Category Archives: Livros

Sérgio Guimarães: foi curta a festa

Dez anos depois do 25 de Abril, num texto publicado no catálogo de um ciclo da Cinemateca ao tema dedicado, Jorge Molder referia-se ao paradoxo de a imagem mais popular e difundida nos dias da revolução, a imagem que acabou por identificar internacionalmente essa mesma revolução, ter sido uma imagem feita em estúdio, com os “tiques” habituais de estúdio, e não uma imagem feita na rua, “num momento em que tudo se passava na rua”. Em 1984, Sérgio Guimarães, o autor desse poster de que se fizeram inúmeras adaptações a outros formatos (tais como os dois postais que encimam este texto), estava longe das rodas onde se discutia e se fixava a sua aportação iconográfica à revolução que cumpria então a primeira década: editor falido, fotógrafo esquecido de quem fazia as listas de “referência”, tendo perdido até o estúdio que fora de ponta na fotografia publicitária na década anterior, sobrevivia fazendo trabalho como freelancer. Morreria em 1986, aos 53 anos, sem que muita gente conseguisse associar o seu nome ao poster do “menino com o cravo na G3”, e menos gente ainda que o ligasse a um projecto editorial de poucos meios para tão ilimitada (ou insensata) ambição mas de algum inegável arrojo.

Se há figura que pode personificar a volatilidade desses anos de processo revolucionário, a rapidez com que se consumiram carreiras entre a chegada das chaimites ao Carmo e a despedida dos últimos resquícios da utopia no fim da década (sendo a subida da AD ao poder em 1980 o claro sinal dessa despedida), é a de Sérgio Guimarães. Sobre o seu trabalho polifacetado não existe qualquer estudo, não foi publicada qualquer monografia, e, para uma vida riquíssima de aventuras e convívios e vivida no fio da navalha como a sua, perdeu-se sobretudo, e de vez, a possibilidade da escrita de uma biografia. Há apenas pontas soltas, deixadas por quem o conheceu, aqui e ali. Há muito caído de um cânone de referência (editorial, artística, etc) onde, se calhar, nunca esteve verdadeiramente, é um daqueles nomes que aparentam ser culturalmente “irrecuperáveis” e que, por isso mesmo, creio que deveriam ter sido já objecto de uma tentativa de recuperação (se bem que, neste caso, aos dotes de um investigador inspirado seria necessário juntar o talento de um milagroso ressuscitador de reputações).

Mais do que a fotografia publicitária, que ele praticava já antes de 1974 (de que aqui mostrei uma prova) e que alimentou esse poster icónico, o nome de Sérgio Guimarães, para alguém da minha geração (crianças muito novas por altura da Revolução), era o que aparecia ao fundo das capas de algumas bizarras edições de banda desenhada desencantadas em feiras do livro ou fundos de livrarias, edições de gente de topo nos anos 60 e 70 (Crepax, Pichard) que, por incrível que nos parecesse, tinha sido publicada por cá por um tipo de quem, nas décadas de 80 e 90, nada se sabia. Às suas edições políticas (sob a marca Mil Dias), também ubíquas por essas feiras de velharias, cheguei mais tarde (e sobre elas escrevi já aqui), mas as Edições Sérgio Guimarães, fruto da súbita liberdade de tudo publicar que a Revolução trouxe e que se extinguiram por 1977, e diga-se o que se disser acerca da húbris que o seu programa editorial revelava nas badanas (uma vontade expressa de publicar cá todo o catálogo da melhor BD adulta que Losfeld publicara em França), conseguiram ainda uma curiosa publicação “articulada”: a da História de O de Pauline Réage (publicando também o livro-entrevista desta com Régine Deforges, O Disse-me, ambos traduzidos por Orlando Neves) com a da adaptação a BD que Guido Crepax fez do romance, ambas em 1976, uma articulação que passou pela comunhão do design tipográfico da capa entre a edição literária e a da BD, e em que naquela a sobrecapa revelava o estilo inconfundível do fotógrafo do poster revolucionário.

