“Editor Contra” no Expresso

2015.12Texto de José Mário Silva na revista “E” do Expresso de 31 de Dezembro de 2015, pp. 68-69. Pode ser lido na íntegra aqui.

Leave a comment

Filed under Da casa, Imprensa, Livros

Entrevista no jornal i sobre a Afrodite e Fernando Ribeiro de Mello

A minha entrevista ao Diogo Vaz Pinto, a propósito do lançamento do livro Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite saiu ontem no jornal i. (Imagens via blogue O Melhor Amigo). O livro pode ser comprado no site Montag.

FRM1

FRM2

FRM3

FRM4

Leave a comment

Filed under Da casa, Imprensa, Livros

“Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite”: à venda

EDITOR-CONTRA-capa1

Finalmente, à venda o primeiro livro dedicado ao lendário “editor maldito” por excelência na última década do Estado Novo, Fernando Ribeiro de Mello, e à sua “pseudo-editora”, a Afrodite. Dele escreveu a censura, em 1966, que personificava a mais “insólita ofensiva de corrupção” a que o regime assistira em quarenta anos de existência. Pode ser adquirido aqui.

EDITOR-CONTRA1

EDITOR-CONTRA3

EDITOR-CONTRA4

EDITOR-CONTRA5

EDITOR-CONTRA6

EDITOR-CONTRA7

EDITOR-CONTRA8

Leave a comment

Filed under Da casa, Livros

Em breve

EDITOR-CONTRA_mailing-1

Leave a comment

23.11.2015 · 12:43 pm

“A Navalha na Carne”, ou a cantora careca nos trópicos

NavalhanaCarne1968_1

Hoje, 13 de Outubro, Robert Massin (ou, simplesmente, Massin) faz 90 anos. Conheci-o há três anos e meio, numa rara vinda sua a Portugal. Escrevia e propunha por então uns textos para a LER, tendo conseguido, pelo menos, convencê-los a não deixar passar a estada por cá de Massin sem uma referência: o meu texto, publicado em Maio de 2012, acabou por ser o único texto publicado na imprensa sobre essa visita (e tenho mesmo de acentuar isto, mais pelo espanto ante a anemia da imprensa lisboeta dita “cultural” do que por qualquer achaque de imodéstia).

Das horas que passei com ele em dois dias de Março (ajudado, no meu francês falado algo enferrujado, pelo Michel Jacinto), confesso que não tenho a memória de ter ficado surpreendido (a não ser, talvez, pela sua vitalidade física aos 87 anos): a inteligência, a bonomia, a ironia fina, a incrível modéstia estavam já no seu Diário e nos outros livros dele que lera até aí. Recebi dele 3 livros publicados pela sua Typographies Expressives, pequeno projecto de edição no qual lançava alguns textos seus: Appolinaire Vivant e Si Tu T’Imagines (dois divertimentos em torno de Guillaume Appolinaire e Raymond Queneau, que depois ofereci ao Vitor Silva Tavares quando o conheci em 2012) e À Propos: et la Cantatrice Chauve?, uma monografia sobre a produção do que é, ainda hoje, o trabalho de design mais conhecido de Massin, o da edição da Galimard da peça de Ionesco em 1965. (Guardará ainda o exemplar da velha edição de Nicolau Nasoni de Robert Smith que, sabendo-o devoto do Barroco, decidi oferecer-lhe?) Esta monografia é particularmente curiosa, pois aborda com rigor as circunstâncias da encomenda, a relação de Massin com o autor, os testes e experiências feitos com a deformação dos caracteres tipográficos, a colaboração com o fotógrafo Henry Cohen e até o impacto que o livro teve por esse mundo fora (e teve-o: não por acaso, o motivo da vinda de Massin a Lisboa foi, precisamente, falar sobre a “sua” Cantatrice).

