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Com a foto do censor sobre a secretária*

Autora esquecida de dois livros proibidos pela Censura do Estado Novo, Maria Archer foi, na sua última década em Portugal antes do exílio brasileiro, uma inesperada, corajosa e pública atacante de dois pilares de sustentação do regime: a máquina censória e a perseguição política aos seus adversários.

Ainda que no extremo esquerdo do alinhamento, na foto ela parece ser o centro das atenções: é em Maria Archer que, apesar do olhar de suspeição, a vista de Salazar parece repousar, nessa sessão de prémios do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) a 4 de Fevereiro de 1939, em que a autora recebeu o Prémio Nacional de Literatura Infantil por Viagem à roda da África, eco de muitos anos passados nas províncias ultramarinas. Mas a foto parece também revelar que aquele ritual de propaganda do regime (Carmona e Ferro por ali também) a aborrece: há um hiato entre a autora de 40 anos e a massa de pessoas à sua esquerda, e o contraste é acentuado por ser a única inteiramente de branco vestida. Quase vinte anos depois, no Brasil, ela conservava ainda a foto em que aparecia “entre todos estes personagens da tragicomédia que é a ditadura salazarista”. 1

Portugal Democrático, Ano I, nº 10, Abril de 1957

Na verdade, a premiada que ali se apresentava estava na mira de dois jornais ferrenhamente parciais ao regime, A Voz e o Novidades, pela publicação, no final de 1938, de um livro que ambos consideravam “pornográfico” e que ambos sugeriam dever ser apreendido pela “polícia”, uma recolha de contos intitulada Ida e volta duma caixa de cigarros. Os serviços de Censura mostram interesse, pedem um exemplar e a edição acaba por ser apreendida de facto. É na mesma altura em que aceita o prémio do SPN que Archer pede ao Ministro do Interior que interceda contra a decisão censória, aludindo a invejas por parte do Novidades, pois uma empregada deste estaria na lista para o prémio, e afirmando que ambos os jornais teriam facilidade em influenciar as decisões da Censura pois “pelo menos um oficial desse serviço já fez parte da redacção da Voz ou foi revisor das Novidades”. 2 Era, assim, ainda que sigilosamente, levantada a cortina de uma parcela do palco do regime, revelando cumplicidades e ligações não assumidas entre agentes e agências. O olhar frio de Salazar na foto trairia já o conhecimento dessas “torpes e ignóbeis insinuações” 3, como lhes chamaria, em 1947, um funcionário da Censura? É directamente ao Presidente do Conselho que, em 1944, Archer pede o levantamento da proibição do livro 4, mas o silêncio de Salazar não só confirma que a mesma se manterá, como é sinal de mau agoiro. Em 1947, novo livro proibido: Casa sem pão, um romance que o censor Rodrigues Carvalho, num extenso relatório de 10 páginas (a que não falta marginália impiedosa), designa de “texto imoral” e “baixa literatura”. 5

Divorciada, com os laços familiares em fiapos graças a Aristocratas, romance de 1944, que a sua família considerara incómodo e intrusivo, e já sem o seu protector Tomás Ribeiro Colaço, exilado no Brasil desde 1940, o círculo de convivência de Maria Archer, muito próximo de monárquicos ou integralistas lusitanos, não a tornava mais simpática à situação, antes pelo contrário. E é pelo contrário que enfileira: filiada no Movimento de Unidade Democrática (MUD) desde 1945, a senhora elegante das soirées de sociedade, a conviva de Branca de Gonta Colaço e Carlota de Serpa Pinto era agora uma opositora que esperava uma mudança do regime com o fim da II Guerra Mundial.

Mas o regime não mudou, e o seu reforço após as eleições presidenciais de 1949 encaminhou Archer para o cruzamento com o percurso de um resistente tão inesperado como ela. Quando o deputado por Angola à Assembleia Nacional, capitão Henrique Galvão, é preso em 1952 e julgado como líder de um grupo de “conspiradores” no Tribunal Militar Territorial de Lisboa, Archer pede ao República as credenciais para cobrir o julgamento, com vista à publicação de um texto sobre o mesmo. A autora do Roteiro do mundo português percebeu que o julgamento desse outro autor de “literatura colonial” – e “antigo colonialista de categoria” 6 – excedia essa coincidência e se apresentava como algo inaudito nos quase 30 anos do regime: uma frincha pela qual revelar, fria e objectivamente, o funcionamento político e repressivo do mesmo. Pouco de comum poderia ligar Galvão, revolucionário de 1926, militar quixotesco e narcísico, a Archer, mulher emancipada, mas o texto que ela prepara a partir do processo que condena aquele vai-se acumulando, minucioso, claro, escrito em absoluta liberdade. Até que a 20 de Junho de 1953 a PIDE a visita em casa e lhe apreende apontamentos e dactiloscritos. Ainda que se tivesse prevenido, enviando pouco antes para Ribeiro Colaço no Brasil, através de gente de confiança, cópia da maior parte do que produzira, aquilo era a gota de água. Archer arma então um contra-ataque tão inédito quanto o livro que preparava. Em entrevista a 20 de Outubro, no República, conta essa história, sob o troante título “Um caso inédito de perseguição do pensamento” 7, tornando assim pública a apreensão de um livro antes de ser publicado, e a 4 de Novembro, sob o título vago de “A censura e o livro”, escreve um artigo focado apenas na censura à edição de livros em Portugal, durante o Estado Novo.8