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Dobrada a nova década, tudo isso se esfumara. O homem que, em 1982, escreve a missiva inédita (que transcrevo em baixo na sua quase totalidade, e com a ausência de maiúsculas do original que se encontra na Torre do Tombo) ao então Ministro da Cultura do governo AD, Lucas Pires, está, para além da sua carreira errática, a descrever a de muita gente do meio (publicidade, fotografia publicitária, edição, etc) apanhada pelo tsunami económico da década posterior à Revolução. Relato febril e condensado de uma vida profissional em iminente colapso, tem a cadência também da história de um náufrago, uma de muitas histórias “trágico-marítimas” no revolto oceano de falências e carreiras arruinadas desses anos. Para Sérgio Guimarães, a festa fora curta e acabara já bem antes desta carta.

sérgio guimarães
porto 1933
liceu d. manuel II
escola de belas artes
teatro experimental do porto
participação como actor em “morte de um caixeiro viajante”
subida a paris para
trabalhar em arquitetura
e maquettes de arquitetura
incidentalmente criador de toda a técnica hoje utilizada em maquettes
regresso a portugal

para trabalhar 5 anos com vasco morgado
como secretário da empresa
tradutor de peças

e outros trabalhos criativos

neste interim li tudo que havia para ler
da cultura francesa

desde o sartre, proust, ponson du terrail, zola, etc
e mais de 5000 peças de teatro
a seguir cultura em língua inglesa
passando pelo faulkner, green, maugham, joyce
e policiais e espionagem evidentemente
de novo subida a paris
para trabalhar em fotografia e artes gráficas

regresso a portugal em 1965
para ser fotógrafo

25 de abril criação do poster 25 de abril
conhecido em todo o mundo e portugal
entrevistado por diversos jornais e revistas estrangeiras
mas em portugal nunca veio (o poster) num jornal português

acaba o trabalho de publicidade
e tornei-me editor

com duas linhas de editoras
uma de sexo

que editou “os prazeres do sexo” (entre outros)
distribuídos pela quadrante
que faliu

e me deve 6000 contos que não paga
outra editora política
(que editou os grafitti)
e que a cdl matou à nascença
e que causou mais de 10.000 contos de prejuízo

retorno à publicidade
com estúdio na fontes pereira de melo
onde facturava em 1978: 400 contos/mês

alargamento da actividade em novo estúdio
e facturava-se 700 contos/mês

venda deste novo estúdio
para pagar a credores das editoras
ao mesmo tempo que descubro
que sou criativo
e aí
começa a faltar o trabalho
na medida em que a n/qualidade aumenta
(um estúdio como o nosso custava há 2 anos de aluguer diário,
em paris, sem fotógrafo, 200 contos, de acordo com revista zoom)

entretanto embora reconhecido como de longe
o único fotógrafo português com qualidade internacional
estou ignorado pois sou na realidade um outsider
que não pertence às panelinhas da informação lisboeta
visto que sou do porto

e embora colega de carteira no liceu d. manuel II
do falecido chico sá carneiro

nunca lhe pedi nada
pois as n/opções políticas eram diferentes
peço a este governo
semi formalmente

pois continuo a acreditar
que no se pode desprezar a cultura
sobretudo a visual
e dado que a banca não encara seriamente esta actividade
ja aceitei sinal pelo trespasse das instalações
que valendo mínimo 6000 contos
me ofereceram 1600!!!

o equipamento que vale mais de 20.000 contos
será entregue à banca
pois faz parte dum penhor mercantil
que tornou possível as editoras

e que embora eu já tenha pago à banca
mais de 10.000 contos dos prejuízos das editoras

não me emprestam mais um tostão

este estúdio tem uma capacidade de facturação mensal
de mais de 1.200 contos

e existe esse mercado
mas este estúdio foi criado em 1969
com a miserável quantia de 7.000$00 (verdade)
mas agora não pode subsistir sem fundo de maneio
e tem estado a funcionar com auxilio de amigos
que me emprestaram a esta data cerca de 3000 contos

temos fotografias em arquivo
que permitem varias exposições de fotografia diferentes
com uma qualidade nunca vista em portugal

desde natureza mortas, paisagens, nus, abstrações, trabalho, etc
(cerca de 4000 fotos do alentejo)

lamento não poder fazer este memo mais curto
mas trata-se de 15 anos de trabalho sem férias e fins de semana
para poder pagar os equipamentos e a banca

insisto em que as grandes empresas e sobretudo as estatizadas
nunca me compram nada

pois só estão interessadas em pagar pouco
desprezando a qualidade da imagem

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Novidade Montag

Conferir e comprar no site Montag (já em algumas livrarias independentes seleccionadas de Lisboa, na banca de Frenesi/Paulo da Costa Domingos na feira do Anchieta ao Chiado e em breve na FNAC).