massin_aproposcantatrice3

Não sei se foi no blogue Gramatologia se na página de Facebook do José Bártolo que, há uns 2 anos, vi pela primeira vez imagens desta edição da Senzala de 1968, a de A Navalha na Carne, peça proibida do dramaturgo brasileiro “maldito” Plínio Marcos (1935-1999). O certo é que, quando as vi, me lembrei logo desse livro de Massin sobre a Cantatrice, e do facto de nele não constar qualquer referência a esta rara homenagem que o uruguaio Walter Hune, o designer da edição da Senzala, lhe prestara. Esse desconhecimento é compreensível: era mais fácil que algo feito em Paris chegasse a São Paulo do que o inverso. Além disso, tendo a peça sido censurada e a sua encenação proibida pela ditadura militar brasileira, esta edição não fora produzida num contexto propriamente pacífico, conducente à mera apreciação estética. Mesmo com os événements de Paris nesse ano de 68, o Brasil e São Paulo estavam a uma temperatura política bem diferente.

A Senzala tinha sido fundada um ano antes por um licenciado em Filosofia, José Chasin, próximo do pensamento marxista, e tinha um programa abertamente político e (nesse contexto de resistência à ditadura que se instalara em 1964) abertamente provocador: títulos como Xeque Mate ao Ditador de Gerhard Ritter, Não Podemos Esperar de Martin Luther King,  O Poder Negro de E. U. Essien-udom ou Existencialismo ou Marxismo de Georg Lukács não deixavam margens para dúvidas. Não as deixava também este A Navalha na Carne, peça em um acto sobre a tensão entre a paixão (ou dependência afectiva) de uma prostituta pelo seu “chulo” (ou “cafetão”) e o abuso constante por parte deste. Se é possível que, ante a proibição da encenação da peça, a editora tenha decidido –  como forma de contornar a censura, que era menos agressiva com os livros do que com o teatro e o cinema – seguir a receita de Massin e fazer com que o livro tivesse a forma gráfica e tipográfica de uma verdadeira “encenação”, em vez de se limitar a apresentar o texto, o certo é que o tom duro, sombrio e violento da peça e a linguagem “de rua”, directa e denotando um ouvido de “documentarista”, de pouco terão a ajudado a imagem da editora perante as autoridades: fosse por pressão censória ou financeira (decorrendo, muitas vezes, esta daquela), a Senzala deixa de publicar em 1970.

NavalhanaCarne1968_10

NavalhanaCarne1968_11

NavalhanaCarne1968_4

NavalhanaCarne1968_5

Em 1977, num artigo para a revista portuguesa Opção, o dramaturgo brasileiro Augusto Boal (então exilado por cá) escreveria, a propósito da estreia da peça – e, possivelmente, única representação – em Lisboa, no Quarteto, que este texto estava mais perto da urgência de uma “reportagem” sobre a vida violenta das vítimas habituais dos “esquadrões da morte”. É isso que torna a decisão de “adaptar” a Cantatrice de Massin tão extraordinária: não só os universos teatrais estavam a milhas um do outro (o do “teatro do absurdo” de Ionesco e o deste brutal e lancinante realismo), como o que pareceria, à partida, intransponível (o jogo fotográfico e tipográfico pleno de liberdade, cujos objectivos não ultrapassariam o mero encaixe estético com o espírito do texto) acabou por ser transformado num meio de expressão ao serviço de um texto completamente diferente. Três anos depois e do outro lado do oceano, a Cantatrice Chauve de Massin, composta na Paris sofisticada dos anos 60 para a mais importante editora francesa, era agora o veículo de um “estilo” (recurso à fotografia de alto contraste, variação tipográfica conforme o número de personagens e o “tom” do que dizem, linhas de texto que se soltam da grelha e “voam” pela página) que podia ser adaptado a uma mensagem política de denúncia num país tropical sob ditadura militar.

