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“Editor Contra” no Expresso

2015.12Texto de José Mário Silva na revista “E” do Expresso de 31 de Dezembro de 2015, pp. 68-69. Pode ser lido na íntegra aqui.

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Entrevista no jornal i sobre a Afrodite e Fernando Ribeiro de Mello

A minha entrevista ao Diogo Vaz Pinto, a propósito do lançamento do livro Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite saiu ontem no jornal i. (Imagens via blogue O Melhor Amigo). O livro pode ser comprado no site Montag.

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Uma entrevista

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John Dodds, da Amazing Stories, enviou-me uma série de perguntas sobre isto de produzir imagens para livros de FC, às quais dei as respostas que podem ler aqui. Inclui um muito simpático comentário do escritor Lavie Tidhar.

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“Sena da Silva: Palmas!”

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“Sena da Silva: Palmas!”. Foi assim que o Diário de Lisboa julgou o trabalho de António Sena da Silva para a Antologia do Humor Português em Novembro de 1969. É também o título de um texto sobre a colaboração entre Sena da Silva e a Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello em três livros publicados por este (sendo a Vénus de Kazabaika de 1966 e a Antologia do Humor Negro de 1973 os outros dois), elaborado com base em três excertos do texto central (e um do depoimento de Eduardo Batarda) da monografia Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite que preparo. Para ler no site Design Português 2014/2015, coordenado por José Bártolo e lançado no âmbito do Ano do Design Português.

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Livros numa tarde de Verão

Eis uma raridade: um texto sobre “capas de livros”, cuja publicação se deveu talvez à maior placidez ou escassez noticiosa do mês de Janeiro de 1968, que permitiu resgatar para o suplemento  “Vida Literária e Artística” do Diário de Lisboa do dia 25 desse mês o que não passava de uma reflexão superficial sobre algumas capas de livros portugueses das últimas décadas feita numa tarde de Verão. Raridade em duplo sentido, pois, além de há 40 ou 50 anos serem praticamente inexistentes na imprensa textos sobre o grafismo dos livros, ou o que hoje se engloba sob a designação de “design editorial”, o texto em causa não opta por uma análise sincrónica de um “período dourado”, tendo antes uma preocupação diacrónica até ao tempo presente da sua factura (o final da década de 1960), mencionando nomes que eram então activos e que iam sendo conhecidos fora do círculo estritamente profissional. O seu autor foi Alfredo Betâmio de Almeida (1920-1985), pedagogo e especialista na disciplina de Desenho (e antigo professor de Paulo-Guilherme, como confessa no texto), sendo autor de alguns compêndios da mesma. Esta é uma transcrição integral desse texto, acompanhada, sempre que possível, das imagens das capas cujos títulos sejam mencionados.

“Um livro vale, como é evidente, pelo seu conteúdo, literário ou científico, mas é a sua capa que oferece o primeiro encanto ou desencanto ao observador fortuito. A beleza e a surpresa da capa têm força de atracção sobre o comprador.
Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, mas apenas porque numa tarde de Verão estendemos sobre uma mesa vários livros ’empurrados’ para uma casa de praia, e aos nossos olhos se encadeou, com relativa evidência, o gosto de nossos livros, decidimos tomar estas notas.

A capa mais antiga desta pequena e ocasional colecção é a de um livro de versos, formato de bolso, romântico ainda. Toda a capa é uma gravura de traço fino, impresso a preto, como não podia deixar de ser. O desenho nasce como um ramo de flores brancas, apertado por um laço, e que se sobrepõe a um ‘pergaminho’ meio enrolado, em que o desenhador pôs a data: 1893. Por cima do ramo ergue-se um anjo, com asas e tudo, mesmo uma flutuante fita. O anjinho, de braços erguidos, sustenta um livro e, por cima, o nome da obra poética: Myosotis, desenhado com ligeira obliquidade. Fecha a forma rectangular um enrolado de desenho muito frouxo. Aqui está a capa dos fins do século dezanove, de um gosto romântico-lírico, complexa e enriquecida, graficamente, à custa de raminhos.

Seleccionámos depois uma pequena brochura de 1896, com versos de João de Deus. A sua capa é nitidamente já um desenho de ‘Art Nouveau’ e assina-a Celso Hermínio, o grande caricaturista, cujas maiores obras se divulgaram em gritantes bilhetes postais, já coloridos. Os motivos são do reino das flores mas desenhados segundo a estilização da época: contorno apenas e um movimento de formas até encher as superfícies parcelares em que o todo fora dividido.