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Capas do cesto dos proibidos (V)

1966 foi um ano terrível para muita gente ligada à edição em Portugal, mas para João Rodrigues foi particularmente penoso e cruel. Habitué do Café Gelo e pontual colaborador da imprensa cultural ou “alternativa” (Almanaque, Diário Ilustrado, Jornal de Letras e Artes) e com algumas ilustrações já no currículo (como que as que fizera para a edição da Morais dos Disparates do Mundo de Chesterton, em 1958), tudo faria esperar que as duas encomendas que recebeu no início do ano seriam o trampolim para uma carreira que, como se escrevia na introdução à entrevista que dera ao Jornal de Letras e Artes em Setembro de 1965, não encontrara ainda “as solicitações que permitiriam a sua afirmação cabal”.

Fosse ou não a ideia de uma encomenda como “criptonite” para o artista, avesso ao constrangimento de prazos e obrigações (Bruno da Ponte assim mo assegurou em conversa há uns meses, afirmando que só a custo de muita conversa e de algumas garrafas de whisky conseguiu convencer João Rodrigues a acabar um desenho para publicar no jornal), o certo é que, dessas duas encomendas, apenas a da capa do primeiro livro de Luiz Pacheco numa editora “comercial” (a edição da Ulisseia de Crítica de Circunstância, na colecção “Vária” criada por Vitor Silva Tavares) esteve isenta de pesada reprovação. Os seus desenhos para a edição da Afrodite de A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade (para os quais, diga-se, Rodrigues fora uma escolha de última hora, depois da recusa de Cruzeiro Seixas), lançada para o mercado cerca de um mês antes do livro da Ulisseia, foram recebidos com um coro sussurrado de escárnio (Luiz Pacheco – que assinara o prefácio “pró-Sade” na edição da Afrodite – em carta a Cesariny de 9 de Abril de 1966, chegou a referir-se ao “nojo dos desenhos”, e em 1968, num folheto polemista contra o grupo que fizera a edição da Filosofia, o poeta ainda se referia ao “ilustrador a milhas de distância”), que só não se fez ouvir de modo mais conspícuo porque o ilustrador se viu imediatamente envolvido como réu no processo movido pelo Estado à editora e aos colaboradores da edição “sadiana”. Se é, de facto, difícil defender a opção por um traço gélido e rígido nos desenhos para a Filosofia, longe da sua habitual fluidez e elegância de cartoonista (e que revelavam até uma insipiência anatómica que os depreciava numa comparação com todos os ilustradores de Sade até então, incluindo o anónimo da primeira edição clandestina do texto em 1795), esta capa para o livro de Pacheco, mais próxima estilisticamente do seu portefólio, revela, ao menos, alguma da ironia seca, quase melancólica, dos seus desenhos anteriores, ainda que esteja longe de ser um prodígio de composição ou de conjugação entre desenho e tipografia.

O facto de Crítica de Circunstância ter sido também imediatamente proibido pelos Serviços de Censura apenas veio aumentar o lume à fervura em que, subitamente, João Rodrigues se viu metido. De um momento para o outro, a sua carreira estava num impasse e a sua liberdade ameaçada. Em consequência da pressão que sentiu a partir do momento em que o processo contra a edição da Afrodite arranca, no Verão desse ano, do acumular de períodos depressivos que se tinham manifestado já antes, ou da combinação daquela com estes, o artista não chega a ouvir a sentença condenatória em 9 de Novembro de 1967: a 10 de Maio, com apenas 30 anos, atira-se do terceiro andar da sua casa na Avenida Almirante Reis, um suicídio que o Diário de Lisboa é obrigado a noticiar com a fórmula habitual da “queda da janela à rua”.

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Capas do cesto dos proibidos (I)

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Capa do pintor Benjamim Marques para a edição da Ruedo Ibérico em 1969 da peça musical Canto do Papão Lusitano (Der Gesang von Lusitanischen Popanz, estreada em 1967) de Peter Weiss, com tradução de Mário Gamboa.