República, 20.10.1953
República, 04.11.1953

Quase vinte anos antes de José Cardoso Pires ter fixado a “técnica” do funcionamento da censura de Salazar, Archer fê-lo de um modo mais reduzido e sucinto mas não menos poderoso, assumindo-se como autora já censurada, que partilhava com os seus colegas a pressão de trabalhar sob essa espada de Dâmocles, chegando a revelar, com triste ironia, ter escrito o romance que se sucedeu ao seu último livro proibido com uma foto de Armando Larcher, director dos serviços de censura, sobre a secretária, e o que essa pressão causou na sua obra.

Testemunho também de que escrevi o romance O mal não está em nós tendo diante dos olhos, sobre a secretária, o retrato do senhor coronel Armando Larcher, director dos Serviços de Censura. Foi esse o primeiro romance que criei após me ter sido apreendido o anterior, Casa sem pão, do melhor que a minha humilde pena produziu, enquanto que O mal não está em nós se limita a ser uma história cerzida com lógica e sequência, isto é, princípio, meio e fim. Um livrecosito.9

Mas Cardoso Pires fá-lo-ia longe (em Londres), em segurança e em inglês (no primeiro número da Index on Censorship 10 ), já depois da morte de Salazar; Archer expôs-se em plena boca do lobo, e com este ainda pleno de força (a coberto de umas “férias da censura” em épocas de “farsas eleitorais”, como ela admite 11). Era um gesto incrível, de contida raiva, que o lápis vermelho do agente da PIDE que sublinhou o seu nome no recorte parecia ecoar.

Exilando-se no Brasil em 1955, foi lá que, em 1959, ela rematou este frontal ataque ao regime de Salazar. Pela mesma Editora Liberdade e Cultura de São Paulo (que pouco depois publicaria Quando os lobos julgam, a justiça uiva, sobre o processo a Aquilo Ribeiro por Quando os lobos uivam), Archer lançava o 1º volume de Os últimos dias do fascismo português, o relato do processo a Henrique Galvão, tendo na capa a reprodução da contrafé da PIDE (o previsto 2º volume nunca foi publicado12). Era agora a jornalista livre, a exilada cultural (com gente como Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Castro Soromenho, Fernando Lemos ou Mário Henrique Leiria), a anti-salazarista que, em 1957, contestara a recepção em São Paulo ao presidente português Craveiro Lopes 13 e, no Portugal Democrático, onde colaborava desde o início, respondera – com a foto de 1939 na 1ª página – a mais uma provocação da Voz de Dutra Faria, alertando para possíveis falsificações do seu nome em documentos suspeitos 14 (o que poderá explicar uma estranha carta, no que resta do seu arquivo da PIDE, em que, recém-chegada ao Brasil, se propõe vender o livro ao governo português 15).

Semana Portuguesa, 30.07-05.08.1966

Mas a distância, a idade galopante, uma vida difícil nas e pelas letras e a ditadura no Brasil a partir de 1964 vão-na isolando e tornando num nome cada vez mais esquecido. Quando, em 1973,  as “três Marias” se sentam no tribunal em Lisboa pela publicação das Novas cartas portuguesas, Maria Archer, passados os 70, só procura um pouco de ajuda e pensa em regressar a Portugal. Consegui-lo-á apenas no final da década, em débil condição financeira e de saúde, para morrer pouco depois. O seu optimismo quanto aos “últimos dias” do regime de Salazar falhara em quase duas décadas, mas a energia e a coragem daquele duplo ataque na imprensa em 1953 e o rigor e a força testemunhal do seu livro sobre como se fazia um processo político em Portugal, peças únicas na história da resistência intelectual ao Estado Novo, ainda surpreendem e fazem vibrar o papel velho em que foram impressas.