1902. Uma capa com verdes, lilás e prateado, de desenho muito seguro, patenteia mais nitidamente o gosto do princípio do século, gosto que alastrou em ‘cache-pots’ de cerâmica e móveis de saleta. Os fios de água, serpenteando, e as hastes das flores, ondulando, lá estão a encher os espaços. Não se descobre o nome do artista, mas é do estilo de Alonso (Santos-Silva). O livro chama-se Noites Perdidas, e é seu autor um nosso parente com dois ‘tês’ no nome e que chegava apresentado por Alberto Pimentel.

Verificámos que, deste período que precede a Primeira Grande Guerra, nos falta um exemplo característico. Julgamos que do citado Alonso, que viemos a conhecer de ‘Os Ridículos’, há capas típicas de estilo à maneira de Mucha.

Já a anunciar outra época, uma capa de Leitão de Barros. Maior simplicidade, mas ainda uma cornucópia que vomita flores. Capa bem composta, com letras desenhadas pelo autor. É um livro de Norberto de Araújo.

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E depois as capas dos anos vinte, modernistas, inicialmente ainda algo cacógrafas, mas depois mais limpas, apelando frequentemente para uma forma simbólica, em vez de formas narrativas. Temos presente: A Lâmpada de Aladim, com capa de Ary, de 1922, edição da Seara Nova.

Agora a capa de António Soares, a do livro Leviana de António Ferro. E começam as capas ‘pequenos quadros”, tricromias bem impressas. Esta é, de um certo efeito, de composição correcta, elegante, em que um bom pintor manchou, de forma sintética e convincente, uma cabeça de mulher galante.

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De 1924, uma capa da primeira fase de Bernardo Marques, de desenho simbólico. Da mesma época, contudo, temos uma capa de desenho geometrizado, capa futurista, em que se procuram tornar eloquentes as linhas curvas e rectas, em sua expressão pura. É uma primeira edição do futurista brasileiro Mário Andrade. E por esta altura há quadros de valor pelas capas, são seus mestres: Stuart, Barradas, Alberto de Sousa, etc.

Dos anos trinta têm direito a ser lembradas as capas de Roberto Nobre, em que se dá maior importância ao desenho das letras e a ilustração é ainda simbólica, com um tratamento técnico muito pessoal. Digamos: a linha com expressão de ‘golpe’ de pincel e a cor reduzida a uma só e ao preto. Uma selecção de reproduções de capas e ilustrações de Nobre seria tarefa meritória para os estudiosos que se interessam por encontrar exemplos de uma comunhão de forma, conteúdo e época.

Mas nos trinta surge um pintor estrangeiro que altera a estética das capas dos nossos livros, e abre caminho, por exemplo, a um José Rocha e a um José Espinho. Estamo-nos a referir a Fred Kradolfer e a capa que temos presente é a de O Meu Amor Pequenino de António Botto. Para Kradolfer, a capa é também um diminuto quadro, mas de contexto mais leve: aí surgem valores cromáticos ‘nuançados’ e toques preciosos, decisivos para o significado estético do trabalho. Aqui estão as florzinhas de efeito, neo-românticas, que tanto se expandiram. Já não é a cor plana da litografia, mas a cor modulada da tetracromia.

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Kradolfer ensinou aos artistas plásticos portugueses uma visão artística clara, decorativa, poética. E ensinou, particularmente, a cuidar do desenho das letras e a estar atento à sua importância. É o reflexo da lição das escolas suíças.

Poéticas, tapetes orientais, de um formalismo encadeado, essencialmente decorativo, eis as capas habilidosas de João Carlos. Temos presente uma de 1939.

Quando se publicará, em monografias especiais e… compráveis, a obra dos desenhadores portugueses, de um satírico Nogueira da Silva, oitocentista, ao decorativo João Carlos, de algum modo consequência de um Amadeo de Souza-Cardoso? E não se esqueça a família (Escarraecospe, D. Encrenca e Piú) de mestre Carlos Botelho.

Nos anos quarenta, um jovem do nosso tempo renova inteligentemente as capas dos livros. É Victor Palla. Os títulos têm agora um valor plástico essencial na composição e na leitura da capa. O desenho moderniza-se e ganha valores estéticos adequados à circunstância de ser para uma capa. Trabalhos com economia de cor, económicos portanto, mas também elegantes na sua linguagem expressiva e sugestiva.