A Ruedo Ibérico era uma editora fundada em Paris por exilados espanhóis e cujos livros circulavam clandestinamente na Espanha de Franco até 1975. É um raríssimo exemplo de uma edição em português proibida pela censura portuguesa e que não foi publicada em Portugal (ou territórios ultramarinos) ou no Brasil. Depois do que acontecera com Luís Sttau Monteiro no final de 1966, preso para interrogatórios durante seis meses pela autoria de “A Guerra Santa”, uma das duas Peças em Um Acto publicadas pela Minotauro nesse ano (editora que seria encerrada pelo atrevimento), publicar em Portugal este libelo directamente acusatório do colonialismo português teria sido um suicídio, mesmo já em pleno “marcelismo”: Carlos Porto escreveu em 10 An­os de Teatro e Cinema em Portugal, que se tratou da peça “mais detestada e mais proibida” na última década do regime.

A poderosa capa de Benjamim Marques é outro dos elementos que enriquece esta edição plena de “cruzamentos” significantes: ex-frequentador do Café Gelo e dos surrealistas de Lisboa (é dele um desenho que representava o grupo em 1965) e a viver em Paris desde meados da década, ele empresta à violenta sátira de Weiss o espírito de rebeldia anárquica que se tinha respirado naquele canto do Rossio.

Eis um exemplo (ainda que raro) de como se podia combater o Estado Novo e a sua Censura de fora de Portugal e com livros (a Ruedo imprimiu 3 mil exemplares desta edição, que se vendia livremente em Paris).

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“Primavera?”

Exemplar do livro dedicado a João Abel Manta na colecção “Designers Portugueses” do jornal Público sobre exemplar do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1974, no qual Manta publicou o seu primeiro poster em tempo de “revolução em curso”. Imagem notável, pelo duplo significado (meteorológico e político) da interrogação do título e também pela curiosa cautela que este revela, cautela que se expressa na surpreendente escolha da flor: não o (por então, três dias depois da deposição do Estado Novo) já icónico cravo mas uma rosa vermelha.

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João Abel Manta: bibliografia

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O texto em cima, de Fernando Assis Pacheco, foi publicado no Diário de Lisboa a 23 de Dezembro de 1975 a propósito do lançamento dos Cartoons. Assis Pacheco fora um dos jornalistas e colaboradores do DL cujos textos (mais os de gente como Luís de Sttau Monteiro ou Vitor Silva Tavares) tinham convivido com os desenhos de João Abel Manta nas páginas do vespertino desde 1969, um caldo de atrevimento e cosmopolitismo cultural e (sempre que possível) crítica política que dera para alimentar dois dos melhores suplementos da imprensa desses anos, o “Literário” e a “Mosca”. Mal sabia Pacheco que, depois desse livro, Manta apenas lançaria outro (ainda que esse “outro” tenha valido por uma carreira inteira) e que o número de livros sobre a sua obra gráfica empalideceria face à extensão, à complexidade e à importância histórica da mesma. (A data do artigo é importante também: um mês depois do 25 de Novembro, talvez Pacheco não adivinhasse que, para Manta, se esfumara muito do que o motivara e o fizera agarrar-se ao estirador a produzir cartazes, cartoons e colagens para a imprensa desde Abril de 1974).

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Ao preparar (por amável convite de José Bártolo) os textos do volume dedicado a JAM na colecção “Designers Portugueses” que começou a ser lançada com o Público, para além da limitação natural no comprimento dos mesmos fui posto perante a decisão editorial de não incluir uma bibliografia, decisão que (independentemente de a aceitar ou não por princípio) acatei e entendi como perfeitamente lógica no contexto da produção de pequenos livros de referência essencialmente visual vendidos junto com um jornal diário, isto é, como objectos de consulta que não podiam (pelas limitações acima indicadas) aspirar a ombrear com o aparato habitual em monografias exaustivas. Isto não me impediu de reflectir sobre a questão essencial da relação da obra de JAM com a bibliografia que, ao longo dos anos, foi sendo produzida sobre ela (e à qual os meus textos agora se acrescentam): o facto de ela, essa bibliografia, carecer de um livro verdadeiramente crucial, axial, sobretudo no que toca a ler o que o próprio Manta pensou e disse sobre o seu trabalho gráfico.