*Versão revista de um texto publicado no Público.

–––––
Notas:
1. ARCHER, Maria. “Eu e a Voz“, in Portugal Democrático, Ano I, nº 10, Abril de 1957, p. 6.
2. “Apreensão do livro “Casa sem pão”: Secretariado Nacional de Informação, Censura cx. 423, PT-TT-SNI-DSC-19-80_m0004.
3. Idem, ibidem.
4. “Processo de Maria Archer pedindo para que não seja proibida a venda de uma obra de sua autoria”: Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros, Gabinete do Presidente, cx. 109, proc. 840/63, n.º 19.
5. “Apreensão do livro “Casa sem pão”: Secretariado Nacional de Informação, Censura cx. 423, PT-TT-SNI-DSC-19-80_m0017. Sobre a censura a estes dois livros da autora, deve consultar-se também PEDROSA, Ana Bárbara Martins Pedrosa. Escritoras portuguesas e Estado Novo: as obras que a ditadura tentou apagar da vida pública. Tese de doutoramento. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2017, p. 80-120.
6. ARCHER, Maria. Os últimos dias do fascismo português. São Paulo: Editora Liberdade e Cultura, 1959, p. 39.
7. ANTT Arquivo da PIDE/DGS (Serviços Centrais): PT/TT AC PIDE/DGS Del P P I 15443 UI 3694, fl. 8.
8. ANTT Arquivo da PIDE/DGS (Serviços Centrais): PT/TT AC PIDE/DGS SC SR 131/48 UI 2619, fl. 313. Já no Brasil, Archer publicará no Portugal Democrático, em 6 de Outubro de 1956, “A censura à imprensa e ao livro”, um texto do mesmo género, ligeiramente adaptado à situação brasileira e à “repulsa dos brasileiros sobre os actos dos ditadores sul-americanos em relação à censura” (cf. BATISTA, Elizabeth. Entre a literatura e a imprensa: percursos de Maria Archer no Brasil. Tese apresentada à Univ. de São Paulo, 2007, p. 119)
9. Idem, ibidem. O artigo é citado em MEDEIROS, Nuno. Edição e Editores: o Mundo do Livro em Portugal 1940-1970. Lisboa: ICS, 2010, p. 81 (ainda que directamente da edição do jornal e não do arquivo da PIDE na Torre do Tombo).
10. “Changing a nation’s way of thinking”, Index on Censorship, nº 1, Março de 1972, pp. 93-106. O artigo seria depois traduzido e publicado com o título “Le régime de la censure” na revista francesa Esprit (n.º 9, Setembro 1972, pp. 237-253), e, em 1974, na revista holandesa De Gids, sob o título “Het regime van de censuur” (n. 5, pp. 307-318). A sua primeira edição em Portugal foi no volume E agora, José?, com o título “Técnica do golpe de censura” (Lisboa: Moraes, 1977, pp. 198-243).
11. ARCHER, Maria. Os últimos dias do fascismo português, p. 7.
12. Apesar de a 1ª edição do volume I, de três mil exemplares, se ter esgotado um ano depois do lançamento, a autora não terá dado consentimento a uma segunda edição (cf. BATISTA, Elizabeth. Op. cit., pp. 50, 81).
13. MANSUR DA SILVA, Douglas. A oposição ao Estado Novo no exílio brasileiro 1956-1974. Lisboa: ICS, 2006, p. 62.
14. ARCHER, Maria. “Eu e a Voz“, in Portugal Democrático, Ano I, nº 10, Abril de 1957, p. 1.
15. ANTT Arquivo da PIDE/DGS (Serviços Centrais): PT/TT AC PIDE/DGS SC SR 131/48 UI 2619, fls. 244-246. Nessa carta, emitida a 2 de Setembro de 1955 do Hotel Claridge de São Paulo e dirigida a José Manuel Costa, director do SNI, a signatária revela desilusão com Henrique Galvão e o desejo de não publicar o livro no Brasil se o governo português lho comprar.

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Ecos distantes da urgência febril de editar (lembrando ainda os 50 anos da morte de Alves Redol)

Livros-que-tomam-partido

Faltava um estudo em profundidade de um dos períodos mais férteis editorialmente e mais conturbados cultural, social e politicamente da história portuguesa


Arrisquemos o axioma: em Portugal adora-se (ou diz-se adorar) a literatura; os livros nem por isso. Matizemo-lo: se o escritor, ou melhor, o “autor” e o seu comércio com a musa são tema de incontáveis teses dentro e fora da academia e mesas de discussão em todos os inúmeros festivais pelo país, o editor é, em geral, a vil e apagada figura cujos indiscerníveis esforços lá conseguem produzir os livros daquele e levá-los aos escaparates, mas que para pouca coisa mais parece servir (a não ser como degrau numa escalada imparável até ao topo, caso o “autor” tenha, para além da musa, sido tocado também pela fortuna, mas essa é outra conversa).