Dos anos de cinquenta, apreciamos uma capa de Bernardo Marques, sóbria, algo da lição de Kradolfer, mas com estilo próprio. Atravessa a capa de A Missão de Ferreira de Castro, uma faixa que é um típico desenho aguarelado de B. Marques, de um impressionismo gráfico a que as manchas de cor avivam o ambiente e dão atmosfera.

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Fixemos agora uma capa de Pavia, bem característica, na sua comunicação tão clara e tão simples. Para Manuel Ribeiro de Pavia a capa era sempre branca, letras aos topos e, no centro, a sua ilustração. Nesta, sempre de forma rectangular, projectava Pavia, com a grossura de um ferro de prisão, o seu sonho, geralmente a ternura da maternidade ou a largueza dos olhos que querem ver o mar. E flores que lembravam as estrelas desse mar. E cor como a de um vitral, para o sol lhe bater. Meu bom ganhão desenraizado, que não esqueces. Mas ninguém se lembrou de ti na devida altura.

A seguir arrumamos três capas dos anos sessenta, da época das capas brilhantes, envernizadas. Uma de João Câmara Leme, essencialmente decorativa, de um jogo formal de surpresa, geometrizada, atraente e, portanto, ajustada ao seu fim. Outra de Paulo-Guilherme, nosso antigo aluno, elegante, preciosa no seu desenho requintado e de aparente facilidade. Paulo-Guilherme sabe fazer uma capa, o seu grafismo cresce, estética e naturalmente, dentro da superfície escolhida. Preferência pelos tons que fazem moda. E, por fim, uma capa de Sebastião Rodrigues, já numa atmosfera de Pop-Art. Requinte na dimensão e na colocação dos dizeres, dando aos espaços vazios um valor atractivo. Desenho e ‘colagens’ em comunhão ordeira.

E agora mesmo, as capas da Europa-América, neo-realistas – não sabemos porque surgiu esta palavra, que cremos certa – formalmente, ‘solarizações’, um contraponto de preto e branco sugerindo, pela colocação, espaço, atmosfera.

E amanhã? Capas cinéticas, capas luminosas ou talvez mesmo anti-capas.”

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(Alfredo Betâmio de Almeida, “Capas de Livros”, in suplemento  “Vida Literária e Artística”, pp. 1-2,  Diário de Lisboa, 25.01.1968)

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Recorte e costura

Amostra da recensão de José Mário Silva à edição Montag  A Técnica do Golpe Literário, publicada no suplemento “A(c)tual” do semanário EXPRESSO no passado dia 5 de Julho.

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Os livros dos mil dias

Andam, quase literalmente, aos pontapés. Encontram-se por essas feiras de velharias, no chão, ou em cantos esquecidos das lojas de alfarrabistas, entre antigos almanaques e revistas, nalguns casos ao preço da chuva, o preço de quem faz um favor ao vendedor por livrá-lo de papel velho. Essa circunstância reflecte, creio, a sua quase invisibilidade e o seu pouco valor na (ainda incipiente, é certo) historiografia da edição e do design editorial destes últimos quarenta anos: desprovidos, na sua maioria, de uma marca autoral forte (ou de um designer de “nome” da ficha técnica), foram projectos montados “a quente” nos meses que se seguiram à Revolução de Abril de 1974, ou durante os três anos seguintes, em que a normalização democrática arrefeceu as paixões do PREC.

Tipologicamente, são difíceis de definir: nem livros de fotografia (ou “fotolivros”, categoria nobilitada historicamente na última década a partir da pesquisa bibliográfica de Martin Parr e Gerry Badger no projecto monumental The Photobook – a History), nem livros de registo (foto-)jornalístico, nem livros de reflexão política, sociológica ou historiográfica, nem meros repositórios de documentos, são um misto de tudo isso, caracterizados por uma certa embriaguez da urgência e do momento (sobretudo naqueles produzidos em 1974) e um nítido fascínio por uma nova iconografia nacional que eles, fixando-a e publicando-a, ajudaram também a impor.  (Uma excepção possível seria, por exemplo, Deus Pátria Autoridade, edição da Contraeditora de 1976, a que o design gráfico de José Brandão – um nome incontornável e referencial da prática profissional nesses anos – confere qualidades potencialmente “redentoras”, mas que, sendo não mais do que a publicação do guião do filme homónimo de Rui Simões de 1975, decidi manter fora desta selecção).

