Capas do cesto dos proibidos (VI)

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A Antologia do Conto Abominável de 1969 foi o regresso do editor Fernando Ribeiro de Mello à lista dos proibidos pela Censura, depois de um hiato de três anos em que procurou “portar-se bem”: deixar de publicar títulos de cariz sexual e claramente afrontosos da sólida moral lusa e tornar-se, por exemplo, um respeitável editor de livros infantis.

Foi a sua primeira colaboração com Aníbal Fernandes (um engenheiro nascido em Angola e que em breve teria a seu cargo o controle do abastecimento de água à cidade de Luanda), que, além de seleccioná-los, traduziu todos os contos e também deu à editora neste volume o que faltara na Antologia do Conto Fantástico Português dois anos antes: uma organização lógica e pequenas introduções a cada conto carregadas de erudição. (A edição contava ainda com um prefácio politicamente acutilante de Vitor Silva Tavares). A capa, uma arrojada experiência grandguignolesca de Carlos Fernandes (outro residente em Luanda), podia ser vista como uma homenagem aos comics de horror da EC de uma década antes (Vault of Horror, Tales from the Crypt, etc), como uma tentativa de amálgama ilustrativa de alguns contos (sendo “Os Sem-Fronha” de Marcel Schwob o mais óbvio candidato) ou apenas resultado de um desejo de chocar sem esquecer algumas das aportações surrealistas. Fernandes fizera capas muito boas para a Ulisseia no tempo em que Vitor Silva Tavares estivera na editora (fizera parte, com Rocha de Sousa e Espiga Pinto, do trio de jovens artistas gráficos que o editor lançara então), exibindo um alargado leque de soluções gráficas e grandes dotes no desenho de letras. Dessa fase data a pequena caixa de texto publicada no suplemento & etc do Jornal de Fundão a 27 de Julho de 1967, em que é notória a boa impressão que o seu trabalho causara no então  quase ex-editor da Ulisseia.

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A carreira de Carlos Fernandes, hoje praticamente esquecida dos curadores do cânone, não ganhou tracção depois desse sólido arranque (talvez por causa dessa falta de “jeito para o negócio”), apesar das excelentes companhias que manteve em Luanda até ao seu “retorno” a Portugal, como fica documentado nesta fotografia de 1971, em que se vê o artista de costas e à esquerda, junto ao arquitecto Troufa Real e ao poeta Herberto Helder (foto de Júlio de Saint-Maurice, retirada daqui). Voltaria, porém, a fazer uma excelente capa para um livro traduzido por Aníbal Fernandes, a edição da &etc de Dissertação do Papa sobre o Crime seguida de Orgia do Marquês de Sade, em 1976.

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Capas do cesto dos proibidos (V)

1966 foi um ano terrível para muita gente ligada à edição em Portugal, mas para João Rodrigues foi particularmente penoso e cruel. Habitué do Café Gelo e pontual colaborador da imprensa cultural ou “alternativa” (Almanaque, Diário Ilustrado, Jornal de Letras e Artes) e com algumas ilustrações já no currículo (como que as que fizera para a edição da Morais dos Disparates do Mundo de Chesterton, em 1958), tudo faria esperar que as duas encomendas que recebeu no início do ano seriam o trampolim para uma carreira que, como se escrevia na introdução à entrevista que dera ao Jornal de Letras e Artes em Setembro de 1965, não encontrara ainda “as solicitações que permitiriam a sua afirmação cabal”.

Fosse ou não a ideia de uma encomenda como “criptonite” para o artista, avesso ao constrangimento de prazos e obrigações (Bruno da Ponte assim mo assegurou em conversa há uns meses, afirmando que só a custo de muita conversa e de algumas garrafas de whisky conseguiu convencer João Rodrigues a acabar um desenho para publicar no jornal), o certo é que, dessas duas encomendas, apenas a da capa do primeiro livro de Luiz Pacheco numa editora “comercial” (a edição da Ulisseia de Crítica de Circunstância, na colecção “Vária” criada por Vitor Silva Tavares) esteve isenta de pesada reprovação. Os seus desenhos para a edição da Afrodite de A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade (para os quais, diga-se, Rodrigues fora uma escolha de última hora, depois da recusa de Cruzeiro Seixas), lançada para o mercado cerca de um mês antes do livro da Ulisseia, foram recebidos com um coro sussurrado de escárnio (Luiz Pacheco – que assinara o prefácio “pró-Sade” na edição da Afrodite – em carta a Cesariny de 9 de Abril de 1966, chegou a referir-se ao “nojo dos desenhos”, e em 1968, num folheto polemista contra o grupo que fizera a edição da Filosofia, o poeta ainda se referia ao “ilustrador a milhas de distância”), que só não se fez ouvir de modo mais conspícuo porque o ilustrador se viu imediatamente envolvido como réu no processo movido pelo Estado à editora e aos colaboradores da edição “sadiana”. Se é, de facto, difícil defender a opção por um traço gélido e rígido nos desenhos para a Filosofia, longe da sua habitual fluidez e elegância de cartoonista (e que revelavam até uma insipiência anatómica que os depreciava numa comparação com todos os ilustradores de Sade até então, incluindo o anónimo da primeira edição clandestina do texto em 1795), esta capa para o livro de Pacheco, mais próxima estilisticamente do seu portefólio, revela, ao menos, alguma da ironia seca, quase melancólica, dos seus desenhos anteriores, ainda que esteja longe de ser um prodígio de composição ou de conjugação entre desenho e tipografia.