Se, de um lado, temos todo um edifício cultural com décadas de exegese e historiografia da literatura nacional e de hábito de apoio e apreciação mais ou menos oficial dos escritores (bolsas, prémios, homenagens, a frequência do circuito das feiras e festivais, etc) e de recolha dos seus espólios, do outro estamos carentes até de uma história da edição portuguesa de referência e habituados à perda ou dispersão caótica dos espólios de editores ou empresas editoriais: apesar de brilhantes trabalhos parcelares sobre determinados períodos ou editoras (como os de Nuno Medeiros, João Luís Lisboa, Daniel Melo e outros contribuintes, muitos vindos da Sociologia da Cultura), a falta de uma estrutura como o francês IMEC (Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, que, com o apoio estatal, desde 1988 recolhe e arquiva espólios de gente ligada à edição contemporânea) e a acima aludida atitude mental de subestimar o trabalho editorial no cômputo das valências culturais têm minado o caminho oposto a este cenário. Exemplos não faltam, mesmo à espuma das coisas, traindo o que lhes subjaz: quando Vitor Silva Tavares morreu em 2015, a RTP titulou no seu site que fora um “escritor” a morrer; a INCM, a editora e gráfica estatal, não publica nem vende nas suas lojas qualquer livro ou colecção dedicada ao estudo e história da edição nacional; nas livrarias, qualquer livro que se atreva a cair dentro deste género acabará enfiado nos “estudos literários”. E etc. Culpa partilhada, sem dúvida, entre editores de expressivas carreiras que não nos deixaram testemunho autobiográfico das mesmas (o memorialismo ou a reflexão escrita sobre o seu próprio trabalho são características quase inteiramente ausentes da tradição editorial portuguesa no último século) e as empresas editoriais “históricas”, que não mostraram até hoje qualquer interesse em investir na investigação e publicação de monografias sobre as suas próprias histórias, “habituando” assim o mercado a este tipo de conteúdo: costumo apontar o exemplo da Dom Quixote, que nunca publicou um livro bem documentado e ilustrado sobre o trabalho notável da sua fundadora Snu Abecassis na primeira década da editora, mas lembro-me também da oportunidade perdida que foi a edição de Babel sobre Babel em 2010, celebrando a criação do grupo homónimo a partir da fusão de uma mão cheia de editoras que marcaram a história cultural do século XX, mas em que a parte dedicada a essa história era ínfima, acabando o livro por ser mais um vácuo exercício de narcisismo.

Revolta-de-Maio-1968

De 1968…


Dada esta míngua, é de suma importância o aparecimento no mercado nacional, pela Parsifal, do livro de Flamarion Maués Livros que tomam partido: edição e revolução em Portugal, 1968-1980 (adaptação de uma tese de doutoramento na Universidade de São Paulo), uma importância a vários níveis. Antes de mais por nos lembrar que faltava um estudo em profundidade de um dos períodos mais férteis editorialmente e mais conturbados cultural, social e politicamente da história portuguesa, o que vai da assunção de Marcello Caetano ao leme do Estado Novo em 1968 ao fim da “revolução em curso” com a chegada ao poder de uma aliança partidária de direita com maioria, em 1980, doze anos que cobrem o pleno funcionamento da censura salazarista/marcelista e das apreensões e proibições de livros, o boom da edição política no PREC e, por fim, a brutal colisão com uma realidade pós-revolucionária de aguda crise financeira, de desencanto com o engajamento político e a correspondente recessão da procura de livros “que tomavam partido”, em benefício do regresso a uma procura de entretenimento que a televisão explorará em crescendo, uma conjuntura que ditará o fim de dezenas de projectos editoriais. Para além da minuciosa e objectiva organização de um tal volume de dados, o valor deste livro está em não fugir da linha central do projecto, a focagem no engajamento político destas editoras (das já existentes em 1968 a dezenas de outras que foram sendo criadas até 1980), quer sob o governo marcelista, quer já depois da Revolução, mediante graus de “politização” do seu catálogo e da sua posição face à “situação” anterior e posterior a 1974, abrangendo um espectro vastíssimo de editoras da extrema-esquerda à extrema-direita. Acrescendo de modo substantivo a esse valor está a exaustiva recolha de depoimentos entre sobreviventes destas batalhas, editores de projectos tão importantes como a Afrontamento, a Prelo, a Ulmeiro, a Centelha ou a tomarense Nova Realidade, que é, sem dúvida, a mais valiosa pepita deste tomo, não só “humanizando” a frieza e o rigor estatísticos a que um projecto destes deve obediência, mas dando testemunho de batalhas pela palavra impressa em momentos de aberta repressão ou de caótica atomização política, em que o engenho e a inteligência de alguns editores ficam bem revelados (note-se o modo astuto como a Afrontamento conseguiu publicar textos com a transcrição de julgamentos no Plenário, por exemplo). O trabalho a fundo do autor sobre a edição de resistência à ditadura brasileira torna a sua uma voz particularmente útil na necessária discussão sobre este esquecido período da edição nacional, a que este livro dá uma contribuição de peso.