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Publicado em Junho de 1974, este Portugal Livre será, certamente, um dos melhores exemplos deste tipo de livros, tão mais extraordinário pela enorme quantidade de material fotográfico reproduzido e pelo contexto de escaldante pressão e euforia em que foi produzido. A qualidade das fotos estende-se ao design da capa (com a omnipresente combinação preto-e-vermelho em cor directa) e à folha de rosto, com um uso dramático da grotesca condensada do título e uma ficha técnica tipograficamente cuidada: sendo esta uma edição d‘O Século, é seguro presumir que Luís Filipe da Conceição e Vitorino Martins, os responsáveis pela maquete, a capa e a orientação gráfica, fossem colaboradores do jornal. A ficha técnica é, aliás, uma autêntica lista da nata do jornalismo escrito e da fotografia de imprensa portuguesa dos anos 70: aos textos de Adelino Gomes e Fernando Assis Pacheco juntam-se as fotos de Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha, Carlos Gil, Inácio Ludgero e outros. A paginação é clara e ritmada, evitando a acumulação de fotos por página e jogando com o contraste de escala, com spreads de enorme impacto. É uma espécie de “número especial” de revista, paginado como tal e dando primazia à narrativa e à legendagem informativa e sucinta, mas que a soberba qualidade das fotografias e a prosa requintada transportam a um nível superior, concedendo-lhe quase a intemporalidade de um “clássico”.

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Não é preciso olhar muito tempo para a capa de O Último Dia da Pide (1974) para pensarmos em Armando Alves e na Inova (o “Porto” do subtítulo ajudará também). Ainda que não seja uma edição da Inova (esta distribuiu-a, tendo a edição sido do Movimento Democrático do Porto) e que o nome de Armando Alves não apareça sequer indicado, tudo aqui – a tipografia da capa e sua composição, as badanas largas, as guardas em papel vermelho e a mesma cor no tratamento cuidado da folha de rosto, a ilustração na contra-capa – remete para a elegância de muitos dos livros da Inova e (a partir de 1978) da Oiro do Dia cujo design foi da sua responsabilidade. É, aliás, um livrinho tão elegante que quase nem parece ter sido produzido nesses meses de fornalha revolucionária. As fotos de António Amorim não são particularmente notáveis, limitando-se ao seu papel de documento visual da tomada da delegação da PIDE no Porto a 26 de Abril desse ano.

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Num momento delicado e crítico da sua carreira, vendo-se subitamente rodeado de múltipla e tenaz concorrência no seu nicho, dado o fim da censura, o editor Fernando Ribeiro de Mello arriscou também a sorte nesta onda de livros em torno dos dias da Revolução de Abril com este Último relatório sobre a situação geral do país do ex-Ministério do Interior para a ex-PIDE-DGS (1974), uma reprodução facsimilada do dito relatório acompanhada de algumas fotografias. É a montagem destas que dá personalidade a esta pequena edição, sobretudo o contraste entre algumas soluções visuais pouco elegantes e nitidamente influenciadas pelo calor do momento e a sofisticação de outras (como o excelente spread que coloca, lado a lado, a fotografia de uns óculos de aros grossos e severos e outra de duas mãos agrilhoadas). O recurso à suástica como símbolo identificador das figuras do regime deposto em 1974 é incomodamente profético: dois anos depois, a mal preparada edição do Mein Kampf pela Afrodite ditaria o esgotamento do capital de prestígio acumulado pelo editor  durante a última década da ditadura.