NavalhanaCarne1968_12
Ruthinéia de Moraes, Paulo Villaça e Edgard Gurgel Aranha em Navalha na Carne (1968; fonte)

Concordando parcialmente com Fábio Morais quando ele escreve que o trabalho de Hune nesta Navalha é mais “Pop” do que o de Massin (dados os três anos de diferença entre as duas edições e a explosão da influência Pop no Brasil durante esse tempo, isso é normal – mas não seria Massin, por seu lado, Pop “avant la lettre”?), não me parece, contudo, que este seja (mesmo na comparação com esta edição da Navalha) mais “chique” ou “bem comportado” (não esqueçamos que Massin chegou a imprimir carimbos com palavras sobre preservativos para as deformar e fotografar). O que sim parece óbvio é que algumas influências características da cultura popular brasileira de então (os “quadrinhos” e, sobretudo, as fotonovelas) dão ao trabalho de Hune o seu aroma particular: vista como uma deformação extrema de uma fotonovela da Capricho, toda a edição (incluindo o texto de Marcos) ganha uma dimensão subversiva, que o conhecimento do contexto da sua produção – um dos períodos mais violentos da longa ditadura militar brasileira – torna ainda mais pungente.

NavalhanaCarne1968_2

NavalhanaCarne1968_3

NavalhanaCarne1968_6

NavalhanaCarne1968_7

NavalhanaCarne1968_8

NavalhanaCarne1968_9

Walter Hune é um daqueles nomes que o radar da História do design gráfico não captou para a posteridade (o livro de referência de Chico Homem de Mello sobre o design gráfico brasileiro nos anos 60, por exemplo, não o menciona), facto a que não será alheia a curta vida da Senzala, para a qual (como se pode ver na capa que fez para Café na Cama de Marcos Rey em 1967) parece ter explorado o seu talento no uso e manipulação das imagens em alto contraste.

Walter Hune_Cafe na Cama 1967

1 Comment

Filed under Capas, Livros

Emigração dolorosa

Franca-Emigracao-Dolorosa1

Lançado há pouco mais de 50 anos, no início do Verão de 1965, na colecção “Vária” que o recém-empossado director editorial da Ulisseia, Vitor Silva Tavares, criara para publicar textos dificilmente encaixáveis noutras colecções, este França: a Emigração Dolorosa de Nuno Rocha traz a este ano de 2015 desconfortáveis memórias. O desconforto de um passado de pobreza envergonhada e escondida nas berças minhotas e beirãs, apenas a duas gerações de distância, mas também o de um discurso político oficial que – tal como o de hoje – procurava manipular ou ocultar os números reais da emigração. Como exemplo, um parágrafo na página 20 ganha agora uma espantosa urgência, quatro anos depois do início de um novo surto migratório, o maior desde essa primeira “sangria” de há meio século:

“Lisboa, entretanto, dormia sobre este surto migratório. Ninguém se apercebia de que pelas fronteiras, legalmente ou como clandestinos, passavam diariamente centenas de portugueses como que repelidos pelo meio em que viviam. O sol de Maio inundava o Terreiro do Paço, coalhadinho pelos automóveis dos funcionários que despachavam tranquilamente nos seus gabinetes. Mas era como se o sangue saísse das veias do país. A Junta da Emigração calava-se, cúmplice, procurando que ninguém descobrisse o que estava a passar-se.”

Com base numa série de artigos escritos em 1963 – quando o jornalista se juntou a um grupo de emigrantes e acompanhou a viagem em “camioneta” de Melgaço a Paris – e publicados no Diário Popular, este foi o primeiro livro dedicado a este delicado assunto e logo publicado numa editora que, sob a direcção de Silva Tavares, seria um alvo quase constante da censura e da PIDE. É por isso certa a interrogação de Maria Isabelle Vieira: como foi possível que este texto – incómodo, acusatório, acompanhado de fotografias dos primeiros miseráveis “bidonvilles” onde os emigrantes se acolhiam, como o de Champigny – fosse poupado a uma proibição, a não ser pela estratégia da “arbitrariedade”?