Nova-Direita_1980

… a 1980


Há por aqui histórias fascinantes, que o peso estatístico não esconde e ajuda até a fazer ressaltar, como, por exemplo, a da Portucalense, pequena editora portuense próxima da situação que, por morte do fundador em 1971, cai nas mãos do herdeiro José Oliveira, que em apenas dois anos a transforma numa plataforma de edição de textos radicais de esquerda, todos proibidos, até desaparecer na clandestinidade. Exemplos como este, de urgência febril de intervenção política, relatados em primeira mão ou através de uma miríade de fontes, abundam neste livro, ecos de um tempo conturbado em que o livro era meio privilegiado para essa intervenção dada a sua maior facilidade em escapar ao “exame prévio” censório e o seu estatuto de objecto cultural por excelência para uma classe média-baixa em busca de instrumentos de “melhoramento” antes de 74 e, depois, de informação detalhada sobre o novo mundo (estatuto hoje, e de há muito, perdido).

Noticia-Morreu-Alves-Redol-1969

Spread de um dos números de Dezembro de 1969 da revista Notícia, com texto de Luiz Pacheco sobre a morte de Alves Redol


Na sessão de apresentação do livro, na Biblioteca das Galveias em Lisboa, António Mota Redol fez uma revelação que, curiosamente, me poderia obrigar a refazer a argumentação montada nos dois primeiros parágrafos: foi o dinheiro dos direitos de autor pelas vendas dos livros do seu pai, Alves Redol, que pagou os custos desta edição, através da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. Ou seja: acabou, finalmente, por ser um autor morto há 50 anos a vir em socorro de um livro em que os autores têm parte muito secundária face aos editores. Pedir um maior aparato visual ou a inclusão de cor em “extra-textos”, se justificável, seria exigir um risco financeiro para além do já notável esforço em resgatar esta volumosa obra (quase 700 páginas) dos corredores da Academia, um risco que mais seria exigível a uma distraidíssima INCM. Melhor será pensar que uma tão violenta e refrescante lufada desses ventos dos anos 70 nos abre apetite pelo resgate de alguns livros esquecidos sobre essa década de perigos e encantos, à cabeça dos quais estaria, por exemplo, Títulos, acções e obrigações: a cultura em Portugal de Eduarda Dionísio. Que os editores hodiernos se mirem no exemplo destes de há 50 anos e arrisquem. E que frutifique o exemplo de Alves Redol e dos seus herdeiros em apoiar a divulgação e preservação da memória da edição nacional, perante a escandalosa inacção de instituições que deveriam fazê-lo.

(Versão mais curta publicada no jornal Público aqui)

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Apresentação da segunda edição de “Olhar de Editor” de Serafim Ferreira

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Dia 19 de Janeiro (Sábado), pelas 16:00 horas, será apresentada na Biblioteca Pública Municipal do Porto a segunda edição de OLHAR DE EDITOR de Serafim Ferreira (que pode ser comprado aqui), com a presença de José Viale Moutinho, no contexto da exposição “Editor de Vanguardas: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite” que se encontra aberta na mesma Biblioteca até 31 de Janeiro.

Biblioteca Pública Municipal do Porto
Rua D. João IV, 17 (ao Jardim de S. Lázaro)
Tel. 225193480  |  bpmp@cm-porto.pt

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Sérgio Guimarães: foi curta a festa