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Projecto inicial de uma editora de livros “interventivos” que o fotógrafo e publicitário Sérgio Guimarães lançou em 1978, a Mil Dias, Da Resistência à Libertação foi um álbum que funcionou como uma espécie de catálogo post-factum: na sua origem esteve uma exposição fotográfica patente no Mercado do Povo, em Lisboa, em comemoração do terceiro aniversário (daí o nome da editora?) da Revolução em 1977. Sérgio Guimarães é um caso tão curioso como fugaz na história da edição depois do 25 de Abril: aproveitando o fim da censura, tentou a publicação de banda desenhada erótica, à imagem de Eric Losfeld (cujo catálogo lhe serviu de guia), em edições cuidadas, chegando a publicar em 1976 a História de O adaptada por Guido Crepax (edição acompanhada da primeira publicação nacional do romance de Pauline Réage, ligando ambas edições através do design tipográfico das capas), o Fornicon de Tomi Ungerer e Lolly Strip de Pichard. O seu plano de se tornar o “Losfeld português” (publicando como “Edições Sérgio Guimarães”) gorou-se, e a Mil Dias, que poderia ter sido um recomeço, acabou por marcar o seu fim como editor: as dívidas arcadas com a montagem da exposição de 1977 e, certamente, com a produção deste álbum, terão sido o golpe de misericórdia. O seu nome está tão esquecido que nem na abrangente tese de Flammarion Maués Silva sobre a edição política em Portugal na década de 70 (Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80, São Paulo, 2013) se consegue encontrar mais do que uma listagem dos títulos da Mil Dias.
A sua marca mais duradoura parece ainda continuar a ser a foto da criança de cabelo encaracolado a enfiar um cravo no cano de uma G3, que correu mundo reproduzida em milhares de cartazes, e não é por acaso que é um tratamento gráfico dessa mesma imagem que aparece na capa deste álbum. Mais ambicioso do que o Portugal Livre no seu âmbito (uma crónica em imagens da história portuguesa da revolução republicana de 1910 ao 1.º de Maio de 1974), o resultado final é um volume visualmente menos homogéneo, em que a acumulação de imagens fotográficas e de outras fontes (documentos oficiais, páginas de jornais, cartoons, etc) e a ausência de imagens reproduzidas ao corte nos spreads (algo que abunda naquele álbum), por óbvia economia de meios, retiram algum impacto visual e concedem pouco espaço de respiração. Ainda assim, é um feito editorial notável tendo em conta a precária situação financeira do editor.

Apesar dessa falência anunciada, Sérgio Guimarães publicou pela Mil Dias ainda mais três livros profusamente ilustrados em torno da iconografia do PREC: Diário de uma revolução, O 25 de Abril visto pelas crianças e As paredes na Revolução (em baixo), todos em 1978. Este último é particularmente interessante (tendo até em conta o actual contexto de revitalização do muralismo político), servindo de registo visual dos murais que adornaram as paredes de algumas zonas da capital e, de resto, um pouco por todo o país, durante mais de uma década.

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Trata-se de um volume sem qualquer pretensão de análise estética ou sócio-politica dos murais (não há sequer legendas indicando a sua localização), limitando-se a reproduzir fotos dos mesmos em maior ou menor grau de detalhe (particularmente apelativas são as fotos que permitem ver o contexto mais alargado dos murais, quando articulados com janelas, portas, etc).

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Publicado dez anos depois da Revolução de Abril, como catálogo de um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, o que torna pertinente a inclusão deste volume nesta lista é a inevitável reflexão que, tanto os textos como o projecto gráfico de João Botelho e Luís Miguel Castro, acabam por fazer sobre a iconografia do PREC e a imagem fotográfica, mesmo que grande parte das imagens reproduzidas sejam fotogramas dos filmes exibidos ou mencionados. A referência à fotografia de imprensa, contudo, é ainda incontornável, até pelo recurso ao extremo aumento de alguns detalhes dessas imagens, impondo a trama de pontos do offset como elemento estético. Essa reflexão é articulada na “mesa redonda”, em que vários intervenientes (entre os quais o fotógrafo Jorge Molder e o cineasta Rui Simões) analisam a relação das imagens (fotográficas, cinematográficas, televisivas) da Revolução com o seu tempo. É precisamente Molder que dá um exemplo desse “arrefecimento” analítico que o recuo de dez anos permitia:

“De todas as imagens, aquela de que me recordo melhor é a de um poster com uma criança a pôr um cravo na espingarda de um militar. E era uma imagem de estúdio. Na altura isso fez-me confusão. Num momento em que tudo se passava na rua, enquanto as imagens tentavam captar a espontaneidade das pessoas e uma certa euforia, a imagem que para mim prevaleceu era cheia de tiques e, acho que isso é importante, era uma imagem de estúdio”. (25 Abril Imagens, Cinemateca Portuguesa, 1984, p. 10)

 

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Mil dias. Teria sido essa a distância precisa entre as ilusões revolucionárias e a definitiva desilusão, amparada pela “normalização democrática”? Numa cena perto do final de Ecce Bombo de Nanni Moretti (1978), Michelle (o jovem interpretado pelo próprio Moretti) vasculha os seus recortes de imprensa dos últimos anos, os restos dessas ilusões revolucionárias. Um desses recortes é precisamente sobre a revolução portuguesa. “Já não me dizem nada”, conclui. Quantos Michelles portugueses, por essa mesma altura, não terão dito o mesmo e lançado esses recortes, essas revistas, esses cartazes, esses livros para os cantos escuros dos alfarrabistas ou os caixotes das feiras de velharias onde ainda hoje repousam?

 

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