Viagens de João Barreiros (IV)

A CIDADE NO TEMPO
Clifford Simak
Europa-América, 1955
Capa de António Areal

Há sessenta e cinco milhões de anos, durante o Cretáceo tardio, e antes que o meteoro incendiasse a Terra e desse lugar aos grandes gelos, o mundo corria de uma forma bem diferente da nossa, se quiséssemos parafrasear L. P. Hartley. Surgiam, a toque de caixa, antologias de FC na Editora Palirex, borbulhavam tentativas de novas colecções como aquela que poderia ter sido organizada pelo Mário Henrique Leiria, chamada “Escalas do Futuro” e da qual só vieram a ser publicados dois volumes.

O primeiro destes fósseis vale a pena ser guardado para sempre no Museu das Tentativas Falhadas. Trata-se do romance City, do Clifford Simak, que surgiu entre nós com o nome A cidade no tempo, com uma tradução sublime de M. Pina e A. Margarido e que só muitos anos mais tarde voltaria a ser reeditado na colecção Argonauta, aí com uma tradução bem mais manhosa (As cidades mortas). Corria o ano de 1955 de um outro século, as patorras dos dinossáurios pesavam sobre a espinha dos pequenos mamíferos, mas mesmo assim, trémulos e escondidos nas pequenas tocas, ainda ousavam mastigar os ovos dos gigantes. A importância da Cidade no tempo, dotado de uma capa nostálgica e discreta de António Areal, é que, logo nas páginas da introdução, encontramos um texto original do Mario Henrique Leiria. A fazer de cão leitor. Acreditem. Um mimo de originalidade e sensibilidade.

Porque é que a colecção, editada pela Europa-América, desapareceu ao fim de dois volumes? Mistério sinistro e profundo. E a triste verdade é que já não está cá ninguém para o contar.

NOVE AMANHÃS / JUSTIÇA FACIAL
Isaac Asimov / L.P.Hartley
Minotauro, 1961
Capas de Fernando Azevedo

Outra colecção efémera, também ela com apenas dois volumes, (desconheço se  Nascidos no Espaço do E. C. Tubb, e Missão de gravidade de Hal Clement, chegaram a vir à superfície), chamava-se “Órbita” e foi publicada por uma tal Editora Minotauro de seu nome. A direcção pertencia a Fernando de Castro Ferro. A capa da Justiça facial do L. P. Hartley e dos Nove amanhãs do Asimov (melhor seria dizer “Nove ontens”) foi desenhada por Fernando Azevedo. Até dói pensar nas oportunidades perdidas. Já pensaram o prazer dos leitores a deliciarem-se com a Missão de gravidade do Hal Clement, nesse ano perdido de 1961? Infelizmente eis mais um nicho ecológico que passou à história, como o pássaro Dodo, roído por uma qualquer micose, ou devorado pelas presas dos bem-pensantes.

O QUE É A FICÇÃO CIENTÍFICA?
Org. Victor Palla
Atlântida (Coimbra), 1959
Capa de Victor Palla

Porque mesmo nessa época revoluta, os “bem pensantes” odiavam FC. A tecnofobia criava já o seu empório. A FC é anti-humanista, dizia-se. Assim Victor Palla, o editor da antologia O que é a Ficção Científica?, detestava já tudo o que saísse da pena de um Murray Leinster ou de um Van Vogt. Não sou eu que o afirmo, mas sim o próprio Victor Palla à guisa de conclusão, neste livrinho publicado em 1959, numa colecção chamada “Centauro”. Mesmo assim, aqui apareceram continhos do Kuttner, do Sheckley, do William Tenn. A propósito, leiam TUDO o que o Tenn escreveu e depois digam-me o que a ecosfera editorial portuguesa perdeu durante as grandes glaciações.

SALTO NO TEMPO / INDÓMITO PLANETA
Yves Dermeze / Roy Sheldon
Livros do Brasil, 1955
Capas de Lima de Freitas e Cândido Costa Pinto

E já agora a colecção “Argonauta”, com traduções do Mário Henrique Leiria, do Fernando de Castro Ferro e capas do Cândido Costa Pinto e, finalmente (durante anos e anos), do Lima de Freitas. E, caso estranho e nunca visto pelos nossos olhos contemporâneos, estes desenhadores LIAM mesmo os livrinhos antes de desenharem as capas. Capas coloridas, sem fotomontagens, perfeitamente adequadas às expectativas do leitor.

Depois o meteoro caiu. Os dinossáurios extinguiram-se. Livrarias e Editoras entraram em auto-gestão revolucionária. Os responsáveis pelas antigas colecções foram silenciados.

O fulgor revolucionário de um novo ecossistema foi ainda mais prejudicial ao género, desta vez considerado como um produto ianque pequeno-burguês.

As colecções mirraram nos conteúdos e dedicaram-se a entreter as classes cada vez mais incultas, com obras cada vez mais simplistas e baratuchas.

Os leitores fiéis que ainda sobreviviam foram morrendo aos poucos e as esposas desfizeram-se dos livros dos defuntos esposos, religiosamente guardados nas prateleiras das estantes, para fazerem delas expositores de biblôs. E as coisas ficaram neste pé. Até hoje.

Mas se o bom existe e ainda continua a existir para lá da tristonha fronteira portuguesa, porque é que não se publica boa FC (pergunto eu)? Ora, porque os leitores não querem saber dela. Não querem mesmo. E quando uma Editora publica algo de importante, é precisamente esse livro que menos se vende.

“Barreiros”, disse-me certa vez um Editor que eu não nomeio. “Sei perfeitamente que estamos a publicar merda! Mas a merda vende, aí é que está. É ela que nos permite publicar um bom livro de vez em quando, sabendo perfeitamente que ele não será lido tanto quanto os outros. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, seria como se estivéssemos a dar pérolas a porcos”.

É verdade que as deliciosas trufas crescem no meio do esterco. É verdade que vale a pena procurá-las. Mas o esterco é às toneladas e as pobrezinhas das trufas são tão poucas…

Tristes tristezas.

João Barreiros

2 Comments

Filed under Capas, Livros

2 responses to “Viagens de João Barreiros (IV)

  1. Eheh, parabéns por estes textinhos. Curtos, incisivos, informativos e opinados. São estas coisas, caro Barreiros, que me fazem perguntar porque raios não tens tu um blogue…

    Abraços,

    Seixas

  2. Marco Lopes

    Tenho de subscrever tudo o que o João Seixas disse, foi com muito gostos que li o que o João Barreiros escrever, pura sapiência. E se decidir seguir o conselho do Seixas garanto-lhe que já tem um leitor atento, para além de já o ser nos seus livros.

    Um abraço

    Marco Lopes

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