborador regular do editor da Afrodite, Nuno Amorim foi o último colaborador regular na área visual, do simples design das capas à ilustração pontual (de que é exemplo o seu brilhante trabalho para O Super Macho de Alfred Jarry, em 1975). O seu estilo, como é claro a quem vê os desenhos da edição do Jarry, estava próximo da banda desenhada de ficção científica e fantasia que a revista francesa Métal Hurlant publicava então (tendo chegado a estar próximo de uma possível publicação nessa revista de referência), e ele chegara a publicar histórias na revista Visão, que por cá tentou emular aquela. É por isso curioso que a que considero ser a sua melhor capa para a Afrodite seja uma em que o estilo pessoal dele é preterido em benefício de uma simples intervenção gráfica no trabalho de outrem: ou seja, uma capa não ao seu estilo mas “ao estilo de”, no caso de João Abel Manta. Os curtos contos absurdos de Martins Pereira, muito próximos de um Ambrose Bierce, reflectem um desencanto azedo com a situação pós-revolucionária, algo de que a capa não nos deixa duvidar. Apropriando-se de um dos mais famosos cartazes de João Abel Manta do PREC, o “MFA,POVO/ POVO,MFA”, em que o soldado e o camponês partilhavam alfaias e armas, Nuno Amorim acrescenta ao primeiro as extensões “diabólicas” da iconografia popular (cornos, rabo, patas de bode e um tridente) e pinta-o de vermelho, e ao camponês, por seu lado, acrescenta umas asas de querubim. Poder-se-á discutir sobre a subtileza da solução (sendo que, no rescaldo de um PREC escaldante, esperar “subtileza” fosse algo da ordem do milagre), mas, graficamente, a capa tem uma força inegável. Muita dessa força, irónica e nada ingenuamente, apoia-se, claro está, na linha clara e sólida de JAM, e se há algo de que esta capa é prova, é da referência que o trabalho deste representava na altura, com cartazes e cartoons ubíquos que marcaram visualmente toda a década: mesmo uma acção de “terrorismo gráfico” como esta, contrária à ideologia do próprio JAM, não deixava de ser uma homenagem.

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A edição deste Textos Malditos de Luiz Pacheco (1977), uma antologia dos seus textos proibidos durante a última década e meia do Estado Novo, fora acordada entre o autor e o editor em 1974, um mês depois da Revolução. Nos três anos que distaram entre a sua concepção e a saída do livro, a relação entre ambos esfriou e o editor deparou-se com sérios problemas financeiros, os quais, acrescidos a uma nítida perda do prestígio cultural de que gozara por força de edições que pareciam não corresponder ao padrão de qualidade da Afrodite, ditaram o lento crepúsculo do projecto. O que teria sido, em 1974, um grande título de Pacheco, na senda das suas edições na Estampa, em 1977 era já apenas a sombra de uma “negociata” longínqua com um editor pelo qual – em virtude de uma certa viragem “à direita” deste e de edições como a da tradução portuguesa do Mein Kampf em 1976 – ele não nutria já grandes afinidades. Ainda assim, o bom olho de Ribeiro de Mello para a escolha de ilustradores leva-o a associar ao projecto um artista que se estreia no catálogo da Afrodite em 1974, e que marcará esse catálogo até à sua última colaboração, que se dá precisamente neste livro: Henrique Manuel. Partilhando com o editor (e o autor) o culto de uma libido explosiva (notória nos seus desenhos para a Nova Recolha de Provérbios ou na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII-XIX), Henrique Manuel deixa neste último livro para a Afrodite algumas ilustrações realmente notáveis da figura do autor “libertino” e, sobretudo, uma capa icónica que coroa uma década de tentativas de representação do “boneco” Pacheco. Perdido no meio do implacável fundo branco, obrigado a um desconfortável aprumo no eixo central da composição, o autor apresenta-se-nos com os seus habituais atributos… e decapitado, ou melhor, com a cabeça cuidadosamente amparada nos braços e nas mãos cruzadas. É um misto perfeito de caricatura e retrato psicológico, a que as finas hachuras feitas com a Rotring concedem uma delicadeza que parece contrária ao absurdo chocante da imagem (sobre a história desta edição, escrevi a monografia A Última Sessão que pode ser adquirida aqui).

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