Franca-Emigracao-Dolorosa2

Franca-Emigracao-Dolorosa3

Franca-Emigracao-Dolorosa4

Com uma paginação que remete as fotos do autor para uma série de extra-textos ao longo do livro, estava-se compreensivelmente ainda longe dos “livros integrados” da década seguinte, mas estavam também aqui os elementos básicos para o que poderia ter sido o “nosso” The Seventh Man (o “clássico” de 1975 sobre os trabalhadores migrantes na Europa escrito por John Berger, com fotografias de Jean Mohr e design de Richard Hollis), ainda que sem a frieza analítica de Berger e o pessimismo sobre as “promessas” das sociedades europeias materialmente mais avançadas a estas centenas de milhar de pobres das margens da Europa: Rocha era, apesar de tudo, um optimista, e, para além da óbvia exploração desta força de trabalho, via benefícios para a vida nacional no regresso destes homens, do simples consumo à arquitectura (quando o depois vilipendiado estilo “maison”, trazido de França pelos que aí trabalhavam na construção civil, era ainda uma refrescante melhoria das miseráveis condições de habitação nas aldeias). A capa de Rocha de Sousa, contudo, segue o adjectivo do título de forma muito clara, clara demais para o luxo de algum optimismo.

Leave a comment

Filed under Livros

“Resina de nudez fricção narcótica”

VinhoeaLira7

VinhoeaLira1

Quando lançou este livro de poesia de Natália Correia em Abril de 1966, o editor Fernando Ribeiro de Mello estava em plena corrida à frente da censura, uma corrida que começara no seu primeiro livro, o Kama Sutra, lançado menos de um ano antes. Tinha, por então, já três livros proibidos pela censura, dois dos quais estariam no centro de outros tantos processos no Tribunal Plenário. O Vinho e a Lira não foi excepção: seria, em breve, o quarto livro da Afrodite a ser incluído no “Index” censório do Estado Novo. Seria seguido por mais duas edições proibidas, o que, no total, daria uma série até então inédita (e jamais repetida até ao fim do serviço de censura) de seis livros consecutivos de um pequeno editor proibidos no espaço de menos de ano e meio. Foi o suficiente para cimentar a fama do editor “maldito” que seria o sustento de Ribeiro de Mello até à Revolução de 1974.

De todas as edições dessa série “maldita” inicial, esta é aquela em que o editor mais apostou num conceito de “livro objecto”, reforçando a marca visual muito forte que fora já notória na Filosofia na Alcova ou na Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, e, com particular felicidade, nas fotografias de Sena da Silva para A Vénus de Kazabaika. Neste caso, essa marca está no acabamento: a tipografia discreta é um perfeito contraponto à surpresa táctil que é a superfície aveludada da capa cor de vinho, protegida por uma sobrecapa plástica, transparente e maleável, onde a tipografia da lombada se imprime: o contraste entre a lisura da sobrecapa e a textura da capa é, todo ele, uma homenagem sensorial à poesia da autora.

Ribeiro de Mello devia muito a Natália, que “amadrinhara” o arranque da sua carreira de editor, e parece claro que sentiu a necessidade de a compensar com estes requintes para um simples livro de poesia, algo por esses dias – tal como hoje, aliás – muito pouco usual. Perfeita ilustração dessa “fricção narcótica” do verso da autora, os requintes gráficos deste O Vinho e a Lira (um dos “pequenos livros esquecidos” da Afrodite) aproximavam verdadeiramente o editor daquele de quem o diziam “émulo”, Jean-Jacques Pauvert, que por então fabricava (com o designer Pierre Faucheux) pequenos livros que apostavam no prazer e na tensão tácteis, como as edições de Le Mort e Histoire de l’Oeil de Georges Bataille.

VinhoeaLira2

VinhoeaLira3

VinhoeaLira8

VinhoeaLira56

1 Comment

Filed under Livros