Dez anos depois do 25 de Abril, num texto publicado no catálogo de um ciclo da Cinemateca ao tema dedicado, Jorge Molder referia-se ao paradoxo de a imagem mais popular e difundida nos dias da revolução, a imagem que acabou por identificar internacionalmente essa mesma revolução, ter sido uma imagem feita em estúdio, com os “tiques” habituais de estúdio, e não uma imagem feita na rua, “num momento em que tudo se passava na rua”. Em 1984, Sérgio Guimarães, o autor desse poster de que se fizeram inúmeras adaptações a outros formatos (tais como os dois postais que encimam este texto), estava longe das rodas onde se discutia e se fixava a sua aportação iconográfica à revolução que cumpria então a primeira década: editor falido, fotógrafo esquecido de quem fazia as listas de “referência”, tendo perdido até o estúdio que fora de ponta na fotografia publicitária na década anterior, sobrevivia fazendo trabalho como freelancer. Morreria em 1986, aos 53 anos, sem que muita gente conseguisse associar o seu nome ao poster do “menino com o cravo na G3”, e menos gente ainda que o ligasse a um projecto editorial de poucos meios para tão ilimitada (ou insensata) ambição mas de algum inegável arrojo.

Se há figura que pode personificar a volatilidade desses anos de processo revolucionário, a rapidez com que se consumiram carreiras entre a chegada das chaimites ao Carmo e a despedida dos últimos resquícios da utopia no fim da década (sendo a subida da AD ao poder em 1980 o claro sinal dessa despedida), é a de Sérgio Guimarães. Sobre o seu trabalho polifacetado não existe qualquer estudo, não foi publicada qualquer monografia, e, para uma vida riquíssima de aventuras e convívios e vivida no fio da navalha como a sua, perdeu-se sobretudo, e de vez, a possibilidade da escrita de uma biografia. Há apenas pontas soltas, deixadas por quem o conheceu, aqui e ali. Há muito caído de um cânone de referência (editorial, artística, etc) onde, se calhar, nunca esteve verdadeiramente, é um daqueles nomes que aparentam ser culturalmente “irrecuperáveis” e que, por isso mesmo, creio que deveriam ter sido já objecto de uma tentativa de recuperação (se bem que, neste caso, aos dotes de um investigador inspirado seria necessário juntar o talento de um milagroso ressuscitador de reputações).

Mais do que a fotografia publicitária, que ele praticava já antes de 1974 (de que aqui mostrei uma prova) e que alimentou esse poster icónico, o nome de Sérgio Guimarães, para alguém da minha geração (crianças muito novas por altura da Revolução), era o que aparecia ao fundo das capas de algumas bizarras edições de banda desenhada desencantadas em feiras do livro ou fundos de livrarias, edições de gente de topo nos anos 60 e 70 (Crepax, Pichard) que, por incrível que nos parecesse, tinha sido publicada por cá por um tipo de quem, nas décadas de 80 e 90, nada se sabia. Às suas edições políticas (sob a marca Mil Dias), também ubíquas por essas feiras de velharias, cheguei mais tarde (e sobre elas escrevi já aqui), mas as Edições Sérgio Guimarães, fruto da súbita liberdade de tudo publicar que a Revolução trouxe e que se extinguiram por 1977, e diga-se o que se disser acerca da húbris que o seu programa editorial revelava nas badanas (uma vontade expressa de publicar cá todo o catálogo da melhor BD adulta que Losfeld publicara em França), conseguiram ainda uma curiosa publicação “articulada”: a da História de O de Pauline Réage (publicando também o livro-entrevista desta com Régine Deforges, O Disse-me, ambos traduzidos por Orlando Neves) com a da adaptação a BD que Guido Crepax fez do romance, ambas em 1976, uma articulação que passou pela comunhão do design tipográfico da capa entre a edição literária e a da BD, e em que naquela a sobrecapa revelava o estilo inconfundível do fotógrafo do poster revolucionário.

HistoriadeO2

HistoriadeO4

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Dobrada a nova década, tudo isso se esfumara. O homem que, em 1982, escreve a missiva inédita (que transcrevo em baixo na sua quase totalidade, e com a ausência de maiúsculas do original que se encontra na Torre do Tombo) ao então Ministro da Cultura do governo AD, Lucas Pires, está, para além da sua carreira errática, a descrever a de muita gente do meio (publicidade, fotografia publicitária, edição, etc) apanhada pelo tsunami económico da década posterior à Revolução. Relato febril e condensado de uma vida profissional em iminente colapso, tem a cadência também da história de um náufrago, uma de muitas histórias “trágico-marítimas” no revolto oceano de falências e carreiras arruinadas desses anos. Para Sérgio Guimarães, a festa fora curta e acabara já bem antes desta carta.