Escrevi já aqui sobre o momento em que concluí ter passado há muito a ocasião de termos em mãos esse livro, pelo que não interessa agora alongar-me sobre isso. Muito simplesmente: creio que se José Cardoso Pires, o autor da curta introdução aos Cartoons (ou José Carlos Vasconcelos, o director d’O Jornal e, como tal, o editor desse livro), tivesse decidido sentar-se à mesa com JAM para uma entrevista sobre esse trabalho gráfico até 1975, e a entrevista tivesse acompanhado a edição, teríamos aí, sem dúvida, “o” grande livro sobre essa obra até então. No pico da sua forma intelectual, no calor desse ano ainda de “revolução em curso”, posso apenas imaginar que conversa não teria sido essa entre ambos. Não que tenham faltado bons exegetas depois, em livro ou na imprensa (Osvaldo de Sousa ou João Paulo Cotrim, Mário Dionísio ou João Medina), mas, no centro de tudo, está esse “vazio”. Uma interessante entrevista dada ao BD Jornal em 2005 e a que deu a José Jorge Letria no livro que analisei não o preenchem e, pelas suas lacunas (na primeira, onde, por exemplo, afirma que nunca fez um auto-retrato, quando são conhecidos pelo menos duas “aproximações” nos cartoons – um dos quais para a primeira prancha do Burro-em-Pé de Cardoso Pires, publicado no Diário de Lisboa a 6 de Outubro de 1971 e que é reproduzido no texto de Pacheco – e uma outra num desenho de 1958, “Retrato de Família”) ou pela deliberada e expressa vontade do entrevistado em não falar de outra coisa que não fosse a pintura (no caso da entrevista dada a Letria), até o reforçam.

Sem esse depoimento do artista, longo, intensivo, cronologicamente orientado, o depoimento que ele poderia ter dado nesse período de “reflexão” logo após o PREC (talvez em Londres, poiso comum a Manta e ao seu amigo Cardoso Pires, e onde, de resto, aquele preparou o grosso das Caricaturas Portuguesas), a exegese da obra gráfica de João Abel Manta ficará sempre dependente desta “cosedura” de várias peças de tecido, um “patchwork” de diversas leituras ao longo do tempo e de variada frequência (estando o pico desta frequência já distante, concentrado naqueles dois anos seguintes ao aparecimento do seu magnum opus de 1978). Veremos se a extraordinária qualidade técnica e estética dessa obra gráfica (transversal a toda ela, dos simples cartoons para os jornais aos cartazes ou às ilustrações de livros) resiste aos incompreensíveis hiatos na sua apresentação pública (a última exposição integral ocorreu em 1992, no mesmo Museu Bordalo de Lisboa que alberga esse espólio e que dele voltou a mostrar apenas um fragmento em 2008) e, sobretudo, ao avanço do tempo, que, se essa exegese não se encorpar e se os hiatos na sua exposição se mantiverem, poderá tornar os seus momentos mais críticos e decisivos (os cartoons e as ilustrações durante o marcelismo e os cartazes para as “campanhas de dinamização cultural” no PREC) de problemática compreensão (exemplo real: ainda há dias vi um desses cartazes de Manta para o MFA tomado por um cartoon satírico…). Termino um dos meus três textos do livro agora publicado afirmando que, apesar de o seu autor já não o querer fazer, a obra produzida por essa “máquina de imagens” (expressão que roubei a um artigo de José Luís Porfírio, de resto notável por cobrir em detalhe a exposição de 1992) continua o seu diálogo connosco. Esperemos que quem a tem à sua guarda o entenda.

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Imprensa:
– ABELAIRA, Augusto. “As capas do JL” (Jornal de Letras, 28.04.1981, p. 11)
– BOTELHO, Clara. “Entrevista a João Abel Manta: ‘Agora pinto. Desvairadamente'” (BD Jornal, n.º 5, Setembro 2005, pp. 11-14)
– DIONÍSIO, Mário. “Um outro Goya e algo mais” (O Jornal, 29.12.1978, p. 29)
– FRANÇA, José-Augusto. “João Abel Manta: obra gráfica” (Colóquio-Artes, n.º 93, Junho 1992, p. 67)
– MANTA, João Abel. “Uma carta de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 07.01.1971, p. 5)
– MEDINA, João. “João Abel Manta ou o cinzento salazarista pintado a cores” (O Jornal, 19.01.1979)
– PACHECO, Fernando Assis. “Elogio natalício de João Abel Manta” (Diário de Lisboa, 23.12.1975, p. 2)
— idem. “Viva Manta!” (O Jornal Ilustrado, 28.02.1992, pp. 31-33)
– PORFÍRIO, José Luís. “João Abel Manta – a máquina de imagens” (Expresso, “Revista”, 29.02.1992. pp. 43-44)
– RAMOS, Artur. “A Relíquia: encenação e cenografia” (Gráfica 70, n.º 1, 1970, p. 32)
– SOUSA, Rocha de. “Virtudes e defeitos da mão” (Diário de Lisboa, “Suplemento Literário”, 11.06.1970, p. 3)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta: Cartoons que abalaram o fascismo” (O Jornal, 19.12.1975)
Almanaque, Dezembro de 1960/Janeiro de 1961 e Maio de 1961
– “João Abel Manta – debate na Comuna” (Jornal de Letras, 14.04.1981, p. 27)
– “Retratos do Salazarismo” (Jornal de Letras, 18.11.1998, p. 28)
Entrevista na SIC Notícias (28.10.2013)

