1968 (III)


A 8 de Outubro de 1967, Che Guevara e os seus companheiros eram capturados na Bolívia e executados numa questão de horas. A humilhação a que as forças especiais bolivianas quiseram sujeitar a imagem do Che sem vida foi um dos maiores fracassos de propaganda da história do século, tendo resultado numa onda de reprodução icónica sem precedentes, e que até hoje continua, fazendo do rosto do guerrilheiro argentino o mais reproduzido dos séculos XX e XXI: as fotografias do Che “crístico”, jazendo semi-nu perante os soldados e os visitantes da cabana onde se expôs o cadáver, juntaram-se ao célebre retrato de Alberto Korda, e o resto é sabido. E se, no final do Verão de 1967, a facção mais radical da contra-cultura californiana tinha feito o “Enterro do Hippie”, pondo um fim simbólico ao que ficou conhecido como o “Verão do Amor”, foi esse acontecimento na remota selva boliviana que pôs um fim definitivo à placidez estetizante da contra-cultura ocidental, lançando-a, na década seguinte, numa vaga de acções cada vez mais extremadas e que teria em Paris, em Maio do ano seguinte, o seu arranque.
Roman Cieslewicz (1939-1996), que chegara a ser director artístico da Vogue pouco depois de chegar a França, foi o autor desta capa da Opus International, revista de arte contemporânea da qual era também o responsável pela direcção de arte. E é com esta capa que quase sentimos que 1968 chegou, precisamente nesse mês de Outubro (o Che estava ainda vivo quando a capa foi concebida, e não é de supor que Cieslewicz trabalhasse nela sabendo mais do que chegava pela imprensa). A imagem do Che (baseada na foto de Korda e uma das melhores feitas no período, depois adaptada para poster) corresponde ao conteúdo desse número da Opus (um grande dossier sobre o estado da arte em Cuba), e dessa forma não poderá ser imediatamente considerada outra coisa senão uma mera “ilustração” editorial, mas a sua força e simplicidade cromática (óbvia referência aos cartazes cubanos em serigrafia, que por esta altura eram já conhecidos de uma elite cultural que mantinha contactos com a ilha) elevam-na acima do mero acessório ilustrativo. Já a capa do n.º 2 da Opus, com o “olho-verdade” de Godard se tornara uma das mais marcantes imagens de então, tal como a do posterior n.º 4, a dos dois Super-Homens gémeos, USA e CCCP irmanados e simétricos (Prova A). A politização era agora inegável, e parecia ser o programa obrigatório de um designer progressista daqueles anos.

Prova A

Cieslewicz, que fizera autêntica magia com as colagens na Vogue e varrera o bafiento e amaneirado mundo da imprensa de moda francesa com valentes doses de surrealismo e poesia visual, não seria, como designer de imprensa – isto é, como responsável pela grelha e suas várias soluções de conjugação de texto e imagem – tão brilhante como, por exemplo, Willy Fleckhaus o era nesses anos na Twen em Munique. O poder de impacto do trabalho de Cieslewicz (bastamente documentado no catálogo da exposição que o Centro Georges Pompidou lhe consagrou em 1993, cuja responsável foi Margo Rouard) estava na imagem liberta de constrangimentos de layout: na capa, e, sobretudo, no cartaz, a maior arma de comunicação visual na altura.
E assim, com esta enigmática imagem que substituiu os olhos de um visionário pela urgência das palavras e dos slogans de combate, Roman Cieslewicz abriu as hostilidades e partiu, em Outubro, a caminho de 1968.

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