O facto de Crítica de Circunstância ter sido também imediatamente proibido pelos Serviços de Censura apenas veio aumentar o lume à fervura em que, subitamente, João Rodrigues se viu metido. De um momento para o outro, a sua carreira estava num impasse e a sua liberdade ameaçada. Em consequência da pressão que sentiu a partir do momento em que o processo contra a edição da Afrodite arranca, no Verão desse ano, do acumular de períodos depressivos que se tinham manifestado já antes, ou da combinação daquela com estes, o artista não chega a ouvir a sentença condenatória em 9 de Novembro de 1967: a 10 de Maio, com apenas 30 anos, atira-se do terceiro andar da sua casa na Avenida Almirante Reis, um suicídio que o Diário de Lisboa é obrigado a noticiar com a fórmula habitual da “queda da janela à rua”.

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A “Mosca” ressuscitada

Para coincidir com a exposição sobre a Afrodite na Biblioteca Nacional, produzi dois desdobráveis/posters em papel de jornal (60 x 50 cm abertos, 30 x 25 cm fechados) onde, além de um texto genérico sobre a mesma e uma bibliografia da Afrodite, são reproduzidas as páginas centrais do suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa de 6 de Dezembro de 1969 (com uma reportagem sobre o lançamento da Antologia do Humor Português na galeria Quadrante) e a primeira página do mesmo vespertino da edição de 16 de Dezembro de 1971, com a célebre foto do “editor na banheira”. É, ao mesmo tempo, um memento de duas performances históricas do “Dalí de Lisboa” e uma homenagem a um jornal desaparecido onde o editor e os seus livros tiveram sempre um eco especial até à Revolução de 1974, tanto na “Mosca” como no “Suplemento Literário”. Adquirem-se em conjunto e, para quem não tem possibilidade de ir à BN, podem ser comprados aqui.

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“Insólita ofensiva de corrupção”: exposição na Biblioteca Nacional

Exposição na Biblioteca Nacional até 20 de Maio de 2017, comissariada por Pedro Piedade Marques. Com agradecimentos a Isabel Maria Mendes Ferreira, Paulo da Costa Domingos e Rui Seybert Ferreira. Os livros, materiais de imprensa e documentos de arquivo expostos que não pertencem aos fundos da Biblioteca Nacional foram cedidos pelo comissário ou são cópias de documentos amavelmente cedidos por Antonina Ribeiro, Francisco Alves e Vitor Silva Tavares para a produção do livro Editor Contra (que pode ser comprado aqui).

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Afrodite na Biblioteca Nacional

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As coisas entre Fernando Ribeiro de Mello (falecido há 25 anos) e o Estado português não acabaram bem. E já não tinham começado bem, quando a Afrodite começou a lançar livros em 1965. Se foi contra o Estado (quando era “Novo”) que o editor definiu a sua imagem no início, foi contra o Estado (já democrático) que teve de a defender no fim.
Esta exposição é, portanto, não apenas a primeira homenagem “oficial” à Afrodite (pelo menos desde a morte do editor), como um modesto sinal de aproximação e trégua entre estes dois antigos adversários.
Em breve terei disponíveis materiais gráficos que acompanharão a exposição (incluindo a reprodução de dois grandes momentos do editor na imprensa). Aos interessados, o livro Editor Contra servirá, como é óbvio, de catálogo. Está com desconto de 25% de desconto no site durante o período da exposição.

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Capas do cesto dos proibidos (IV)

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Capa de Miguel Flávio para a edição da Prelo de Histórias Dramáticas da Emigração de  Waldemar Monteiro. O livro foi proibido em relatório de Abril de 1970 (n.º 7.772), com a ressalva de que algumas das histórias contadas eram tão deprimentes que a sua divulgação poderia até servir de “travão” à emigração. O autor morreu num acidente de viação antes da publicação do livro, quando transportava consigo as provas se revisão deste.

É curioso comparar esta capa à de dois outros livros anteriores sobre o mesmo tema que, quase inexplicavelmente (servindo uma notória e propositada aleatorieadade de algumas decisões dos serviços de Censura como possível explicação), não foram também proibidos: França, Emigração Dolorosa de Nuno Franco (1965) e O Salto de Nita Clímaco (1967).

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Ainda que próxima da capa deste último (o uso da Helvetica, o recurso ao desenho a tinta sobre o fundo branco), aqui, ao contrário desses dois exemplos, o emigrante em primeiro plano está já a caminho, de costas viradas para nós e unido à frágil, apenas esboçada, fila de marchantes que se perde no horizonte. Apesar de feito do relato de casos individuais, parece lógica esta opção por uma certa frieza e “impessoalidade” na capa de um livro publicado numa editora conhecida, sobretudo, pela sua produção de ensaios de análise social e económica.

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Capas do cesto dos proibidos (III)

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Capa de Luísa Brandão para a edição da Portucalense de Os Muros do Asilo de Roger Gentis (Les Murs de l’Asile, publicado originalmente em 1970 por François Maspero).
Apesar de politicamente próxima do Estado Novo desde a sua fundação em 1928, a Portucalense tornou-se em 1971, por via da morte do seu fundador e da tomada do cargo pelo seu filho, uma editora com um catálogo vincadamente à esquerda e desafiador da norma: este foi apenas um dos seus treze títulos proibidos pela Censura nos dois anos em que José Oliveira orientou a casa até ao seu fecho, em 1972, para entrar na clandestinidade.

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