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Livros:
– ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (Lisboa: Minotauro, 1961)
– BARBOSA, Cassiano. ODAM – Organização dos Arquitectos Modernos, 1947-52 (Porto: Asa, 1972)
– BARROS, Leitão de. Corvos (Lisboa: Editorial Notícias, 1960, 2 vol.)
– BOCACCIO, Giovanni. Decameron (Lisboa: Minotauro, 1964)
– COTRIM, João Paulo. João Abel Manta: Caprichos e Desastres (Lisboa: Assírio & Alvim, 2008)
– MANTA, João Abel. João Abel Manta – Cartoons (Lisboa: Edições O Jornal, 1975)
— idem. Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (Lisboa: Edições O Jornal, 1978)
— idem (com LETRIA, José Jorge). Não se Distorce a Cara de um Homem (Lisboa: Guerra e Paz, 2014)
– MATOS, A. Campos. Dicionário de Eça de Queiroz (Lisboa: Caminho, 1988, p. 580)
– QUEIRÓS, Eça de. O 1º de Maio (Lisboa: Edições O Jornal, 1979)
– PIRES, José Cardoso Pires. Cartilha do Marialva (Lisboa: Moraes, 1970, 4.ª ed.)
— idem. Dinossauro Excelentíssimo (Lisboa: Arcádia, 1972)
— idem. E Agora, José? (Lisboa: Moraes, 1977, pp. 129-135)
— idem (com PORTELA FILHO, Artur). Cardoso Pires por Cardoso Pires (Lisboa: Dom Quixote, 1991)
– PORTELA FILHO, Artur. O Novo Conde de Abranhos (Edição do autor, 1971)
– RIBEIRO, Aquilino. A Casa Grande de Romarigães : crónica romanceada (Lisboa: Bertrand, 1957)
— idem. Tombo no Inferno / O Manto de Nossa Senhora (Lisboa: Bertrand, 1963)
— idem. Quando os Lobos Uivam (Lisboa: Avante, 2008)
– SOUSA, Osvaldo de. João Abel Manta – Gráfica (Lisboa: Regisconta, 1988)
– VASCONCELOS, José Carlos de. “João Abel Manta” (in COSTA E SILVA, Manuel. Os Meus Amigos, Lisboa: Dom Quixote, 1983)
– WAUGH, Evelyn. O Ente Querido (Lisboa: Ulisseia, 1955)
Arte de Furtar (Lisboa: Estúdios Cor, 1969)
Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar (Lisboa: Edições António Ramos, 1980)
João Abel Manta: Obra Gráfica (Lisboa: CML / Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992)
Livros Proibidos no Estado Novo (Lisboa: Assembleia da República, 2005, pp. 52-53)
Um Sabor de Desenho: Homenagem a João Abel Manta (Amadora: CM Amadora, 2008; texto de Júlia COUTINHO, “João Abel Manta: o artista resistente”)
Um Tempo e um Lugar: Dos Anos Quarenta aos Anos Sessenta. Dez Exposições Gerais de Artes Plásticas (Vila Franca de Xira: CM V.F. Xira / Museu do Neo-Realismo, 2005)

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“Editor Contra” na RTP2

O livro EDITOR CONTRA no episódio 29 do programa “Literatura Aqui” exibido a 5 de Abril de 2016 na RTP2 (a partir do minuto 13:45). O livro pode ser comprado aqui.

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