Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (IX)

O MISANTROPO
de Molière
Tradução de Luis Miguel Cintra
Grafismo de Soares Rocha
Editorial Estampa/Seara Nova, Lisboa, 1973

A quem havíamos nós de nos dirigir, nos finais de 1972, para lançar uma colecção de textos de teatro (sobretudo clássicos)? Nós, o Luís Miguel Cintra, o Osório Mateus e eu?  Era com a Estampa que todos nós (a Helena Domingos, o Manuel Gusmão, a Luiza Neto Jorge… ) íamos trabalhando, em traduções, revisões, trabalhos de universitários que ainda não tinham saído de casa dos pais e arranjavam uns biscates literários, era a Estampa a nossa casa. Havia algumas editoras que, nesses anos 70, tinham colecções (um pouco irregulares, a Prelo (que dirigia, creio, Viriato Camilo), a Plátano (que dirigia Carlos Porto). E tinha havido algumas colecções espúrias de teatro, a da Contraponto de Luís Pacheco, a do Teatro de Arte de Lisboa… Mas, nas vésperas de fundarmos o Teatro da Cornucópia, eram os grandes exemplos do Piccolo Teatro di Milano (que, em parceria com a grande Einaudi de Turim, lançou nos anos 50 uma colecção que ainda perdura com mais de 1000 títulos), o TNP de Vilar que se lançou, com a L´Arche, no seu “Repertório Para o Teatro Contemporâneo” (colecção exemplar que durou menos – mas ainda está nas estantes de todos os que se interessam pelo teatro, com as grandes traduções de Adamov, de Marthe Robert, de Robert Marrast… ). Fomos falar com a Ana Maria Alves, a Estampa tinha várias colecções, o risco económico era grande, aquilo demorou um tempo. Acenámos com os nomes de tradutores: tínhamos o Ruy Bello para um Lorca, o Manuel Gusmão para um Calderón, a Luiza para um Racine, o Osório para um Feydeau, eu faria o Goldoni, o Osório falou no José de Oliveira Barata (que vivia em Veneza) para o Ruzante, recuperámos a bela tradução dos Dias Felizes de Beckett que fez o Salazar Sampaio, queríamos recuperar as traduções de O’Neill feitas pelo Jorge de Sena (vistas agora, não são tão boas como isso) e a Sophia tinha-nos prometido o Hamlet.  Mas era difícil. Até que, passados uns meses, Ana Maria Alves lembrou-se  de negociar com outra editora, a Seara Nova. E esta colecção foi (com que orgulho nosso!) uma co-produção. Na capa, dois nomes de editora, a (nova) Estampa e a (velha) Seara Nova. Tudo próximo do PCP (menos nós). Claro que, com um orçamento muito pequeno, o problema eram os direitos. E por isso, a colecção baseou-se nos textos clássicos (que eram a nossa preocupação, foi com Molière e Marivaux a que se seguiria Lope que começámos o Teatro da Cornucópia). Negociações foram difíceis ainda com os herdeiros de Pirandello (para o Esta Noite Improvisa-se), fáceis para o Alberti, impossíveis para o O’Neill. E, durante dois anos, os livros foram saindo. De dois em dois meses, dois. A ideia gráfica era simples: uma capa nítida que mudava de cor, duas cores bem distintas em cada lançamento, só letras, Soares Rocha (que nunca encontrei) fez um trabalho que ainda hoje vibra nas estantes: os livros vêem-se logo. E um prefácio bem claro, e a página bem espaçada que permitisse as notas dos actores em ensaios. E um preço médio: 30 escudos, quando começámos. Os primeiros volumes saíram no princípio de 1973, esses textos, O Misantropo de Molière e os Seis Entremeses de José Daniel Rodrigues da Costa marcaram o teatro desses anos finais da ditadura. E, durante dois anos, foi fantástico, escrever os prefácios, rever as traduções, rever provas, insistir com prazos. E é uma colecção, a meu ver, exemplar. Depois, veio o 25 de Abril, reuniões, política, manifestações. Ficámos com menos tempo, os atrasos foram sendo cada vez maiores, os espectadores estariam interessados num outro repertório (para a compra dos direitos não tínhamos dinheiro). Ainda conseguimos que a Portugália editasse o Terror e Miséria do III Reich que a Fiama traduziu, ainda tentámos lançar uma outra colecção na Ulmeiro com textos contemporâneos, saíram dois: de Jean Jourdheuil e David Hare. Só muito depois, em 2002, conseguimos lançar, nos Artistas Unidos os Livrinhos de Teatro (a que a Cotovia se viria juntar a partir de certa altura). Mas isso já é de outro século. Só que não concebo teatro sem a publicação dos textos. E vejo, com alegria, que o Dona Maria II anda a fazer o mesmo com os seus textos e espectáculos. Ainda bem. Nós estivemos no princípio – e ainda cá estamos.

Jorge Silva Melo

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