Quinze anos de belos livros

O título deste post é precisamente o subtítulo deste livrinho (195 x 110 mm), uma edição de 1967 duplamente evocativa: por um lado, uma homenagem a uma casa editorial e ao seu mentor a que a ocupação Nazi colocou um fim; por outro, uma apresentação da nova face “nacionalizada” dessa empresa. Está tudo no título: “A Odeon antes da SNKLU”.

Este era, pois, um ensaio de história da edição sobre o labor de Jan Fromek e da sua Odeon entre 1925 e 1940, editora de Praga que se tornou na porta de entrada do Modernismo literário na Checoslováquia, bem como a cliente regular da nata da vanguarda gráfica checa desses anos (em especial de Jindrich Styrsky e Karel Teige, que compôs inúmeras capas para Fromek), mas era também um registo bibliográfico e um catálogo de algumas das melhores capas que a SKNLU (sigla oficial da nova encarnação da editora para “Státní nakladatelství krásné literatury a umění”, ou seja, a edição estatizada de obras de literatura, música e arte) vinha publicando desde a sua implantação em 1966, ano preciso da morte de Fromek.

Estes eram os anos de progressiva abertura cultural na Checoslováquia, uma altura em que a literatura, as artes gráficas e o cinema tornavam o país num caso de moda no Ocidente, pelo que o sorriso sereno que se pode ver numa foto do envelhecido fundador da Odeon será certamente sincero, e não mera operação de cosmética propagandística. (Uma foto sua de 1937 mostra-o muito mais tenso e melancólico).

O design da sobrecapa de Zbynek Sekal está compreensivelmente mais próximo do gosto ecléctico (com o uso de tipos de madeira do século XIX, incluindo grotescos decorativos que se repetem na capa) e da tipografia expressionista dos anos ’60 na Checoslováquia do que do Modernismo de cariz construtivista das capas de Teige para a Odeon (ou das de Sutnar para a Druzstevni Prace). A colocação do bloco tipográfico da capa, em escala reduzida, na lombada é um pequeno mas assinalável tour-de-force. No portfolio de capas contemporâneas podemos encontrar o nome de Oldrich Hlavsa, que tinha em 1950 concebido o design do catálogo da editora Svoboda, ainda com algumas influências desse modernismo dos anos ’20 e ’30 (ver aqui). Como prova da boa aposta nesta renovação da imagem da velha Odeon, o livro apresenta uma reprodução do certificado atribuído à SNKLU pelo juri do concurso (e posterior antologia publicada) Typomundus 20, sob a tutela de Paul Rand.

Em Praga, contudo, o tempo que condizia com capas de ar tão “tropical” e refrescante como esta estava, mais uma vez, prestes a acabar. Mas, desta feita, Jan Fromek saiu de cena antes de mais uma invasão humilhante.

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