sérgio guimarães
porto 1933
liceu d. manuel II
escola de belas artes
teatro experimental do porto
participação como actor em “morte de um caixeiro viajante”
subida a paris para
trabalhar em arquitetura
e maquettes de arquitetura
incidentalmente criador de toda a técnica hoje utilizada em maquettes
regresso a portugal

para trabalhar 5 anos com vasco morgado
como secretário da empresa
tradutor de peças

e outros trabalhos criativos

neste interim li tudo que havia para ler
da cultura francesa

desde o sartre, proust, ponson du terrail, zola, etc
e mais de 5000 peças de teatro
a seguir cultura em língua inglesa
passando pelo faulkner, green, maugham, joyce
e policiais e espionagem evidentemente
de novo subida a paris
para trabalhar em fotografia e artes gráficas

regresso a portugal em 1965
para ser fotógrafo

25 de abril criação do poster 25 de abril
conhecido em todo o mundo e portugal
entrevistado por diversos jornais e revistas estrangeiras
mas em portugal nunca veio (o poster) num jornal português

acaba o trabalho de publicidade
e tornei-me editor

com duas linhas de editoras
uma de sexo

que editou “os prazeres do sexo” (entre outros)
distribuídos pela quadrante
que faliu

e me deve 6000 contos que não paga
outra editora política
(que editou os grafitti)
e que a cdl matou à nascença
e que causou mais de 10.000 contos de prejuízo

retorno à publicidade
com estúdio na fontes pereira de melo
onde facturava em 1978: 400 contos/mês

alargamento da actividade em novo estúdio
e facturava-se 700 contos/mês

venda deste novo estúdio
para pagar a credores das editoras
ao mesmo tempo que descubro
que sou criativo
e aí
começa a faltar o trabalho
na medida em que a n/qualidade aumenta
(um estúdio como o nosso custava há 2 anos de aluguer diário,
em paris, sem fotógrafo, 200 contos, de acordo com revista zoom)

entretanto embora reconhecido como de longe
o único fotógrafo português com qualidade internacional
estou ignorado pois sou na realidade um outsider
que não pertence às panelinhas da informação lisboeta
visto que sou do porto

e embora colega de carteira no liceu d. manuel II
do falecido chico sá carneiro

nunca lhe pedi nada
pois as n/opções políticas eram diferentes
peço a este governo
semi formalmente

pois continuo a acreditar
que no se pode desprezar a cultura
sobretudo a visual
e dado que a banca não encara seriamente esta actividade
ja aceitei sinal pelo trespasse das instalações
que valendo mínimo 6000 contos
me ofereceram 1600!!!

o equipamento que vale mais de 20.000 contos
será entregue à banca
pois faz parte dum penhor mercantil
que tornou possível as editoras

e que embora eu já tenha pago à banca
mais de 10.000 contos dos prejuízos das editoras

não me emprestam mais um tostão

este estúdio tem uma capacidade de facturação mensal
de mais de 1.200 contos

e existe esse mercado
mas este estúdio foi criado em 1969
com a miserável quantia de 7.000$00 (verdade)
mas agora não pode subsistir sem fundo de maneio
e tem estado a funcionar com auxilio de amigos
que me emprestaram a esta data cerca de 3000 contos

temos fotografias em arquivo
que permitem varias exposições de fotografia diferentes
com uma qualidade nunca vista em portugal

desde natureza mortas, paisagens, nus, abstrações, trabalho, etc
(cerca de 4000 fotos do alentejo)

lamento não poder fazer este memo mais curto
mas trata-se de 15 anos de trabalho sem férias e fins de semana
para poder pagar os equipamentos e a banca

insisto em que as grandes empresas e sobretudo as estatizadas
nunca me compram nada

pois só estão interessadas em pagar pouco
desprezando a qualidade da imagem

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Novidade Montag

Conferir e comprar no site Montag (já em algumas livrarias independentes seleccionadas de Lisboa, na banca de Frenesi/Paulo da Costa Domingos na feira do Anchieta ao Chiado e em breve na FNAC).

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Capas do cesto dos proibidos (V)

1966 foi um ano terrível para muita gente ligada à edição em Portugal, mas para João Rodrigues foi particularmente penoso e cruel. Habitué do Café Gelo e pontual colaborador da imprensa cultural ou “alternativa” (Almanaque, Diário Ilustrado, Jornal de Letras e Artes) e com algumas ilustrações já no currículo (como que as que fizera para a edição da Morais dos Disparates do Mundo de Chesterton, em 1958), tudo faria esperar que as duas encomendas que recebeu no início do ano seriam o trampolim para uma carreira que, como se escrevia na introdução à entrevista que dera ao Jornal de Letras e Artes em Setembro de 1965, não encontrara ainda “as solicitações que permitiriam a sua afirmação cabal”.

Fosse ou não a ideia de uma encomenda como “criptonite” para o artista, avesso ao constrangimento de prazos e obrigações (Bruno da Ponte assim mo assegurou em conversa há uns meses, afirmando que só a custo de muita conversa e de algumas garrafas de whisky conseguiu convencer João Rodrigues a acabar um desenho para publicar no jornal), o certo é que, dessas duas encomendas, apenas a da capa do primeiro livro de Luiz Pacheco numa editora “comercial” (a edição da Ulisseia de Crítica de Circunstância, na colecção “Vária” criada por Vitor Silva Tavares) esteve isenta de pesada reprovação. Os seus desenhos para a edição da Afrodite de A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade (para os quais, diga-se, Rodrigues fora uma escolha de última hora, depois da recusa de Cruzeiro Seixas), lançada para o mercado cerca de um mês antes do livro da Ulisseia, foram recebidos com um coro sussurrado de escárnio (Luiz Pacheco – que assinara o prefácio “pró-Sade” na edição da Afrodite – em carta a Cesariny de 9 de Abril de 1966, chegou a referir-se ao “nojo dos desenhos”, e em 1968, num folheto polemista contra o grupo que fizera a edição da Filosofia, o poeta ainda se referia ao “ilustrador a milhas de distância”), que só não se fez ouvir de modo mais conspícuo porque o ilustrador se viu imediatamente envolvido como réu no processo movido pelo Estado à editora e aos colaboradores da edição “sadiana”. Se é, de facto, difícil defender a opção por um traço gélido e rígido nos desenhos para a Filosofia, longe da sua habitual fluidez e elegância de cartoonista (e que revelavam até uma insipiência anatómica que os depreciava numa comparação com todos os ilustradores de Sade até então, incluindo o anónimo da primeira edição clandestina do texto em 1795), esta capa para o livro de Pacheco, mais próxima estilisticamente do seu portefólio, revela, ao menos, alguma da ironia seca, quase melancólica, dos seus desenhos anteriores, ainda que esteja longe de ser um prodígio de composição ou de conjugação entre desenho e tipografia.

O facto de Crítica de Circunstância ter sido também imediatamente proibido pelos Serviços de Censura apenas veio aumentar o lume à fervura em que, subitamente, João Rodrigues se viu metido. De um momento para o outro, a sua carreira estava num impasse e a sua liberdade ameaçada. Em consequência da pressão que sentiu a partir do momento em que o processo contra a edição da Afrodite arranca, no Verão desse ano, do acumular de períodos depressivos que se tinham manifestado já antes, ou da combinação daquela com estes, o artista não chega a ouvir a sentença condenatória em 9 de Novembro de 1967: a 10 de Maio, com apenas 30 anos, atira-se do terceiro andar da sua casa na Avenida Almirante Reis, um suicídio que o Diário de Lisboa é obrigado a noticiar com a fórmula habitual da “queda da janela à rua”.

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Capas do cesto dos proibidos (I)

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Capa do pintor Benjamim Marques para a edição da Ruedo Ibérico em 1969 da peça musical Canto do Papão Lusitano (Der Gesang von Lusitanischen Popanz, estreada em 1967) de Peter Weiss, com tradução de Mário Gamboa.

A Ruedo Ibérico era uma editora fundada em Paris por exilados espanhóis e cujos livros circulavam clandestinamente na Espanha de Franco até 1975. É um raríssimo exemplo de uma edição em português proibida pela censura portuguesa e que não foi publicada em Portugal (ou territórios ultramarinos) ou no Brasil. Depois do que acontecera com Luís Sttau Monteiro no final de 1966, preso para interrogatórios durante seis meses pela autoria de “A Guerra Santa”, uma das duas Peças em Um Acto publicadas pela Minotauro nesse ano (editora que seria encerrada pelo atrevimento), publicar em Portugal este libelo directamente acusatório do colonialismo português teria sido um suicídio, mesmo já em pleno “marcelismo”: Carlos Porto escreveu em 10 An­os de Teatro e Cinema em Portugal, que se tratou da peça “mais detestada e mais proibida” na última década do regime.

A poderosa capa de Benjamim Marques é outro dos elementos que enriquece esta edição plena de “cruzamentos” significantes: ex-frequentador do Café Gelo e dos surrealistas de Lisboa (é dele um desenho que representava o grupo em 1965) e a viver em Paris desde meados da década, ele empresta à violenta sátira de Weiss o espírito de rebeldia anárquica que se tinha respirado naquele canto do Rossio.

Eis um exemplo (ainda que raro) de como se podia combater o Estado Novo e a sua Censura de fora de Portugal e com livros (a Ruedo imprimiu 3 mil exemplares desta edição, que se vendia livremente em Paris).

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